quinta-feira, 23 de abril de 2026

Será a Nicarágua o próximo país na mira de Trump?

No fim de 2018, o conselheiro de segurança nacional do primeiro mandato de Donald Trump, John Bolton, referiu-se a Venezuela, Cuba e Nicarágua como a "tríade da tirania", lançando as bases da posição de Washington em relação à região. Sete anos depois, com a Venezuela sob intervenção após a captura de Nicolás Maduro e Cuba enfrentando grave crise econômica e escassez de combustíveis devido às pressões dos Estados Unidos, os olhares parecem se voltar para a Nicarágua.

Talvez isso explique por que, na quinta-feira (16/04), o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou sanções contra Daniel e Maurice Ortega Murillo, filhos do casal presidencial nicaraguense Daniel Ortega e Rosario Murillo. Os irmãos são acusados, ao lado de outras cinco pessoas, de terem ligações com uma rede de extração de ouro que financiaria o regime. "Durante o primeiro mandato, chamaram esses três países de 'tríade das tiranias'. Com seu retorno ao poder e seu maior foco no hemisfério ocidental, o governo Trump parece disposto a abordar os regimes desses países, embora com objetivos que nem sempre são claros", diz à DW Adam Ratzlaff, especialista em relações internacionais e fundador e diretor executivo da Pan-American Strategic Advisors.

O cientista político nicaraguense Manuel Orozco, do Diálogo Interamericano, explica à DW que a ideia de que "depois de Cuba vem a Nicarágua é uma perspectiva mais tautológica do que o reflexo de um plano organizado". Para ele, as prioridades dos Estados Unidos na América Latina são Cuba e Venezuela, e depois o Haiti. "A Nicarágua também importa, mas as ações políticas são realizadas levando em conta as condições internas do país, não em relação a uma lista de espera", ressalta.

<><> A Nicarágua "não desapareceu do mapa"

Tiziano Breda, analista para a América Latina e o Caribe da Armed Conflict Location & Event Data (Acled), afirma que "a mensagem que os Estados Unidos querem transmitir com essas sanções é que, embora claramente tenham outras prioridades no Irã, na Venezuela e em Cuba, a Nicarágua não desapareceu do mapa, mesmo sendo o último elo dessas tentativas de mudança de regime".

O especialista ressalta que "essas sanções aos filhos vêm acompanhadas de sanções a figuras do governo e empresas ligadas ao setor de mineração", e que a ameaça paira sobre Manágua, pois o governo está na mira caso decida "não atender às exigências de Washington".

"O governo Trump mostrou que está disposto a intensificar a pressão tanto sobre aliados quanto sobre adversários. O foco em Cuba e na Venezuela começou aumentando a pressão contra funcionários do regime e seus aliados. Embora as novas sanções indiquem que Washington está aumentando a pressão, a importância dessas sanções específicas dependerá de como o regime reagir", observa Ratzlaff.

<><> As vantagens do perfil discreto

"As sanções fazem parte de um processo contínuo", diz Orozco, que sustenta que os Estados Unidos têm sido muito proativos em relação ao regime de Ortega. "Implementaram várias sanções e expressaram suas críticas à ditadura, exigindo o fim da repressão, o fim de seus laços com forças 'malignas' como a China e a redução da migração", afirma.

Ao mesmo tempo, diz o cientista político nicaraguense, Manágua espera que os Estados Unidos se desgastem em outras frentes, como Venezuela, Oriente Médio, Ucrânia ou Cuba, e que isso diminua a pressão sobre a Nicarágua.

"A captura de Nicolás Maduro na Venezuela em 3 de janeiro causou um choque em todo o hemisfério e sinalizou uma mudança drástica nos cálculos de risco. Como resultado, os Ortega têm tentado manter um perfil mais discreto. No entanto, isso não significa que o regime não seja mais repressivo, mas que está evitando elevar o nível de confronto e o risco de se tornar um alvo prioritário do governo Trump", acrescenta Ratzlaff.

<><> Haverá um efeito dominó?

