Brasileiro
mostra como é morar em favela chinesa pagando R$ 30 de aluguel
Quando
chegou à China pela primeira vez, aos onze anos, Maurício da Cruz teve a
sensação de que nenhum outro lugar poderia ser sua casa.
O ano
era 2000 e seu pai havia sido transferido pelo trabalho para a capital, Pequim,
onde Maurício morou por dois anos até voltar para ficar com a mãe no sul do
Brasil.
"A
partir daí, a vontade de me mudar definitivamente para a China nunca foi
embora. Tracei meu plano de vida baseado nisso, e estudei comércio exterior
esperando que fosse me ajudar", conta.
Em
2012, Maurício fez as malas para não voltar mais.
Nos
primeiros dois anos na China, focou em estudar mandarim para se integrar melhor
à sociedade.
Depois,
foi contratado para fazer o trabalho que permeou a maior parte da sua vida no
país: tradução de jogos eletrônicos do mandarim para o português.
"Mas
com a evolução da inteligência artificial, perdi meu trabalho. Como Pequim é
muito cara, foi assim que decidi vir morar no lar que vivo hoje, uma casa de
isopor em uma das 'favelas' chinesas, que me ajuda a economizar muito."
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28 metros quadrados e R$ 30 de aluguel
Quando
ainda era estudante de mandarim, Maurício se apaixonou por sua professora, uma
chinesa seis anos mais velha, nascida e criada em Pequim.
"Tentei
convidá-la para sair, mas ela achou que não era apropriado. Mas, depois de um
tempo que as aulas acabaram, acabamos nos reconectando", lembra.
O
direito de morar na propriedade onde Maurício reside hoje é da mãe de sua
esposa, que nos anos 1990 trabalhava em uma empresa estatal chinesa.
Esse
tipo de moradia fazia parte do sistema das chamadas "unidades de
trabalho", ou danwei, que organizavam não só o emprego, mas também
aspectos básicos da vida urbana na China até as reformas econômicas iniciadas
no fim do século 20.
Empresas
estatais e órgãos públicos distribuíam apartamentos ou quartos a seus
funcionários como benefício, com aluguéis simbólicos ou fortemente subsidiados.
O acesso não era aberto ao mercado: estava vinculado ao vínculo empregatício e,
em muitos casos, acabou sendo mantido dentro das famílias ao longo do tempo.
"A
empresa meio que era 'dona' desses locais e deu esse direito para ela alugar
sempre por um preço abaixo (do preço de mercado). E agora somos eu e minha
esposa que moramos aqui, e pagamos o equivalente a R$ 30 por mês", diz
Maurício.
O
imóvel fica em uma área tradicional que antes era ocupada por famílias ricas.
Eram casas com pátio interno — conjuntos onde uma única família controlava
vários cômodos ao redor de um espaço comum. Após a tomada de poder pelo Partido
Comunista, essas propriedades foram confiscadas ou redistribuídas e divididas
entre várias famílias.
"Uma
família inteira era dona de tudo, aí eles dividiram. Alguns dos antigos donos
ficaram com um quartinho dentro do que antes era deles", afirma.
Com o
tempo, esses pátios, chamados de siheyuan, foram sendo subdivididos ainda mais
para acomodar novos moradores, muitos ligados às próprias empresas estatais.
Nesse
processo, também surgiram adaptações informais para dar conta da falta de
espaço e infraestrutura.
"Minha
casinha antes não tinha banheiro até fazerem uma construção meio irregular, que
é comum nesse tipo de área. São os 'puxadinhos' — você ocupa um espaço que não
é de ninguém ali, do governo, e levanta uma parede. Não é legalizado, mas
sempre foi feito por aqui."
Segundo
ele, quem conseguiu ampliar o imóvel ganhou algum conforto. "Tem gente que
fez banheiro, mas tem outros que moram em lugares bem pequenos, de 10, 15
metros quadrados."
"Tem
gente que mora aqui no pátio e acompanhou o crescimento econômico do país, está
bem de vida. Mas tem aqueles que ainda vivem aqui, no centro de Pequim — onde o
metro quadrado hoje vale muito — e fazem parte de classes sociais mais baixas.
Aqui do meu lado tem vizinho que ainda junta recicláveis para complementar a
renda, e muitas das casas não têm banheiro", diz Maurício.
Antes
da reforma que ele e sua esposa fizeram por dentro do imóvel, essa era a
realidade da casa de Maurício.
