O
medo como força política: violência, percepção de insegurança e voto no Brasil
Mais
do que os números da violência, é a percepção de insegurança que organiza o
debate público e orienta escolhas eleitorais, articulando-se com demandas por
ordem, autoridade e valores conservadores.
Este é
o quarto artigo da série — Brasil 2026: entre dados, percepções e narrativas —
como se decide o voto em um país sob tensão.
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Entre a realidade da violência e a experiência do medo
A
violência ocupa um lugar singular na vida social brasileira. Ela não é apenas
um fenômeno mensurável por estatísticas criminais, mas uma experiência
difusa, que atravessa o cotidiano e reorganiza a percepção do mundo social.
Esse
duplo caráter — ao mesmo tempo objetivo e subjetivo — é fundamental para
compreender seu impacto político. Os dados indicam
melhora relativa nos últimos anos, mas a sensação de
insegurança permanece elevada e, em muitos casos, se intensifica.
Segundo
o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 46.328 mortes
violentas intencionais em 2024, com taxa aproximada de 21,7 homicídios por 100
mil habitantes. Trata-se de uma redução significativa em relação ao
pico de 2017, quando os homicídios ultrapassaram 65 mil.
Ainda
assim, o Brasil permanece entre os países mais violentos do mundo fora de
contextos de guerra, inserido em uma região que concentra cerca de um terço dos
homicídios globais, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e
Crime/UNODC, na sigla em inglês: United Nations Office on Drugs and
Crime.
O dado
central não é apenas a existência da violência, mas a persistência de sua
percepção em níveis elevados mesmo após a queda recente.
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A curva da violência no Brasil: o que os dados mostram — e o que não explicam
O
comportamento da violência letal no Brasil nas últimas duas décadas revela um
padrão menos linear — e mais complexo — do que sugerem leituras apressadas.
Entre 2000 e 2017, o país experimentou uma trajetória de alta persistente nas
taxas de homicídio, culminando no pico histórico de 31,6 mortes por 100 mil
habitantes.
A
partir daí, inicia-se uma inflexão significativa, com queda abrupta entre 2018
e 2019 e posterior estabilização em patamar ainda elevado.
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Política
Os
dados mais recentes indicam continuidade dessa trajetória, porém em ritmo mais
lento. Projeções baseadas nas tendências atuais sugerem que, até 2026, o país
deve oscilar em uma faixa entre aproximadamente 18,5 e 20 homicídios por
100 mil habitantes, sem convergir para padrões internacionais mais baixos.
Essa
dinâmica, no entanto, não pode ser atribuída de forma direta ou mecânica a
governos específicos. Embora a inflexão ocorra na transição entre os governos
Michel Temer e Jair Bolsonaro, a literatura especializada aponta para um
conjunto mais amplo de fatores estruturais e conjunturais.
Entre
os principais elementos explicativos estão as mudanças na dinâmica do crime
organizado — com redução de conflitos entre facções em determinados territórios
—, políticas estaduais de segurança pública com graus variados de eficácia e
transformações demográficas, como a diminuição relativa da população jovem,
grupo mais exposto à violência letal. A esses fatores somam-se hipóteses ainda
em debate, como o impacto de políticas de controle de armas e a expansão do
encarceramento.
A
queda, portanto, não representa uma ruptura estrutural — mas uma reacomodação
dentro de um patamar ainda elevado.
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Brasil melhora — mas segue entre os mais violentos
Mesmo
considerando as tendências até 2026, o Brasil permanece distante dos padrões
observados em países comparáveis.
Enquanto
Argentina e Chile apresentam taxas abaixo de 7 homicídios por 100 mil
habitantes, o Brasil segue próximo de 20 — aproximadamente três vezes superior.
Isso indica que a redução recente não alterou sua posição estrutural no cenário
regional.
A
violência, portanto, não é apenas um problema conjuntural, mas uma
característica persistente da formação social brasileira
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A desigualdade da violência
A
vitimização segue profundamente desigual. Jovens negros do sexo masculino
continuam sendo, de forma desproporcional, as principais vítimas da violência
letal no país. Dados recentes do Atlas da Violência indicam que cerca de
76,5% das vítimas de homicídio são pessoas pretas e pardas, evidenciando a
persistência de um padrão estrutural de desigualdade racial na exposição à
violência.