Tiziano Breda afirma que, se Washington tivesse sucesso e conseguisse alinhar os interesses de Havana com os dos Estados Unidos, é "bastante provável que ocorra um efeito dominó e que Washington se sinta encorajado a buscar outra mudança no último país que resta na América Latina em total oposição ideológica".

Embora, como sempre, tudo dependa de outros fatores. Por exemplo, aponta Breda, se as tensões no Irã e em Cuba continuassem e Trump percebesse que as eleições de meio de mandato estão em risco. Nesse caso, "é menos provável que ele se aventure em outro exercício de intervenção".

Ratzlaff concorda. "Dado o conflito no Irã, há dúvidas sobre até que ponto o governo poderá voltar a se concentrar na região. No entanto, tanto o secretário de Estado Marco Rubio quanto aliados-chave no Congresso estão muito interessados em desmantelar os regimes de Cuba, Nicarágua e Venezuela. A questão é se outras realidades geopolíticas desviarão a atenção da América Latina."

¨      Trump mira na América Latina. Por Nick Turse

Enquanto o governo Trump continua a bombardear o Irã, um alto funcionário do Pentágono revelou que as guerras dos EUA no hemisfério ocidental também estão se expandindo, e revelou a existência de um projeto chamado “Operação Extermínio Total“. Os ataques contra os cartéis de drogas latino-americanos são “só o começo”, segundo afirmou à Comissão de Serviços Armados da Câmara dos EUA o subsecretário interino de guerra para defesa nacional e questões de segurança das Américas, Joseph Humire. Humire sinalizou que estão em vista muitos outros ataques contra a América Latina. Os comentários foram feitos no dia seguinte a mais uma insinuação do presidente Donald Trump sobre a possível anexação de Cuba aos Estados Unidos. “Acredito que serei a honra de – terei a honra de tomar Cuba”, disse Trump, na semana passada. “Se eu libertá-la, ou tomá-la, acho que posso fazer o que quiser com ela.”

Humire anunciou que o Departamento de Guerra apoiou “ações cinéticas contra alvos de cartéis ao longo da fronteira entre Colômbia e Equador” – o que é jargão do Pentágono para se referir aos ataques de 3 de março contra “organizações classificadas como terroristas”, que o Intercept dos EUA já noticiou. “O esforço conjunto, denominado ‘Operação Extermínio Total’, é o início de uma ofensiva militar do Equador contra organizações criminosas transnacionais com o apoio dos EUA”, ele afirmou. A campanha dos EUA e do Equador já resvalou na Colômbia, depois que uma plantação foi atingida por “efeito ricochete” em 3 de março, o que deixou uma bomba não detonada de 230kg na região da fronteira colombiana. Em resposta a um pedido de comentários, o Comando Sul (SOUTHCOM), das forças armadas dos EUA, encaminhou ao Intercept um comunicado do Ministério da Defesa do Equador na rede X, confirmando que a bomba caiu na Colômbia. Humire se referiu aos ataques como “ataques terrestres conjuntos”, e afirmou que os EUA estavam fornecendo ao Equador “recursos que eles não teriam de outra forma”. Desde então, os EUA já realizaram pelo menos mais um ataque em parceria com o Equador. “Sim – como o @POTUS [presidente dos EUA] afirmou – também estamos bombardeando Narco Terroristas (sic) em terra”, escreveu na rede X em 6 de março o autodenominado secretário da Guerra, Pete Hegseth, anunciando o novo ataque. Dias depois, em um relatório dos poderes de guerra que anunciou a entrada das forças armadas dos EUA em “hostilidades” naquele país, a Casa Branca informou ao Congresso sobre “ação militar praticada em 6 de março de 2026 contra instalações de narcoterroristas afiliados com uma organização classificada como terrorista”. 

