sexta-feira, 24 de abril de 2026

Dustin Guastella: “Quem se importa?” nos levou a Trump

Recentemente, Jerusalem Demsas e Matthew Yglesias debateram os méritos dos programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) em um novo podcast da revista liberal The Argument. Demsas defendeu a visão de que esses programas são, em geral, bons. Yglesias argumenta que eles são ruins e politicamente perigosos.

Ele dá um exemplo impressionante envolvendo o bilionário e ex-astro da NBA Magic Johnson, cuja empresa, a Magic Johnson Enterprises, possui uma subsidiária que é 51% propriedade de Johnson e 49% da Sodexo, uma multinacional francesa com faturamento de US$ 32,9 bilhões. A subsidiária existe apenas para apresentar a Sodexo como “uma empresa de propriedade de minorias” — o bilionário Johnson é, obviamente, negro — para que os serviços oferecidos se qualifiquem para contratos lucrativos com as Escolas Públicas do Distrito de Columbia.

A frustração de Yglesias é evidente. “E é como se perguntassem: o que estamos conseguindo com isso agora?”

Demsas interrompe:

Quem se importa, cara? Tipo, tem outras situações em que eu penso: “É, alguém tá perdendo uma grande oportunidade aqui.” Tipo, quemse importa? Nesse caso, é tipo: “É, isso parece ruim e não deveria acontecer. Seria melhor se não acontecesse.” Mas eu penso: isso não é como se…

E continua assim.

Isso é uma manobra evasiva. E Demsas sabe que é uma manobra evasiva. Ela sabe exatamente “quem se importa”. A própria Demsas se importa, visto que está debatendo a questão publicamente — aliás, ela parece exasperada. E ela sabe que muitas pessoas se importam, especificamente, com o tipo de abuso que Yglesias destaca.

O problema com muitos desses programas de diversidade é exatamente este: alguns acabam beneficiando pessoas que não precisam de ajuda alguma. São programas criados pela elite, para a elite. Até a sigla entrega isso. DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) trata de “diversificar” a elite. Os conselhos de administração podem até ter a liberdade de recomprar ações de suas próprias empresas para financiar a demissão de milhares de funcionários, mas esses conselhos precisam ser diversos.

Nada disso é segredo. Nada disso é por acaso. E nada disso é novo. Em 2026, grande parte da esquerda tem clareza sobre o que “inclusão”, “equidade” e “diversidade” significam na prática. Críticas extensas da esquerda a esses programas vêm sendo feitas há anos. Muitas delas nesta mesma publicação. Mas a maioria dos liberais ainda não chegou a essa conclusão. Não importa o quão falhas sejam essas políticas, não importa quantas evidências tenhamos de que elas não ajudam as pessoas comuns de forma significativa e que, na verdade, são politicamente tóxicas, criticar a Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) está sempre fora de questão. Porque qualquer crítica ao “nosso lado” soa um pouco “trumpista demais” para o nosso gosto. É isso que Demsas quer dizer quando pergunta: “Quem se importa?”

Ela não está sozinha. “Quem se importa?” tornou-se uma resposta padrão dos liberais a uma série de críticas. Eleitores em bairros pobres preocupados com a criminalidade? Quem se importa? Aumento dos casos de overdose? Quem se importa? Aumento da desordem pública? O preço crescente dos ovos? Quem se importa?

Tornou-se a maneira mais fácil de ignorar qualquer crítica a uma visão de mundo liberal cada vez mais fossilizada e uma forma de defender posições ruins desenvolvidas na década de 2010, marcada pela obsessão por algoritmos. Parte-se do princípio de que qualquer política endossada pelos democratas deve estar correta, simplesmente porque os republicanos sãop burros e malucos. Diz-se: claro que nossas políticas não são perfeitas, mas por que deveríamos revisá-las? Vejam como as dos outros são ruins! Afinal, quem se importa se errarmos em algumas coisas?

Mas as pessoas se importam, sim. Aliás, a maioria das pessoas da classe trabalhadora se importa. Acontece que, enquanto a maioria das pessoas com formação universitária não vê problema em programas de diversidade, uma maioria inversamente proporcional das pessoas sem formação universitária acha esses programas injustos e ruins.

Os brancos da classe trabalhadora são os mais ofendidos por essas políticas — impressionantes 79% deles se opõem a iniciativas de diversidade baseadas em raça. Será que isso acontece porque são todos intolerantes? Ou será que, depois de décadas lutando para sobreviver, estão sendo considerados “privilegiados” demais para receber ajuda?

Não é que Demsas desconheça isso. Ela conhece as estatísticas. O que ela está realmente dizendo é que essas pessoas não contam na matemática do liberalismo hoje em dia. Elas não fazem parte do grupo seleto, então “quem se importa” com o que elas pensam? Dá para ver como o psicodrama se desenrola em tempo real, depois que Demsas solta o “Quem se importa, cara?”. Yglesias engole em seco. Ele sabe que a questão de Johnson é indefensável, mas, mesmo assim, ele foi atingido. O que ela está perguntando é: “Você realmente quer morrer defendendo essa posição?”.

