quinta-feira, 23 de abril de 2026

Por que guerra no Irã virou um teste de resistência - e de tempo

Recentemente, o presidente americano, Donald Trump, escreveu na rede Truth Social que o tempo não é seu "adversário" durante a guerra com o Irã e nos esforços contínuos para uma solução de paz negociada.

No entanto, pessoas próximas à Casa Branca têm alertado repetidamente que o tempo é, de fato, uma questão crucial que Trump precisa levar em consideração.

Na postagem, o presidente americano comparou favoravelmente as seis semanas da Operação Fúria Épica — nome dado à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã iniciada em 28 de fevereiro — a conflitos anteriores mais longos envolvendo seu país, incluindo os no Iraque, no Vietnã e as duas guerras mundiais.

É difícil, no entanto, comparar conflitos militares e suas respectivas linhas do tempo.

Iraque é um ótimo exemplo. Embora Trump tenha afirmado corretamente que o envolvimento militar dos EUA lá durou mais de oito anos, em 2003, as Forças Armadas americanas derrubaram o governo de Saddam Hussein em cerca de três semanas.

Pouco tempo depois, o então presidente George W. Bush, em uma declaração que ficaria marcada na história do conflito, comemorou que a "missão havia sido cumprida".

Não foi bem assim. Na sequência, as forças americanas se viram em meio a uma campanha de contrainsurgência extremamente caótica e os resultados, na melhor das hipóteses, foram mistos.

Trump fez campanha especificamente contra esse tipo de conflito prolongado no exterior, o que complica sua situação política.

Apesar de seus comentários, há claramente o fator tempo em jogo. Os americanos estão cada vez mais preocupados com os preços da gasolina, e Trump tem repetidamente afirmado acreditar que os preços cairão em breve.

Seu próprio secretário de Energia, Chris Wright, contradiz essa mensagem, tendo declarado à CNN no domingo (19/4) que pode levar meses para que os preços da gasolina caiam. Trump disse acreditar que Wright está errado.

Nesse sentido, o Irã espera que a pressão interna feita pelos americanos que anseiam por preços baixos e por um fim rápido para o conflito lhe dê poder de negociação.

Trump, por sua vez, acredita que a ameaça de novos ataques e o estrangulamento econômico imposto pelo bloqueio pressionarão o Irã a fechar um acordo que os EUA considerem positivo.

A questão que permanece é: quem cederá primeiro?

<><> Trump nega estar sob pressão para fechar acordo de paz

Em meio a uma série de publicações na Truth Social, Trump afirmou, na tarde desta segunda (20/4), que um acordo com o Irã acontecerá "relativamente rápido" e que será "muito melhor" do que os acordos anteriores assinados com o país.

Ele também negou estar sob pressão para fechar um acordo.

No entanto, ainda é incerta a participação do Irã em alguma negociação de paz. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã declarou que "até o momento... não temos planos para a próxima rodada de negociações".

Isso deixa a porta aberta para uma decisão de última hora de viajar para o vizinho Paquistão, que tem tentado intermediar um eventual acordo.

O Irã sempre jogou um jogo de concessões mútuas a longo prazo, escreve Lyse Doucet, correspondente-chefe de Internacional no Irã.

A primeira rodada de negociações, ocorrida no Paquistão no último dia 11 de abril, não só terminou sem acordo, como foi sucedida pelo anúncio de um bloqueio naval por parte dos EUA. Trump bloqueou todo o tráfego marítimo que chega e sai de portos do Irã, condicionando a normalização a um acordo de paz.

O bloqueio naval foi realizado depois que o Irã fechou efetivamente o Estreito de Ormuz por semanas, em resposta ao ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã em fevereiro.

Na quinta-feira (16/4), foi anunciado um cessar-fogo de 10 dias nos combates entre Israel e o Hezbollah, partido político xiita e grupo armado com forte influência no Líbano apoiado pelo regime iraniano.

O Líbano foi arrastado para a guerra no Oriente Médio em 2 de março, quando o Hezbollah lançou ataques contra Israel para vingar a morte do líder iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. Israel respondeu com ataques generalizados em todo o Líbano e uma ofensiva terrestre.