Os ataques no Equador também integram e ampliam a Operação Lança do Sul: a campanha ilegal de ataques das forças armadas dos EUA contra barcos no Mar do Caribe no no leste do Oceano Pacífico. Os EUA realizaram 46 ataques desde setembro de 2025, destruindo 48 embarcações e matando quase 160 civis. O ataque mais recente, em 19 de março, no Pacífico, matou mais duas pessoas e deixou um sobrevivente. O governo Trump afirma que suas vítimas são integrantes de pelo menos um dos 24 ou mais cartéis e facções criminosas com as quais afirma estar em guerra, mas que se recusa a nomear. “Esse governo mal fala do direito constitucional ou internacional que rege o uso da força. Mas essas regras existem por um motivo”, diz Rebecca Ingber, ex-advogada do Departamento de Estado dos EUA, atualmente professora na faculdade de direito Cardozo Law School, em Nova York. “Nos precipitarmos na guerra pelos caprichos de um homem é o exato oposto do que a Constituição exige.”

O general Francis Donovan, comandante do SOUTHCOM, disse aos parlamentares na semana passada que “os ataques aos barcos não são a solução”, mas sinalizou a possibilidade de uma campanha ainda maior. “O que estamos buscando agora pode ser uma extensão da Lança do Sul, mas realmente um processo de campanha contra os cartéis, que coloque total atrito sistêmico em toda essa rede”, disse ele aos integrantes da Comissão de Serviços Armados do Senado dos EUA. “Acho que esses ataques cinéticos [aos barcos] são apenas uma pequena parte disso.” Humire não soube dizer quantos ataques terrestres estavam sendo realizados em quase 20 países da América Latina e do Caribe. “Não tenho o número exato”, ele respondeu, quando perguntado. Mas quando o deputado Adam Smith, do Partido Democrata de Washington, líder da minoria na Comissão de Serviços Armados da Câmara, perguntou se o Departamento de Guerra “estaria se mobilizando para muito mais ataques terrestres”, Humire respondeu: “sim, deputado”. O gabinete do secretário da Guerra não respondeu a um pedido para esclarecer o tamanho provável desse aumento.

Humire afirmou que a campanha dos EUA e do Equador está “ditando o ritmo para as operações regionais com foco em dissuasão contra a infraestrutura dos cartéis em toda a América Latina e no Caribe”. A palavra “dissuasão” se tornou um eufemismo popular no Pentágono para o uso de ataques letais, em contraste com as iniciativas anteriores do governo dos EUA para mobilizar meios econômicos, diplomáticos e militares para convencer os adversários a abandonar um curso de ação específico. “A dissuasão tem um efeito de sinalização sobre os narcoterroristas, e aumenta os ricos de seus movimentos”, alegou Humire. Em janeiro, os EUA atacaram a Venezuela e sequestraram o presidente do país, Nicolás Maduro. Eles agora controlam o país por meio de um governo fantoche. Os procuradores federais teriam elaborado uma denúncia criminal contra a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, ameaçando acusá-la de corrupção e lavagem de dinheiro caso se recuse a cumprir os desmandos do governo Trump. Trump também insinuou recentemente a possibilidade de transformar a Venezuela no 51º estado dos EUA.

O governo Trump estaria supostamente realizando uma operação de mudança de regime em Cuba, tentando derrubar o presidente Miguel Díaz-Canel como requisito para as negociações entre os EUA e o país insular. Dizem que as autoridades dos EUA preferem Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, de 94 anos, ex-presidente cubano e irmão de Fidel, que governou Cuba de 1959 a 2008. Na semana passada, no X, Díaz-Canel mencionou os planos dos Estados Unidos para “tomar o país”, e disse que seriam recebidos com “resistência inexpugnável”. “Estou segurando Cuba”, disse Trump recentemente, comentando que sua dispendiosa guerra de mudança de regime no Oriente Médio é a prioridade no momento. “Vamos resolver o Irã antes de Cuba.” Trump impôs um bloqueio de petróleo a Cuba em janeiro, mergulhando o país em uma crise humanitária. A rede elétrica da ilha já entrou em colapso três vezes este mês, e um dos apagões durou mais de 29 horas. Especialistas em direitos humanos da ONU repudiam o bloqueio imposto por Trump a Cuba como “uma violação grave ao direito internacional e uma séria ameaça a uma ordem internacional democrática e igualitária”.

Trump, que vem falando reiteradamente em “tomar” Cuba, é o mais recente de uma longa série de presidentes dos EUA que tentaram derrubar o governo cubano. Durante a Guerra Fria, a CIA lançou a desastrosa invasão da Baía dos Porcos, em 1961. A agência também tentou assassinar Fidel Castro pelo menos oito vezes. Os EUA também realizaram uma campanha secreta para bombardear usinas de açúcar e incendiar canaviais em Cuba, entre outros atos de sabotagem. Após o desastre da Baía dos Porcos, o Pentágono preparou planos ultrassecretos para abrir terreno para um ataque contra a ilha. No final de 1962, o Estado-Maior Conjunto fez circular um memorando ultrassecreto intitulado “Justificativa para a intervenção militar dos EUA em Cuba”. Ele descrevia operações de bandeira falsa que poderiam ser usadas para justificar uma invasão dos EUA, como um plano para “afundar um barco cheio de refugiados cubanos (reais ou simulados)” e até encenar um incidente semelhante ao que desencadeou a guerra hispano-americana – afundar um navio próprio em águas cubanas e atribuir a culpa a Cuba. Outros planos de ações secretas dos EUA na ilha priorizavam especificamente os ataques contra a rede elétrica de Cuba.

Em resposta a uma pergunta sobre o possível envolvimento do Estado-Maior Conjunto em ações semelhantes atualmente, a porta-voz, major Annabel Monroe, encaminhou o Intercept ao Comando Sul, que por sua vez encaminhou ao Departamento de Estado, que não quis se manifestar. Humire disse que o Departamento de Guerra “atualmente está focado em operações de dissuasão conduzidas por parceiros”, mas não descartaria ataques unilaterais dos EUA na América Latina. Segundo ele, além do Equador, os EUA firmaram acordos com outros 17 países parceiros no hemisfério ocidental, como parte da chamada Aliança das Américas contra os Cartéis. Esse órgão internacional, formalmente anunciado por Trump em sua cúpula do Escudo das Américas, no início do mês, terá como foco “operações bilaterais e multilaterais contra cartéis e organizações terroristas”.

Perguntaram a Humire se algum dos 18 países estava preocupado com questões de soberania em relação à possibilidade de que os EUA realizem ataques em seu território. “Os integrantes da aliança assinaram especificamente uma declaração conjunta de segurança, mencionando que querem esse apoio e a maioria deles está procurando por isso”, ele respondeu. Mas a declaração enxuta que eles assinaram é espantosamente vaga, e oferece poucos elementos substanciais sobre o tema. Humire indicou que os EUA haviam se valido da diplomacia das canhoneiras na Venezuela para ameaçar Cuba e ajudar a “obter conformidade na Nicarágua”, além de “conduzir o Caribe a uma direção favorável aos interesses estadunidenses”.

Vazamentos oficiais recentes sobre a possível apresentação de denúncia pelos EUA contra o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, por tráfico de drogas – a justificativa oficial para o sequestro de Maduro, e supostamente o meio usado para manter na linha sua sucessora, Rodríguez – dão a entender que os Estados Unidos podem empregar essa tática para serem favorecidos, ou como pretexto para uma ação militar. (Petro nega qualquer vínculo com o tráfico de drogas.) “Parece que a cabeça de Petro está a prêmio”, disse ao Intercept um ex-funcionário de alto escalão da defesa, que falou sob condição de anonimato em razão de seu atual emprego. A fonte diz que vazamentos sobre a possível denúncia de Petro, somados ao ataque conjunto entre EUA e Equador, que causou tensões na fronteira entre os países, parecem indicar cada vez mais uma campanha coordenada para semar “discórdia”, e talvez, conflito. Em janeiro, questionado sobre a possibilidade de atacar a Colômbia, Trump respondeu: “parece bom para mim”.