Por outro lado, “Quem se importa?” pode ser outra forma de dizer “Não vamos mudar”. Porque não são apenas os eleitores da classe trabalhadora que imploram aos democratas que ajam como os adultos responsáveis. Um estudo recente dos cientistas políticos David Broockman e Joshua Kalla deixa claro que, se os democratas querem conquistar o apoio da classe trabalhadora, abandonar seu compromisso com programas de diversidade que priorizam a raça é um ótimo ponto de partida.

É claro que os liberais sabem que muitas de suas posições são um problema para os eleitores, mas também sabem que têm metade do país como refém. O apoio a Donald Trump está implodindo graças aos seus ataques cada vez mais voláteis (às tradições democráticas, ao Irã, aos nossos salários e muito mais). E os democratas da elite contam com a física política: se a direita foi longe demais, supõem eles, o pêndulo voltará a oscilar em sua direção mais cedo ou mais tarde. Eles não precisam mudar; só precisam esperar. O problema é que talvez não funcione mais assim.

Lembrem-se, foi exatamente assim que os liberais se colocaram, por conta própria, em mais um governo Trump. Quando Joe Biden declarou que escolheria uma mulher para ser sua vice-presidente — e logo em seguida especificou que seria uma mulher negra — qualquer pessoa que expressasse a mínima preocupação de que isso estivesse limitando desnecessariamente suas opções era recebida com o mesmo tipo de perguntas ameaçadoras. Por que você se importa com isso? Não está prejudicando ninguém. Além disso, há algo de errado em escolher uma mulher negra?

Bem, Biden não escolheu uma ótima candidata. Ele escolheu Kamala Harris, cuja habilidade política se resume a ser uma liberal de elite, vinda do próprio bastião do liberalismo de elite. Ele tinha todos os motivos do mundo para duvidar que ela pudesse vencer uma eleição nacional quatro anos à frente. E, como era de se esperar, ela perdeu.

O mundo agora vive com as consequências dessa decisão. Meninas mortas no Irã. Israel descontrolado e implacável. Relações globais caóticas e cada vez mais instáveis. Preços em alta. Flutuações incompreensíveis no mercado de ações. Desigualdade explosiva. Pobreza devastadora. Essas são as consequências reais do “Quem se importa?”.Para sermos claros, não se trata de os liberais abandonarem seus princípios; se existem políticas que valem a pena defender, que valem a pena convencer as pessoas a aceitar, então, pelo amor de Deus: defendam-nas! Apresentem o argumento. O problema é que “Quem se importa?” não é um argumento. É uma rejeição à dissidência. E será interpretado pelo eleitorado, corretamente, como mais um exemplo de elitismo desconectado da realidade por parte do clero assalariado do Partido Democrata.

Johnson, por exemplo, poderia comprar um carro de 200 mil dólares por semana até morrer e isso pareceria um erro de arredondamento em seu extrato bancário. Em vez disso, os defensores da Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) endossam a distribuição horizontal de oportunidades entre a elite. E fazer isso os coloca na posição de ter que defender os muito ricos em um momento em que — graças à nossa economia em forma de K — os 80% mais pobres do país estão lutando apenas para sobreviver.

O raciocínio deles parece ser: “Vejam bem, se a Sodexo já está abocanhando dinheiro dos impostos, então o bilionário Johnson também deveria receber uma fatia, certo? Por que o saque privado do dinheiro público deveria se limitar àqueles de pele clara?”

Politicamente, é um argumento desastroso.

•        Guerra de Israel levou a retrocesso de 77 anos no desenvolvimento humano em Gaza, diz ONU. Por Tatiana Carlotti

Um relatório conjunto da Organização das Nações Unidas (ONU), da União Europeia e do Banco Mundial revela que a Faixa de Gaza sofreu um retrocesso de 77 anos em seu desenvolvimento humano em decorrência de dois anos de ofensiva militar israelense no território palestino.

Intitulado “Avaliação Rápida de Danos e Necessidades na Faixa de Gaza“, o documento afirma que “a escalada do conflito nos últimos dois anos teve um impacto humanitário catastrófico” e informa que “toda a população da Faixa de Gaza está sofrendo impactos significativos, diretos e de longo prazo em sua saúde física, estabilidade econômica e bem-estar psicossocial”.

O relatório afirma que 72.560 palestinos foram mortos e 172.317 feridos em Gaza, ponderando que há muitos corpos sob os escombros, o que tende a aumentar esses números. Quase 1,9 milhão de pessoas foram deslocadas, muitas repetidamente, e mais de 1,2 milhão de palestinos em Gaza, cerca de 60% da população, perderam suas casas.