Agora, a pausa nos combates no Líbano, onde 2.387 pessoas já morreram desde o início do conflito, foi exigência de Teerã, que alegou que as negociações com os EUA não poderiam progredir sem um cessar-fogo.

No dia seguinte, o Estreito de Ormuz foi reaberto, ação que foi celebrada por Trump na rede social: "Obrigado!", postou o presidente americano, acrescentando que o estreito estaria "completamente aberto e pronto para negócios".

Mas a abertura do canal de transporte de petróleo mais movimentado do mundo durou menos de 24 horas. No sábado pela manhã, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) anunciou o fim da reabertura temporária em resposta ao bloqueio naval dos EUA, que, segundo a IRGC, violava os termos do acordo de cessar-fogo.

O Irã afirmou que o estreito permanecerá fechado até que os EUA encerrem o bloqueio naval. Trump, por sua vez, afirmou que o Irã não pode "chantagear" os EUA com ameaças relacionadas à hidrovia. E ameaçou destruir todas as pontes e usinas de energia do Irã se Teerã não concordasse com um acordo de paz.

A escalada das tensões seguiu ao longo do fim de semana, depois que os EUA apreenderam um navio cargueiro de bandeira iraniana, afirmando que a embarcação tentou furar o bloqueio.

O Irã prometeu retaliações. O alto comando militar iraniano declarou em um comunicado que os Estados Unidos violaram o cessar-fogo ao atirar contra navios mercantes iranianos nas águas do Golfo de Omã, desativando seus sistemas de navegação e abordando as embarcações com o envio de fuzileiros navais.

"As Forças Armadas da República Islâmica do Irã responderão prontamente e retaliarão contra este ato de pirataria armada da Marinha dos EUA", acrescentou o comunicado.

¨      Irã aponta violações e 'exigências excessivas' dos EUA como obstáculos para fim da guerra

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Aragchi, conversou por telefone com seu homólogo paquistanês Muhammad Ishaq Dar sobre o acordo de cessar-fogo na guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra seu país.

As negociações que estavam programadas para esta terça-feira (21/04) em Islamabad, capital paquistanesa,  foram impedidas após o ataque norte-americano a uma embarcação iraniana nesta segunda-feira (21/04).

Aragchi agradeceu os esforços do Paquistão na mediação do enclave e apontou como principais obstáculos à continuidade do processo diplomático “as contínuas violações do cessar-fogo pelos Estados Unidos”, em particular ameaças e interferência com embarcações comerciais iranianas.

Ele também citou as “posições contraditórias e a retórica ameaçadora” de Washington, afirmando que “a República Islâmica do Irã tomará sua decisão sobre como prosseguir com as negociações”.

<><> Prudência

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, em encontro com bombeiros e equipes de resgate, enfatizou a necessidade do Irã resistir firmemente à injustiça e às exigências excessivas dos EUA e de Israel, reiterando que confrontos contínuos não são do interesse de nenhum dos lados.

“Embora o Irã deva se manter firme contra a injustiça e as exigências excessivas, a continuação do conflito não é do interesse de ninguém, nem do Irã, nem de seus adversários, nem do futuro ou das gerações futuras da região”, afirmou o líder iraniano.

Pezeshkian disse que quanto mais questões “puderem ser gerenciadas pela lógica e em um ambiente calmo, melhor será para todas as partes”, enfatizando a importância da “prudência, sabedoria e preservação da dignidade nacional”.

<><> Obstáculos

Segundo a agência Tasnim, o bloqueio naval norte-americano foi considerado pelo governo iraniano como obstáculo fundamental no caminho das negociações desta terça-feira (21/04), além das “exigências excessivas” de Washington que “não mostram um horizonte claro para quaisquer negociações futuras”.

Para a delegação iraniana, enquanto “os EUA olharem para a questão de forma irrealista e se aproximarem da mesa de negociações com os mesmos erros de cálculo que levaram à sua pesada derrota na arena militar, as negociações serão simplesmente uma perda de tempo”.

Até que não surja um horizonte claro para alcançar um acordo aceitável, “o Irã não verá base para participar do teatro americano”, informa a agência iraniana.

<><> Irã não negociará sob 'sombra de ameaças' dos EUA, diz presidente do Parlamento

O presidente do Parlamento iraniano e negociador, Mohammad Ghalibaf, afirmou nesta segunda-feira (20/04) que o país não negociará com os Estados Unidos sob “ameaças” e disse que o país está preparando novas capacidades militares caso as negociações fracassem.

