quinta-feira, 23 de abril de 2026

Fascismo – a velha toupeira capitalista

Não há dúvidas de que o fascismo é degenerativo para sociedade tanto na perspectiva das estruturas sociais, como para a sociabilidade na perspectiva das virtudes subjetivas humanas. Dado fenômeno, no Brasil, tem sua visibilidade e experiências principalmente em períodos autoritários, não tão aprofundado como nas experiências europeias (ou, de Israel de Benjamin Netanyahu) em forma de Estado fascista, mas avançando no esteio de consecutivas crises políticas-institucionais, desinformação e impunidade.

Que se debelam principalmente em anos eleitorais, das quais é a segunda eleição que no período democrático recente se apresentem dois candidatos, pai e filho, de extrema direita, com discurso e comportamento fascistóide. Onde dada popularidade revela uma sociedade doente, moralmente e politicamente, motivo pelo qual justifica-se tecer algumas notas sobre o fascismo.

Para compreendê-lo, e dialogando com diferentes autores, é necessário analisar os fatores políticos e econômicos que o enredam, pois, em síntese, conforme demonstrado por Nicos Poulantzas (1977), o fascismo não é um evento isolado ou uma “anomalia” em um determinado momento da história. O fascismo está presente politicamente a todo momento, como uma “velha toupeira capitalista”, para um diálogo com a expressão de Luiz Gonzaga Belluzzo (2013).

Com fortes condições de emergir enquanto “sistema” no âmbito do poder, ao buscar coagir o grande capital e tomar de assalto o Estado. Via evolução de governos de extrema direita ou por golpe “revolucionário”, ainda que não tenha um projeto de sociedade. Sendo fomentado, geralmente, em um movimento de massa, invocando o extremismo ideológico ao tempo que neutraliza o debate público ao deslegitimar as representações políticas democráticas e progressistas.

Dessa maneira, é importante compreender o fascismo como um ente do capitalismo, em que as crises políticas e econômicas o favorecem. Uma das referências para tal assertiva é o bloco histórico no entre guerras mundiais, novamente como demonstra Nicos Poulantzas (1977), que a transposição do capitalismo concorrencial para capitalismo monopolista gerou as condições perfeitas para o imperativo do fascismo.

Não sendo, também, algo gratuitamente de caráter cultural, com viés nacionalista, segundo William Reich (1974) antes age sobre os indivíduos uma psicologia das massas à procura da salvação, e que tem como consequência os piores e nefastos modelos de segregação social, a exemplo do “supremacismo”. Possuindo o significado em síntese que o fascismo absorvido pela psicologia das massas “somatório de todas as reações irracionais do homem médio (….) atitude emocional básica do homem oprimido da civilização autoritária da máquina (hoje, na civilização autoritária digital) com sua maneira mística e mecanicista de encarar a vida” (Reich, p.11, 1974).

Neste sentido, a própria terminologia de “nacional-socialismo” utilizado pelo partido de Adolf Hitler é contraditória, e como explicação tem o fato de o fenômeno social do nazismo alemão ter sido antecedido pela Constituição de Weimar, que perdurou entre 1919 e 1933, considerada como uma constituição social pleiteante de garantia de direitos sociais e humanos diante da devastação da Alemanha no período entre guerras mundiais.

Pairava sobre aquela sociedade uma mobilização social com grandes anseios por soluções humanitárias e que acabou sendo utilizada e dominada pelo partido nazista, hitlerista, para a defesa da estatolatria, através do direcionamento daquele paradoxal senso comum circunscrito pela inconformação, desinformação e pelo desespero socioeconômico.

Theodor Adorno (2019), por exemplo, demonstra que a personalidade autoritária se serve de conjunto de elementos que em última instância deslegitimam a política como instituição de solução das questões da sociedade. Através da formatação de um padrão cultural voltado para a distopia política, confinada à burocracia, influenciando indivíduos transtornados com um certo “complexo de usurpação” nas relações sociais e de trabalho, no qual seus objetivos no tempo livre (ou de recreação) se voltam todo para a família, não tendo qualquer perspectiva de mudança social efetiva.

Segundo o autor, um importante agente de coerção seria a mídia hegemônica, se referindo a ela da seguinte maneira: “Esse determinante pode ser chamado de nosso clima geral e, mais particularmente, da influência ideológica da maioria dos meios de comunicação sobre as pessoas para moldar a opinião pública” (Adorno, p.342, 2019).

O formato dessa centralidade do indivíduo na família tradicional levaria a um certo moralismo, ao qual William Reich (1974) discorre sobre o processo da repressão sexual na moldagem do pensamento social (e distinção) e elabora o conceito de “economia sexual”. Para o autor, a coerção pela psicologia de massas autoritária condiciona ao que seria as relações amorosas legítimas, fazendo com que os indivíduos internalizem recalques, num efeito estritamente de restrição cognitiva que se revela de forma emotiva e sentimental.