O relatório prevê que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) deverá cair para 0,339, o nível mais baixo desde o início das medições. Mais de 40% das gestantes e lactantes estão gravemente desnutridas e dois terços sofrem de anemia, enquanto praticamente 100% das crianças necessitam de apoio psicossocial e de saúde mental.

<><> Reconstrução

Segundo o estudo serão necessários US$ 71,4 bilhões (R$ 355 bilhões) ao longo da próxima década para reconstruir o território palestino e restabelecer condições mínimas na região. Desse total, US$ 26,3 bilhões devem ser mobilizados de forma imediata, nos próximos 18 meses, para restaurar serviços essenciais, reconstruir infraestrutura crítica e impulsionar a recuperação econômica.

O levantamento aponta que os danos à infraestrutura física somam US$ 35,2 bilhões (R$175 bilhões), enquanto as perdas econômicas e sociais chegam a US$ 22,7 bilhões (R$ 112 bilhões) adicionais. O setor habitacional foi o mais afetado: 371.888 unidades foram destruídas ou danificadas, exigindo investimentos estimados em US$ 16,2 bilhões (R$ 80,6 bilhões).

Entre as prioridades de financiamento estão a recuperação da agricultura e dos sistemas alimentares, com necessidade de US$ 10,5 bilhões (R$ 52,2 bilhões); o setor de saúde, que demanda US$ 10 bilhões (R$ 50 bilhões); e comércio e indústria, com US$ 9 bilhões (R$ 45 bilhões).

O impacto social é igualmente severo. Mais da metade dos hospitais está fora de operação e quase todas as escolas foram destruídas. A economia local colapsou, com retração de 84%, e apenas 9,3% da população mantém algum tipo de emprego.

A destruição acumulada gerou aproximadamente 68 milhões de toneladas de escombros, cuja remoção é considerada condição essencial para a retomada de serviços básicos como abastecimento de água, saneamento e higiene.

•        Irã apreende navios em Ormuz e eleva tensão com os EUA

O Estreito de Ormuz, principal artéria do comércio de energia no mundo, tornou-se novamente o epicentro de uma crise geopolítica. O Irã divulgou vídeos nesta quinta-feira (23) que mostram comandos da Guarda Revolucionária abordando e apreendendo dois navios comerciais, o MSC Francesca e o Epaminondas. A ação ocorre em um momento de fragilidade diplomática, após o fracasso das negociações de paz com Washington.

As imagens transmitidas pela TV estatal iraniana exibem lanchas de ataque rápido cercando as embarcações. Segundo Teerã, as embarcações possuem ligações com Israel, operavam sem autorização e adulteraram sistemas de navegação para evitar o rastreamento.

O chefe do Judiciário iraniano, Mohseni Ejei, classificou a operação como uma “demonstração de poder” das Forças Armadas. De acordo com o governo local, o estreito, por onde passa um quinto do petróleo e gás natural liquefeito global, permanecerá sob controle rígido até que os Estados Unidos suspendam o bloqueio à navegação iraniana em águas asiáticas.

“Em uma situação que não é nem paz nem guerra, as coisas são um tanto assustadoras. A cada momento, você pensa que Israel ou os EUA podem lançar um ataque“, afirmou Arash, um funcionário público em Teerã, descrevendo o clima de incerteza que domina a capital.

O MSC Francesca, de bandeira panamenha, transportava quatro marinheiros montenegrinos. O ministro de Assuntos Marítimos de Montenegro, Filip Radulović, confirmou que a tripulação está segura. Além das duas apreensões confirmadas, há relatos de um terceiro ataque a um navio com bandeira da Libéria na mesma região.

<><> Trump ordena retaliação

A resposta de Washington veio de forma imediata. O presidente Donald Trump utilizou sua rede social, Truth Social, para elevar o tom das ameaças militares. O republicano afirmou ter dado ordens diretas à Marinha para destruir embarcações iranianas que interfiram na livre circulação do estreito.

“Ordenei à Marinha dos Estados Unidos que atire e destrua qualquer embarcação, por menor que seja (todos os seus navios, 159 deles, estão no fundo do mar!), que esteja lançando minas nas águas do Estreito de Ormuz. Não deve haver hesitação“, declarou.

Apesar da retórica belicosa, Trump havia anunciado na terça-feira (21) a extensão indefinida de um cessar-fogo para permitir novas conversas intermediadas pelo Paquistão.

<><> Impasse diplomático

O cenário é agravado pela guerra paralela no Líbano, onde ataques israelenses mataram cinco pessoas na quarta-feira (22). O Irã condiciona o avanço de qualquer diálogo global à manutenção da trégua em território libanês.

Para assessores do parlamento em Teerã, os movimentos de Washington são vistos como uma “manobra para ganhar tempo“, enquanto as forças navais de ambos os lados permanecem em prontidão de combate.

 

Fonte: Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil/Opera Mundi/Jornal GGN

 

Nenhum comentário: