quinta-feira, 23 de abril de 2026

Moisés Mendes: Os ossos de Bolsonaro e os burros de Milei

É uma crueldade, mas circula na Argentina que todos os pobres não comerão carne de burro, como vêm anunciando alguns jornais, porque não haverá burro para todos. Faltam até burros na Argentina, como faltava osso no Brasil durante o governo de Bolsonaro.

Mas comer carne de burro na Argentina não equivale a raspar osso no Brasil. Porque lá a carne de gado é também simbolicamente a expressão de superioridade e fartura de um povo em relação aos seus vizinhos.

É um drama inédito pela presença do burro — mesmo que os argentinos tenham passado fome a partir de 2001, quando a dolarização chegou ao fim. No ‘corralito’, que bloqueou o dinheiro nos bancos, eles faziam filas para sacar 250 dólares por semana.

No dia 28 de maio de 2002, antevéspera de feriado de Corpus Christi, a população cercou os bancos para tirar o que poderiam não ter mais diante. Alardeavam que, depois da quinta-feira do feriado, tudo podia acontecer, com mais bloqueios.

A Argentina teve cinco presidentes, desde a renúncia de Fernando de La Rúa, no final de 2001. É naquele momento, com o trauma da retenção dos dólares nos bancos, para evitar correrias e quebradeiras, que o argentino desenvolve a síndrome que o domina até hoje.

Não confia mais na moeda nacional e só se protege em dólares, mas com poupança em casa ou em algum lugar que só o poupador sabe. Vem daí a conta segundo a qual a Argentina tem apenas US$ 30 bilhões em reservas. Mas os argentinos guardam US$ 300 bilhões dentro de casa ou em algum esconderijo no país e fora dele.

Os ricos, claro, guardam em contas no exterior. É um dinheiro que não circula pelos bancos. Porque o argentino teme um novo corralito, que sequestre suas poupanças por mais de ano, como aconteceu em 2002.

A carne de burro oferecida como proteína alternativa, na terra dos melhores campos e dos melhores rebanhos, não é folclore. Todos os jornais noticiam que os açougues vendem filé, costela, paleta de burro.

É humilhante. Em 2002, na fila que cercava todo o quarteirão do Banco da Nación, uma mulher com um colar de bolinhas brancas, que assegurava serem pérolas, dizia: “Vocês no Brasil não passarão fome, porque vocês terão Lula”.

E passou a me contar da inveja que passava a sentir, por antecipação, dos brasileiros que naquele ano elegeriam Lula. “Todos aqui nessa fila não dizem, mas têm inveja dos brasileiros”, disse ela.

Acompanhei esse cordão de desesperados naquela noite 28 de maio e fiquei durante uma semana em Buenos Aires, como repórter de Zero Hora. O centro histórico era tomado de protestos de idosos enfurecidos.

Retornei depois à Argentina, no final do ano, e percorri por mais uma semana uma vasta faixa de fronteira com o Brasil e o Uruguai, desde Entre Ríos a Santo Tomé, com o fotógrafo Fernando Gomes.

Me lembro de um delegado de polícia de Concórdia, que nos disse: não entrem nas periferias, porque serão assaltados, não por bandidos, mas por pessoas famintas.

Corremos o risco e entramos. Não sofremos nenhuma agressão, num país em que, principalmente na capital, os índices de criminalidade eram muito mais baixos do que no Brasil. Porque a sociedade argentina, diziam, era mais homogênea.

Hoje, não sei se entraria nos lugares apontados pelo delegado como perigosos e onde circulava, pelo exagero, que as pessoas comiam gatos e ratos. Havia desalento e miséria, mas não ouvimos nenhum relato semelhante aos que, comprovadamente, os jornais publicam agora sobre fome e consumo de carne de burro.

As informações são de que há muito mais fome hoje – como política deliberada, com cortes de programas sociais –, num país abandonado pelo olhar do Brasil, porque a grande imprensa ainda o considera em transição para um milagre libertário.

Os jornais brasileiros repetem, até em editoriais, que a Argentina controlou a inflação e que a recessão, o desemprego e a degradação social de crianças e idosos (que não citam) são o custo a ser pago pelo rigor fiscal e pelo desmonte do Estado.

