Starbucks
pode estar tirando riqueza da América Latina — e escondendo na Suíça
Na
América Latina, o café não é apenas um produto agrícola. É cultura, identidade,
trabalho e sustento para milhões de famílias. Mas uma das maiores empresas de
café do mundo encontrou uma forma de enriquecer às custas da nossa região e de
milhões de produtores de café pelo mundo — e esconder o lucro em um paraíso
fiscal europeu: a Starbucks.
A
companhia estadunidense gosta de se apresentar como campeã da sustentabilidade.
Fala de “responsabilidade social” e “café ético”. Mas por trás desse discurso
parece existir um esquema sofisticado de transferência de lucros que drena
riqueza do Brasil, da Colômbia e de outros países produtores de grãos de café e
a deposita na Suíça.
É o que
mostram as evidências apresentadas pelo Centro Internacional de Transparência e
Pesquisa em Fiscalidade Corporativa (CICTAR), segundo as quais a Starbucks tem
transferido lucros de países produtores de café para a Suíça — um dos paraísos
fiscais corporativos mais notórios do mundo.
O
mecanismo é simples — e chocante. A Starbucks compra café in natura de
produtores e vende para torrefações nos Estados Unidos, na Holanda e na China,
registrando todas essas compras em uma subsidiária suíça, a Starbucks Coffee
Trading Company (SCTC). O café não passa fisicamente pela Suíça, mas no papel,
sim. E isso permite que a empresa registre lucros em território suíço, onde os
impostos são muito mais baixos.
A
empresa cobra um percentual sobre esta compra e venda. Em 2011, a margem da
SCTC saltou de 3% para 18%. Estima-se que esse esquema tenha desviado US$ 1,3
bilhão em lucros ao longo da última década. Quando confrontada, a Starbucks diz
que o aumento reflete a “propriedade intelectual” ligada ao programa C.A.F.E.
Practices e à gestão dos Centros de Apoio ao Produtor que implementam este
programa — em tese responsável pela garantia de qualidade e sustentabilidade do
café comercializado. Os números, porém, contam outra história.
São dez
centros espalhados pelo mundo, mas a pesquisa realizada pelo CICTAR encontrou
dados públicos de apenas dois deles — na Colômbia e na Tanzânia. Estes centros
gastam menos de US$ 1 milhão por ano. Enquanto isso, a subsidiária suíça
distribui anualmente centenas de milhões de dólares em dividendos para suas
controladoras.
E o
mais absurdo: a SCTC, com cerca de oito funcionários, supostamente gerencia
toda a compra global de café in natura, supervisiona um programa de verificação
com 200 indicadores e apoia quase meio milhão de fazendas. Ou isso é
impossível, ou a Starbucks reinventou a agricultura sustentável e ética como um
negócio mais lucrativo do que Wall Street.
Na
Colômbia, o Centro de Apoio aos Agricultores chama-se Corporación Starbucks
Farmer Support Center Colombia e é 99% propriedade da SCTC. Registrado como
organização sem fins lucrativos, suas despesas anuais giram em torno de 2 a 3
bilhões de pesos colombianos, ou de 500 mil
a 1 milhão de dólares, o que representa uma fração ínfima dos US$ 1,3
bilhão em dividendos recebidos pela SCTC na última década. Os custos são
cobertos diretamente pela SCTC, e não houve receita tributável durante todo o
período analisado, o que significa que a empresa não pagou impostos ao governo
colombiano. Considerando que a Colômbia é um dos maiores produtores de café
para a Starbucks, o governo e os agricultores colombianos deveriam receber uma
parcela muito maior pela implementação do programa ético da bilionária
Starbucks.
Essas
evidências surgem ao mesmo tempo em que a empresa enfrenta uma grande ação
coletiva nos Estados Unidos, na qual um escritório de advocacia de Seattle
alega que a empresa engana os consumidores ao prometer que está “comprometida
com o fornecimento de café 100% ético”, enquanto violações sistemáticas dos
direitos humanos e das leis trabalhistas em sua cadeia de suprimentos seguem
ocorrendo.
O
estudo também sai poucos dias após um protesto realizado em frente à unidade da
Starbucks na Avenida Paulista, em São Paulo. Organizado pela Articulação dos
Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais (Adere/MG) e entidades sindicais, o
ato defendeu os trabalhadores rurais do café e denunciou o trabalho análogo à
escravidão na produção do grão do Brasil, especialmente em Minas Gerais. É
precisamente no estado mineiro, responsável pela maior produção de café no
país, que em 2021 foi instalado o Centro de Apoio ao Agricultor da Starbucks no
Brasil, a principal entidade que implementa as práticas do selo ético da
companhia em território brasileiro. O Centro é registrado como uma entidade sem
fins lucrativos, portanto, provavelmente também não está pagando impostos, mas
seus relatórios não estão disponíveis publicamente. Também não é de acesso
público quanto a Starbucks lucra com suas lojas no Brasil.
Além da
opacidade no lado financeiro, investigações do Repórter Brasil de 2023
revelaram trabalho infantil, trabalho forçado, violações de direitos
trabalhistas e exploração salarial em fazendas certificadas pelo programa
C.A.F.E. Practices. Em 2024, oito trabalhadores resgatados de trabalho forçado
em fazendas de café de Minas Gerais entraram com uma ação judicial contra a
Starbucks por supostamente serem traficados e submetidos a trabalhos forçados
em propriedades fornecedoras da Starbucks. Além disso, a ação coletiva iniciada
recentemente contra a Starbucks em Washington menciona que, em 2022, o governo
brasileiro apresentou uma denúncia contra o maior fornecedor da multinacional
no Brasil, a cooperativa Cooxupé, certificada pelo C.A.F.E. Practices, que
engloba mais de 2 mil fazendas e responde por 40% do fornecimento de café da
Starbucks no país. A denúncia cita condições de trabalho abusivas e inseguras,
incluindo violência física e psicológica e confinamento.
Se o
programa C.A.F.E. Practices é tão importante e lucrativo para a empresa, ele
deveria ser transparente, pagar impostos e, de fato, beneficiar os
trabalhadores rurais. Já os governos brasileiro e colombiano precisam
investigar o programa e a estrutura jurídica na Suíça, tanto do ponto de vista
fiscal quanto de direitos humanos. Nossos países têm o direito de tributar os
lucros gerados aqui. É hora de investigar a estrutura suíça da Starbucks,
reforçar regras de preços de transferência e exigir transparência de
multinacionais que lucram com o café latino-americano.
E os
consumidores precisam saber: pagar mais por “café ético” não significa que o
dinheiro chegue ao produtor ou ao trabalhador rural.
A
Starbucks pode mudar. Pode registrar lucros onde o valor é criado. Pode pagar
impostos onde o café é produzido. Pode investir de verdade nas comunidades
cafeeiras. Até lá, o “café ético” da Starbucks é apenas espuma. O lucro
verdadeiro está escondido nos Alpes.
Fonte:
Diálogos do Sul Global

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