quinta-feira, 23 de abril de 2026

Carlos Piovezani: Medos, ansiedades e outros afetos

“Dar o máximo é o mínimo”. “O impossível é só o começo…”

Eis aí dois slogans publicitários de uma predadora instituição financeira. Seu cinismo supera a hipérbole, a antítese e o paroxismo das pregnantes fórmulas de sua publicidade. Seus descarados oxímoros pretendem passar por atraente e estimulante paradoxo. Em outra de suas campanhas, a empresa se anunciava como “patrocinadora oficial do Brasil” nas Olímpiadas de Paris, em 2024, enquanto afirmava que um de seus mais vantajosos serviços era a “dolarização do patrimônio” de seus clientes.

No cínico discurso neoliberal, não há problema algum em dizer uma coisa e fazer outra, assim como não há nenhum inconveniente em dizer uma coisa e seu contrário logo em seguida. Alguns de seus mais danosos êxitos consistem em criar servos que comunguem dos desejos de seus senhores e em fazê-los defender os interesses de quem os explora, como se fossem os seus próprios. Em suma, esses servos são criados não só para serem explorados e oprimidos por poderosos, mas também para atenuar ou escamotear seu sofrimento com paixões positivas, tais como o entusiasmo, a confiança, a emulação, a superação e o orgulho.

Nem só de paixões tristes vivem os empobrecidos e os mais ou menos remediados. Sem dúvida, entre eles e entre outros de melhores condições sociais e econômicas, grassam medos, ódios e ressentimentos em relação a classes, grupos e sujeitos subalternizados, que conquistaram alguns importantes e ainda insuficientes direitos sociais e civis, que conseguiram algumas importantes e ainda insuficientes participações na política e na vida pública.

Mas os afetos de uma imunitas se conjugam com os de uma comunitas. Não há formação e consolidação de comunidades somente com base no ódio e em outros afetos do malquerer imunitário. O amor e outros sentimentos do bem-querer comunitário também desempenham papeis fundamentais em sua criação e em seu fortalecimento. Em nossos tempos de hegemonia neoliberal, um dos modos de promover esse terrível bem-querer é preencher práticas e ideias dessa forma de vida, que gera e gere sofrimentos, com uma carga semântica de “modernidade”, “progresso”, “liberdade”, “iniciativa” e “autonomia”.

Assim, se formou e se incrementou uma confusão entre neoliberalismo e estilo de vida up to date. Defender medidas políticas de redução das abissais desigualdades e aderir a grupos e ações coletivas como sindicatos, cooperativas e afins soa como algo ultrapassado, cheira a bolor ou naftalina e contrasta com a vontade, o ímpeto e o orgulho de empreender e de vencer por si mesmo.

De certo modo, o inconformismo, a indignação e a revolta mudaram de lado. Frente a miséria de milhões, se diz: “Cada um que se vire!”. Diante das fortunas de alguns poucos, se afirma: “Quanto talento!”. Culpas e méritos se distribuem individualmente. “É assim que deve ser”… Explorados, expropriados, oprimidos e alienados se alinham a seus algozes e concebem a forjada hegemonia da esquerda e seus programas e valores progressistas, inclusivos e afirmativos como inimigos de sua suposta liberdade igualmente distribuída de sonhar e realizar seus sonhos.

A escravidão contemporânea alcançou o êxito de fazer o escravizado defender sua escravização como se ela fosse liberdade. Por essa razão, a exaustão e a redução da vida ao trabalho sem criação são chamadas de “autonomia”. Na superfície, não há paixão triste alguma nesta reportagem: “Motorista ganha R$ 300 mil com Uber adotando ‘rotina radical’ em SP”. Muito ao contrário. A seguinte passagem do texto é uma cínica e sedutora promessa diretamente dirigida a seu interlocutor.

Repleta de esperança aparente, ela dissimula o sofrimento, a exploração e renúncia da vida, ao considerá-los como “esforço” seguido de “merecida” compensação financeira: “Você já pensou em ganhar R$ 320 mil por ano trabalhando como motorista de aplicativo? O valor que parece irreal foi faturado pelo motorista Munir Orra, de 40 anos, de São Paulo. O motorista conta que em 2022, quando faturou R$ 321 mil ele ficava ‘disponível’ 18 horas por dia na plataforma, de segunda a segunda. E no ano seguinte, o faturamento bruto foi de quase R$ 293 mil.

A servidão não é voluntária. O “autônomo”, o “freela” ou o “colaborador” não se entregam deliberadamente a essa escravidão de nossos dias. Com seus próprios carros, motos ou bicicletas, com seus próprios computadores ou celulares, com seus próprios corpos e almas, muitos deles foram persuadidos de que trabalham para si mesmos e experimentam ilusórios, mas eficientes contentamentos.