Demonstra como exemplo de submissão moral, na questão de gênero, o machismo, seja pelo voto, seja por princípios, em determinados contextos históricos, especialmente na Alemanha nazista. E na questão racial, o racismo, o fato de que na ideologia nazista a raça ariana seria a raça originária da humanidade, e por efeito e critério da transmutação do evolucionismo biológico para o social, baseado numa especulação “social darwinista”, seriam superiores, o que justificaria reaver todos os territórios ocupados por outras raças. Assim, o Estado serviria somente ao desejo imperialista, no âmbito territorial, e, para ordem social, no âmbito doméstico.

Como na maioria das reflexões que tratam da psicologia das massas no “estado de fascismo”, em especial as de Reich, a base teórica é a psicanálise proposta por Sigmund Freud, que a partir da obra Psicanálise das massas e análise do eu (publicada em 1921), que teoriza sobre a influência do social, ou dos grupos sociais, no indivíduo. A análise parte das manifestações sociais, mais especificamente, do “comportamento das multidões” em que geralmente o indivíduo é levado a apoiar ou se deixar influenciar acriticamente, vangloriando a autoridade, embasando discursivamente o extremismo e defendendo com eufemismo a força e a violência.

Tal condição comportamental, estaria relacionada à psicologia social, que Freud (2007) chama de “pulsão social”, promovida por uma maioria social de grupo de indivíduos, ou seja, por uma “massa”. Frente a qual o comportamento individual, geralmente frustrado pela repressão sexual, é alterado, se inserindo e sendo sobreposta, por fim, à massa, engajando-se no conservadorismo por serem resistentes ao progresso sociocultural. E num segundo momento o indivíduo passa a se alinhar de modo organizado às ideias de um partido fascista.

Quanto a partidos políticos, de feitio fascista, Caio Bugiato (2022) faz uma síntese do processo de consolidação do partido fascista dialogando teoricamente com Nicos Poulantzas, na qual é possível compilar que a crise política extremada gera uma “força social” de atração da pequena burguesia para aliança com a grande burguesia, frente à classe trabalhadora.

O contexto teria a seguinte evolução: de prevalência de uma das frações da classe dominante no bloco de poder (fração hegemônica); prevalência do capital monopolista; ascensão da polícia política; e perda de autonomia dos aparelhos ideológicos (Poulantzas dialogando com Althusser).

E o partido de massa (fascista) se efetivaria em um processo de pelo menos quatro etapas: na primeira, um partido de massa da pequena burguesia apoiado pelas frações da grande burguesia; na segunda, um partido de massa incorporado das frações da grande e da pequena burguesia; na terceira, um partido fascista em prol da fração burguesa hegemônica no poder; e na quarta, um partido fascista com certa autonomia em relação aos interesses da fração hegemônica, mas os garantindo a longo prazo, sendo a pequena burguesia a detentora do Estado.

De alguma forma o fascismo deixa evidente as tensões e interesses entre classes sociais, bem como, a ausência do pensamento crítico associado a uma visão de mundo mais abrangente pelo indivíduo. Pierre Bourdieu (2008), ajuda a decifrar tais tensões quando destaca o conservadorismo dos valores e princípios da pequena burguesia, e demonstra que há um certo facciosismo nas classes dominantes quanto a relação/posse diferenciada entre capital econômico e capital cultural.

A condição da pequena burguesia da não segurança financeira, simultaneamente, à posição de proprietários os colocaria na posição de valoração “moral” das conquistas materiais individuais numa lógica, segundo Pierre Bourdieu (2008, p. 426), de um “estilo de vida dominante” e “com suas próprias certezas”, porém com ausência do capital cultural, adquirindo posições reacionárias no âmbito cultural e conservadores no âmbito político.

Ou seja, em síntese, liberais na economia e conservadores nos costumes. O autor demonstra, ainda, a “classificação da realidade” através do senso comum (incluindo valores autoritários), pelas camadas populares, fomentado dentre outras instituições, do Estado, especialmente no sistema de ensino enquanto indutor do comportamento via “conformismo lógico” (Pierre Bourdieu dialogando com Émile Durkheim). E que está dialeticamente relacionada à subalternidade da classe trabalhadora, ou, ao “chocar do ovo da serpente” (Barbosa, 2022).

No Brasil, a eleições para presidência, para governos de estados e para o parlamento federal se aproximam e as pesquisas reforçam a tendência definitiva da extrema direita como opção predominante da fração política conservadora. Dada opção, atraente para as frações da direita (não extremadas), revela o caminho com maiores chances, e oportuno para a disputa do poder.

