Heba
Ayyad: A agressão estadunidense-israelense contra o Irã
Isso
não vai acabar bem: o declínio e a queda da hegemonia estadunidense. Os Estados
Unidos precisam escolher entre cumprir seus compromissos e preservar o pouco
que lhes resta. Essa é exatamente a posição que uma superpotência não pode se
dar ao luxo de adotar. A guerra de agressão conduzida pelos Estados Unidos e
por Israel contra a República Islâmica, bem como os consequentes fracassos e o
declínio estratégico e operacional dos agressores, reacenderam os debates, nos
círculos intelectuais, sobre o declínio da hegemonia estadunidense, sua
irracionalidade e suas consequências desastrosas. Nesse contexto, o autor e
ex-oficial da Guerra do Vietnã, Dick Dowdell, oferece sua perspectiva sobre a
trajetória dessa deterioração contínua da natureza do poder estadunidense, de
suas práticas, de suas contradições e de sua busca pela autodestruição.
Segundo
Dowdell, na primavera de 1945, enquanto a fumaça subia das ruínas das cidades
europeias e a Guerra do Pacífico se aproximava de seu desfecho sangrento, os
formuladores de políticas estadunidenses se depararam com uma escolha raramente
apresentada na história: o que fazer com um poder global quase absoluto? Eles
optaram por estabelecer sua futura hegemonia por meio de um sistema
internacional e de uma estrutura institucional: a OTAN, as Nações Unidas, o
sistema monetário de Bretton Woods, os Acordos de Genebra e o Plano Marshall.
Essa estrutura restringia o poder estadunidense tanto quanto o poder dos
demais, porque os arquitetos desse sistema compreendiam algo que não resiste à
abordagem da atual Casa Branca: o poder absoluto, sem legitimidade institucional,
gera resistência, e não liderança. Oitenta anos depois, esse sistema está se
desfazendo — não pelas mãos de um adversário, mas pelos próprios Estados
Unidos.
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O Estreito de Ormuz e as consequências da ineficiência
O New
York Times enumerou recentemente quatro maneiras específicas pelas quais a
guerra de Trump contra o Irã enfraqueceu os Estados Unidos, e todas são
verdadeiras. Essas acusações, no entanto, quando examinadas individualmente,
ignoram um padrão maior e mais preocupante. Não se trata simplesmente de erros,
mas de uma característica comportamental de uma nação que abandona os
princípios que regem a ordem internacional que ela mesma criou e liderou.
Dowdell
afirma que, antes de agir, é preciso perguntar a si mesmo: o que o seu
adversário fará em seguida? Esse não é um princípio complexo, mas um princípio
básico, aprendido por qualquer oficial iniciante. A capacidade do Irã de
ameaçar o Estreito de Ormuz nunca foi segredo; ao contrário, sempre foi um
elemento central nos planos de segurança do Golfo durante décadas. A Guarda
Revolucionária Iraniana construiu toda uma doutrina de guerra assimétrica em
torno desse ponto estratégico. Quando o diretor da CIA no governo Trump,
segundo relatos, classificou como uma “farsa” a previsão de Netanyahu de uma
insurreição popular no Irã — não como um erro ou um excesso de otimismo, mas
como uma farsa — e, ainda assim, o presidente decidiu seguir adiante, o
resultado tornou-se totalmente previsível.
Como
resultado, o Irã agora comprovou aquilo que antes era apenas uma hipótese: sua
capacidade de impor perdas severas à economia global ao ameaçar uma passagem
estreita, enquanto os Estados Unidos se mostram incapazes ou indispostos a
detê-lo a um custo aceitável. Antes da agressão, talvez o Irã temesse que o
fechamento do estreito provocasse uma resposta retaliatória. Mas esse fator de
dissuasão desapareceu. O Irã absorveu o primeiro golpe e encerrou essa etapa em
uma posição estratégica mais forte do que aquela em que se encontrava no
início. O cessar-fogo não restaurou a situação anterior, mas consolidou a nova
influência iraniana.