Suas alegrias têm diferentes formas: estar ou se imaginar em melhores condições morais, sociais ou econômicas do que outros, compartilhar orgulhosamente valores e ideias dominantes de seus iguais ou superiores, gozar da “liberdade” e do “privilégio” de ser seu próprio chefe e dispor de seu tempo como bem entender, entre outras.

Quem foi jogado e mantido na espiral do silêncio ou pôde apenas rara e precariamente se manifestar e ter sua voz ouvida com alguma atenção e respeito, quem não teve sua condição humana reconhecida ou a teve só muito parcialmente, fica bastante propenso a se agarrar às boias de salvação que são os diversos modos de identificação com a ideologia de quem lhes parece superior e/ou de quem supostamente poderia lhes servir de porta-voz, lhes prestar alguma escuta e lhes reconhecer certa ou suplementar humanidade. Desfrutar dessas experiências reais ou imaginárias de partilhas, pertenças e premiações oferece maiores ou menos euforias de um “Sim!”: “Sim, eu quero, eu posso, eu tenho, eu sou…”.

Há uma precariedade nessas partilhas, pertenças e premiações da comunidade neoliberal. As satisfações relativas que elas proporcionam convivem com um mal-estar praticamente generalizado. Além dos inimigos externos, no próprio cerne da comunidade e mesmo no interior de cada uma e de cada um de nós, críticos de suas raízes, de seu funcionamento e de seus efeitos, mora um concorrente implacável. O neoliberalismo ultrapassou a condição de modelo econômico e se tornou uma “nova razão do mundo” ou uma forma de vida que se resume à “gestão do sofrimento psíquico”.

A concorrência e a produção são elementos fundamentais de sua lógica. Em condições sociais e econômicas diversas, produzimos mais do que o necessário e nos esgotamos, nos julgamos e nos condenamos, convencidos de não termos feito o suficiente: “Ainda tenho tanta coisa pra fazer”, “Devo me atualizar”, “Preciso me esforçar mais…”, “Fulano está se empenhando mais do que eu…” etc. etc. Com essa constante cobrança e com uma dívida eterna, as dores, as angústias e mesmo as humilhações devem ser encaradas como “desafios” a serem enfrentados com “resiliência” e encarados como “oportunidades de superação”.

Não sem razão, o caso de rebaixamento de uma garçonete dos EUA se tornou notícia e exemplo de sucesso. Segundo o relato da própria Savanah Pierce, uma das clientes de uma mesa que ela atendia lhe teria dito: “Você está fazendo um trabalho horrível!”. E desdobrado, logo em seguida, uma série de falhas em seu atendimento.

A sequência do episódio ainda se agravaria, porque a submissão de quem servia a quem estava sendo servida se impôs, mesmo diante de uma prestação de serviço que não parecia deixar tanto a desejar: “Honestamente, eu não achava que estava fazendo um trabalho tão ruim, mas aceitei e tentei agradá-la”. Mais do que isso. Quando Pierce levou a conta à mesa da cliente insatisfeita, lhe agradeceu pela “a oportunidade de aprender e crescer como garçonete” e acrescentou: “Foi um prazer atendê-los”.

Hegemonia neoliberal e desigualdades obrigaram a “colaboradora” a bem atender àquela freguesa, a lhe agradecer cordialmente pelo destrato e, enfim, a lhe ser subserviente, mesmo diante de uma injustificada hostilidade. A garçonete ainda sofreria dois gestos antipáticos: a cliente não lhe dirigiu o olhar nem tampouco a palavra e não lhe deixou gorjeta.

Casos como esse não são raros. No Brasil, onde o lema “O cliente tem sempre razão” é dogma e subterfúgio para a humilhação de pessoas subalternizadas e empregadas de forma precária, eles são absolutamente corriqueiros. Porque ela é estadunidense, branca, jovem e de olhos claros, exceto pela dominação masculina, é pouco provável que Savanah Pierce tenha passado por muitas situações semelhantes. Sua relativa notoriedade derivou de sua capacidade de fazer “limonada” do “limão”.

Trata-se da típica história de “superação” tão ao gosto do neoliberalismo. Sua dor se transformou em “oportunidade de crescimento” e em “capitalização” de um dos mais precisos bens de nossos dias: o acúmulo de capital de visibilidade. A garçonete publicou seu relato numa conhecida rede “social” e seu vídeo alcançou a marca de “2,3 milhões de visualizações”.