Os ataques dos EUA na fronteira entre Colômbia e Equador aconteceram logo na sequência da criação de uma presença permanente do FBI no Equador, unindo-se a agentes da Agência Antidrogas e ao Departamento de Segurança Nacional. Logo antes dos ataques, Donovan viajou para Quito, capital do Equador, para se reunir com o presidente, Daniel Noboa, e oficiais equatorianos de defesa de alto escalão.  Em agosto do ano passado, o tenente-coronel Phillip Vaughn – comandante de uma Força-Tarefa Expedicionária que supervisionava Operações Especiais da Força Aérea no Caribe e na América do Sul – coordenou encontros para aumentar a “interoperabilidade entre as forças dos EUA e do Equador” para “combater agentes ilícitos atuando na fronteira norte do Equador” com a Colômbia, incluindo “planejamento de cenários operacionais, execução de procedimentos de apoio aéreo aproximado” e “tópicos diversos sobre o apoio ao Controle Aéreo da Linha de Frente”, o que se relaciona com a definição de alvos e os ataques aéreos.

A mobilização dos Estados Unidos no hemisfério ocidental faz parte do que Trump e outros vêm chamando de “Doutrina Donroe“, uma corruptela da Doutrina Monroe, de 1823. Enquanto a política do presidente estadunidense James Monroe tentava supostamente impedir que a Europa colonizasse e interferisse no hemisfério ocidental, Trump vem usando sua variante como uma licença para que os Estados Unidos façam exatamente isso. A Estratégia de Segurança Nacional, divulgada no final do ano passado, decreta o “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, uma “potente restauração do poder e das prioridades americanas”, fundado no “reajuste de nossa presença militar global para enfrentar ameaças urgentes em nosso hemisfério”. Humire definiu o “perímetro de segurança imediato dos Estados Unidos” como “do Alasca à Groenlândia no Ártico ao Golfo da América e Canal do Panamá e países vizinhos”. Trump também já ameaçou anexar a Groenlândia (e possivelmente a Islândia), transformar o Canadá em um estado, e realizar ataques militares no México. Humire detalhou ainda os esforços para pressionar o Panamá a cortar os laços com a China para garantir acesso ao canal, de propriedade do Panamá, mas que mesmo assim ele chamou de “ativo nacional” dos EUA.

Durante o segundo mandato, além de suas guerras no hemisfério ocidental, Trump também lançou ataques contra o Irã, o Iraque, a Nigéria, a Somália, a Síria e o Iêmen – na maioria, locais de conflito dos EUA durante a guerra ao terror. Smith, o líder da minoria na Comissão de Serviços Armados da Câmara, disse a Humire que as guerras de Trump nas Américas também pareciam estar se transformando em um novo “conflito eterno”, sem objetivo claro, nem “ponto de chegada”. Questionado sobre o “nível de realização” que seria necessário para “interromper a ação cinética”, Humire respondeu com um jorro de palavras sobre segurança de fronteira, terrorismo e cartéis. Quando Smith interrompeu para esclarecer se os ataques aos barcos continuariam intocados, Humire respondeu, confusamente: “não, correto”.

¨      EUA ameaçam "agir sozinho" em países latinos-americanos

Em meio aos ataques contra o Irã, o governo dos Estados Unidos firmou acordo com 16 países latino-americanos para “combate aos cartéis” na região e ameaçou “agir sozinho” na América Latina “se necessário”, o que violaria a soberania das nações latino-americanas sobre o próprio território. "Os Estados Unidos estão preparados para enfrentar essas ameaças e partir para o ataque sozinhos, se necessário. No entanto, nossa preferência — e o objetivo desta conferência — é que, no interesse deste hemisfério, façamos isso juntos; com vocês, com nossos vizinhos e com nossos aliados", disse Hegseth. O secretário do governo Trump enfatizou que a “coalizão” firmada na Flórida expressa a política do Corolário Trump à Doutrina Monroe. Incluída na Estratégia de Segurança Nacional, anunciada em dezembro pelos Estados Unidos, a política reafirma a doutrina criada em 1823 e prega a “proeminência” de Washington sobre as Américas.

<><> "Ameaça gravíssima"

O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra Ronaldo Carmona disse à Agência Brasil que a fala de Hegseth é uma "ameaça gravíssima". "Pois sob Trump, as ameaças costumam se materializar (vide Venezuela e agora Irã). Ao evocar a Doutrina Monroe, o faz propondo expurgar a presença de potências extrarregionais das Américas, em uma ameaça explícita à liberdade de ação das nações da América Latina”, comentou.

