Dustin
Guastella: “Quem se importa?” nos levou a Trump
Recentemente,
Jerusalem Demsas e Matthew Yglesias debateram os méritos dos programas de
diversidade, equidade e inclusão (DEI) em um novo podcast da revista liberal
The Argument. Demsas defendeu a visão de que esses programas são, em geral,
bons. Yglesias argumenta que eles são ruins e politicamente perigosos.
Ele dá
um exemplo impressionante envolvendo o bilionário e ex-astro da NBA Magic
Johnson, cuja empresa, a Magic Johnson Enterprises, possui uma subsidiária que
é 51% propriedade de Johnson e 49% da Sodexo, uma multinacional francesa com
faturamento de US$ 32,9 bilhões. A subsidiária existe apenas para apresentar a
Sodexo como “uma empresa de propriedade de minorias” — o bilionário Johnson é,
obviamente, negro — para que os serviços oferecidos se qualifiquem para
contratos lucrativos com as Escolas Públicas do Distrito de Columbia.
A
frustração de Yglesias é evidente. “E é como se perguntassem: o que estamos
conseguindo com isso agora?”
Demsas
interrompe:
Quem se
importa, cara? Tipo, tem outras situações em que eu penso: “É, alguém tá
perdendo uma grande oportunidade aqui.” Tipo, quemse importa? Nesse caso, é
tipo: “É, isso parece ruim e não deveria acontecer. Seria melhor se não
acontecesse.” Mas eu penso: isso não é como se…
E
continua assim.
Isso é
uma manobra evasiva. E Demsas sabe que é uma manobra evasiva. Ela sabe
exatamente “quem se importa”. A própria Demsas se importa, visto que está
debatendo a questão publicamente — aliás, ela parece exasperada. E ela sabe que
muitas pessoas se importam, especificamente, com o tipo de abuso que Yglesias
destaca.
O
problema com muitos desses programas de diversidade é exatamente este: alguns
acabam beneficiando pessoas que não precisam de ajuda alguma. São programas
criados pela elite, para a elite. Até a sigla entrega isso. DEI (Diversidade,
Equidade e Inclusão) trata de “diversificar” a elite. Os conselhos de
administração podem até ter a liberdade de recomprar ações de suas próprias
empresas para financiar a demissão de milhares de funcionários, mas esses
conselhos precisam ser diversos.
Nada
disso é segredo. Nada disso é por acaso. E nada disso é novo. Em 2026, grande
parte da esquerda tem clareza sobre o que “inclusão”, “equidade” e
“diversidade” significam na prática. Críticas extensas da esquerda a esses
programas vêm sendo feitas há anos. Muitas delas nesta mesma publicação. Mas a
maioria dos liberais ainda não chegou a essa conclusão. Não importa o quão
falhas sejam essas políticas, não importa quantas evidências tenhamos de que
elas não ajudam as pessoas comuns de forma significativa e que, na verdade, são
politicamente tóxicas, criticar a Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) está
sempre fora de questão. Porque qualquer crítica ao “nosso lado” soa um pouco
“trumpista demais” para o nosso gosto. É isso que Demsas quer dizer quando pergunta:
“Quem se importa?”
Ela não
está sozinha. “Quem se importa?” tornou-se uma resposta padrão dos liberais a
uma série de críticas. Eleitores em bairros pobres preocupados com a
criminalidade? Quem se importa? Aumento dos casos de overdose? Quem se importa?
Aumento da desordem pública? O preço crescente dos ovos? Quem se importa?
Tornou-se
a maneira mais fácil de ignorar qualquer crítica a uma visão de mundo liberal
cada vez mais fossilizada e uma forma de defender posições ruins desenvolvidas
na década de 2010, marcada pela obsessão por algoritmos. Parte-se do princípio
de que qualquer política endossada pelos democratas deve estar correta,
simplesmente porque os republicanos sãop burros e malucos. Diz-se: claro que
nossas políticas não são perfeitas, mas por que deveríamos revisá-las? Vejam
como as dos outros são ruins! Afinal, quem se importa se errarmos em algumas
coisas?
Mas as
pessoas se importam, sim. Aliás, a maioria das pessoas da classe trabalhadora
se importa. Acontece que, enquanto a maioria das pessoas com formação
universitária não vê problema em programas de diversidade, uma maioria
inversamente proporcional das pessoas sem formação universitária acha esses
programas injustos e ruins.
Os
brancos da classe trabalhadora são os mais ofendidos por essas políticas —
impressionantes 79% deles se opõem a iniciativas de diversidade baseadas em
raça. Será que isso acontece porque são todos intolerantes? Ou será que, depois
de décadas lutando para sobreviver, estão sendo considerados “privilegiados”
demais para receber ajuda?