Enquanto, noutro plano, para a extrema direita representa a possibilidade de eleger alguém com princípios fascistóides, e tosco o suficiente para burlar e atropelar quaisquer leis e instituições democráticas. Entre outras intenções, a de amenizar e/ou retirar a punibilidade dos golpistas do 8 de janeiro – os inconformados com a derrota eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) nas urnas.

Dada a situação, e mais explicitamente desde 2016, vem se demonstrando que o modelo de fazer política da extrema direita brasileira busca suplantar o Estado democrático de direito, com o incremento de subestimar a inteligência brasileira. Para isso, apostam e alimentam um senso comum com a desinformação, que se acentuam nas eleições. E acabam por produzir, somado ao fato do endividamento da população, o ato subliminar do compromisso do voto conservador com a intransigência antiética e da impunidade, servindo a esse eleitor como um subterfúgio à própria ignorância, fazendo do arremedo o desejo pela sublevação ou retroalimentação de um “mito” salvador.

Porém, e que serve de otimismo, é que a aposta na ignorância contrasta com inteligência das práticas sociais que produzem conhecimento. Na pandemia do Covid-19, dado fenômeno social ficou evidente, dando a vitória eleitoral em 2022 para o conhecimento (para a cultura, para a ciência e para a vida).

Pois, para além do importante papel das instituições democráticas, a população percebeu a necessidade da prevenção e da ação coletiva como meio de salvaguardar não somente a própria vida, mas também a do próximo. Incorporando direta ou indiretamente uma posição política de consciência humanitária (e cidadã), ao tempo que identificou as vulnerabilidades sociais, mas também sua própria força popular. A doxa (enquanto crença popular) nunca foi tão proeminente para o extremismo, que isso se revele para a defesa da vida democrática.

•        Eleição 2026: o fascismo que nos assola

Tenho observado que muitas pessoas têm dificuldade para compreender o que é o fascismo, o que é compreensível, pois os fascistas empregam técnicas para iludir e enganar a classe trabalhadora, como fez uma deputada bolsonarista, ao se pintar de preto (blackface), no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo, e, assim, tentar assumir o eleitorado que, no passado recente, foi da condenada Zambelli.

O objetivo deste texto é apontar as ações fascistas em curso no Brasil, em decorrência dos acontecimentos que levaram ao julgamento daqueles que atentaram contra a Constituição, a democracia e as instituições e promoveram atos golpistas que culminaram no 8 de janeiro de 2023, que pretendiam revogar a atual ordem constitucional e introduzir uma ditadura, que poderia ser ainda mais nociva do que a ocorrida no período de 1964-1985.

Este tema deverá ser retomado nas eleições deste ano, uma vez que o fascismo está presente no Brasil, pelo menos desde o início do século XX. Porém, agora, encontra-se em plena atividade e não demonstra constrangimento em manifestar seu ideário livremente pelos espaços públicos e institucionais, como nos governos, parlamentos, tribunais e Forças Armadas e de segurança pública.

O movimento político-ideológico do fascismo está estruturado no Brasil pelo menos desde os anos 1930 e foi representado organicamente, no século passado, pelo partido da Ação Integralista Brasileira, liderado por Plínio Salgado, que chegou a ter mais de um milhão e trezentos mil filiados, naquela época.

Ou seja, era constituído como organização política estratificada pela sociedade, que encontrou seu apogeu político durante a ditadura de 1964-1985, principalmente, mas também esteve fortemente representado na gestão que controlou o governo federal de 2019-2022, que resgatou a retórica “Deus, pátria e família”, copiada do nazifascismo europeu.

Importante deixar claro que o fascismo é produto da ordem liberal capitalista, que, por sua gênese, é incapaz de proporcionar paz, bem-estar e distribuição mínima da riqueza na sociedade contemporânea, marcada pela forte concentração de capital, que conduz à exploração, expropriação, escravização, destruição, guerras etc. e só promove a infelicidade e a morte de milhares de pessoas, sempre oriundas da classe trabalhadora.

Para manter o quadro de injustiça e assegurar sua sobrevivência como classe dominante, a burguesia emprega o fascismo como a ideologia capaz de induzir a classe trabalhadora a decidir contra os próprios interesses, jogando trabalhadores contra trabalhadores.

Assim, a burguesia lança falsas lideranças, que se dizem contrárias à ordem liberal, sendo, na verdade, suas defensoras; e se dizem antissistema para arregimentar trabalhadores desiludidos, ressentidos, que não compreendem as causas da desigualdade criada, alimentada e mantida pela classe dominante.

