Tomar
chuva faz bem? Veja quatro benefícios apontados pela ciência
Desde
seu aroma inconfundível até os íons negativos que libera, a chuva oferece
benefícios fascinantes para o nosso organismo, especialmente no que diz
respeito ao nosso estado de ânimo.
Era o
sexto dia consecutivo em que o índice de calor superava os 38 °C em New
Milford, Connecticut, quando o céu adquiriu um inquietante tom púrpura.
Eu
conduzia um workshop de teatro ao ar livre e notei que uma nuvem de vários
quilômetros de extensão avançava sobre nossas cabeças.
De
repente, um trovão sacudiu o chão e um relâmpago se estendeu pelo firmamento
como uma teia irregular. Ouvimos a chuva antes de senti la. Depois, ficamos
encharcados sob um aguaceiro.
Ninguém
conseguia ouvir os outros, então apontei para uma plataforma coberta próxima e
meus alunos e eu corremos até lá.
Encharcados
e rindo, observamos a tempestade continuar desatada. Cerca de 30 minutos
depois, o céu se abriu e o ar parecia surpreendentemente limpo e fresco. O
aroma intenso e inconfundível da chuva era avassalador.
Enquanto
voltávamos caminhando ao local do ensaio, a grama e as árvores pareciam, de
alguma forma, mais verdes e saudáveis.
Todos
pareciam mais leves, sorriam com mais facilidade, e eu senti como se uma névoa
mental finalmente tivesse se dissipado.
Será
que isso aconteceu porque a onda de calor havia cedido ou pela adrenalina da
corrida até o abrigo? Ou a chuva teve alguma influência sobre o nosso melhor
estado de ânimo coletivo?
Ao
longo de décadas estudando os elementos relacionados ao potencial da chuva para
melhorar o humor, cientistas encontraram evidências sólidas que apoiam essa
ideia.
E esse
não é o único benefício da chuva: pesquisas mostram que ela também remove
substâncias nocivas do ar, enquanto seu cheiro pode até estimular nossa
memória.
Há
ainda benefícios associados à exposição a íons negativos no ar, que também são
gerados pela chuva.
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1. O impulso de serotonina
A
principal razão pode estar no fato de que a chuva libera íons negativos no ar:
moléculas de oxigênio com um elétron adicional que se formam quando as gotas de
chuva colidem entre si ou atingem uma superfície e se fragmentam.
Sabe se
que, em altas concentrações, esses íons estimulam a produção de serotonina e as
ondas alfa no cérebro, promovendo um estado de maior felicidade e relaxamento.
Quando
as gotas de chuva atingem o solo, podem respingar e liberar íons negativos na
atmosfera — um processo conhecido como efeito Lenard.
Portanto,
se você deseja receber uma dose considerável de íons negativos, esses
potenciadores da serotonina, tente dar um passeio durante uma chuva. No
entanto, certifique se de procurar abrigo em local fechado se observar
relâmpagos, por precaução.
Alguns
cientistas sustentam que esses efeitos positivos podem se dever ao fato de que
os íons negativos no ar aumentam os níveis de oxigênio no sangue, o que gera
uma melhora no humor semelhante à observada após a prática de exercício
intenso.
Ainda
não há evidência conclusiva que explique exatamente qual mecanismo fisiológico
está envolvido.
Pam
Dalton, cientista cognitiva do Monell Chemical Senses Center, na Pensilvânia,
Estados Unidos, afirma que ainda não se compreende bem por que os íons
negativos exercem efeitos como alterações de humor, além de influência sobre a
fadiga, o estado cardiovascular e a pressão arterial.
"Embora
seja intrigante, não há um grande consenso a respeito dos benefícios
fisiológicos. E sabe se ainda menos sobre os possíveis mecanismos pelos quais
os íons negativos poderiam desencadear esses efeitos", diz Dalton.
As
pesquisas sobre os efeitos dos íons negativos no humor começaram na década de
1950. Mas os resultados permaneceram inconclusivos até que, nos anos 1990,
passaram a estar disponíveis ionizadores de alta voltagem mais avançados,
capazes de gerar íons negativos com maior eficiência.
Em um
estudo de destaque realizado em 1995, pesquisadores descobriram que
participantes com transtorno afetivo sazonal (TAS) que receberam sessões
diárias com ionizadores de alta voltagem apresentaram probabilidade muito maior
de experimentar uma redução significativa dos sintomas, em comparação com
aqueles que receberam um tratamento de baixa intensidade.
