Extração
de terras raras em Goiás vira negócio bilionário com aquisição americana
No
norte de Goiás, a mais de 300 quilômetros de distância de Brasília, uma sinuosa
estrada de terra parte de uma rodovia estadual e atravessa morros de cerrado
ainda preservados para chegar numa área que abriga um negócio bilionário. Ali,
em cerca de 50 quilômetros quadrados, são extraídas as principais terras raras
(um conjunto de elementos químicos fundamentais para várias aplicações
tecnológicas) na primeira – e, por enquanto, única – operação fora da Ásia
desse tipo.
A dona
do negócio é a mineradora Serra Verde, criada pelo fundo americano privado
Denham Capital, que acaba de ser adquirida por 2,8 bilhões de dólares (dos
quais 300 milhões de dólares em dinheiro e o restante em ações) pela também
americana USA Rare Earth, no que foi classificado por um especialista do setor
à reportagem como a maior fusão e aquisição na história da indústria de terras
raras.
O
objetivo declarado da compra é criar uma empresa multinacional para liderar
toda a cadeia produtiva: da extração das terras raras, passando pelas etapas de
separação e processamento desses elementos, até a fabricação dos superímãs hoje
usados em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, caças militares e
mísseis.
Também
declarada é a intenção de reduzir a dependência das indústrias dos Estados
Unidos (EUA) e europeias em relação à China, país que hoje concentra todas
essas etapas – respondendo por quase 80% da extração de terras raras, 89% da
separação e mais de 90% da produção de superímãs – e que, no ano passado,
provocou choques em várias cadeias industriais globais ao restringir as
exportações desses elementos em resposta às ameaças tarifárias do presidente
americano Donald Trump.
Dados
da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério de Desenvolvimento,
Indústria, Comércio e Serviços mostram que esse movimento já está influenciando
as exportações da Serra Verde. Ao longo de 2025, Minaçu exportou quase 678
toneladas de terras raras para a China e apenas 51 kg para os Estados Unidos.
Já este ano, o município ainda não exportou para a China, mas, em fevereiro,
enviou 2 toneladas para os EUA.
“O
setor de terras raras do Ocidente está em um ponto de inflexão crítico,
conforme governos e indústrias estratégicas buscam urgentemente fontes
confiáveis das terras raras críticas”, afirmou Thras Moraitis, CEO do grupo
Serra Verde, no anúncio da aquisição nesta segunda-feira, 20 de abril.
“Unir
forças com a USA Rare Earth acelera a realização da nossa visão compartilhada:
estabelecer uma cadeia de suprimentos global de terras raras segura e
diversificada. (…) Juntos, acreditamos que a empresa combinada vai entregar uma
solução totalmente integrada de terras raras em escala, acelerar o crescimento
e criar valor aprimorado para acionistas, clientes, funcionários, comunidades
locais e governos do Brasil, dos Estados Unidos e de nossos aliados”, completou
ele.
<><>
POR QUE ISSO IMPORTA?
• A demanda por minerais críticos, como as
terras raras, usados na fabricação de turbinas eólicas, paineis solares e
veículos elétricos, deve triplicar até 2040.
A
empresa combinada terá Moraitis como CEO e outros estrangeiros nos principais
cargos de comando, além de operações no Reino Unido e na França. Já a operação
no Brasil será liderada pelo brasileiro Ricardo Grossi, hoje presidente da
Serra Verde. A mineradora também anunciou que firmou um contrato de
fornecimento de 15 anos, que abrange 100% da produção, para uma “Empresa de
Propósito Específico” não nomeada, capitalizada por agências do governo
americano e fontes privadas.
Extrativismo:
a promessa do desenvolvimento que ainda não chegou
No ano
passado, a Agência Pública esteve na cidade que, por abrigar a operação da
Serra Verde e seu vasto depósito de argila com alta concentração de terras
raras, já vinha atraindo atenção mundial. A reportagem testemunhou como na
pequena Minaçu, com cerca de 27 mil habitantes, a nova exploração mineral vinha
sendo encarada como uma grande oportunidade econômica, ainda que distante de se
concretizar.
No novo
negócio, o papel da operação brasileira estará relegada à etapa inicial – e de
menor valor agregado – da cadeia produtiva: a extração das terras raras e
produção de um concentrado desses elementos. Segundo informações
disponibilizadas pela USA Rare Earth, a separação do concentrado deve ser feita
em uma fábrica ainda em desenvolvimento nos Estados Unidos. A etapa seguinte,
de produção de ligas metálicas, será realizada no Reino Unido – e, em alguns
anos, deve ser expandida também para a França. Por fim, a fabricação dos
superímãs está prevista para também ocorrer nos Estados Unidos.
Não é o
papel que o governo brasileiro tem em mente. Em várias declarações recentes, o
presidente Lula tem repetido que a exploração das terras raras tem que ser
feita em parceria com o Brasil, de forma a trazer tecnologia e desenvolvimento
para o país.
“O que
nós não vamos permitir mais é que as nossas terras raras sejam exploradas como
foi o minério de ferro durante tantos anos. A gente só cava o buraco e manda o
minério para fora para depois comprar produtos manufaturados”, disse ele
durante uma viagem à Índia, em fevereiro, quando o Brasil firmou uma parceria
com o país para transferência de tecnologia, exploração e pesquisa para
mineração de terras raras.
