sexta-feira, 24 de abril de 2026

Por que a PF retirou credenciais de policial dos EUA no Brasil após caso de Alexandre Ramagem

A Polícia Federal retirou as credenciais de trabalho de um policial americano que atuava no Brasil junto à corporação.

O anúncio foi feito nesta quarta-feira (22/4) pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, durante entrevista à Globo News e acontece dois dias depois de o governo americano ter determinado o retorno ao Brasil oficial de ligação da PF na Flórida, Marcelo Ivo de Carvalho, após a operação que resultou na detenção temporária do ex-deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem (PL-RJ).

"O princípio da reciprocidade, como regra geral, rege as relações internacionais. E nós, policiais temos um acordo com as agências. À medida em que uma agência retira as credenciais do meu policial, eu retiro as credenciais do norte-americano que está aqui. E faço isso com muito pesar porque eu não gostaria que nada disso estivesse acontecendo", disse o delegado.

Ainda de acordo com Rodrigues, a medida vai impedir o acesso do agente dos EUA a unidades da PF e vai suspender seu acesso a bases de dados fornecidas pelas autoridades brasileiras.

Na terça-feira (21/4), durante viagem a Portugal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia dito que o Brasil poderia adotar o princípio da reciprocidade em relação a oficiais americanos operando no Brasil em resposta à decisão dos Estados Unidos de mandar o agente da PF de volta ao Brasil.

A detenção de Ramagem na semana passada por agentes do ICE fez com que autoridades americanas iniciassem apurações internas para entender o que levou a agência a prender o ex-parlamentar, segundo fontes do governo dos Estados Unidos ouvidas pela BBC News Brasil em caráter reservado.

Na segunda-feira (20/4), governo dos Estados Unidos solicitou ao governo do Brasil que o oficial de ligação da PF na Flórida deixasse o país após sua atuação na detenção de Ramagem.

Em nota divulgada no X (antigo Twitter), o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, do Departamento de Estado americano, não cita o nome do delegado, mas classifica sua atuação como uma tentativa de "manipular" o sistema de imigração dos Estados Unidos.

"Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração tanto para contornar pedidos de extradições formais quanto para estender caça às bruxas política ao território dos Estados Unidos. Hoje, nós pedimos que o funcionário brasileiro relevante deixe nossa nação por tentar fazer isso", diz a nota.

Segundo o diretor-geral da PF, Carvalho já está no Brasil.

Ainda na entrevista, Rodrigues rebateu a tese divulgada pelo governo americano de que o agente da PF tenha tentado manipular as autoridades dos Estados Unidos.

"Não é possível alguém imaginar, que não seja nessa vilania de rede social, que um policial federal estaria nos Estados Unidos para enganar autoridades norte-americanas", disse.

Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão em setembro de 2025 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na mesma ação penal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por crimes de tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, tentativa de golpe de Estado e organização criminosa. Sua defesa alega que ele é inocente.

Apesar da condenação, ele vive nos Estados Unidos desde o ano passado e é considerado foragido pela Justiça brasileira. De acordo com a PF, ele fugiu do Brasil pela divisa do país com a Guiana, de onde pegou um voo para os Estados Unidos.

•        A expulsão do delegado da PF e o recado de Washington ao Brasil. Por Florestan Fernandes Jr

Os sinais dados pelo governo Trump ao expulsar do país o delegado da PF, Marcelo Ivo de Carvalho, são mais do que claros. Trata-se de uma retaliação e, ao mesmo tempo, de um aviso dirigido a agentes da Polícia Federal que atuam em investigações contra bolsonaristas envolvidos em corrupção ou em tentativas de golpe de Estado no Brasil.

Essa nova crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos teve início no dia 13 de abril, em Orlando, quando agentes do ICE prenderam o ex-chefe da Abin, Alexandre Ramagem. A detenção ocorreu no âmbito de uma cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e autoridades norte-americanas. Há mais de dois anos, o delegado Marcelo Ivo de Carvalho atuava em Miami como representante oficial do governo brasileiro junto ao órgão responsável pela repressão à imigração nos EUA.

Play Video

Ramagem permaneceu preso por apenas dois dias e foi colocado em liberdade na quarta-feira (15/04). Cinco dias depois, o delegado da Polícia Federal foi expulso do país sob a alegação infundada de tentar “manipular” o sistema de imigração e contornar pedidos de extradição relacionados ao próprio Alexandre Ramagem.

Condenado a 16 anos de prisão pela trama golpista, Ramagem fugiu do Brasil em setembro do ano passado. Para surpresa do governo brasileiro, o bolsonarista foi liberado dois dias após ser detido pelo ICE sem que, até agora, o governo estadunidense tenha apresentado explicações.

