O
julgamento coletivo em El Salvador que reúne centenas de acusados de integrar a
gangue MS-13
Desde
segunda-feira (20/4) acontece em El Salvador um julgamento contra 486 acusados
de pertencer à Mara Salvatrucha (MS-13), uma das poderosas gangues que
aterrorizaram o país e a região durante décadas.
Segundo
a Procuradoria-Geral da República, entre os que se sentarão no banco dos réus
durante o julgamento coletivo estão vários fundadores e líderes da organização
criminosa.
Entre
os crimes dos quais são acusados está o de ordenar o assassinato de 87 pessoas
durante um único fim de semana, em março de 2022.
Esse
episódio levou o presidente Nayib Bukele a declarar "guerra" às
gangues e a solicitar ao Parlamento a aprovação de um regime de exceção que já
está em vigor há quatro anos e resultou em mais de 91 mil detidos, de acordo
com números oficiais.
Desde
que foi aprovado, o controverso estado de emergência ampliou os poderes de
Bukele para prender pessoas suspeitas de ligação com gangues e suspendeu
direitos constitucionais.
Diante
disso, grupos de direitos humanos, tanto locais quanto internacionais, afirmam
que a medida levou a detenções arbitrárias e sem ordem judicial.
Embora
os apoiadores do presidente Bukele afirmem que sua política linha dura tornou
El Salvador um lugar mais seguro, especialistas da ONU alertaram o governo que
"não se pode atropelar o direito a um julgamento justo em nome da
segurança pública".
Na
segunda-feira, a Procuradoria divulgou à imprensa local um vídeo em que um
promotor, sem mostrar o rosto, especificou que os réus do julgamento coletivo
são acusados de 47 mil crimes, que teriam sido cometidos entre 2012 e 2022—
incluindo 29 mil homicídios, feminicídios e desaparecimentos.
413 dos
réus participarão das audiências de forma virtual. Os outros 73 estão
foragidos, mas serão julgados à revelia.
Mais de
250 dos acusados estão detidos no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot),
a megaprisão de segurança máxima para membros de gangues construída pelo
governo Bukele, e o restante em outros presídios de alta segurança.
"Vamos
julgar e vamos pagar uma dívida histórica. Estão sendo atribuídos a eles todos
os crimes cometidos pela Mara Salvatrucha ao longo desses 11 anos",
afirmou o promotor.
Os
Centros Judiciais de El Salvador, órgão que reúne os tribunais, informaram em
sua conta na rede X que entre os acusados estão integrantes da
"ranfla" (a cúpula da organização) da MS-13, chefes de áreas e
fundadores.
A MS-13
e sua rival Barrio 18 — com suas duas facções —, surgidas em Los Angeles
(Califórnia, Estados Unidos) na década de 1980 e que evoluíram até se tornar
organizações transnacionais classificadas como "terroristas" pelos
Estados Unidos no ano passado, chegaram a controlar 80% do território nacional
de El Salvador, segundo o governo de Bukele.
Nesse
contexto, os acusados agora também respondem pelo crime de rebelião, por
supostamente buscarem manter o controle territorial para estabelecer um
"Estado paralelo", o que atenta contra a "soberania
nacional", segundo comunicado da Procuradoria-Geral.
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'Risco de condenações injustas'
Não é a
primeira vez que audiências com um grande número de acusados julgados ao mesmo
tempo acontecem em El Salvador.
Reformas
na Lei contra o Crime Organizado, aprovadas pela Assembleia Legislativa —
controlada pelo partido governista Nuevas Ideas — no âmbito do regime de
exceção, abriram caminho para esse tipo de processo.
Além de
permitir a realização de julgamentos coletivos contra pessoas detidas nesse
contexto, as mudanças extinguiram o prazo máximo de um processo penal (24
meses) e concederam poderes investigativos à Polícia Nacional Civil.
"Essas
disposições ameaçam o direito de acesso à Justiça, o devido processo legal e o
direito à defesa garantidos em tratados internacionais de direitos
humanos", alertou em 2023 o Escritório em Washington para Assuntos
Latino-Americanos (WOLA) — críticas às quais se somaram organizações nacionais
e internacionais da área.
"Os
salvadorenhos têm o direito de que os crimes atrozes das gangues sejam
investigados, julgados e punidos. Mas esses julgamentos em massa tornam
impossível estabelecer responsabilidades individuais com provas sólidas e
garantias reais de defesa e, por isso, correm o risco de transformar a Justiça
em uma encenação", afirmou Juanita Goebertus, diretora da Divisão das
Américas da Human Rights Watch.
O
processo "exigirá muito cuidado por parte dos juízes, que devem ser
extremamente meticulosos na análise e avaliação das provas", afirma o juiz
salvadorenho Juan Antonio Durán Ramírez.
"Será
necessário muito tempo para identificar os acusados, individualizar os fatos e
os crimes atribuídos a cada um, bem como as evidências, a fim de determinar
corretamente a responsabilidade de cada réu; porque há o risco de generalizar
essas responsabilidades e de ocorrerem condenações injustas", acrescenta.
A
Procuradoria afirmou ter "provas abundantes para pedir as penas
máximas" para os acusados, sem especificar se isso incluiria a prisão
perpétua, que deve entrar em vigor em breve para punir homicidas, estupradores
e "terroristas", segundo uma reforma legal recentemente aprovada.
Também
acrescentou, sem indicar datas, que espera que o julgamento termine "em
breve".
Diante
disso, o juiz Durán considera que deveria "ser avaliada a adoção de
procedimentos mais rápidos, para aplicar os princípios da celeridade e da
economia processual".
"De
que adiantarão condenações de 300, 500, 800 ou 1.200 anos de prisão, se não
poderão ser cumpridas?", questiona.
"Seria
mais prático negociar essas penas com base nas provas existentes, para que a
responsabilização e as punições sejam razoáveis."
O
magistrado aponta ainda a existência de uma "atmosfera de pressão"
sobre os juízes e que "o medo a sanções, represálias, à exposição pública
ou críticas está profundamente enraizado".
"Sem
dúvida, isso afeta a qualidade da Justiça e a prestação de um serviço
independente e imparcial", ressalta.
"Ainda
assim, é preciso exigir da magistratura essa independência em suas atuações
para evitar decisões injustas. É necessário cobrar decisões objetivas, com base
em evidências reais, confiáveis, corroboradas e que não possam ser refutadas ou
questionadas por outras evidências igualmente confiáveis e verificáveis",
afirma.
"Muitos
familiares alegam a inocência de alguns detidos e esperam uma Justiça
independente, imparcial e objetiva. Muitas pessoas estão presas há quatro anos
ou mais, à espera deste momento, do seu dia de julgamento, e deveriam ter a
oportunidade de conhecer as evidências contra elas, para poder questioná-las,
contestá-las e provar sua inocência; e os julgamentos em massa dificultam o
pleno exercício desses direitos", explica.
"É
um enorme desafio para os juízes, e há grande expectativa em relação ao
desempenho deles, pois se espera justiça."
Fonte: BBC News Mundo em Los Angeles

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