“As
terras raras e minerais críticos são de propriedade do Brasil, da soberania
brasileira. Queremos construir com outros países um processo de desenvolvimento
e utilizar isso para o benefício da humanidade”, repetiu Lula nesta
segunda-feira, 20 de abril, ao ser entrevistado na Alemanha. No mesmo dia, o
Brasil e a Alemanha também assinaram uma declaração conjunta para ampliar a
cooperação científica e tecnológica em minerais críticos com ações conjuntas em
pesquisa e desenvolvimento nas cadeias produtivas.
Quando
a Pública esteve em Minaçu, em maio do ano passado, a promessa de
desenvolvimento econômico via mineração ainda não havia se concretizado. A
Serra Verde afirma empregar 350 pessoas, sendo que 66% são de Minaçu. Mas a
aposta na dependência da mineração corre o risco de repetir padrões do passado:
décadas de exploração de amianto (minério que já foi muito utilizado na
construção civil) não reduziu a pobreza na cidade, nem levou a investimentos na
diversificação da economia local. Minaçu se firmou apenas como um local de
extração.
Na
ocasião, a reportagem ouviu Luiza Cerioli, pesquisadora sênior da Universidade
de Kassel, na Alemanha, que estuda economias extrativistas, como o Brasil. “No
Brasil, o discurso dominante é o de que exportar a nossa riqueza traz riqueza
para nós. A questão é se realmente essa riqueza é reinvestida nos setores
produtivos – normalmente ela não é”, explicou Cerioli na ocasião. Segundo a
pesquisadora, a aposta exclusiva na extração acaba por produzir “cidades
enclaves”, apartadas do restante da economia.
“Essa
característica de enclave significa que são poucos empregos, que há poucas
conexões na cadeia produtiva com outros setores industriais e comerciais. Por
mais que exista essa ideia de que o extrativismo produz muito emprego, a
realidade mostra outra coisa”, disse ela.
Terras
raras: Lula, Flávio Bolsonaro e Trump têm planos diferentes para a riqueza
brasileira
Enquanto
isso, a aquisição da Serra Verde promete ter impacto global para os setores que
usam terras raras, como produtores de paineis solares e turbinas eólicas,
indústria de defesa e eletrônica. O plano da mineradora é produzir 6,4 mil
toneladas do concentrado de terras raras por ano até o final de 2027. Se esse
nível de produção se confirmar, a mineradora responderá por cerca de 50% da
extração das principais terras raras fora da China, o que será estratégico para
os Estados Unidos que, hoje, importa 70% de suas terras raras da China.
No
início do mandato, Trump expediu uma ordem federal para que o governo priorize
e acelere a produção de minerais críticos, citando especificamente essa
dependência da China. A preocupação do americano parece distante da necessidade
de uma transição energética para fontes menos poluentes, como solar e eólica, e
sim voltada para a indústria da guerra de seu país.
“Minerais
críticos são essenciais para a prontidão militar americana, já que eles são
componentes-chave de jatos, satélites, submarinos, bombas e sistemas de mísseis
guiados”, afirmava o decreto.
No
final de março, em um discurso no maior evento da extrema-direita americana nos
Estados Unidos, o candidato à presidência do Brasil Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
abordou o assunto, classificando o Brasil como “a solução da América para
quebrar a dependência da China” nas terras raras. No discurso, ao pedir que
Trump e os americanos “se importem” com as eleições brasileiras, o senador
disse que, por conta da grande quantidade de terras raras, “o Brasil será o
campo de batalha onde o futuro do hemisfério será disputado”.
Sem
esses componentes, a inovação tecnológica americana torna-se impossível. E a
produção do sistema militar avançado que mantém a superioridade americana cai
nas mãos de adversários. Sem eles, a revolução tecnológica da América estagna e
a segurança nacional torna-se vulnerável”, disse Flávio. A declaração provocou
críticas de parlamentares de esquerda e de analistas políticos, chegando a ser
minimizada pelo presidente do PL, Valdemar da Costa Neto. Em uma entrevista
recente, o pré-candidato também procurou se explicar: “Eu falei que o Brasil
tem a oportunidade, que é boa para a gente, de explorar os nossos recursos
naturais, mais uma vez com tecnologia aqui, gerando emprego aqui. E os Estados
Unidos poderia ser um parceiro, porque ia depender menos da China, o Brasil tem
uma oportunidade pela proximidade geográfica”.
Na
prática, o governo americano já está investindo na extração de terras raras no
Brasil por meio da Serra Verde. Em fevereiro, a mineradora anunciou que obteve
565 milhões de dólares num pacote de financiamento da Corporação Financeira de
Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos, uma agência do governo
federal americano que investe em projetos em países de renda média e baixa. O
financiamento incluía a opção de o governo americano adquirir uma participação
acionária minoritária na Serra Verde.
“Nós
estamos muito gratos pelo apoio do governo dos EUA e estamos ansiosos para
trabalhar com eles para construir novas e independentes cadeias de valor”,
disse o CEO Moraitis na ocasião.
O
governo dos EUA também já se comprometeu a fornecer para a USA Rare Earth um
empréstimo de 1,3 bilhão de dólares e 277 milhões de dólares em financiamento
direto, em troca de uma participação acionária minoritária, segundo a empresa.
Fonte:
Por Isabel Seta, da Agência Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário