Guerra
no Sudão impõe vida sombria para milhões de crianças
Entrando
no quarto ano, a guerra no Sudão impõe uma realidade cada vez mais sombria para
as crianças do país africano. O alerta é do Fundo das Nações Unidas para a
Infância (Unicef), que contabiliza 4,3 mil crianças assassinadas ou mutiladas
desde o início do conflito.
A vasta
maioria das mortes de crianças resultou de ataques com drones, que se tornaram
uma arma frequente no conflito. Tanto as Forças Armadas do Sudão (SAF), o
Exército sediado em Cartum, quanto os paramilitares das Forças de Apoio Rápido
(RSF) lançam mão deles contra a infraestrutura civil, na tentativa de frear o
avanço de opositores.
"Apenas
nos primeiros três meses deste ano, pelo menos 245 crianças teriam sido mortas
ou feridas. Trata-se de um aumento acentuado em comparação com o mesmo período
do ano passado," disse Eva Hinds, porta-voz do Unicef. No total, a
Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 700 civis tenham morrido em
ataques por drones no país no mesmo período.
A
maioria dos casos ocorreu nos estados de Darfur e Kordofan, onde a violência se
tornou constante. Em 2022, o país era lar de estimados 21 milhões de crianças,
aproximadamente metade da população.
Segundo
o Unicef, os ataques são "cada vez mais indiscriminados", atingindo
casas, mercados, estradas, arredores de escolas e instalações de saúde.
Além
disso, os combates se espalharam por grande parte do Sudão, devastando cidades
e forçando mais de 13 milhões de pessoas a se deslocarem, segundo a Organização
Mundial da Saúde (OMS). Mais de 5 milhões seriam crianças, na estimativa do
Unicef.
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Milhões em desnutrição aguda
A
sobrevivência no cenário de guerra tem impacto severo sobre os menores de
idade, segundo Ashan Abeywardena, gerente de resposta emergencial na War Child,
organização que apoia crianças em conflitos. "Passar por três anos de
conflito teve um impacto enorme nessas crianças. O dia a dia delas é marcado
por notícias de morte e destruição", destcaou.
À
medida que as linhas de frente da guerra mudam e a violência se espalha,
famílias inteiras são forçadas a se deslocarem repetidamente. Muitas delas
vivem em instalações lotadas e sem acesso a itens básicos.
"Só
neste ano, estima-se que 4,2 milhões de crianças em todo o Sudão venham a
sofrer de desnutrição aguda. Mais de 825 mil delas estarão gravemente
desnutridas, uma condição que pode ser fatal sem tratamento urgente,"
acrescentou Hinds.
Além
disso, quase metade das escolas sudanesas já não servem ao propósito original –
algumas foram desativadas e outras, convertidas em abrigos ou ocupadas por
atores armados. Pelo menos 8 milhões de crianças, por isso, não tem hoje acesso
à educação.
Desde
abril de 2023, quando começou o conflito, estima-se que pelo menos 59 mil
pessoas foram mortas, segundo o Armed Conflict Location & Event Data
(ACLED), um projeto internacional que reúne dados publicados sobre conflitos
armados.
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Lacuna de financiamento
O
conflito no Sudão tem origem na destituição, em 2019, do ditador de longa data
Omar al-Bashir. A transição política esperada foi minada pelo conflito interno
entre forças diferentes que tentavam preencher o vácuo de poder.
Atualmente,
o país está dividido entre o Exército, que controla grande parte das regiões
norte, leste e central – incluindo os portos no Mar Vermelho e refinarias de
petróleo – e as RSF, que dominam Darfur e partes da região de Kordofan, no sul
e oeste do país.
Em três
anos de guerra, o financiamento da ajuda para a população sudanesa virou um
desafio global. Organizações internacionais frequentemente argumentam que a
guerra no país africano é negligenciada por governos ao redor do mundo,
enquantoproliferam conflitos em outras regiões.
