Fabiana
Moraes: Universidade pública ‘virou rodoviária’ para ricos do Brasil
Em
2014, um post no Facebook de uma então professora da Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro, a PUC-Rio, entraria para a história contemporânea
brasileira. A publicação mostrava a fotografia de um homem de camiseta regata
vermelha e bermuda que, aparentemente, fazia um lanche enquanto aguardava seu
voo. “Aeroporto ou rodoviária?”, escreveu a docente, marcando a localização do
aeroporto Santos Dumont, no Rio. Os comentários são igualmente antipobres (“O
‘glamour’ foi pro espaço”).
A
comparação entre ponto de busão e plataforma de avião não era nova. Em 2011,
ela aparecia em textos como este, no qual o escritor Antonio Prata observou o
quanto uma certa mobilidade social finalmente conquistada no Brasil estava
incomodando quem ocupava as classes mais abastadas. Esse tal incômodo ficou
famosamente registrado na coluna “Ser especial”, na qual a escritora Danuza
Leão, em 2012, perguntava: “Como se diferenciar do resto da humanidade, se
todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais? (…)
Ir a Nova York ver os musicais da Broadway já teve sua graça, mas, por R$ 50
mensais, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?”.
(Até a
unha já desencravada dói quando leio isso).
Bem:
pulamos mais de uma década e entramos no ano da graça de 2026 e nos deparamos
com um vídeo repleto de botox e suposta superioridade moral.
Nele, o
ex-jogador de futebol Túlio Maravilha aparece ao lado da esposa, Cristiane, e
da filha, Tulianne. A jovem havia passado no curso de nutrição na Universidade
Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, e em odontologia na Universidade Estadual do
Rio de Janeiro, a Uerj. Mas, dizia ela, por uma questão de valores, seus pais
decidiram que ela iria para uma universidade privada.
‘A
universidade pública havia se tornado a nova rodoviária no discurso de parte da
elite e classes médias brasileiras’.
Eu já
havia sido apresentada a essa nova retórica nacional. No ano passado,
participando de um evento de comunicação no interior do Paraná, ouvi durante o
café da manhã no hotel a conversa de três homens que diziam categoricamente que
não iriam colocar os filhos em universidades privadas porque ali só havia
esquerdistas. A questão, percebi, não era a qualidade do ensino em si, mas o
ponto de vista ideológico.
Desde
que isso ocorreu, compreendi o desenho. A universidade pública havia se tornado
a nova rodoviária no discurso de parte da elite e classes médias brasileiras.
Se ir a Nova York e encontrar o porteiro era chato, colocar os filhos para
estudar medicina na mesma sala de uma estudante saída de um bairro periférico
de Belém, no Pará, ou Caruaru, em Pernambuco, havia se tornado igualmente
incômodo. Falar em valores é nada mais do que tentar suavizar o desconforto de
ter perdido a garantia quase pétrea de estar sozinho em uma instituição antes
ocupada somente pelas elites.
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El Dorado dos pobres
É bem
interessante associar aeroportos a universidades públicas, locais que já foram
uma espécie de El Dorado para a maioria da população brasileira. Eu lembro
quando os primeiros eram coisa somente para pouquíssimos. Em um domingo, eu,
adolescente, cheguei a ir até o aeroporto dos Guararapes, no Recife, somente
para ver avião subir e descer. Juntei uns trocados com as amigas para comprar
um único refrigerante e fiquei ali olhando partidas e chegadas.
Era uma
espectadora de aeronaves e, de quebra, da vida dos ricos.
Eu
também lembro quando entrei no curso de jornalismo na Universidade Federal de
Pernambuco, a UFPE, na primeira metade dos anos 1990, e, entre 40 pessoas, era
uma das duas únicas negras. Isso em pleno Nordeste brasileiro. Fiquei muito
impressionada quando conheci uma colega que tinha um carro do ano dado de
presente pelo pai. Na minha casa, a gente nunca tinha conseguido comprar nem um
Fusca de segunda mão.
Falavam
em hábitos que pareciam muito universais, mas que eu não compartilhava.
Passavam férias em casas de praia das famílias, tinham estudado nos mesmos
cinco ou seis colégios, se reconheciam pelos sobrenomes. Eu, mais uma Silva,
aprendi muito sobre raça e classe ali.
Por
tudo isso, não acho que seja preciso ir muito longe para identificar o atual
desprezo que setores da sociedade desenvolveram pela universidade pública, uma
vez que ela mudou bastante daqueles anos 1990 para cá.
Em
2002, no caso das federais, eram 45 unidades em todo país. Hoje, são 69. O
número de municípios atendidos por estas instituições passou de 114, em 2003,
para mais de 300 atualmente, consolidando o processo de interiorização. As
vagas anuais em universidades federais mais que dobraram, passando de cerca de
109 mil, em 2003, para 274 mil no último Sistema de Seleção Unificada, o Sisu.
Tem mais dados no Censo da Educação Superior feito pelo Instituto Nacional de
Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o Inep.
Há um
bocado de coisa para melhorar? Sim, urgentemente, e em breve falo sobre.