Na prática, a ausência de justificativa formal pouco altera o cenário. Nos Estados Unidos, a extradição depende de autorização do Departamento de Estado, atualmente sob comando de Marco Rubio, que mantém interlocução com figuras como Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.

Esse padrão não é isolado. Países governados pela extrema-direita internacional têm, em geral, oferecido proteção a bolsonaristas que buscam escapar de condenações impostas pela Justiça brasileira. No mês passado, por exemplo, o governo de Javier Milei concedeu refúgio político a Joel Borges Corrêa, condenado pelo STF a 13 anos e seis meses de prisão por participação nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

O contraste é evidente: enquanto milhares de imigrantes brasileiros enfrentam detenções e deportações em condições degradantes pelo ICE, integrantes da extrema-direita brasileira transitam com relativa facilidade. Muitos deles estabeleceram base nos Estados Unidos e, a partir de lá, articulam ações contra o STF e a soberania nacional, como se viu no episódio das sobretaxações promovidas por Trump, que afetaram o comércio bilateral. Entre os abrigados estão, além de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, nomes como Allan dos Santos, Júnior Pena, e até agentes da própria Polícia Federal que colaboraram com o projeto golpista.

Diante desse quadro, resta esperar que a expulsão de um agente da PF produza efeito inverso ao pretendido, servindo de estímulo para o aprofundamento das investigações sobre esquemas de desvio de recursos públicos associados ao bolsonarismo, já evidentes em casos como os do Banco Master e do INSS. Também é fundamental que o governo Lula responda com rapidez, adotando medidas de reciprocidade frente à decisão de Trump.

Outra urgência é garantir a segurança física de Amanda Ungaro, ex-modelo brasileira que, após 23 anos vivendo nos Estados Unidos, foi presa e deportada depois de envolver Donald Trump e Melania em denúncias relacionadas ao caso Epstein. Ex-companheira do empresário italiano Paolo Zampolli, que se valeu da amizade e do cargo de enviado especial do presidente para articular uma ação que resultou na deportação de Amanda Ungaro, assegurando a Zampolli a custódia do filho do casal. Aos 41 anos, Amanda representa um arquivo vivo das relações entre Trump, Melania e Jeffrey Epstein, condenado por comandar uma rede de exploração sexual de menores.

Mais do que episódios isolados, esses fatos revelam uma engrenagem internacional de proteção política que compromete qualquer acordo conjunto entre os dois países no combate ao crime organizado. A resposta à perseguição externa de autoridades brasileiras não pode ser hesitante: exige firmeza institucional. Com certeza a questão da soberania nacional será um dos temas fundamentais a serem debatidos na eleição deste ano.

•        Reciprocidade mostra que Trump pode ser o grande cabo eleitoral de Lula em 2026

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de respaldar a retirada das credenciais de um agente dos Estados Unidos que atuava no Brasil, em resposta à expulsão de um delegado brasileiro do território norte-americano, recoloca no centro do debate um dos pilares mais importantes das relações internacionais: o princípio da reciprocidade. Mais do que um gesto administrativo, a medida sinaliza uma postura de afirmação soberana que pode ter desdobramentos políticos internos relevantes — inclusive no cenário eleitoral de 2026, especialmente diante da postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A declaração de Lula foi direta e carregada de significado político e diplomático. Ao elogiar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o presidente afirmou: “Parabéns pela sua posição em relação ao delegado americano, colocando a reciprocidade, ou seja, o que eles fizeram conosco, a gente vai fazer com eles, esperando que eles estejam dispostos a voltar a conversar e as coisas voltarem à normalidade”. A fala resume, com clareza, o espírito do princípio que rege grande parte das interações entre Estados soberanos.

<><> O que é a reciprocidade e por que ela importa

A reciprocidade é um dos fundamentos estruturais do direito internacional e da prática diplomática. Em termos simples, trata-se da ideia de que os países devem se tratar de maneira equivalente, respondendo a ações de outros Estados com medidas proporcionais. Isso vale para concessões comerciais, acordos bilaterais, vistos, cooperação policial e até sanções.

Sem reciprocidade, o sistema internacional tenderia a se tornar assimétrico e instável. Países mais fortes poderiam impor unilateralmente suas vontades, enquanto os mais frágeis ficariam sem instrumentos de resposta. É justamente esse mecanismo que permite algum grau de equilíbrio em um mundo marcado por profundas desigualdades de poder.

No caso específico envolvendo Brasil e Estados Unidos, a retirada de um representante brasileiro em missão oficial sem negociação prévia foi interpretada pelo governo brasileiro como uma quebra da “boa prática diplomática”. Ao reagir com medida equivalente, o Brasil sinaliza que não aceita tratamento desigual — uma mensagem relevante não apenas para Washington, mas para toda a comunidade internacional.

