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que guerra no Irã virou um teste de resistência - e de tempo
Recentemente,
o presidente americano, Donald Trump, escreveu na rede
Truth Social que o tempo não é seu "adversário" durante a guerra com o Irã e nos esforços
contínuos para uma solução de paz negociada.
No
entanto, pessoas próximas à Casa Branca têm alertado repetidamente que o tempo
é, de fato, uma questão crucial que Trump precisa levar em consideração.
Na
postagem, o presidente americano comparou favoravelmente as seis semanas da
Operação Fúria Épica — nome dado à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã
iniciada em 28 de fevereiro — a conflitos anteriores mais longos envolvendo seu
país, incluindo os no Iraque, no Vietnã e as duas guerras mundiais.
É
difícil, no entanto, comparar conflitos militares e suas respectivas linhas do
tempo.
O Iraque é um ótimo
exemplo. Embora Trump tenha afirmado corretamente que o envolvimento militar
dos EUA lá durou mais de oito anos, em 2003, as Forças Armadas americanas
derrubaram o governo de Saddam Hussein em cerca de três semanas.
Pouco
tempo depois, o então presidente George W. Bush, em uma declaração que ficaria
marcada na história do conflito, comemorou que a "missão havia sido
cumprida".
Não foi
bem assim. Na sequência, as forças americanas se viram em meio a uma campanha
de contrainsurgência extremamente caótica e os resultados, na melhor das
hipóteses, foram mistos.
Trump
fez campanha especificamente contra esse tipo de conflito prolongado no
exterior, o que complica sua situação política.
Apesar
de seus comentários, há claramente o fator tempo em jogo. Os americanos estão
cada vez mais preocupados com os preços da gasolina, e Trump tem repetidamente
afirmado acreditar que os preços cairão em breve.
Seu
próprio secretário de Energia, Chris Wright, contradiz essa mensagem, tendo
declarado à CNN no domingo (19/4) que pode levar meses para que os preços da
gasolina caiam. Trump disse acreditar que Wright está errado.
Nesse
sentido, o Irã espera que a pressão interna feita pelos americanos que anseiam
por preços baixos e por um fim rápido para o conflito lhe dê poder de
negociação.
Trump,
por sua vez, acredita que a ameaça de novos ataques e o estrangulamento
econômico imposto pelo bloqueio pressionarão o Irã a fechar um acordo que os
EUA considerem positivo.
A
questão que permanece é: quem cederá primeiro?
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Trump nega estar sob pressão para fechar acordo de paz
Em meio
a uma série de publicações na Truth Social, Trump afirmou, na tarde desta
segunda (20/4), que um acordo com o Irã acontecerá "relativamente
rápido" e que será "muito melhor" do que os acordos anteriores
assinados com o país.
Ele
também negou estar sob pressão para fechar um acordo.
No
entanto, ainda é incerta a participação do Irã em alguma negociação de paz. O
porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã declarou que "até o
momento... não temos planos para a próxima rodada de negociações".
Isso
deixa a porta aberta para uma decisão de última hora de viajar para o vizinho
Paquistão, que tem tentado intermediar um eventual acordo.
O Irã
sempre jogou um jogo de concessões mútuas a longo prazo, escreve Lyse Doucet,
correspondente-chefe de Internacional no Irã.
A
primeira rodada de negociações, ocorrida no Paquistão no último dia 11 de
abril, não só terminou sem acordo, como foi sucedida pelo anúncio de um
bloqueio naval por parte dos EUA. Trump bloqueou todo o tráfego marítimo que
chega e sai de portos do Irã, condicionando a normalização a um acordo de paz.
O bloqueio naval foi realizado depois que o Irã
fechou efetivamente o Estreito de Ormuz por semanas, em resposta ao ataque dos
Estados Unidos e de Israel ao Irã em fevereiro.
Na
quinta-feira (16/4), foi anunciado um cessar-fogo de 10 dias nos combates entre
Israel e o Hezbollah, partido político xiita e grupo armado com forte
influência no Líbano apoiado pelo regime iraniano.
O
Líbano foi arrastado para a guerra no Oriente Médio em 2 de março, quando o
Hezbollah lançou ataques contra Israel para vingar a morte do líder iraniano, o
aiatolá Ali Khamenei. Israel respondeu com ataques generalizados em todo o
Líbano e uma ofensiva terrestre.