Antes,
quero chamar atenção para o fato de que a expansão, como sabemos, não foi
apenas geográfica. Ela foi social.
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Mudou o CEP, mudou o sobrenome, mudou a cor
Se
antes estudantes de baixa renda eram minoria, uma pesquisa divulgada em 2019
mostrou que, em 2018, eles já haviam se tornado maioria nas universidades
federais. Dados do Pnad Educação, divulgados pelo IBGE no ano passado, mostram
que a presença de quem veio exclusivamente da escola pública nas universidades
(incluindo as privadas que possuem financiamento público de bolsas) saltou de
67,8% em 2016 para 72,6% em 2024. Ou seja: o chão da escola pública está,
finalmente, esticando-se até os corredores do ensino superior. Essa ocupação
ganha corpo e fôlego quando olhamos para os degraus mais altos: o estrato da
pós-graduação. O salto entre mestres e doutores que carregam na trajetória o
ensino público é de 52,2% para 59,3%.
Se
antes alunos oriundos de escolas públicas ocupavam pouco mais de um terço das
vagas, hoje já passam da metade.
E,
talvez mais significativo: pessoas negras (incluindo pretos/pardos) com curso
superior quintuplicaram no país segundo este censo do IBGE: Os números são ao
mesmo tempo alívio e incômodo. Entre 2000 e 2022, a proporção de pessoas pretas
com 25 anos ou mais e ensino superior completo cresceu 5,8 vezes (de 2,1% para
11,7%). Entre pardas, 5,2 vezes (de 2,4% para 12,3%). A Lei de Cotas iniciada
institucionalmente em 2002 (em uma universidade pública) e consolidada em 2012,
tem imenso papel nesse aumento.
que
girava em torno de um quarto do total no início dos anos 2000, cresceu de forma
consistente após as políticas de cotas e começa a se aproximar da composição
real da população brasileira. Ou seja: mudou o CEP, mudou o sobrenome, mudou a
cor.
E é
exatamente aí que o incômodo, apesar de escondido sob a desculpa de valores,
aparece.
Neste
estudo, “A expansão das universidades federais e os seus efeitos de curto prazo
sobre os indicadores municipais”, indica-se que a criação de novos campi reduz
o percentual de pobres nos municípios.
Se até
o fim dos anos 1990 o ensino superior brasileiro era majoritariamente ocupado
por estudantes brancos e oriundos das classes médias e altas, hoje o quadro é
outro. Em 2021, estudantes pretos, pardos e indígenas já correspondiam a 52,4%
das matrículas nas universidades públicas, um salto significativo em relação
aos 31,5% registrados em 2001. No mesmo intervalo, a presença de alunos das
classes D e E mais do que dobrou, passando de 20% para 52%, o que evidencia
também a profundidade econômica dessa transformação.
Assim,
se dividir o avião com pessoas mais pobres tirou o sentimento de exclusividade
que ricos (e dos wanna be rich) tanto prezavam, dá-se o mesmo agora. Hoje, tem
muito mais Silva no ensino superior.
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Mais investimentos e menos ataques
Por
outro lado, é impossível falar em expansão sem trazer atenção para a
necessidade da manutenção e recuperação das universidades: muitas precisam de
investimento pesado em infraestrutura, laboratórios, bibliotecas. Há alguns
dias, um vídeo feitorealizado por estudantes de Letras da UFPE viralizou ao
mostrar as más condições do edifício no qual as aulas são realizadas.
‘Boa
parte de quem ataca a universidade pública não gosta da ideia de igualdade
social’.
É
preciso ainda investimento nas condições de trabalho de docentes e técnicas e
técnicos, cujas funções têm sido precarizadas principalmente ao longo dos
últimos 15 anos. Como professora e pesquisadora em uma universidade federal,
sei bem do que estou falando. Além disso, não adianta somente expandir. É
preciso que estudantes se mantenham nos cursos até o fim. As taxas de evasão
são maiores justamente entre populações pretas.
Mas
esses problemas não são desculpa para atacar a universidade pública. Pelo
contrário: são convites à mobilização. É nisso que devemos investir nossa
energia. É por isso que devemos brigar pela valorização de discentes, docentes,
técnicos e das técnicas. Valorização da pesquisa, da extensão.
Nossa
crítica deve ser feita no sentido de melhorar a universidade pública, não
destruí-la.
Não se
enganem. Boa parte de quem simplesmente arrasa com o ensino superior público
não quer mudança, mas sim manter o status quo. Quer manter desigualdades. Boa
parte de quem ataca a universidade pública não gosta da ideia de igualdade
social. Quem a critica sem reconhecer sua importância geralmente prefere um
país onde só alguns poucos tenham acesso ao conhecimento e ao futuro.
***
Em
tempo: durante a pesquisa para este texto, me deparei com uma universidade
privada, a UniLasalle, vendendo a ideia de que instituições públicas estão fora
do mercado, ao contrário das privadas, entre outras inverdades. Na página,
espraiam a ideia de que as públicas são antes de tudo teóricas e lentas,
enquanto as universidades privadas são garantia de acesso ao mercado,
agilidade, empregabilidade. A instituição, vejam só, recebe verba para manter o
Programa Universidade para Todos, o Prouni.