Não é
que Demsas desconheça isso. Ela conhece as estatísticas. O que ela está
realmente dizendo é que essas pessoas não contam na matemática do liberalismo
hoje em dia. Elas não fazem parte do grupo seleto, então “quem se importa” com
o que elas pensam? Dá para ver como o psicodrama se desenrola em tempo real,
depois que Demsas solta o “Quem se importa, cara?”. Yglesias engole em seco.
Ele sabe que a questão de Johnson é indefensável, mas, mesmo assim, ele foi
atingido. O que ela está perguntando é: “Você realmente quer morrer defendendo
essa posição?”.
Por
outro lado, “Quem se importa?” pode ser outra forma de dizer “Não vamos mudar”.
Porque não são apenas os eleitores da classe trabalhadora que imploram aos
democratas que ajam como os adultos responsáveis. Um estudo recente dos
cientistas políticos David Broockman e Joshua Kalla deixa claro que, se os
democratas querem conquistar o apoio da classe trabalhadora, abandonar seu
compromisso com programas de diversidade que priorizam a raça é um ótimo ponto
de partida.
É claro
que os liberais sabem que muitas de suas posições são um problema para os
eleitores, mas também sabem que têm metade do país como refém. O apoio a Donald
Trump está implodindo graças aos seus ataques cada vez mais voláteis (às
tradições democráticas, ao Irã, aos nossos salários e muito mais). E os
democratas da elite contam com a física política: se a direita foi longe
demais, supõem eles, o pêndulo voltará a oscilar em sua direção mais cedo ou
mais tarde. Eles não precisam mudar; só precisam esperar. O problema é que
talvez não funcione mais assim.
Lembrem-se,
foi exatamente assim que os liberais se colocaram, por conta própria, em mais
um governo Trump. Quando Joe Biden declarou que escolheria uma mulher para ser
sua vice-presidente — e logo em seguida especificou que seria uma mulher negra
— qualquer pessoa que expressasse a mínima preocupação de que isso estivesse
limitando desnecessariamente suas opções era recebida com o mesmo tipo de
perguntas ameaçadoras. Por que você se importa com isso? Não está prejudicando
ninguém. Além disso, há algo de errado em escolher uma mulher negra?
Bem,
Biden não escolheu uma ótima candidata. Ele escolheu Kamala Harris, cuja
habilidade política se resume a ser uma liberal de elite, vinda do próprio
bastião do liberalismo de elite. Ele tinha todos os motivos do mundo para
duvidar que ela pudesse vencer uma eleição nacional quatro anos à frente. E,
como era de se esperar, ela perdeu.
O mundo
agora vive com as consequências dessa decisão. Meninas mortas no Irã. Israel
descontrolado e implacável. Relações globais caóticas e cada vez mais
instáveis. Preços em alta. Flutuações incompreensíveis no mercado de ações.
Desigualdade explosiva. Pobreza devastadora. Essas são as consequências reais
do “Quem se importa?”.Para sermos claros, não se trata de os liberais
abandonarem seus princípios; se existem políticas que valem a pena defender,
que valem a pena convencer as pessoas a aceitar, então, pelo amor de Deus:
defendam-nas! Apresentem o argumento. O problema é que “Quem se importa?” não é
um argumento. É uma rejeição à dissidência. E será interpretado pelo
eleitorado, corretamente, como mais um exemplo de elitismo desconectado da
realidade por parte do clero assalariado do Partido Democrata.
Johnson,
por exemplo, poderia comprar um carro de 200 mil dólares por semana até morrer
e isso pareceria um erro de arredondamento em seu extrato bancário. Em vez
disso, os defensores da Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) endossam a
distribuição horizontal de oportunidades entre a elite. E fazer isso os coloca
na posição de ter que defender os muito ricos em um momento em que — graças à
nossa economia em forma de K — os 80% mais pobres do país estão lutando apenas
para sobreviver.
O
raciocínio deles parece ser: “Vejam bem, se a Sodexo já está abocanhando
dinheiro dos impostos, então o bilionário Johnson também deveria receber uma
fatia, certo? Por que o saque privado do dinheiro público deveria se limitar
àqueles de pele clara?”
Politicamente,
é um argumento desastroso.
• Guerra de Israel levou a retrocesso de
77 anos no desenvolvimento humano em Gaza, diz ONU. Por Tatiana Carlotti
Um
relatório conjunto da Organização das Nações Unidas (ONU), da União Europeia e
do Banco Mundial revela que a Faixa de Gaza sofreu um retrocesso de 77 anos em
seu desenvolvimento humano em decorrência de dois anos de ofensiva militar
israelense no território palestino.