Dado o viés predominante das notícias sobre o episódio, de suas reproduções e comentários em redes sociais e do próprio vídeo de Pierce, mesmo as raras críticas reproduzem a abordagem moralizante e personalista do caso e de suas personagens. O comportamento ácido e soberbo da cliente e a postura considerada subserviente da garçonete são aí reduzidas às personalidades de ambas, à “falta de educação” da primeira e à ausência de “coragem” da segunda. Não há elogios à freguesa “mal-educada”, mas existe muito entusiasmo com o procedimento e com a performance de Pierce.

Independentemente de censuras ou de elogios, o que é narrado e as formas da narrativa apagam processos históricos, relações sociais e dimensão política, em benefício do foco exclusivo nas posturas e nos sentimentos individuais. No limite, o destempero da cliente não precisa ser reprovado, porque se tornou oportunidade oferecida, enquanto a humilhação da garçonete deve ser exaltada, porque se tornou ensejo e prova de sua “resiliência”.

Por que seria preciso tratar de história, sociedade e política, onde o rebaixamento é sucedido de superação e gratidão, onde quem é humilhado agradece e aplaude quem o humilhou? Tudo ali é muito edificante, basta atitude pessoal para mudar o mindset. Além disso, a única circunstância em que as referências às pessoas físicas são substituídas por uma menção a uma jurídica ocorre quando Pierce fala do restaurante. Trocam-se as pessoas, trocam-se os pronomes, mas a ladainha neoliberal não se modifica: muito mais do que um salário (Justo? Ou talvez somente pagamento eventual, em razão de sua condição de freelancer…), o estabelecimento lhe ofereceu uma inestimável oportunidade de crescimento profissional e pessoal.

Todo dolo e todas as dores da era neoliberal têm na linguagem uma força fundamental. Com o objetivo de eliminar desde os pequenos sonhos até as grandes utopias, os poderosos incrementam o poder opressor de suas próprias palavras e esvaziam o potencial transformador das palavras alheias. No plano dos usos da língua, entre outros, seus recursos e suas estratégias se desdobram da hipocrisia ao cinismo e deste último ao sarcasmo. Seus empregos muito eficazes não têm nada de casual.

Eis aqui apenas um exemplo recente para ilustrar seus planos e ações e para encerrar esta nossa apresentação. Em 1990, o deputado Newt Gingrich do Partido Republicano dos EUA enviou uma circular intitulada Language: a Key Mechanism of Control (Linguagem: um instrumento chave de controle) a seus colegas de sua bancada no Congresso. O documento continha dezenas de substantivos, verbos e prefixos divididos nesta singela oposição: “palavras positivas” e “palavras negativas”.

De fato, o primeiro grupo tem por título a seguinte formulação: Optimistic positive governing words (Governar com palavras otimistas). Seria por meio dessas palavras que os republicanos deveriam se referir a si mesmos. Já o grupo das “palavras negativas”, intitulado Contrasting words (Palavras contrastantes), era a fonte onde se buscava os termos adequados para atacar seus adversários políticos.

As palavras que constam entre as “positivas” na circular “republicana” se tornaram onipresentes na linguagem política de nossos tempos e poderiam ser livremente traduzidas nestes termos da Língua portuguesa: “liberdade”, “escolha”, “superação”, “liderança”, “competição”, “controle”, “segurança”, “empoderamento”, “orgulho”, “visão”, “direitos” e “verdade”, entre outros. Por sua vez, as negativas também não nos soam estranhas: “corrupção”, “crise”, “hipocrisia”, “incompetência”, “mentira”, “ultrapassado”, “doença”, “radical” e “vergonha”.

Há algo elementar nesse trabalho sobre a linguagem: o poder não se exerce sem a língua e as palavras produzem pensamentos e paixões favoráveis a grupos conservadores e contrários a seus oponentes. A circular do deputado republicano estadunidense era uma das etapas desse processo, porque sua seleção lexical e o contraste psicológico estavam baseados em amplos e custosos experimentos de psicologia comportamental com grupos focais. Assim eram produzidos os chamados think tanks neoliberais. A psicologia servia mais do que nunca à política e concorria para consolidar a redução de interesses coletivos à publicidade.

Quase três décadas mais tarde, quando as palavras positivas da psicologia da felicidade neoliberal já tinham se tornado consenso e automatismo, o Frank Luntz publica a obra Words that work (Palavras que funcionam), que tem por subtítulo It’s not what you say, it’s what people hear (Não é o que você diz, é o que as pessoas ouvem).

Em 2007, esse reconhecido especialista divulgava pressupostos, métodos e resultados de seus experimentos comportamentais. Além do funcionamento de uma verdadeira engenharia semântica desenvolvida pelos pensadores neoliberais, ecoa uma antiga lição da retórica clássica: a linguagem tem efeitos mágicos. Ela nos permite não somente falar de determinadas realidades, mas também apresentá-las sob uma determinada perspectiva e provocar respostas e atitudes consistentes em nossos interlocutores.

Entre outros tantos, os usos desses slogans publicitários podem nos incitar ou inibir, nos gerar confiança ou medo e nos inspirar simpatia ou repulsa. Factualmente, o mundo é o mesmo, assim como as enormes desigualdades e as injustiças mais vis são evidências empíricas, mas o cinismo e o sarcasmo da fórmula “Dar o máximo é o mínimo” produzem indignação em alguns de nós. Já a pregnância de sua forma e o consenso de seu conteúdo promovem um entusiasmo, ainda que fadado à frustração, em muitos outros.

Graças à hegemonia neoliberal, só a inércia já teria força suficiente para continuar a repetir o movimento desse vicioso círculo emocional. Porém, as engrenagens dessa máquina continuam a ser azeitadas pelos donos do tempo e do dinheiro, por seus ideólogos e psicólogos. Pior do que isso: junto com sua supremacia ideológica, eles agora têm a seu serviço as Big Data, a inteligência artificial e um amplo e poderoso arsenal de tecnologias de linguagem que transformam essa grande máquina num monstro colossal.

Sua força e sua eficácia derivam de sua atuação tanto a montante quanto a jusante da linguagem e de suas intrínsecas relações entre as palavras, os poderes e as paixões. No outro polo da saturação dos termos, expressões e outros recursos linguísticos e simbólicos da hegemônica ideologia neoliberal, tem sido produzido um intenso e extenso esvaziamento dos poderes transformadores da linguagem da crítica e da denúncia, dos sonhos e das utopias.

Alguns dos passos da demonização e dos prenúncios da morte da política são sua redução à publicidade e ao consumo, a conjunção entre psicologia da felicidade e ódio a subalternizados como paixão política legítima, as dissonâncias cognitivas coletivas e a teologia da prosperidade. Um fator decisivo da agonia da política reside nestas frustrantes disjunções em práticas e palavras do poder:

(i)      falar algo em público e fazer coisa diversa ou inversa no privado;

(ii)      dizer uma coisa agora e outra logo em seguida;

(iii)     se desonerar de qualquer responsabilidade pelo que se disse;

(iv)     falar qualquer coisa, inclusive as mais cínicas e sarcásticas, graças à concentração de poder; e

(v)      empregar palavras consensuais e frases feitas, deixando seu preenchimento semântico a cargo do interlocutor.

As palavras, os poderes e as paixões conseguem impor dores e dominações, expurgos e opressões, humilhações e subordinações, assim como conseguem minar resistências, revoltas e revoluções. Em larga medida, é com palavras, poderes e paixões que os sofrimentos passam a aparentar alegrias ou a praticamente só suscitar resignação. Como dissemos, aspirações ao bem-estar coletivo, esperanças rejuvenescedoras e rebeldias de vanguarda foram reduzidas a ideias e ações ultrapassadas.

Agora, moderno mesmo seriam a competitividade, a flexibilidade e a produtividade, a eficiência, a excelência e a transparência, a desregulação, a modernização e a privatização. Usando e abusando das palavras, dos poderes e das paixões, o discurso neoliberal coloca o mundo ao avesso, chamando o retrocesso de modernização e a servidão de liberdade. Seu avanço parece nos devolver a um feudalismo medieval: um mundo de senhores supostamente caridosos e de servos iludidamente agradecidos.

De modo análogo ao medieval, nesse nosso novo mundo, a desigualdade é um fato não apenas observado e reconhecido, mas também aceito, naturalizado e desejado como oportunidade ilusória do rebaixado de se tornar o próximo privilegiado.

Por essas e por muitas outras razões, os poderes do discurso, de suas palavras e de suas paixões não podem continuar a ser uma força tão concentrada naqueles que discriminam discriminados e perseguem perseguidos. Essa concentração é arma potentíssima para detratar, degradar e eliminar a vida dos subalternizados e dos que não servem aos senhores do mundo.

Analisar minuciosamente, criticar sem trégua e denunciar a cada instante esses atos poderosos e perversos é passo fundamental para toda luta igualitária, inclusiva e emancipatória. O que está em jogo é uma progressiva e irreparável perda ou o necessário restabelecimento da energia renovadora de nossas palavras, de nossos sonhos e de nossas existências. É preciso e urgente compreender os modos e os motivos pelos quais ofensas, exclusões e violências são aceitas, difundidas e exaltadas.

O discurso e as sensibilidades desempenham funções fundamentais nesse terrível fenômeno. Uma melhor e mais crítica compreensão de suas relações e de nossas subjetividades, dos sentidos e de nossos sentimentos é a contribuição que apresentamos aqui, com o propósito de reforçar as lutas pelo valor e dignidade de todo ser humano, pela insubordinação de marginalizados e pela própria preservação da vida na Terra.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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