No
plano global, todos os adversários dos Estados Unidos observaram essa cena e
reajustaram seus cálculos. A China, posicionada do outro lado do Estreito de
Taiwan, certamente não tira dessa experiência conclusões tranquilizadoras para
os estadunidenses.
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Os cálculos da expansão excessiva
Cada
míssil de cruzeiro Tomahawk custa cerca de dois milhões de dólares, e sua
reposição leva anos. Recentemente, o Pentágono consumiu mais de um quarto de
seu estoque em apenas seis semanas de guerra. Ao mesmo tempo, mantém
compromissos com a Ucrânia, sustenta a dissuasão no Pacífico e cumpre garantias
de segurança no âmbito da OTAN. Diante disso, surge uma pergunta
aritmeticamente simples: o que acontecerá quando uma nova crise eclodir antes
que os arsenais consumidos sejam recompostos?
A
resposta é clara: os Estados Unidos terão de escolher entre honrar seus
compromissos ou preservar o que ainda lhes resta. E essa é justamente a
situação que uma superpotência não pode suportar.
Há uma
lição ainda mais profunda nesse desequilíbrio. Os Estados Unidos gastaram
bilhões de dólares em munições de precisão para destruir as forças
convencionais iranianas, enquanto Teerã produziu, a baixo custo, drones e minas
capazes de fechar o Estreito de Ormuz, superando seus adversários em capacidade
produtiva. Um país cujo gasto militar equivale a apenas 3,33% do que os Estados
Unidos gastam conseguiu impor custos estratégicos altos e duradouros. Isso não
é novidade: a campanha contra os houthis no Mar Vermelho já havia demonstrado
isso, e a guerra na Ucrânia confirma essa realidade há três anos. A novidade é
que um presidente estadunidense caiu diretamente em um exemplo clássico desse
impasse, sem sequer compreendê-lo.
A
retirada do sistema antimísseis Patriot da Coreia do Sul para compensar um
excesso de expansão no Oriente Médio não é apenas um detalhe logístico. A
capacidade mísseis da Coreia do Norte é real, atual e direcionada. Enfraquecer
essa proteção para cobrir uma imprudência em outra frente é admitir que os
Estados Unidos já não conseguem cumprir simultaneamente todas as suas
obrigações existentes. E isso não ocorreu como resultado de uma ação hostil
externa, mas de falhas administrativas e políticas internas.
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A divisão da aliança: danos que não aparecem no radar
Japão,
Coreia do Sul, Austrália, Canadá e a maior parte da Europa Ocidental se
recusaram a apoiar a guerra contra o Irã. Quando Trump pediu ajuda para reabrir
o Estreito de Ormuz, eles se recusaram. Trump interpretou isso como ingratidão,
mas não era esse o caso. Tratava-se, na verdade, de uma resposta racional de
governos que passaram a considerar o compromisso estadunidense condicional,
volátil e implicitamente hostil.
O
sistema de alianças do pós-Segunda Guerra Mundial nunca se baseou em
sentimentos, mas em uma troca calculada: os Estados Unidos ofereciam garantias
de segurança, acesso a mercados e liderança institucional; os aliados ofereciam
bases militares, legitimidade política, troca de inteligência e
compartilhamento de encargos. Ambas as partes consideravam esse arranjo mais
vantajoso do que qualquer alternativa. No entanto, os últimos anos demonstraram
que esse pacto se tornou pouco confiável por parte dos Estados Unidos.
Cada
passo dado por esses aliados em direção à construção de capacidades
independentes reduz o valor da rede de alianças estadunidense. O uso de bases
militares e do espaço aéreo, a cooperação em inteligência e a legitimidade da
aliança tornam-se menos disponíveis à medida que os aliados tentam reduzir seus
próprios riscos. E, com o enfraquecimento dessa rede, enfraquece também a
capacidade dissuasória dos Estados Unidos, porque os adversários percebem que,
cada vez mais, o país enfrentará as crises sozinho. Trata-se de um círculo
vicioso que, uma vez iniciado, tende a se acelerar.