“Ao impor um cerco e violar o cessar-fogo, Trump busca transformar esta mesa de negociações — em sua própria imaginação — em uma mesa de rendição ou justificar a retomada de atos belicistas”, disse Ghalibaf em uma publicação nas redes sociais.

E acrescentou que “não aceitamos negociações sob a sombra de ameaças e, nas últimas duas semanas, preparamo-nos para revelar novas cartas no campo de batalha”.

Nas últimas horas, houve uma série de esforços diplomáticos, especialmente por parte do ministro das Relações Exteriores do Paquistão, segundo a emissora catariana Al Jazeera, que acrescenta que não há uma rejeição oficial da negociação por parte do Irã, e existem indícios de que o país está disposto a conversar, mas não a partir de uma posição de fraqueza.

O governo do Irã já havia rejeitado no último domingo (19/04) uma segunda rodada de negociações com os Estados Unidos em meio a “exigências excessivas” e demandas “irracionais e pouco realistas” por parte de Washington, além da manutenção do bloqueio naval no Estreito de Ormuz para impedir a locomoção de embarcações iranianas. “Nessas condições, não se vislumbra um cenário claro para negociações bem-sucedidas”, informou a agência estatal Irna.

Mais cedo, no mesmo dia, o presidente dos Estados Unidos anunciou à emissora conservadora Fox News o envio da delegação norte-americana a Islamabad, no Paquistão, para a realização das tratativas na terça-feira (21/04). O republicano alertou ser a “última chance” de Teerã atender aos pedidos de Washington e alcançar um acordo de cessar-fogo. Caso contrário, ameaçou que “o país inteiro será destruído”.

¨      Trump recusa estender trégua e ameaça ‘prontidão’ para atacar Irã; ‘estamos preparados’, diz Teerã

presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (21/04) que o Irã não tem outra escolha que não seja “fazer um acordo” para colocar um fim definitivo à guerra e reforçou não estar interessado em prorrogar o cessar-fogo. A posição do republicano foi dada em entrevista por telefone ao canal CNBC News, na véspera do fim da trégua de duas semanas entre Washington e Teerã, que expira na quarta-feira (22/04).

“O Irã não tem outra escolha que não seja fazer um acordo. Eu tinha certeza que eles mandariam uma delegação para o Paquistão. Eles não têm outra opção”, disse.

Na mesma entrevista, Trump assegurou que os Estados Unidos chegarão às possíveis tratativas em uma “posição de força” e, segundo ele, suas forças detêm “controle total” do Estreito de Ormuz, rota marítima crucial para o escoamento da produção de petróleo e gás do Golfo Pérsico.

“O bloqueio naval no Irã é um sucesso incrível”, alegou o presidente, acrescentando que as tropas norte-americanas estão “prontas” para retomar os ataques contra a República Islâmica se ele ordenar. De acordo com o mandatário, o Exército de Washington usou o período de cessar-fogo para o reabastecimento de equipamentos.

“Estamos carregados. Temos tanta munição, de tudo. Usamos isso [cessar-fogo] para reabastecer, e eles [iranianos] provavelmente fizeram pouca reposição. Estamos prontos. O exército está pronto para agir”, disse. No entanto, defende um “bom acordo”.

De acordo com a agência Tasnim, por outro lado, informações obtidas pelo veículo sugerem que as exigências excessivas dos Estados Unidos e o anúncio de um bloqueio naval contra embarcações iranianas impediram a consolidação de novas negociações. Considerado esse contexto, “o Irã está totalmente preparado para a possibilidade de retomada da guerra e também organizou novas surpresas para uma possível nova rodada de conflito”.

<><> Irã desmente nova rodada de negociações

Em relação à suposta nova rodada de negociações entre ambas as partes em Islamabad, no Paquistão, especulada pela mídia ocidental, a expectativa é de que a delegação dos Estados Unidos seja liderada pelo vice-presidente JD Vance, enquanto a iraniana pelo chefe do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf.