Segundo
Michael Tehan, professor da Universidade de Columbia e diretor do estudo,
chuvas intensas geram níveis de íons negativos no ar semelhantes aos produzidos
pelos ionizadores de alta voltagem usados por sua equipe.
No
entanto, ele observa que, até o momento, nenhum estudo demonstrou isso de forma
direta, nem estabeleceu uma correlação direta entre o tempo de exposição à
chuva e variações de humor.
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2. Um ar mais limpo
Os íons
negativos gerados pela chuva parecem purificar o ar ao remover partículas em
suspensão, como poluentes e alérgenos, facilitando a respiração.
Esse
efeito pode repercutir no humor e na saúde: como a má qualidade do ar está
associada ao aumento da ansiedade e a um risco maior de desenvolver transtornos
de saúde mental mais graves, é lógico supor que um ar mais limpo produza o
efeito oposto.
"Há
evidências razoavelmente sólidas de que os íons negativos são capazes de
remover poeira, bactérias, alérgenos e outras partículas do ar, o que pode ter
um efeito positivo na saúde respiratória de muitas pessoas", diz Dalton.
Até
cerca de uma década atrás, não estava totalmente claro o quão eficazes os íons
negativos eram para a limpeza.
Em um
estudo de 2015, pesquisadores replicaram esse efeito em pequena escala ao
injetar diferentes tipos de partículas em uma câmara de vidro projetada para
gerar gotas de chuva.
Depois
que as gotas evaporaram, os cientistas coletaram as partículas remanescentes,
registrando sua posição para determinar se haviam sido atraídas pelas gotas.
Descobriram
que gotas menores eram particularmente eficazes em atrair essas partículas
suspensas no ar.
Quando
as gotas de chuva caem no chão, essencialmente "varrem" as diminutas
partículas suspensas que encontram pelo caminho, afirma Dan Cziczo, coautor do
estudo e professor de Ciências da Terra, Atmosféricas e Planetárias na
Universidade Purdue, em Indiana, Estados Unidos.
A carga
elétrica — os íons — no interior da gota atua como um ímã para essas
partículas, dando origem a um processo de varredura conhecido como coagulação.
Cziczo
compara o fenômeno ao que ocorre quando uma equipe de construção borrifa água
em um canteiro empoeirado: a poeira suspensa é empurrada de volta para o chão,
deixando o ar mais limpo.
A
intensidade da chuva também influencia. "Quanto mais intensa a chuva,
maior será o efeito de limpeza na atmosfera", diz Cziczo. Isso inclui a
redução da quantidade de íons positivos no ar, que foram associados à
irritabilidade e a um aumento da ansiedade.
Na
próxima vez que houver uma chuva intensa, planeje abrir as janelas logo após o
término.
É
provável que você perceba que o ar parece mais limpo e, se a chuva ocorreu logo
após a passagem de uma frente fria — como costuma acontecer com precipitações
intensas —, o vento associado pode levar parte desse ar mais puro para dentro
de casa, melhorando a qualidade do ar.
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3. O aroma que estimula a memória
O aroma
inconfundível da chuva também pode ter um impacto psicológico.
Conhecido
como petricor, esse cheiro emana do solo após uma tempestade e costuma ser
descrito como penetrante e terroso, embora, de alguma forma, seja limpo.
"O
petricor surge quando a chuva libera aerossóis do solo", afirma Phil
Stevenson, professor de química vegetal da Universidade de Greenwich e líder de
pesquisas sobre características de plantas e fungos nos Jardins de Kew, no
Reino Unido.
"Durante
períodos de seca, moléculas orgânicas provenientes de plantas, animais e do
próprio solo se acumulam nas superfícies. Quando as gotas de chuva as atingem,
essas moléculas — incluindo óleos vegetais voláteis — se fragmentam, tornando
se partículas suspensas no ar."
Acredita
se que o cheiro de "limpo" venha do ozônio, que pode ser arrastado
para a superfície por correntes descendentes das tempestades.
Outra
parte do aroma vem da geosmina, um composto químico produzido por
actinobactérias ao formarem esporos no solo.
"A
chuva libera os esporos e a geosmina, criando aquele aroma familiar da
'primeira chuva após a seca', que é mais perceptível nas estações
quentes", diz Stevenson.
Isso
pode explicar por que os seres humanos são tão sensíveis a esse cheiro. De
fato, somos mais sensíveis a ele do que tubarões ao cheiro de sangue.
Cientistas
levantam a hipótese de que evoluímos para associar o petricor à renovada
abundância de água doce, algo que provavelmente ajudou nossos antepassados a se
sentirem seguros e calmos.
Foi
demonstrado que esses odores provocam mudanças distintas na atividade das ondas
alfa e beta do cérebro, que estão associadas a um estado de maior calma e
relaxamento.
Além
disso, graças ao aroma singular e à transformação drástica que provoca no
ambiente, a chuva também pode se tornar um poderoso gatilho de nostalgia.
Minha
experiência com a tempestade no acampamento aconteceu há mais de 20 anos. No
entanto, toda vez que chove, minha mente recria a imagem daquele dia com uma
clareza impressionante.
"Uma
experiência sensorial, como o cheiro da chuva que se aproxima ou o aroma que
permanece depois, pode se tornar o pano de fundo ou o contexto que fica
indissociavelmente ligado às nossas memórias de lugares ou emoções muito
diversas", afirma Dalton, que dedicou grande parte de sua pesquisa ao
estudo dos aspectos psicológicos do olfato.
Ela
explica que qualquer cheiro tem a capacidade de ativar a amígdala, a estrutura
cerebral responsável por processar emoções e lembranças com forte carga
afetiva.
É
justamente essa conexão com nosso centro emocional que explica por que memórias
associadas a determinados cheiros tendem a se fixar no cérebro e preservar sua
vividez ao longo do tempo.
Assim,
é irrelevante se percebemos um cheiro — como o da chuva — como algo bom ou
ruim; o que realmente importa é o contexto em que vivenciamos essa sensação
olfativa.
Portanto,
da próxima vez que chover, observe o aroma ao abrir uma janela ou ao sair para
caminhar após o temporal. Veja que detalhes de momentos distantes do passado
emergem na sua memória.
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4. O som relaxante
No
entanto, não é apenas o ato de sentir o cheiro e inalar a chuva que pode nos
fazer sentir bem, mas também escutá la.
Por
isso, faixas com som de chuva são frequentemente incluídas em máquinas de
relaxamento sonoro.
Uma
chuva constante pode reduzir os níveis de cortisol, induzindo uma sensação de
calma, além de mascarar ruídos incômodos.
"Os
sons da água têm sido associados à ativação do sistema nervoso parassimpático,
o ramo do sistema nervoso responsável pelo relaxamento e pela
recuperação", afirma Amy Sarow, audiologista clínica que atua em um centro
ambulatorial em Southfield, no Estado americano do Michigan.
"Quando
esse sistema é ativado, podemos observar efeitos fisiológicos como a diminuição
da frequência cardíaca e a redução das respostas ao estresse."
Um
estudo recente revelou que o som da chuva foi mais eficaz na faixa de 40 a 50
decibéis — o equivalente a uma chuva leve e suave —, reduzindo os níveis de
estresse em até 65%.
Uma
chuva intensa, que se situa em uma frequência ainda mais baixa do chamado
"ruído marrom", pode ser mais envolvente e proporcionar uma maior
sensação de acolhimento, além de mascarar ruídos incômodos e favorecer o sono,
diz Sarow.
Ambos
os níveis podem ser relaxantes; muitas vezes, tudo se resume à preferência
pessoal, adverte Sarow.
"Se
alguém escuta esses sons de forma intencional como parte de uma rotina de
relaxamento, a experiência pode começar a se assemelhar a práticas de atenção
plena ou meditação, nas quais o som atua como uma âncora para a atenção e o
relaxamento."
Embora
minha tempestade não tenha me colocado exatamente em um estado zen, ela
conseguiu me fazer sentir melhor e mais conectada ao momento presente.
Agora,
sempre que cai um aguaceiro, procuro dedicar um pouco mais de tempo para me
envolver nessa experiência.
Da
próxima vez que a previsão do tempo for de chuva, pense em se sintonizar com
essa experiência. Você pode se surpreender agradavelmente.
Fonte:
Por Ally Hirschlag, da BBC Future

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