A
dimensão geracional também é central: quase metade das vítimas de
homicídio no Brasil está na faixa de 15 a 29 anos, e os homicídios chegam a
representar uma parcela significativa das mortes nessa população. Mesmo com a
queda geral dos indicadores na última década, o risco de um jovem negro ser
vítima de homicídio segue muito superior ao de outros grupos — podendo ser mais
de duas vezes maior — o que revela que a redução da violência não tem sido
acompanhada por uma diminuição equivalente das desigualdades.
Essa
configuração revela que a violência é também expressão da desigualdade
estrutural do país. Ela não atinge todos da mesma forma, mas sua percepção
ultrapassa esses limites e se difunde socialmente.
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Quando a violência se torna percepção
Se os
dados indicam redução, as pesquisas de opinião apontam na direção oposta. Cerca
de 70% dos brasileiros afirmam sentirem-se inseguros em seu
cotidiano, segundo o Latinobarômetro. Levantamentos do Datafolha mostram que a
violência aparece de forma recorrente entre os principais problemas do país.
Estudos da Ipsos indicam que aproximadamente 68% da população teme ser vítima
de crimes violentos.
Esses
números revelam uma dissociação central: a violência pode recuar em termos
estatísticos, mas a sensação de insegurança permanece elevada.
Essa
percepção não se forma apenas a partir da experiência direta. Ela resulta da
combinação entre vivências individuais e relatos próximos, principalmente nas
regiões periféricas das grandes cidades, onde o Estado não se faz presente com
políticas públicas, inclusive de segurança, e, resulta, sobretudo, da exposição
constante a conteúdos sobre violência em meios de comunicação.
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A mediação do medo
A forma
como a violência é percebida está profundamente associada aos sistemas de
comunicação. Programas televisivos, cobertura jornalística e, sobretudo, redes
sociais ampliam a visibilidade de episódios violentos, muitas vezes
descontextualizados.
Crimes
localizados ganham alcance nacional, casos excepcionais se tornam recorrentes
na percepção pública e conteúdos emocionalmente carregados circulam com grande
intensidade.
Nesse
processo, a violência deixa de ser apenas um fenômeno localizado e se
transforma em sensação generalizada. O medo passa a operar de forma autônoma em
relação aos dados.
Essa
autonomia é um dos elementos centrais da política contemporânea.
Análise
política detalhada
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O medo como organizador do debate público
Quando
a percepção de insegurança se generaliza, ela reorganiza prioridades. A
segurança pública passa a ocupar o centro da agenda política, deslocando outros
temas — inclusive econômicos — para posições secundárias.
Nesse
contexto, propostas de caráter estrutural, como redução da desigualdade social
ou políticas sociais preventivas, perdem espaço para soluções imediatas,
baseadas em aumento do policiamento, endurecimento penal, ampliação do
encarceramento e fortalecimento da autoridade estatal.
O
debate público se simplifica, e o medo se converte em critério de
avaliação política.
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Entre insegurança e valores
A
percepção de insegurança não atua isoladamente. Ela se articula com valores e
identidades. Em contextos de medo, cresce o apoio a posições mais
conservadoras, que enfatizam ordem, disciplina e autoridade.
Pesquisas
do Latinobarômetro e do World Values Survey mostram
que contextos de insegurança aumentam a aceitação de medidas mais
duras e, em alguns casos, de restrições a direitos em nome da segurança.
No
Brasil, esse movimento é particularmente intenso. Ele se combina com a
centralidade crescente da religião e das pautas morais, formando um campo de
convergência entre medo e conservadorismo.
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Pautas comportamentais e valores
Esse
processo de convergência entre medo e conservadorismo é reforçado pelo peso das
pautas comportamentais.
Pesquisas
do Datafolha e do Ipec indicam elevada adesão a posições
conservadoras em temas como o papel da família, a religião na vida
pública, os costumes e a moralidade.
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Economia brasileira
A
presença crescente de grupos religiosos no espaço público reforça essa
tendência. Segundo o IBGE, os evangélicos neopentecostais já representam mais
de 30% da população brasileira e têm forte capacidade de mobilização política.
Em
contextos de insegurança, as pautas comportamentais funcionam como referências
de estabilidade simbólica, reforçando a adesão a projetos políticos
conservadores.
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Do medo ao voto
O
impacto político dessa dinâmica
é direto. A insegurança redefine a forma como o eleitor interpreta a
realidade e orienta suas escolhas.