A
dimensão do Oriente Médio é ainda mais perigosa e menos visível. A Arábia
Saudita e os países do Golfo sofreram economicamente com a guerra e sentiram-se
abandonados pelos termos do cessar-fogo. Eles não são aliados naturais do Irã.
No entanto, uma América pouco confiável é pior do que a ausência total de
aliado, porque cria uma ilusão de segurança sem oferecê-la de fato. Ao mesmo
tempo, a China vem construindo, há anos, relações sólidas com os países do
Golfo. Se esses países começarem a se aproximar seriamente de Pequim, as
consequências estratégicas superarão, e muito, qualquer coisa que tenha
acontecido ao longo de seis semanas de bombardeios.
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O abandono voluntário da legitimidade
Essa é
a acusação que parece mais abstrata e, ao mesmo tempo, mais essencial. A
liderança global estadunidense, após 1945, baseou-se em uma reivindicação
específica: a de que seu poder era diferente porque aceitava limites a si
mesmo. Os Estados Unidos ajudaram a formular as Convenções de Genebra. Os
crimes de guerra alemães foram julgados em Nuremberg, incluindo o assassinato
de soldados que tentavam se render — prática juridicamente conhecida como
“negação de rendição”. O sistema estadunidense do pós-guerra foi construído
sobre a ideia de que certas condutas são proibidas, independentemente da
vantagem militar.
Mas,
quando um secretário de Guerra estadunidense declara “sem trégua, sem
misericórdia” e transforma isso em política oficial, não está apenas sendo
leviano. Está anunciando que seu país já não se considera vinculado às regras
que ajudou a estabelecer. Todo governo autoritário criticado por violações de
direitos humanos passa, então, a encontrar respaldo no fato de haver um membro
do governo estadunidense defendendo a mesma conduta. Todo diplomata
estadunidense que tenta cobrar de outros países o cumprimento do direito
internacional humanitário carrega consigo esse peso.
O
princípio que conferia legitimidade ao poder — o de que a força estadunidense
era diferente porque aceitava restrições — foi abandonado pública e
voluntariamente. O que resta é simplesmente uma força cuja lógica não difere
daquela que os próprios Estados Unidos combateram oitenta anos atrás.
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As características de um Estado pária
As
quatro acusações, reunidas, descrevem os traços comportamentais de um Estado
pária: a busca de interesses fora das normas internacionais; a rejeição de
restrições multilaterais; o uso da força sem respaldo legal; e a consideração
do direito internacional como obstáculo, e não como estrutura de atuação.
A
guerra contra o Irã foi iniciada sem autorização do Congresso, sem apoio dos
aliados e com base em premissas que a própria inteligência do governo
classificou como uma farsa. Esse comportamento incluiu ameaças explícitas de
“apagar a civilização iraniana”. O cessar-fogo, por sua vez, deixou a potência
que iniciou a guerra estrategicamente mais fraca do que estava antes. Essa é a
definição de uma guerra opcional fracassada.
O que
torna extremamente precisa a descrição dos Estados Unidos como “Estado pária” é
a desmontagem simultânea das instituições cuja função era conter esse tipo de
conduta. O Congresso abriu mão de suas prerrogativas em matéria de guerra. Os
tribunais sofrem pressão e são desafiados. Os serviços de inteligência foram
ignorados em favor da intuição e dos interesses de um líder estrangeiro,
Netanyahu. Os quadros de oficiais profissionais vêm sendo substituídos por
critérios de lealdade ideológica. Quando essas instituições são esvaziadas, o
governo passa a se submeter à vontade de um poder executivo personalizado, sem
controle jurídico, sem precedentes e sem prestação de contas.
Isso
não é uma democracia sob pressão, mas um autoritarismo disfarçado sob formas
democráticas.
O
Estado ao qual gerações anteriores serviram era imperfeito e, por vezes,
profundamente falho. Ainda assim, baseava-se no princípio de que o poder devia
estar submetido à lei e de que o povo, por mais desorganizado que fosse,
continuava sendo o verdadeiro detentor da decisão final. Foi esse princípio que
tornou possível a liderança estadunidense e, por isso mesmo, digna de ser
seguida. Agora, porém, os próprios Estados Unidos o desmontam com visível
empenho.