Agora,
a pausa nos combates no Líbano, onde 2.387 pessoas já morreram desde o início
do conflito, foi exigência de Teerã, que alegou que as negociações com os EUA
não poderiam progredir sem um cessar-fogo.
No dia
seguinte, o Estreito de Ormuz foi reaberto, ação que foi
celebrada por Trump na rede social: "Obrigado!", postou o presidente
americano, acrescentando que o estreito estaria "completamente aberto e
pronto para negócios".
Mas a
abertura do canal de transporte de petróleo mais movimentado do mundo durou
menos de 24 horas. No sábado pela manhã, a Guarda Revolucionária Islâmica
(IRGC, na sigla em inglês) anunciou o fim da reabertura temporária em resposta
ao bloqueio naval dos EUA, que, segundo a IRGC, violava os termos do acordo de
cessar-fogo.
O Irã
afirmou que o estreito permanecerá fechado até que os EUA encerrem o bloqueio
naval. Trump, por sua vez, afirmou que o Irã não pode "chantagear" os
EUA com ameaças relacionadas à hidrovia. E ameaçou destruir todas as pontes e
usinas de energia do Irã se Teerã não concordasse com um acordo de paz.
A
escalada das tensões seguiu ao longo do fim de semana, depois que os EUA apreenderam um navio cargueiro de bandeira
iraniana, afirmando que a embarcação tentou furar o bloqueio.
O Irã
prometeu retaliações. O alto comando militar iraniano declarou em um comunicado
que os Estados Unidos violaram o cessar-fogo ao atirar contra navios mercantes
iranianos nas águas do Golfo de Omã, desativando seus sistemas de navegação e
abordando as embarcações com o envio de fuzileiros navais.
"As
Forças Armadas da República Islâmica do Irã responderão prontamente e
retaliarão contra este ato de pirataria armada da Marinha dos EUA",
acrescentou o comunicado.
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Irã aponta violações e 'exigências excessivas' dos EUA
como obstáculos para fim da guerra
O
ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Aragchi, conversou por telefone
com seu homólogo paquistanês Muhammad Ishaq Dar sobre o acordo de cessar-fogo na guerra
iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra seu país.
As
negociações que estavam programadas para esta terça-feira (21/04) em Islamabad,
capital paquistanesa, foram impedidas após o ataque norte-americano a uma
embarcação iraniana nesta
segunda-feira (21/04).
Aragchi
agradeceu os esforços do Paquistão na mediação do enclave e apontou como
principais obstáculos à continuidade do processo diplomático “as contínuas
violações do cessar-fogo pelos Estados Unidos”, em particular ameaças e
interferência com embarcações comerciais iranianas.
Ele
também citou as “posições contraditórias e a retórica ameaçadora” de Washington, afirmando que “a
República Islâmica do Irã tomará sua decisão sobre como prosseguir com as
negociações”.
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Prudência
O
presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, em encontro com bombeiros e equipes de
resgate, enfatizou a necessidade do Irã resistir firmemente à injustiça e às
exigências excessivas dos EUA e de Israel, reiterando que confrontos contínuos
não são do interesse de nenhum dos lados.
“Embora
o Irã deva se manter firme contra a injustiça e as exigências excessivas, a
continuação do conflito não é do interesse de ninguém, nem do Irã, nem de seus
adversários, nem do futuro ou das gerações futuras da região”, afirmou o líder
iraniano.
Pezeshkian
disse que quanto mais questões “puderem ser gerenciadas pela lógica e em um
ambiente calmo, melhor será para todas as partes”, enfatizando a importância da
“prudência, sabedoria e preservação da dignidade nacional”.
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Obstáculos
Segundo
a agência Tasnim, o bloqueio naval norte-americano foi considerado
pelo governo iraniano como obstáculo fundamental no caminho das negociações
desta terça-feira (21/04), além das “exigências excessivas” de Washington que
“não mostram um horizonte claro para quaisquer negociações futuras”.
Para a
delegação iraniana, enquanto “os EUA olharem para a questão de forma irrealista
e se aproximarem da mesa de negociações com os mesmos erros de cálculo que
levaram à sua pesada derrota na arena militar, as negociações serão
simplesmente uma perda de tempo”.
Até que
não surja um horizonte claro para alcançar um acordo aceitável, “o Irã não verá
base para participar do teatro americano”, informa a agência iraniana.