A
violência, ou mais precisamente sua percepção da violência, atua como um atalho
cognitivo. Diante de um ambiente complexo, o medo simplifica a decisão,
deslocando o foco para questões de ordem e proteção.
Nesse
cenário, candidatos associados a respostas rápidas e contundentes tendem a
obter vantagem, mesmo quando os indicadores apontam melhoras relativas nos
índices de violência.
A
economia continua relevante, mas deixa de ser o único eixo organizador do voto.
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A centralidade da segurança em 2026
Nas
eleições de 2026, a segurança pública tende a ocupar posição central. A
persistência da percepção de insegurança, mesmo diante da redução de taxas de
homicídios, favorece discursos que prometem controle, estabilidade e resposta
imediata ao crime.
Além
disso, a própria estrutura do debate público — marcada por circulação acelerada
de informações, simplificação narrativa e forte apelo emocional — favorece
temas como violência e criminalidade, sobretudo em um ambiente mediático que
privilegia mensagens simples e emocionalmente mobilizadoras.
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Análise política detalhada
Questões
estruturais, como desigualdade, políticas urbanas ou prevenção social,
enfrentam maior dificuldade de comunicação e tendem a perder espaço para
soluções de impacto imediato.
O
resultado é um cenário no qual o medo opera como força política
estruturante.
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Entre dados e decisão
A
relação entre violência e comportamento eleitoral não é linear. Ela resulta da
interação entre indicadores objetivos, experiências subjetivas e narrativas que
dão sentido a essas experiências.
Nesse
conjunto, a percepção tende a prevalecer sobre o dado.
Isso
ocorre porque o dado estatístico exige mediação para produzir sentido político,
enquanto a percepção atua de forma imediata. A experiência do medo — direta ou
indireta — é suficiente para orientar julgamentos, independentemente da
evolução dos indicadores.
Essa
inversão é decisiva. Ela ajuda a explicar por que a melhora dos indicadores de
segurança não se traduz automaticamente em vantagem política para os governos.
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Quando o medo define a escolha
Em
contextos de incerteza, o medo opera como um mecanismo de simplificação da
realidade. Diante da complexidade social e da multiplicidade de problemas, ele
reduz o campo de decisão a uma questão central: proteção.
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Política
O
Brasil chega a 2026 com uma configuração marcada por três elementos
simultâneos: níveis de violência ainda elevados em termos internacionais,
trajetória recente de queda ou estabilização e persistência da percepção de
insegurança. Essa combinação produz um efeito político específico.
A
dissociação entre dados e percepção não é um detalhe — é um dos elementos
centrais da disputa política. Mais do que os números da violência, é a forma
como ela é vivida e interpretada que orienta o voto.
Nesse
contexto, o medo deixa de ser apenas uma reação social e se consolida como
fator ativo na organização da vida política. Ele molda agendas, orienta
discursos, redefine prioridades e influencia diretamente o comportamento
eleitoral. O medo, assim, não apenas acompanha o processo — ele o estrutura.
>>>Nota
editorial e fontes (versão final atualizada)
As
análises foram elaboradas com base em dados oficiais, relatórios técnicos e
pesquisas de opinião pública, com apoio de ferramentas de inteligência
artificial e revisão da equipe da RED.
>>>
Bases de dados e estatísticas oficiais
Fórum
Brasileiro de Segurança Pública — Anuário Brasileiro de Segurança Pública
(2023–2025); Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada — Atlas da Violência
(edições mais recentes); Ministério da Saúde do Brasil — Sistema de Informações
sobre Mortalidade (SIM); United Nations Office on Drugs and Crime —
Global Study on Homicide e bases comparativas internacionais.
>>>
Pesquisas de opinião e percepção social
Economia
brasileira
Latinobarômetro;
Datafolha; Ipsos.
>>>
Valores, comportamento e cultura política
World
Values Survey; Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística — Censo Demográfico 2022 e atualizações.
>>>
Nota metodológica
Os
dados de violência letal baseiam-se em registros administrativos consolidados e
estimativas recentes. Para o período 2024–2026, quando indicado,
utilizam-se projeções de tendência, construídas a partir da evolução das
séries históricas e de dados preliminares disponíveis, devendo ser
interpretadas como aproximações e não como valores observados.
Fonte:
Por Benedito Tadeu César, em Brasil 247 - Colaborou: Maria da Graça Pinto
Bulhões

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