O
Unicef, por exemplo, diz que até março só recebera 16% do orçamento que precisa
para proteger 7,9 milhões de crianças no Sudão em 2026. Um plano das Nações
Unidas pretende prestar assistência a 14 milhões de pessoas, mas requer 2,2
bilhões de dólares em financiamento.
Na
semana passada, uma conferência internacional realizada em Berlim resultou em
1,5 bilhão de dólares (R$ 7,49 bilhões) prometidos em doações.
Os
efeitos da guerra se fazem sentir não só no Sudão, como em outras partes do
Leste da África. Países vizinhos têm sido afetados pelo deslocamento de
pessoas, interrupções das rotas comerciais e tensões políticas.
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Uma crise humanitária sem fim à vista
Quase
quatro anos após o início da guerra no Sudão, os civis estão cada vez mais
expostos a ataques aéreos. Só em janeiro e fevereiro, foram ao menos 198
ataques de drones, segundo uma análise do monitor global independente Armed
Conflict Location & Event Data.
No
início da semana passada, um drone atingiu uma caminhonete que levava pessoas
para um funeral em Kordofan Ocidental, matando cerca de 40 pessoas, muitas
delas mulheres, segundo a agência de notícias AFP. Nenhuma das partes do
conflito — as Forças Armadas do Sudão (SAF) ou as paramilitares Forças de Apoio
Rápido (RSF) — nem seus aliados assumiram responsabilidade pelo ataque.
Para o
analista político sudanês Hamid Khalafallah, o aumento nos ataques por drones
mostra que as guerras e tensões no Oriente Médio não afetaram o fornecimento de
armas às partes em conflito. Pelo contrário: ele prevê que a violência,
incluindo o uso de drones, provavelmente aumentará nos próximos meses.
"Ambas
as partes tentarão avançar o máximo possível no campo de batalha durante a
atual estação seca, já que mover tropas e equipamentos é mais caro e complicado
quando a temporada de chuvas começa em junho ou julho", afirma Khalafallah
à DW.
Os
combates estão amplamente concentrados em Kordofan, uma região estratégica que
separa o norte e o centro do Sudão — controlados pelo Exército —, incluindo a
capital Cartum, das áreas controladas pelas RSF em Darfur e partes do sul.
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Crise humanitária prolongada
A
guerra no Sudão começou em 15 de abril de 2023, quando uma disputa de poder
sobre a integração das RSF às Forças Armadas sudanesas escalou. Organizações
globais de ajuda humanitária estimam que até 250 mil pessoas tenham sido mortas
até agora. Uma contagem precisa de vítimas é impossível devido aos combates
contínuos e ao acesso limitado às áreas de conflito.
Segundo
a agência da ONU para refugiados, bem como organizações internacionais de ajuda
que atuam no Sudão, a guerra levou ao maior deslocamento em massa do mundo, com
até 14 milhões de pessoas deslocadas interna ou externamente. E também
desencadeou a maior crise humanitária da atualidade, incluindo assassinatos em
massa e violência sexual generalizada. A Unesco contabiliza mais de 12 milhões
de mulheres e meninas — de uma população total pouco mais de 50 milhões — em
risco de violência de gênero.
A
Organização Mundial de Saúde alertou, em janeiro, que mais de 20 milhões de
pessoas no país precisam de assistência em saúde, enquanto surtos de cólera,
malária e dengue se espalham pelos 18 estados, em meio ao colapso dos sistemas
de saúde, água e saneamento.
De
acordo com grupos de direitos humanos, ambos os lados cometeram atrocidades que
podem configurar crimes de guerra ou atos de genocídio.
Em meio
à violência contínua — incluindo o massacre cometido pelas RSF contra civis na
cidade de El-Fasher, em Darfur, no fim de outubro —, o Sudão segue sendo
apontado por especialistas como a crise mais negligenciada do mundo.