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Irã não negociará sob 'sombra de ameaças' dos EUA, diz presidente do Parlamento
O
presidente do Parlamento iraniano e negociador, Mohammad Ghalibaf, afirmou
nesta segunda-feira (20/04) que o país não negociará com os Estados Unidos sob
“ameaças” e disse que o país está preparando novas capacidades militares caso
as negociações fracassem.
“Ao impor um cerco e
violar o cessar-fogo,
Trump busca transformar esta mesa de negociações — em sua própria imaginação —
em uma mesa de rendição ou justificar a retomada de atos belicistas”, disse
Ghalibaf em uma publicação nas redes sociais.
E
acrescentou que “não aceitamos negociações sob a sombra de ameaças e, nas
últimas duas semanas, preparamo-nos para revelar novas cartas no campo de
batalha”.
Nas
últimas horas, houve uma série de esforços diplomáticos, especialmente por
parte do ministro das Relações Exteriores do Paquistão, segundo a emissora
catariana Al Jazeera, que acrescenta que não há uma rejeição
oficial da negociação por parte do Irã, e existem indícios de que o país está
disposto a conversar, mas não a partir de uma posição de fraqueza.
O
governo do Irã já havia
rejeitado no último domingo (19/04) uma segunda rodada de negociações
com os Estados Unidos em meio a “exigências excessivas” e demandas “irracionais
e pouco realistas” por parte de Washington, além da manutenção do bloqueio
naval no Estreito de Ormuz para impedir a locomoção de embarcações iranianas. “Nessas
condições, não se vislumbra um cenário claro para negociações bem-sucedidas”,
informou a agência estatal Irna.
Mais
cedo, no mesmo dia, o presidente dos Estados Unidos anunciou à emissora
conservadora Fox News o envio da delegação
norte-americana a Islamabad, no Paquistão, para a realização das tratativas na
terça-feira (21/04). O republicano alertou ser a “última chance” de Teerã
atender aos pedidos de Washington e alcançar um acordo de cessar-fogo. Caso
contrário, ameaçou que “o país inteiro será destruído”.
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Trump recusa estender trégua e ameaça ‘prontidão’ para
atacar Irã; ‘estamos preparados’, diz Teerã
O presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump,
afirmou nesta terça-feira (21/04) que o Irã não tem outra escolha que não seja
“fazer um acordo” para colocar um fim definitivo à guerra e reforçou não estar
interessado em prorrogar o cessar-fogo. A posição do
republicano foi dada em entrevista por telefone ao canal CNBC News,
na véspera do fim da trégua de duas semanas entre Washington e Teerã, que
expira na quarta-feira (22/04).
“O Irã
não tem outra escolha que não seja fazer um acordo. Eu tinha certeza que eles
mandariam uma delegação para o Paquistão. Eles não têm outra opção”, disse.
Na
mesma entrevista, Trump assegurou que os Estados Unidos chegarão às possíveis
tratativas em uma “posição de força” e, segundo ele, suas forças detêm
“controle total” do Estreito de Ormuz, rota marítima crucial para o escoamento
da produção de petróleo e gás do Golfo Pérsico.
“O
bloqueio naval no Irã é um sucesso incrível”, alegou o presidente,
acrescentando que as tropas norte-americanas estão “prontas” para retomar os
ataques contra a República Islâmica se ele ordenar. De acordo com o mandatário,
o Exército de Washington usou o período de cessar-fogo para o reabastecimento
de equipamentos.
“Estamos
carregados. Temos tanta munição, de tudo. Usamos isso [cessar-fogo] para
reabastecer, e eles [iranianos] provavelmente fizeram pouca reposição. Estamos
prontos. O exército está pronto para agir”, disse. No entanto, defende um “bom
acordo”.
De
acordo com a agência Tasnim, por outro lado, informações obtidas
pelo veículo sugerem que as exigências excessivas dos Estados Unidos e o
anúncio de um bloqueio naval contra embarcações iranianas impediram a
consolidação de novas negociações. Considerado esse contexto, “o Irã está
totalmente preparado para a possibilidade de retomada da guerra e também
organizou novas surpresas para uma possível nova rodada de conflito”.
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Irã desmente nova rodada de negociações
Em
relação à suposta nova rodada de negociações entre ambas as partes em
Islamabad, no Paquistão, especulada pela mídia ocidental, a expectativa é de
que a delegação dos Estados Unidos seja liderada pelo vice-presidente JD Vance,
enquanto a iraniana pelo chefe do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf.