<><> Soberania em tempos de tensão

A decisão ocorre em um contexto de crescente tensão diplomática, agravada pela atuação de autoridades norte-americanas em casos sensíveis envolvendo o Brasil. O episódio envolvendo o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava em Miami desde 2023 e participou de ações ligadas ao ex-deputado Alexandre Ramagem, tornou-se um ponto de atrito entre os dois países.

Ao aplicar a reciprocidade, o governo brasileiro reafirma sua autonomia institucional e sua capacidade de resposta. Esse tipo de postura tem forte ressonância interna, especialmente em um país com histórico de interferências externas e episódios de lawfare que marcaram profundamente o debate político recente.

A soberania, nesse contexto, deixa de ser um conceito abstrato e passa a se traduzir em ações concretas. E isso tem peso político.

<><> Trump como fator de polarização externa

A presença de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos adiciona uma camada extra de complexidade. Conhecido por sua política externa agressiva e unilateral, Trump frequentemente adota posturas que tensionam relações com outros países, inclusive aliados históricos.

Esse estilo confrontacional pode acabar favorecendo lideranças que se colocam como defensoras da soberania nacional — caso de Lula. Ao reagir a medidas consideradas hostis, o presidente brasileiro se posiciona como alguém capaz de enfrentar pressões externas e proteger os interesses do país.

Nesse sentido, cada episódio de tensão com os Estados Unidos pode reforçar a narrativa de Lula como líder firme e independente, especialmente diante de um adversário internacional percebido como intervencionista. Isso cria um ambiente político no qual Trump, ainda que involuntariamente, pode contribuir para fortalecer Lula no cenário interno.

<><> Impactos na opinião pública brasileira

Historicamente, momentos de atrito com potências estrangeiras tendem a gerar efeitos de coesão nacional. A percepção de injustiça ou desrespeito externo frequentemente mobiliza a opinião pública em torno do governo de turno — desde que este demonstre capacidade de resposta.

A decisão de aplicar a reciprocidade, nesse sentido, dialoga diretamente com um sentimento de afirmação nacional. Ao agir de forma proporcional, o governo transmite a mensagem de que o Brasil não aceita ser tratado como ator secundário no cenário internacional.

Além disso, a medida reforça uma imagem de equilíbrio: não se trata de romper relações ou escalar conflitos, mas de restabelecer condições de igualdade. Esse tipo de postura tende a ser bem recebido por setores moderados da sociedade, que valorizam tanto a soberania quanto a estabilidade diplomática.

<><> Cooperação internacional sob novas bases

Outro aspecto importante do princípio da reciprocidade é que ele não visa romper relações, mas reorganizá-las. Ao estabelecer limites claros, os países criam condições mais equilibradas para a cooperação futura.

No caso da relação Brasil-Estados Unidos, a retirada das credenciais do agente norte-americano não significa o fim da colaboração policial, mas sim a exigência de que ela ocorra em bases mais justas. O próprio Lula sinalizou a expectativa de que o diálogo seja retomado e que a normalidade seja restabelecida.

Esse tipo de reposicionamento pode, inclusive, fortalecer acordos futuros, ao eliminar assimetrias que geram desconfiança. Em outras palavras, a reciprocidade não é apenas um instrumento de reação, mas também de construção de relações mais sustentáveis.

<><> Segurança pública e reforço institucional

No mesmo contexto, Lula anunciou a convocação de mil novos profissionais para a Polícia Federal, incluindo agentes, escrivães, delegados e peritos. A medida reforça a estratégia de combate ao crime organizado e sinaliza prioridade política para o fortalecimento das instituições.

Ao combinar uma postura firme na política externa com investimentos internos em segurança pública, o governo constrói uma narrativa de ação coordenada: defesa da soberania no plano internacional e fortalecimento do Estado no plano doméstico.

Essa articulação amplia o impacto político das decisões, conectando temas aparentemente distintos — diplomacia e segurança — em um mesmo eixo estratégico.

<><> Um princípio que redefine o jogo

A aplicação do princípio da reciprocidade, portanto, vai muito além de um episódio isolado. Ela revela uma mudança de postura na condução da política externa brasileira, marcada por maior assertividade e disposição para responder a pressões externas.

Em um cenário internacional cada vez mais competitivo e fragmentado, esse tipo de posicionamento tende a ganhar relevância. E, no plano interno, pode se traduzir em capital político para lideranças que souberem interpretar e conduzir esse momento.

Ao transformar um episódio diplomático em demonstração de soberania, Lula não apenas reafirma um princípio fundamental das relações internacionais, como também redefine os termos do debate político — dentro e fora do Brasil.

 

Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

 

Nenhum comentário: