quinta-feira, 23 de abril de 2026

Leonardo Sakamoto: Horror que Trump promove é racional demais para ser tratado como loucura

Enquanto Donald Trump coloca em risco o futuro do planeta e a estabilidade da economia norte-americana com uma guerra mais inútil do que as demais, cresce o número de cidadãos dos EUA que se perguntam como frear o seu líder antes das eleições legislativas de meio de mandato. Nelas, há grande chance de os republicanos perderem o controle de ambas as casas, o que limitaria, literalmente, seu poder de fogo.

Após ele ter colocado um genocídio persa na mesa quando ameaçou “a morte de toda uma civilização”, muitos passaram a defender que ele fosse interditado com base na 25ª emenda da Constituição dos EUA, que permite a destituição do presidente após ser considerado por seu gabinete como inapto para exercer o seu mandato. As reportagens que tentavam mostrar sinais de demência no comportamento de Trump, antes já numerosas, tornaram-se comuns.

Compreende-se a tentativa pelo desespero de quem vê o mundo indo para o buraco. Mas há um risco de tentar vender como insanidade aquilo que é muito mais um cálculo político que faz parte de um plano de longo prazo para redesenhar o papel das instituições e as dinâmicas sociais nos EUA e no mundo para um modelo autoritário e iliberal. Claro que há uma dose de loucura no pacote Trump, que inclui um comportamento ególatra, arrogante e voluntarista. Mas há método, e ele vai ajudando a redesenhar o mundo.

Seria fácil apontar que a maldade ou a insanidade de alguém são responsáveis por seu comportamento, mas isso seria ignorar a estrutura por trás.

Em “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, a filósofa Hannah Arendt conta a história da captura do carrasco Eichmann, na Argentina, por agentes israelenses, e seu consequente julgamento. Ela, judia e alemã, ficou presa em um campo de concentração antes de fugir para os EUA.

Ao contrário da descrição de um demônio que todos esperavam em seus relatos, originalmente produzidos para a revista New Yorker, o que ela viu foi um funcionário público medíocre e carreirista, que não refletia sobre suas ações e atividades e que repetia clichês. A autora não quis, com o texto, que acabou lhe rendendo ameaças na época, suavizar os resultados da ação de Eichmann, mas entendê-la em um contexto maior. Isso fez com que fosse atacada por quem queria a confirmação da encarnação da maldade ou da loucura.

Não comparo aqui a trajetória das duas figuras, não estou incorrendo na simplicidade do reductio ad hitlerum. Apenas resgato o alerta de ignorar a estrutura. Pois é fácil centrar fogo nas ações de uma única pessoa, por mais poder que ela tenha, ignorando que essas figuras não estão sozinhas, mas representam algo maior.

Retirar o personagem do palco pode ou não fazer com que a peça mude de rumo. Se ele for retirado como resultado de uma mudança real na correlação de forças dentro dos EUA, o desfecho pode ser outro. Caso contrário, ainda mais com um vice fraco como JD Vance, o roteiro pode continuar a ser cumprido. A História mostra que líderes não surgem no vácuo. Eles são produto, combustível e também consequência de um ambiente que os legitima.

Hannah Arendt não escreveu para inocentar ninguém. Escreveu para lembrar que o horror não precisa de monstros mitológicos, basta gente comum operando engrenagens que nunca deveriam existir. E essas engrenagens continuam, muitas vezes bem lubrificadas, após o passamento de líderes, amparadas por uma rede de interesses, medos e oportunismos.Continua após a publicidade

A pergunta, então, não é apenas como parar um potencial genocida, mas como interromper o sistema que o colocou lá e o empodera. Sem encarar isso, troca-se o nome, mas o destino permanece manifesto. E, no fim das contas, o mundo continua sendo redesenhado, com ou sem o protagonista da vez.

•        Irã pede ação diplomática para reduzir confronto com EUA

O Irã pediu a via diplomática para tentar reduzir o confronto com os Estados Unidos. Nas últimas horas, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, pediu compromisso diplomático: “Apesar de resistir às ameaças, todo caminho racional e diplomático deve ser usado para reduzir tensões”, afirmou à à agência estatal IRNA.

De um lado, o Irã indicou disposição para o diálogo, defendendo a retomada de canais diplomáticos como forma de evitar uma escalada militar direta com Washington. A iniciativa ocorre em um contexto de negociações frágeis, marcadas por desconfiança mútua e pela manutenção de sanções e bloqueios norte-americanos, que seguem como principal ponto de atrito.

De outro, a realidade no estreito revela o peso concreto desse impasse. O tráfego marítimo — vital para o fluxo de petróleo e gás — permanece praticamente paralisado, enquanto negociadores iranianos exigem o fim do bloqueio dos EUA aos portos do país. Eles afirmam que não haverá novas conversas até que os americanos suspendam a medida.

A medida afeta cerca de 20% do petróleo transportado por via marítima passa por Ormuz. Ao limitar ou controlar esse fluxo, o Irã desloca o conflito para além do campo diplomático, atingindo diretamente mercados, cadeias logísticas e a segurança energética internacional.

Segundo autoridades iranianas, as restrições são uma resposta direta à presença e às ações norte-americanas na região, vistas como violação de acordos e ameaças à soberania do país. Na prática, o estreito opera sob controle reforçado, com circulação reduzida e alto grau de incerteza para embarcações comerciais.

O resultado é um cenário de suspensão: navios retidos, rotas reconfiguradas e um sistema global em estado de alerta. Os EUA e o Irã estavam em negociação até que Israel e forças americanas atacaram o território iraniano em fevereiro. A ofensiva militar interrompeu as tratativas de paz entre os dois países.

•        Como Trump recuou e ganhou mais tempo para negociar acordo com o Irã

A terça-feira (21/4) começou como um dia frenético de diplomacia nos Estados Unidos, com o Air Force Two (avião oficial do vice-presidente americano) pronto para levar o vice-presidente J.D. Vance a Islamabad, capital do Paquistão, para mais uma rodada de negociações de paz entre os EUA e o Irã.

Poucas horas depois, a aeronave ainda não havia decolado e as negociações foram adiadas. O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que estenderia o cessar-fogo com o Irã, previsto para expirar na noite de quarta-feira (22/4), sob o argumento de que daria mais tempo ao Irã para formular uma "proposta unificada" para encerrar a guerra.

Nesse intervalo, Trump avaliou as suas opções enquanto o mundo aguardava para saber se os países estavam mais próximos de pôr fim ao conflito. A decisão de Trump marcou a segunda vez em duas semanas que ele recuou de uma ameaça de intensificar a guerra, ganhando mais tempo para encerrar um conflito que se aproxima de dois meses.

Vance nunca anunciou oficialmente a viagem a Islamabad, o que deixou os EUA em dúvida. E o Irã também não confirmou oficialmente presença nas negociações, colocando a Casa Branca diante da difícil decisão de enviar ou não o vice-presidente dos EUA sem garantia de que o Irã participaria das conversas.

Com o passar do dia, surgiram sinais de um adiamento. O enviado especial Steve Witkoff e o genro de Trump, Jared Kushner, integrantes da equipe de negociação liderada por Vance, voaram de Miami para Washington D.C., em vez de seguir diretamente para Islamabad. Pouco depois, Vance foi à Casa Branca para "reuniões de política", enquanto o presidente Trump e seus principais assessores discutiam os próximos passos.

No fim, Trump anunciou a extensão do cessar-fogo na rede Truth Social, seu principal meio de comunicação sobre a guerra desde o início do conflito, em 28 de fevereiro. Trump afirmou que tomou a decisão a pedido do Paquistão, que tem mediado as negociações entre o Irã e os EUA.

"Nos solicitaram suspender nosso ataque ao Irã até que seus líderes e representantes possam apresentar uma proposta unificada", disse Trump.

Vale notar que, desta vez, Trump não especificou por quanto tempo o cessar-fogo poderá durar. No início deste mês, ele havia estipulado um prazo de duas semanas para o primeiro cessar-fogo. Isso ocorreu após declarações contraditórias em entrevistas à imprensa, nas quais afirmou que as negociações avançavam bem, mas também advertiu que consideraria retomar a guerra caso o Irã se recusasse a negociar.

"Não existe uma fórmula clara" para encerrar guerras, explicou James Jeffrey, ex-embaixador americano no Iraque e na Turquia, em entrevista à BBC.

Trump não é o primeiro presidente dos EUA a "ameaçar uma escalada militar significativa", acrescentou Jeffrey, "ao mesmo tempo em que coloca uma proposta favorável à mesa".

A declaração em aberto de Trump na terça-feira foi mais moderada do que suas críticas anteriores ao Irã em postagens nas redes sociais. Isso pode indicar o desejo de encerrar um conflito que tem abalado a economia global e é impopular entre apoiadores anti-intervencionistas de sua base Make America Great Again (Maga, ou "Faça a América Grande Novamente", em tradução livre).

"Esta é uma decisão pragmática, baseada em fissuras bastante evidentes na atual liderança do governo iraniano", disse Brian Katulis, pesquisador sênior do Middle East Institute, nos EUA.

Mas Katulis disse que a decisão de Trump também gerou mais incerteza sobre quanto tempo a guerra vai durar.

"Essa medida levanta a questão de como Trump lidará com o impacto econômico que os americanos estão sentindo e com o custo político dentro de sua base", disse. "Ele ainda não respondeu às questões que continuam alimentando essa crise."

Com a extensão do cessar-fogo, os EUA e o Irã agora têm mais tempo para fechar um acordo de paz duradouro. Mas grandes questões permanecem em aberto.

O Irã afirma que o bloqueio americano ao estreito de Ormuz pelos EUA constitui um ato de guerra. Embora Trump tenha optado por não retomar imediatamente o conflito, não deu sinais de que pretende encerrar o bloqueio, que os EUA esperavam usar para pressionar o Irã. Até agora, isso não ocorreu, deixando Trump com menos alternativas além de intensificar a campanha militar.

O Irã, por sua vez, não sinalizou interesse em encerrar seu programa nuclear nem em abandonar o apoio a grupos no Oriente Médio (a exemplo do Hezbollah), duas chamadas "linhas vermelhas" que Trump exige incluir em qualquer acordo de paz final.

Trump ganhou mais tempo. Mas uma resolução rápida para a guerra, por ora, parece tão distante quanto sempre foi.

 

Fonte: UOL/Jornal GGN/BBC News

 

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