No
entanto, a agência estatal Tasnim reitera a permanência da decisão iraniana
quanto à rejeição de novas tratativas, e questiona a veracidade dos relatos
referentes à viagem de Vance veiculados pelos meios midiáticos
norte-americanos. De acordo com a agência iraniana, os Estados Unidos “fabricam
notícias” visando o controle dos preços globais de petróleo.
“Esta é
a quinta vez que, segundo a mídia norte-americana, Vance está indo para
Islamabad, no Paquistão. Mas por que seu avião nunca chega ao destino é algo
que esses mesmos veículos de mídia americanos deveriam responder”, diz a Tasnim.
“[…]
até agora nenhuma mudança ocorreu na decisão da equipe iraniana de não
participar das negociações de Islamabad, e a principal razão continua sendo a
continuidade do bloqueio naval e as exigências excessivas dos EUA. Mesmo assim,
a mídia norte-americana continua dizendo que Vance está a caminho do Paquistão.
Essa atmosfera midiática e a fabricação de notícias visam, mais do que tudo,
controlar os preços globais do petróleo e confundir a opinião pública no Irã e
no mundo”, afirma o veículo.
¨ Trump afirma que os
EUA provavelmente retomarão os bombardeios ao Irã com o fim do cessar-fogo
Donald Trump afirmou na
terça-feira que espera retomar os bombardeios ao Irã, enquanto o frágil
cessar-fogo de 14 dias se aproxima do prazo final na quarta-feira, sem nenhum
acordo à vista.
“Espero
bombardear porque acho que essa é a melhor atitude para se ter em campo”, disse
Trump ao programa Squawk Box da CNBC. “Estamos prontos para entrar em ação. Os
militares estão ansiosos para começar.”
Quando
questionado se estenderia o cessar-fogo, ele respondeu: "Não quero fazer
isso. Não temos tanto tempo assim."
Ele
acrescentou que os EUA estavam em uma posição de negociação forte e que, no
final, conseguiriam o que chamou de um ótimo acordo – embora o cronograma e o
custo permanecessem incertos.
As
declarações vieram acompanhadas de uma publicação no Truth Social na
qual Trump acusou Teerã de ter "violado o cessar-fogo inúmeras
vezes!" – uma alegação que pareceu preparar o terreno para justificar a
retomada dos ataques.
Apesar
de sua língua afiada, Trump indicou que uma nova rodada de negociações ainda
estava em aberto. Esperava-se que JD Vance e o presidente do parlamento
iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, se reunissem em Islamabad para mais uma
rodada de conversas na terça-feira, embora o vice-presidente americano tenha
sido visto na Casa Branca na tarde de terça-feira, o que torna improvável que
ele chegue a tempo.
A
alternância brusca e a confusão entre guerra e negociações de paz tornaram-se
a marca registrada da abordagem de
Trump à guerra .
Só na segunda-feira, ele oscilou entre a possibilidade de um acordo estar
próximo e o alerta de que “muitas bombas” “começariam a explodir” se as
negociações fracassassem. No início do mês, ele ameaçou exterminar “toda uma
civilização” iraniana e afirmou que seus civis estavam recebendo de braços abertos os
ataques americanos à
infraestrutura do país.
Pete Hegseth , secretário do
Pentágono, afirmou na semana passada que os EUA
estão "prontos para o combate" para terminar de destruir a rede
elétrica do Irã.
Após a
entrevista à CNBC, Trump voltou suas críticas para casa na manhã de
terça-feira. Em uma publicação no Truth Social
, ele instou os americanos a não permitirem que "democratas
traidores" criticassem a Operação Martelo da Meia-Noite de junho passado,
alegando que a missão havia "destruído completamente" as instalações
nucleares do Irã e que câmeras da Força Espacial estavam monitorando os três
locais 24 horas por dia.
O Irã
não demonstrou qualquer sinal de flexibilização. Ghalibaf publicou em sua conta no Facebook na manhã de
terça-feira que “não aceitamos negociações sob a sombra de ameaças”, acusando
Washington de buscar a rendição iraniana em vez de uma solução genuína. O
comandante militar do país, por sua vez, alertou para uma “resposta imediata e
decisiva” a qualquer retomada das hostilidades.
O
impasse abalou os mercados globais de energia. Fatih Birol, chefe da Agência
Internacional de Energia, descreveu a situação como "a
maior crise da história", alertando que o impacto combinado dos efeitos do
conflito sobre o petróleo, juntamente com a atual crise do gás russo, não tem
precedentes.
Fonte: BBC
Persa/Opera Mundi/The Guardian

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