A Argentina que hoje come carne de burro está pior do que a que vivia da mesada do corralito. E vai perdendo as ilusões com um governo que não é apenas ultraconservador, é uma facção criminosa no poder.

A Argentina retrocede ao que enfrentou em 2002, depois de 10 anos sob a hipnose da dolarização de Carlos Menem e Domingo Cavallo. E que começou a sair da crise com a eleição de Néstor Kirchner, em 2003.

Foram 12 anos de governos peronistas-kirchneristas, com Néstor e Cristina, e depois vieram Mauricio Macri, da nova direita pós-ditadura, e Alberto Fernández, do novo peronismo. Ambos foram desastrosos.

O argentino come carne de burro porque, ao contrário do que diziam, elegeria, sim, um fascista. Anunciado como disruptivo, mas essencialmente fascista, porque o que importava era vencer os peronistas.

Os argentinos sabiam o que Milei significava, como exaltador da ditadura e por seu total desprezo a valores fundamentais. Mas achou que nada disso tinha relevância, se ele resolvesse os fracassos de Macri e Fernández pelo milagre da guerra contra as castas.

O milagre hoje é oferecido nos açougues com a carne de burro, que um fazendeiro decidiu abater e outros decidiram seguir. Porque custa até metade do preço da carne de gado e, dizem, é suportável, se bem feita.

As promessas de extremistas milagrosos elegeram Milei e depois Jose Antonio Kast no Chile e podem eleger até Keiko, a filha de Fujimori, no Peru, enquanto no Brasil Flávio se habilita a enfrentar Lula como ungido pelo pai. Todos sustentados pela farsa do discurso antissistema.

A mulher com o colar de pérolas, que estava na fila do banco da Nación, naquele 28 de maio de 2002, antevia e expressava inveja do Brasil porque Lula seria eleito. Mas não havia como imaginar que, 16 anos depois, Lula seria preso e o Brasil elegeria Bolsonaro.

Era improvável, quase impossível e inimaginável para os argentinos, lá naquele ano de 2002, que um dia eles fossem desprezar tudo o que levavam a sério pelo horror à ditadura e que elegeriam um gângster admirador de ditadores. E que em algum momento, assim como os brasileiros que roeram ossos, iriam comer bife de burro.

•        Bolsonaro ficará dez anos preso caso Flávio perca a eleição, diz Valdemar Costa Neto

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que o resultado das eleições presidenciais de 2026 será determinante para o futuro político e jurídico do ex-presidente Jair Bolsonaro, sugerindo que uma derrota pode prolongar sua permanência na prisão por mais uma década. A declaração foi feita durante um evento do Bradesco BBI, em São Paulo, informou a Folha de São Paulo.

 Valdemar comentou o cenário político ao tratar de conflitos dentro do partido e destacou a necessidade de unidade para enfrentar o próximo pleito. Ele mencionou desentendimentos recentes entre o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira, classificando este último como o “maior fenômeno” político do país.

Durante o evento, o dirigente detalhou planos para tentar pacificar as divergências internas. “Dia 19 estou indo para Miami para encontrar com o Eduardo. Conversar com cada um, para que a gente não tenha desentendimento. Para que a gente faça com que tudo corra bem. Porque, se nós não ganharmos eleição, o Bolsonaro vai ficar mais dez anos preso”, declarou.

Valdemar também fez uma avaliação crítica da campanha de 2022, apontando que erros estratégicos e decisões do próprio Bolsonaro contribuíram para a derrota. Entre os fatores citados, ele mencionou a escolha do general Walter Braga Netto como vice e a condução da pandemia. Na visão do dirigente, a forte presença de militares no início do governo também prejudicou a articulação política. “O Bolsonaro tinha muitos militares no começo do governo e isso atrapalhou a vida dele”, afirmou.

Para a eleição de 2026, o presidente do PL defendeu mudanças na composição da chapa presidencial, sugerindo que o senador Flávio Bolsonaro tenha uma mulher como candidata a vice. “Eu sou a favor de ter uma mulher como vice. As mulheres têm crescido muito no Brasil e são muito melhores do que os homens em todos os aspectos”, disse.