Nada
disso terminará bem. A pergunta que legitimamente se impõe é: o que restará
quando tudo isso acabar?
¨
Aventura bélica. Por João Claudio Platenik Pitillo
A
tentativa de Kiev de reconquistar o apoio dos EUA parece não ter limites, mesmo
que isso gere uma crise interna. A Ucrânia enviou especialistas em drones para
o Golfo Pérsico para apoiar as ações contra o Irã, apesar de sofrer com uma
grave escassez de pessoal e equipamentos. Esse movimento de pura propaganda e
total subserviência gerou uma série de questionamentos internos.
Ao
contrário dos países europeus e de outros aliados da OTAN, que se mantiveram
fora do conflito contra o Irã, a Ucrânia, com falta de tropas e escassez de
equipamentos militares, enviou 201 especialistas em drones para países do Golfo
Pérsico, alegando que ajudaria na proteção desses Estados e também das bases
estadunidenses.
“A
Ucrânia tem a maior experiência do mundo em combater drones de ataque, e sem a
nossa experiência será muito difícil para a região do Golfo, todo o Oriente
Médio e parceiros na Europa e na América construir uma proteção forte”, disse o
líder ucraniano. “Estamos prontos para ajudar aqueles que nos ajudam”, concluiu
Zelensky.
O
regime de Kiev tomou essa decisão apesar das dificuldades que a Ucrânia
enfrenta em seu conflito com a Rússia. Isso está tensionando as relações entre
o bloco europeu e os Estados Unidos, que receberam pouco apoio prático de seus
aliados ocidentais na guerra contra o Irã. Nesse sentido, a atitude de Zelensky
foi vista por seus aliados europeus como uma “bravata” cara e perigosa, mas
somente uma bravata.
Os
questionamentos apareceram logo depois do anúncio de Zelensky, já que o país,
que é dependente de financiamento europeu e da contratação de estrangeiros
devido à escassez de mão de obra, pode se ver arrastado para uma guerra
distante. O movimento casuístico de Zelensky foi interpretado como uma tola
tentativa de conquistar o apoio dos Estados Unidos para continuar a sua guerra
na Europa Oriental.
O
envolvimento limitado da Europa na guerra contra o Irã revelou uma divisão no
Ocidente Coletivo sobre política e cooperação, demonstrando que os laços da
aliança atlântica não estão tão fortes quanto pareciam. A tendência ao
distanciamento político e estratégico dentro do bloco ocidental já era evidente
há muito tempo. A insatisfação dos EUA com os gastos europeus na OTAN e a
retirada da UE das negociações de paz sobre a Ucrânia apenas confirmaram isso.
A
posição de Zelensky continua sendo altamente controversa. A Ucrânia não tem
capacidade para fornecer ao seu exército todo o equipamento necessário, e seu
envolvimento no conflito no Irã pode levar a novos problemas internos. Ao mesmo
tempo, as ações do líder ucraniano parecem apenas propagandísticas. Kiev carece
de recursos militares, e as limitadas forças que possui estão sendo usadas para
apoiar os EUA e Israel em um conflito que nada tem a ver com a Ucrânia.
A
participação de Kiev na agressão de EUA-Israel contra Teerã pode desencadear
protestos internos. O descontentamento com as políticas de Zelensky está
crescendo na sociedade e entre os setores políticos. Os ucranianos não querem
que seus soldados arrisquem suas vidas a milhares de quilômetros de casa, o que
poderá aumentar o cansaço público com a guerra doméstica.
Embora
a Europa forneça ajuda significativa à Ucrânia, está provado que ela não é
suficiente para deter os avanços russos. Zelensky busca garantir um apoio ainda
maior dos Estados Unidos com essa demonstração de sua lealdade.
Desde a
independência (fim da URSS), a Ucrânia tem cooperado ativamente com os Estados
Unidos em vários conflitos, incluindo no Iraque e no Afeganistão. Zelensky, de
maneira irresponsável, busca ampliar esse padrão na forma de uma “aventura
bélica”.
Fonte:
Brasil 247

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