No entanto, a agência estatal Tasnim reitera a permanência da decisão iraniana quanto à rejeição de novas tratativas, e questiona a veracidade dos relatos referentes à viagem de Vance veiculados pelos meios midiáticos norte-americanos. De acordo com a agência iraniana, os Estados Unidos “fabricam notícias” visando o controle dos preços globais de petróleo.

“Esta é a quinta vez que, segundo a mídia norte-americana, Vance está indo para Islamabad, no Paquistão. Mas por que seu avião nunca chega ao destino é algo que esses mesmos veículos de mídia americanos deveriam responder”, diz a Tasnim.

“[…] até agora nenhuma mudança ocorreu na decisão da equipe iraniana de não participar das negociações de Islamabad, e a principal razão continua sendo a continuidade do bloqueio naval e as exigências excessivas dos EUA. Mesmo assim, a mídia norte-americana continua dizendo que Vance está a caminho do Paquistão. Essa atmosfera midiática e a fabricação de notícias visam, mais do que tudo, controlar os preços globais do petróleo e confundir a opinião pública no Irã e no mundo”, afirma o veículo.

¨      Trump afirma que os EUA provavelmente retomarão os bombardeios ao Irã com o fim do cessar-fogo

Donald Trump afirmou na terça-feira que espera retomar os bombardeios ao Irã, enquanto o frágil cessar-fogo de 14 dias se aproxima do prazo final na quarta-feira, sem nenhum acordo à vista.

“Espero bombardear porque acho que essa é a melhor atitude para se ter em campo”, disse Trump ao programa Squawk Box da CNBC. “Estamos prontos para entrar em ação. Os militares estão ansiosos para começar.”

Quando questionado se estenderia o cessar-fogo, ele respondeu: "Não quero fazer isso. Não temos tanto tempo assim."

Ele acrescentou que os EUA estavam em uma posição de negociação forte e que, no final, conseguiriam o que chamou de um ótimo acordo – embora o cronograma e o custo permanecessem incertos.

As declarações vieram acompanhadas de uma publicação no Truth Social na qual Trump acusou Teerã de ter "violado o cessar-fogo inúmeras vezes!" – uma alegação que pareceu preparar o terreno para justificar a retomada dos ataques.

Apesar de sua língua afiada, Trump indicou que uma nova rodada de negociações ainda estava em aberto. Esperava-se que JD Vance e o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, se reunissem em Islamabad para mais uma rodada de conversas na terça-feira, embora o vice-presidente americano tenha sido visto na Casa Branca na tarde de terça-feira, o que torna improvável que ele chegue a tempo.

A alternância brusca e a confusão entre guerra e negociações de paz tornaram-se a marca registrada da abordagem de Trump à guerra . Só na segunda-feira, ele oscilou entre a possibilidade de um acordo estar próximo e o alerta de que “muitas bombas” “começariam a explodir” se as negociações fracassassem. No início do mês, ele ameaçou exterminar “toda uma civilização” iraniana e afirmou que seus civis estavam recebendo de braços abertos os ataques americanos à infraestrutura do país.

Pete Hegseth , secretário do Pentágono, afirmou na semana passada que os EUA estão "prontos para o combate" para terminar de destruir a rede elétrica do Irã.

Após a entrevista à CNBC, Trump voltou suas críticas para casa na manhã de terça-feira. Em uma publicação no Truth Social , ele instou os americanos a não permitirem que "democratas traidores" criticassem a Operação Martelo da Meia-Noite de junho passado, alegando que a missão havia "destruído completamente" as instalações nucleares do Irã e que câmeras da Força Espacial estavam monitorando os três locais 24 horas por dia.

O Irã não demonstrou qualquer sinal de flexibilização. Ghalibaf publicou em sua conta no Facebook na manhã de terça-feira que “não aceitamos negociações sob a sombra de ameaças”, acusando Washington de buscar a rendição iraniana em vez de uma solução genuína. O comandante militar do país, por sua vez, alertou para uma “resposta imediata e decisiva” a qualquer retomada das hostilidades.

O impasse abalou os mercados globais de energia. Fatih Birol, chefe da Agência Internacional de Energia, descreveu a situação como "a maior crise da história", alertando que o impacto combinado dos efeitos do conflito sobre o petróleo, juntamente com a atual crise do gás russo, não tem precedentes.

 

Fonte: BBC Persa/Opera Mundi/The Guardian

 

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