No campo das alianças, Valdemar indicou que o partido deve buscar aproximação com antigos adversários, especialmente no Nordeste, região em que reconhece desempenho fraco do PL em 2022. Ele citou o Ceará como prioridade e apontou o ex-ministro Ciro Gomes como peça-chave para enfrentar o PT no estado. “Só tem um cidadão que pode ganhar do PT no Ceará: é o senhor Ciro Gomes”, declarou, acrescentando que retirou ações judiciais contra o político para viabilizar um acordo: “Temos que abrir mão disso, deixar para lá esses desentendimentos”.

Em Minas Gerais, o dirigente destacou o potencial eleitoral de Nikolas Ferreira e afirmou que a legenda tem sido seletiva na filiação de novos nomes para evitar disputas internas por espaço político. “Tivemos que falar não para oito deputados de mandato. Porque todo mundo quer vir para o partido, a votação do Nikolas vai ser muito alta”, afirmou.

•        De 544 postagens Nikolas Ferreira, apenas 10 citam Flávio Bolsonaro

 O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) mencionou o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em apenas 10 dos 544 posts publicados no X, antigo Twitter, ao longo de quatro meses. Os dados são de levantamento realizado pela Folha de S.Paulo, que analisou as publicações feitas entre 5 de dezembro de 2025 e 9 de abril de 2026.

Segundo a reportagem, as citações a Flávio representam menos de 2% do total de conteúdos compartilhados por Nikolas em sua principal timeline na plataforma. O número reforçou tensões dentro da direita e ampliou o as críticas de Eduardo Bolsonaro sobre o nível de apoio do parlamentar ao nome escolhido por Jair Bolsonaro para a disputa presidencial.

Integrantes próximos a Nikolas justificam a falta de menções de Flávio Bolsonaro afirmando que a atuação dele tem outro foco: desgastar politicamente o presidente Lula e ampliar a mobilização em torno de pautas conservadoras nas redes sociais.

A briga envolve parte do clã Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro fez cobranças públicas ao deputado mineiro no X. Michelle Bolsoanro, por sua vez, em meio às crítticas de Eduardo fez repostagens de Nikolas sinalizando apoio ao mineiro.

 "Meses se passaram e você continua colocando Flavio numa espiral do silêncio, com menos de meia dúzia de apoios públicos, apenas para fingir não ter abandonado o grupo político que te projetou. Você continua exigindo que seu grupo não apoie e divulgue o Flávio, a não ser quando fica tão gritante que começa a ser cobrado", escreveu Eduardo Bolsonaro.

De acordo com o levantamento, antes das críticas feitas por Eduardo, Nikolas havia publicado apenas seis conteúdos relacionados a Flávio Bolsonaro. Após o embate público, fez mais quatro menções em apenas quatro dias.

•        Caiado pode ‘desaposentar’ Tasso e oferecer vice ao PSDB sem mexer com Ciro. Por Luís Costa Pinto

No último domingo, Ronaldo Caiado afirmou no interior de São Paulo que o vice ideal para compor a chapa presidencial com ele é o presidente de seu partido, Gilberto Kassab. Foi um movimento lógico, prudencial e pensado para que o presidente da sigla guardasse a vaga que está em processo de captação de pretendentes ideais: a senadora Tereza Cristina, do PP do Mato Grosso do Sul, e o ex-senador e ex-governador do Ceará Tasso Jereissati, do PSDB.

Uma aliança com o PP é sonho distante de ser realizado pela cúpula do PSD porque o senador piauiense Ciro Nogueira, presidente do “Progressistas”, está com os dois pés fincados no projeto presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). A ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro e conhecida como “Dama de Ferro do Agrotóxico” tem mais quatro anos no Senado, está disponível para ser vice, porém, não acalenta a ideia de entrar numa chapa liderada por Flávio Bolsonaro. Ela gosta da ideia de formar dupla com o ex-governador de Goiás, contudo avisou internamente que não liderará nenhum racha partidário do PP.