"Minha
esposa viveu sem banheiro próprio até os 20 anos de idade", diz ele,
acrescentando que há um sanitário público próximo ao pátio onde muitos dos
moradores fazem suas necessidades.
"Hoje,
por dentro, minha casa é moderna, colocamos ar-condicionado e tudo está
novinho. Apesar de ter só 28 metros quadrados, tem tudo que precisamos."
Por
fora, no entanto, o contraste permanece. "Por fora você vê que é antigo,
tem até revestimento de isopor", diz.
Para
ele, a maior diferença da vida que levava com a sua família no Brasil é a
limitação de espaço e privacidade. "Quando eu saio da minha casa, já dou
de cara com a porta da vizinha. Ela tem dois pedaços de casa, então fica indo e
voltando o tempo todo", conta. "Essa questão da privacidade não é
igual ao Brasil, onde eu tinha meu próprio espaço, mas não é um grande
empecilho. Vivo tranquilo aqui."
Apesar
do grande movimento no pátio, o brasileiro conta que a segurança é ótima e que
nunca teve problemas com os vizinhos.
Para
ele, a sensação de segurança compensa. "O que a gente compra na internet
fica na porta, sabe? O pessoal passa, e mesmo assim ninguém mexe", afirma.
"Nem todo mundo aqui é rico, tem gente mais humilde, mas não existe
roubo."
Ele
observa que ainda há marcas de um período menos seguro no passado. "Tem
grades nas janelas, que são de uma época em que a China não era tão segura
assim", diz. "Hoje em dia, isso chama atenção, porque é um lugar
super seguro."
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'Minha viagem nunca acabou'
Sem o
emprego, Maurício, hoje com 37 anos, passou a investir mais tempo na produção
de conteúdo sobre a vida na China — e encontrou ali uma nova fonte de renda.
Seus vídeos, que mostram desde o cotidiano nos pátios históricos até
curiosidades culturais, começaram a atrair milhões de visualizações de
brasileiros interessados em entender como é viver no país.
"Parece
que é tudo tão diferente que chama muita atenção", diz. "É uma
sensação de novidade constante, sabe? Você sempre está sendo
surpreendido." Para ele, a experiência de morar na China mantém viva a
mesma sensação de quando se está viajando. "Sabe quando você viaja e fica
maravilhado com tudo? Então, eu sinto isso até hoje. Como se a minha viagem
nunca tivesse acabado."
Parte
do apelo, segundo ele, está justamente nas diferenças. "No Brasil, você já
está acostumado com tudo. Aqui não: são os sabores, as pessoas, a cultura… em
cidades menores, por exemplo, o pessoal te nota, quer tirar foto, é muito
aberto." Além disso, ele diz que o país está em constante transformação.
"A China cresce muito. Você vai para o Brasil e, quando volta, já tem
novidades, coisas que mudaram. Isso é muito legal."
O
crescimento nas redes foi rápido. "Foi muito louco: ganhei 300 mil
seguidores no Instagram em um mês", conta. Depois de resolver um problema
técnico que o impedia de publicar no Facebook, a audiência aumentou ainda mais.
"Em um mês, foram mais 120 mil seguidores lá. E aí começou a monetizar —
em menos de duas semanas, deu uns US$ 500 só de visualização."
Hoje,
ele soma mais de 1 milhão de seguidores nas diferentes plataformas e começa a
ver a atividade como uma fonte possível de sustento. "Fiquei quase um ano
fazendo vídeo sem ganhar praticamente nada", diz. "Agora começou a
girar um valorzinho que já ajuda a manter o custo de vida aqui."
O
plano, porém, vai além da monetização direta dos vídeos. Durante uma viagem
recente ao Brasil, Maurício abriu uma empresa e começou a estruturar um novo
projeto. "A ideia é criar uma agência de turismo, a 'China Sem Fim', para
trazer brasileiros para cá em grupos", explica. "Quero usar todo esse
conhecimento e a audiência que eu tenho para transformar isso em renda."
Ele diz
que já recusou propostas mais lucrativas, de bets, por não se alinharem com o
tipo de conteúdo que quer produzir. "Ofereceram muita grana, mas não faz
parte do meu perfil. Acho que dá para construir algo sólido mostrando a China
como ela é", diz.
Fonte:
Por Giulia Granchi de Londres para a BBC News Brasil

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