O pesquisador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) acrescentou que o ingresso de drogas nos EUA deve ser uma tarefa interna ao Estado americano, que tenta “latino-americanizar” a questão como “pretexto” para intervenções abertas no continente, como ocorreu na Venezuela. "É difícil imaginar que as forças de segurança americana não tenham meios para proteger autonomamente suas próprias fronteiras", completou Carmona.  O combate aos cartéis foi a justificativa usada para o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Em seguida, Washington afastou-se do discurso do combate às drogas na Venezuela, priorizando a agenda do comércio petroleiro nas relações com Caracas

<><> Conferência no Comando Sul

Ao explicar a nova doutrina na Conferência da Flórida, o secretário de Defesa Pete Hegseth afirmou que os EUA querem “acesso irrestrito a áreas estratégicas e ao comércio, para que nossas nações possam se industrializar". "Queremos impedir que potências externas ameacem nossa paz e independência em nossa região comum", acrescentou. A Conferência ocorreu na sede do Comando Sul dos EUA, setor das Forças Armadas responsável por monitorar a América Latina e o Caribe. 

Da América do Sul, estavam presentes representantes da Argentina, Guiana, Bolívia, Equador, Paraguai, Chile e Peru. Da América Central, estavam Belize, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Honduras, Jamaica, Panamá e Trinidad e Tobago. O Ministério da Defesa da Argentina informou que, além de uma declaração conjunta que não foi divulgada, foram firmados acordos bilaterais com os EUA. Tais acordos separados teriam permitido “adaptar o marco jurídico de cada nação, como um elemento substancial do que foi acordado”.  O professor Carmona acrescentou que Washington tenta vincular os países latino-americanos aos desígnios estratégicos de Washington, “impedindo-as de manter relações abertas com os vários polos de poder mundial. Trata-se de um constrangimento à soberania inaceitável para a América Latina”.

<><> México e Brasil

Os governos do México e do Brasil têm informado que o combate aos cartéis na América Latina tem que ser feito respeitando a soberania dos países da região. O pesquisador do Cebri Ronaldo Carmona afirma que o Brasil sempre diferenciou as atividades policiais, que seriam usadas para combater o narcotráfico, das atividades de Defesa, ligada à soberania territorial. Porém, os EUA tentam militarizar esse combate às drogas. “O Brasil precisa urgentemente, como uma prioridade nacional, enfrentar com todas as energias, a começar das forças de segurança, as organizações criminosas brasileiras, até para não oferecer pretexto a Washington de utilizá-las com fins de ameaça à soberania brasileira”, completou.

<><> Colômbia

O presidente colombiano, Gustavo Petro, reagiu à declaração do secretário estadunidense, comentando que os EUA “não precisam agir sozinhos para acabar com os cartéis de droga, pois não saberiam como fazê-lo bem. Para destruir os cartéis da máfia, precisamos nos unir”. “Se alguém está interessado em destruir os cartéis, são a Colômbia e a América Latina, onde milhões de pessoas foram assassinadas e onde a democracia foi destruída em regiões que vivem sob o terror", disse Petro. "Portanto, a aliança contra o tráfico de drogas é um Pacto pela Vida e pela Paz, e estamos prontos”, disse em uma rede social.

<><> Equador e Paraguai

O Equador e o Paraguai estão entre os países que mais têm estreitado relação com Washington sob o argumento de combate ao narcotráfico.

Um dia antes da Conferência na Flórida, o Senado do Paraguai aprovou acordo com os EUA que prevê a presença no país de militares enviados por Washington, com imunidade penal para operações no país sul-americano. O projeto ainda precisa de aprovação da Câmara dos Deputados paraguaia.  Também nesta semana, o Equador e os EUA anunciaram operações militares conjuntas contra cartéis de drogas.  Em novembro de 2025, o presidente do país, Daniel Noboa, tentou aprovar, em referendo, a permissão para instalar bases militares estrangeiras no país, mas a consulta foi rejeitada por 60% da população equatoriana que foi às urnas

 

Fonte: DW Brasil/The Intercept/Agencia Brasil

 

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