Já uma coligação PSD-Federação PSDB/Cidadania passou a ser projeto pragmaticamente trabalhado por Gilberto Kassab e pelo presidente nacional do PSDB, o deputado mineiro Aécio Neves, desde a semana passada. Ciro Gomes, que voltou ao PSDB pelas mãos de Tasso Jereissati para ser candidato ao governo do Ceará (onde lidera a disputa pré-eleitoral) já conversou com Ronaldo Caiado e disse que tende a apoiar o projeto presidencial do ex-governador de Goiás. A tendência só não é confirmação, ainda, porque ao mesmo tempo que essas conversas se iniciaram foi lançado o balão de ensaio de uma nova candidatura presidencial de Ciro Gomes. Ela não existe.

O ex-ministro da Fazenda (de Itamar Franco) e do Desenvolvimento Regional (de Lula) ganhou gosto pela retomada da escalada eleitoral visando o cenário presidencial de 2030 a partir de uma nova eleição para o governo do Ceará em 2026. Ciro governou o estado entre 1991 e 1994, quando renunciou para assumir a Fazenda na condição de “curador do Plano Real” a fim de viabilizar a vitória de Fernando Henrique Cardoso contra Luiz Inácio Lula da Silva. Em 1997, rompeu com os tucanos e iniciou um ciclo de virulência verbal e truculência política inversamente proporcional ao número de votos que recebia nas urnas quando foi derrotado como candidato a presidente em 1998, 2002, 2018 e 2022.

ESMIUÇANDO O ‘PROJETO TASSO’

Agora, os estrategistas de Ronaldo Caiado – todos egressos dos exércitos de campanha forjados por Aécio Neves, em Minas Gerais, começando pelo chefe do marketing político, Paulo Vasconcellos – trabalham com a hipótese de desaposentar outro ex-governador cearense, responsável por colocar Ciro de volta ao jogo eleitoral: trata-se do ex-senador Tasso Jereissati, presidente de honra do PSDB e último remanescente ainda com capacidade de retomar a plenitude da atividade política do grupo partidário ao qual o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recorria para aconselhamentos durante seus mandatos.

Tasso tem 77 anos. Caiado, 76. Os dois exerceram juntos parte de seus mandatos de senadores. O ex-governador do Ceará, em que pese ter exercido três mandatos no Executivo do estado, não fez sucessores políticos nem dentro da família, nem fora dela. Os dois personagens que disputaram na vida pública o título de afilhados preferenciais de Jereissati foram o ex-senador Sérgio Machado, um dos primeiros delatores de Operação Lava Jato, preso, julgado e condenado no período de auge do lavajatismo, e o próprio Ciro Gomes.

No processo de sedução durante o qual convenceu Ciro a retornar ao PSDB e tentar novo mandato de governador, Tasso disse ao ex-ministro da Fazenda que ele ainda será jovem o suficiente para tentar a Presidência da República em 2030 e que tudo passa pela reconquista do território cearense. De acordo com raciocínio dos estrategistas de campanha de Caiado, um aceite de Tasso Jereissati à vaga de vice-presidente na chapa encabeçada pelo PSD não significa uma ruptura com o caminho traçado entre os cearenses. Afinal, nem Ronaldo Caiado, nem o próprio Jereissati, chegarão a 2030 numa idade que usualmente poderiam postular nova primazia na disputa. Isso colocaria Ciro Gomes na primeira prateleira de opções caso vença agora no Ceará e assegure inserção da candidatura de Caiado no Nordeste.

Todo o projeto de desaposentadoria de Tasso Jereissati para tê-lo como candidato a vice-presidente na chapa do PSD transita ainda no campo das possibilidades. Dois pressupostos para que a costura siga passam justamente pelos estados de Goiás e de Minas Gerais. Em seu reduto, Ronaldo Caiado terá de aceitar reabrir diálogo com o ex-governador Marconi Perillo, cacique local do PSDB, com quem se desentendeu ainda em 2014. Em Minas, Aécio tenta se viabilizar vice-governador na chapa de Rodrigo Pacheco (PSB), que terá o apoio e a provável aliança do PT. O ambiente mineiro está mais pacificado para um amplo entendimento do que o goiano. No Ceará, caso coloquem o projeto de forma clara e transparente para Tasso, ele aceita.

 

Fonte: Brasil 247/ICL Notícias

 

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