• A superioridade das universidades
chinesas. Por Raúl Zibechi
Por
vezes, não conseguimos compreender a dimensão das mudanças em curso. Um bom
caminho para observá-las pode ser nos concentrarmos em casos concretos, até
mesmo exemplares. Um deles nos é oferecido pelos novos rankings mundiais das
universidades, que sempre foram dominados pelo Ocidente.
Há
apenas duas décadas, o ranking mundial de universidades baseado na produção
científica e em artigos publicados em revistas especializadas mostrava que sete
universidades dos Estados Unidos estavam entre as 10 melhores do mundo.
Obviamente, a primeira era a Universidade Harvard. Naqueles anos, apenas uma
instituição chinesa, a Universidade de Zhejiang, conseguiu entrar no top 25
(The New York Times, 15-01-2026).
Em um
período muito curto, pouco mais de um quarto de século, assistimos a um
verdadeiro tsunami, uma reviravolta que não deixou nada em seu lugar. Hoje,
oito das dez melhores universidades do mundo são chinesas, uma é canadense e
uma é dos Estados Unidos. A icônica Harvard caiu para o terceiro lugar, ao
passo que a Zhejiang agora ocupa o primeiro.
Sem
dúvida, as universidades estadunidenses seguem produzindo uma grande quantidade
de pesquisas, mas a mudança está em que as universidades chinesas agora
produzem em velocidade maior. As seis universidades estadunidenses que estavam
entre as mais importantes nos anos 2000 (Universidade de Michigan, Universidade
da Califórnia, em Los Angeles, Universidade Johns Hopkins, Universidade de
Washington, em Seattle, Universidade da Pensilvânia e Universidade Stanford)
produzem mais pesquisas do que há duas décadas, apesar de terem sido
ultrapassadas pelas chinesas.
Segundo
todos os analistas, está chegando do país asiático uma quantidade e qualidade
de artigos acadêmicos excepcionais, ofuscando a produção dos Estados Unidos.
Uma das razões mais notáveis para esta mudança é que a China investiu bilhões
de dólares em suas universidades e se esforça para torná-las atraentes para
pesquisadores estrangeiros. Ao contrário, o governo de Donald Trump vem
cortando grandes quantias em subsídios à pesquisa universitária como forma de
reduzir o significativo déficit do Estado.
Além
disso, a ofensiva contra migrantes fez muitos estrangeiros, mas também
estadunidenses, deixarem o país, principalmente rumo à Europa. Este ano, a
chegada de estudantes estrangeiros aos Estados Unidos caiu 19%, levando alguns
centros de estudo entrar em crise. Segundo a Bloomberg, a queda no número de
estudantes futuros fará 370 universidades privadas fechar ou se fundir com
outra instituição, na próxima década.
Junto a
isto, outras 430 instituições, com 1,2 milhão de estudantes, enfrentam “ameaças
existenciais moderadas”, além do fechamento de 114 universidades privadas sem
fins lucrativos, entre 2010 e 2020, quase o dobro que na década anterior. Os
estudantes concluem seus cursos endividados e suas famílias precisam ampará-los
contraindo dívidas.
A
matrícula, o alojamento e a manutenção em uma universidade privada, por quatro
anos, custaram, em média, 56 mil dólares no período 2023-2024, enquanto nas
universidades públicas foi de apenas 24 mil dólares. De qualquer modo, as
classes médias têm cada vez mais dificuldades para arcar com seus gastos,
quando se registra uma expressiva estagnação dos salários no mercado
trabalhista.
Esta é
uma das razões de 26% dos estudantes universitários considerarem seriamente
abandonar a universidade ou enfrentarem o risco de abandoná-la.
Entramos
em uma espécie de nova ordem mundial na educação. Agora, cientistas de alto
nível migram para a China, da mesma forma como antes migravam para os Estados
Unidos. Há muitos exemplos. Jiang Jianfeng, um dos cientistas de destaque, com
apenas 30 anos, deixou o renomado Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(MIT) e retornou à Universidade de Pequim para atuar como pesquisador principal
e orientador de doutorado. O gênio da matemática Daqing Wan, vencedor do prêmio
de matemática chinês mais importante, saiu da Universidade da Califórnia, em
julho, e retornou ao seu país para assumir sua nova função.
Casos
como esses são muito comuns, mas também entre cientistas ocidentais que decidem
se mudar para a China e outros países. Desde 2018, por ano, de 70 a 100
cientistas chineses e sino-estadunidenses renomados deixaram os Estados Unidos.
Em geral, o aumento histórico de estadunidenses que vão para o exterior ocorre
por motivos de segurança, custo de vida, educação e saúde.
O mundo
mudou, e esses dados são apenas uma amostra. No entanto, nós que não
acreditamos que as mudanças necessárias virão de cima, dos Estados, não podemos
ignorar o tamanho das transformações, pois de um modo ou de outro nos afetam.
Fonte:
The Intercept/La Jornada/IHU

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