"O
Sudão enfrenta uma crise humanitária profunda e prolongada, que está
desaparecendo cada vez mais da atenção internacional", afirma Samy
Guessabi, diretor no Sudão da organização Ação Contra a Fome.
Ele diz
ter testemunhado, nos últimos três anos, o impacto acumulado do conflito
armado, do deslocamento em massa e do colapso econômico.
"O
que vemos todos os dias não é apenas fome, mas uma erosão progressiva da
resiliência, à medida que famílias pulam refeições e vendem os bens que lhes
restam", explica.
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Mulheres e meninas pagam a conta do conflito
Guessabi
afirma que mulheres e meninas estão sofrendo de forma desproporcional.
"Quando
famílias não conseguem alimentar seus filhos, fazem escolhas impensáveis",
observa. "Ouvimos sobre casamentos precoces, movidos menos por tradição e
mais por necessidade."
Segundo
a Unesco, cerca de 19 milhões de crianças estão fora da escola no Sudão.
"Milhares
de meninas precisam de oportunidades para continuar seus estudos, já que longos
períodos de interrupção aumentam riscos sociais, incluindo altas taxas de
casamento infantil", afirma Salma Suliman, fundadora da ONG sudanesa Taja,
voltada à proteção de mulheres. "Isso lança uma sombra sobre o futuro das
próximas gerações."
Michelle
D'Arcy, diretora da Norwegian People's Aid no Sudão, ressalta que as mulheres
têm assumido papéis extraordinários, e que frequentemente são as voluntárias
que mantêm as comunidades vivas. "Por todo o Sudão, redes de mulheres
organizaram cozinhas comunitárias, distribuíram comida e forneceram apoio
psicossocial", elenca.
Para
D'Arcy, a comunidade internacional precisa apoiar mais fortemente os esforços
civis de paz no Sudão. "Isso inclui pressão diplomática por um cessar-fogo
e envolvimento de uma gama ampla de atores civis sudaneses que usam ferramentas
não violentas para obter paz."
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Esforços internacionais até agora inócuos
Durante
a guerra, diversas rodadas de negociações de paz foram iniciadas por Estados
Unidos, Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos — sem sucesso.
Os EUA
e a União Europeia já haviam sancionado tanto as RSF quanto as SAF, bem como
seus membros.
Recentemente,
os EUA designaram a Irmandade Muçulmana Sudanesa (SMB), aliadas às SAF, como
"Organização Terrorista Global Especialmente Designada" e anunciaram
intenção de listá-la como organização terrorista estrangeira.
Segundo
o Departamento de Estado dos EUA, a SMB, "composta pelo Movimento Islâmico
Sudanês e sua ala armada, a Brigada al-Baraa Bin Malik, usa violência
irrestrita contra civis para minar esforços de resolução do conflito e promover
sua ideologia islamista violenta".
Para
Khalafallah, a designação é, ao mesmo tempo, significativa e insignificante.
"É significativa porque confirma oficialmente que esses grupos cometeram
crimes de guerra e aterrorizam cidadãos", diz. Ao mesmo tempo, também
representa um grande problema para as SAF, que precisarão reavaliar suas
alianças com facções islamistas.
Mas a
designação não impedirá necessariamente que islamistas governem Cartum no
futuro, avalia Khalafallah. Para ele, a ação de Washington deve ser vista no
contexto do conflito de Israel e EUA contra o Irã e seus efeitos nos estados do
Golfo. "Os EUA querem fortalecer laços com os Emirados Árabes
Unidos", aponta.
Egito e
Turquia são apoiadores firmes do governo das SAF, liderado pelo general Abdel
Fattah Burhan. Já os Emirados Árabes Unidos são amplamente vistos como
principais apoiadores das RSF, lideradas pelo general Mohammed Hamdan Dagalo —
apesar de Abu Dhabi negar envolvimento. "Tudo isso tem muito pouco a ver
com proteger o povo sudanês", observa Khalafallah.
Fonte:
DW Brasil

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