Então, os cooptados pelo fascismo alardeiam que tudo está errado (mas não conseguem apontar os reais causadores da desordem), que a sociedade está tomada pela corrupção (promovida pela própria classe dominante) e que há um processo de depravação dos valores morais (quando são os muito ricos que não aceitam limites para satisfazer sua devassidão, como demonstrado pelos arquivos do caso “Epstein”).

Ao mesmo tempo, essa massa de trabalhadores é manipulada pelas lideranças fascistas (com o apoio da classe dominante) e levada a atacar as organizações políticas dos trabalhadores que lutam por melhores condições de vida para todos.

Ortega y Gasset definiu esse integrante da classe trabalhadora cooptável pelo fascismo, chamando-o de homem massa, descrito como sendo “um tipo de homem feito à pressa, montado apenas sobre umas quantas e pobres abstrações (…) previamente esvaziado da sua própria história, sem entranhas do passado, por isso, dócil a todas as disciplinas chamadas ‘internacionais’. (…) Daí que esteja sempre na disponibilidade de fingir ser qualquer coisa. Só tem apetites, crê que só tem direitos e não crê que tem obrigações: é um homem sem a nobreza que obriga – sine nobilitate – snob.”

É para esse tipo de pessoa (a maioria oriunda da classe média, constituída de pequenos e médios comerciantes, “empreendedores” de si mesmo, e produtores rurais, que vaga sem esperança, trabalho ou sonhos, em decorrência da pobreza gestada na exploração liberal capitalista) que o bolsonarismo se dirige no Brasil.

Paradoxalmente, é nesse grupo que o fascismo encontra o apoio necessário para cumprir seu papel, que, no século XXI, consiste em implantar duras medidas econômicas neoliberais, por exemplo, o aprofundamento das reformas previdenciária e trabalhista (como faz Milei na Argentina) para satisfazer os interesses da classe dominante.

Assim, o fascismo é utilizado para reprimir violentamente os movimentos sociais e os imigrantes (como faz Donald Trump nos EUA), para desmobilizar os sindicatos e partidos progressistas, bem como para restringir as liberdades individuais e a democracia. Tudo isto com o objetivo de introduzir uma ditadura, como pretendiam fazer aqui, caso fossem bem-sucedidos no golpe do 8 de janeiro de 2023.

Aparentemente, a massa cooptada não tem a necessária capacidade cognitiva para compreender que o denominado neofascismo não defende os interesses nacionais, pois atua em favor do imperialismo e da classe dominante financista universal, liderada pelos fundos de investimentos, grandes bancos e conglomerados.

No período atual, observamos a crescente influência das big techs, que passaram a exercer um efetivo controle sobre a vontade dos indivíduos. As chamadas democracias modernas são ativamente patrulhadas e controladas pelo algoritmo, ferramenta tecnológica empregada para favorecer o aumento da concentração de capital em favor da classe dominante, instituindo um estado de exceção permanente, como esclarece Giorgio Agamben.

Nos dias de hoje, a tecnologia digital está sendo usada para impor um modo de vida em que robôs policiam e manipulam a vontade e os desejos dos integrantes das sociedades. É por isso que todo indivíduo “precisa” ter acesso a um dispositivo eletrônico móvel, que serve de canal por onde são propagadas as mentiras que sustentam a manutenção da ordem liberal capitalista.

Torna-se cada vez mais difícil para as pessoas compreenderem que estão enredadas numa teia cibernética, num mundo de faz de conta, em que prevalecem as manipulações e falsificações, muito bem utilizadas por Donald Trump, Bolsonaro, Milei e outros aprendizes das lições de Hitler e Mussolini.

O domínio da tecnologia é a arma que o neofascismo emprega hoje para disseminar a mentira, que alimenta o ressentimento das massas e distorce sua percepção da realidade, transformando-as, então, nas ferramentas utilizadas para manter os interesses da classe dominante e aprofundar ainda mais a dominação, a desigualdade e a desesperança, num eterno círculo vicioso.

A retomada do tema é urgente, pois constitui o ponto central da eleição de 2026, quando os fascistas tentarão se reposicionar politicamente para tomar o poder, com apoio do imperialismo, do latifúndio e do crime organizado, além de muito dinheiro para manipular o algoritmo.

Por isso, o enfrentamento dessa nova empreitada fascista, organizada pela classe dominante para tentar retomar o governo federal e interromper mais uma vez o processo de desenvolvimento nacional, exige união e disposição de todos os integrantes e simpatizantes do campo progressista, para que sejamos capazes de, definitivamente, superar e vencer o fascismo no Brasil.

 

Fonte: Por André Lemos e Máximo Masson, em A Terra é Redonda/Sengerj.org

 

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