Intitulado
“Avaliação Rápida de Danos e Necessidades na Faixa de Gaza“, o documento afirma
que “a escalada do conflito nos últimos dois anos teve um impacto humanitário
catastrófico” e informa que “toda a população da Faixa de Gaza está sofrendo
impactos significativos, diretos e de longo prazo em sua saúde física,
estabilidade econômica e bem-estar psicossocial”.
O
relatório afirma que 72.560 palestinos foram mortos e 172.317 feridos em Gaza,
ponderando que há muitos corpos sob os escombros, o que tende a aumentar esses
números. Quase 1,9 milhão de pessoas foram deslocadas, muitas repetidamente, e
mais de 1,2 milhão de palestinos em Gaza, cerca de 60% da população, perderam
suas casas.
O
relatório prevê que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) deverá cair para
0,339, o nível mais baixo desde o início das medições. Mais de 40% das
gestantes e lactantes estão gravemente desnutridas e dois terços sofrem de
anemia, enquanto praticamente 100% das crianças necessitam de apoio
psicossocial e de saúde mental.
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Reconstrução
Segundo
o estudo serão necessários US$ 71,4 bilhões (R$ 355 bilhões) ao longo da
próxima década para reconstruir o território palestino e restabelecer condições
mínimas na região. Desse total, US$ 26,3 bilhões devem ser mobilizados de forma
imediata, nos próximos 18 meses, para restaurar serviços essenciais,
reconstruir infraestrutura crítica e impulsionar a recuperação econômica.
O
levantamento aponta que os danos à infraestrutura física somam US$ 35,2 bilhões
(R$175 bilhões), enquanto as perdas econômicas e sociais chegam a US$ 22,7
bilhões (R$ 112 bilhões) adicionais. O setor habitacional foi o mais afetado:
371.888 unidades foram destruídas ou danificadas, exigindo investimentos
estimados em US$ 16,2 bilhões (R$ 80,6 bilhões).
Entre
as prioridades de financiamento estão a recuperação da agricultura e dos
sistemas alimentares, com necessidade de US$ 10,5 bilhões (R$ 52,2 bilhões); o
setor de saúde, que demanda US$ 10 bilhões (R$ 50 bilhões); e comércio e
indústria, com US$ 9 bilhões (R$ 45 bilhões).
O
impacto social é igualmente severo. Mais da metade dos hospitais está fora de
operação e quase todas as escolas foram destruídas. A economia local colapsou,
com retração de 84%, e apenas 9,3% da população mantém algum tipo de emprego.
A
destruição acumulada gerou aproximadamente 68 milhões de toneladas de
escombros, cuja remoção é considerada condição essencial para a retomada de
serviços básicos como abastecimento de água, saneamento e higiene.
• Irã apreende navios em Ormuz e eleva
tensão com os EUA
O
Estreito de Ormuz, principal artéria do comércio de energia no mundo, tornou-se
novamente o epicentro de uma crise geopolítica. O Irã divulgou vídeos nesta
quinta-feira (23) que mostram comandos da Guarda Revolucionária abordando e
apreendendo dois navios comerciais, o MSC Francesca e o Epaminondas. A ação
ocorre em um momento de fragilidade diplomática, após o fracasso das
negociações de paz com Washington.
As
imagens transmitidas pela TV estatal iraniana exibem lanchas de ataque rápido
cercando as embarcações. Segundo Teerã, as embarcações possuem ligações com
Israel, operavam sem autorização e adulteraram sistemas de navegação para
evitar o rastreamento.
O chefe
do Judiciário iraniano, Mohseni Ejei, classificou a operação como uma
“demonstração de poder” das Forças Armadas. De acordo com o governo local, o
estreito, por onde passa um quinto do petróleo e gás natural liquefeito global,
permanecerá sob controle rígido até que os Estados Unidos suspendam o bloqueio
à navegação iraniana em águas asiáticas.
“Em uma
situação que não é nem paz nem guerra, as coisas são um tanto assustadoras. A
cada momento, você pensa que Israel ou os EUA podem lançar um ataque“, afirmou
Arash, um funcionário público em Teerã, descrevendo o clima de incerteza que
domina a capital.
O MSC
Francesca, de bandeira panamenha, transportava quatro marinheiros
montenegrinos. O ministro de Assuntos Marítimos de Montenegro, Filip Radulović,
confirmou que a tripulação está segura. Além das duas apreensões confirmadas,
há relatos de um terceiro ataque a um navio com bandeira da Libéria na mesma
região.
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Trump ordena retaliação
A
resposta de Washington veio de forma imediata. O presidente Donald Trump
utilizou sua rede social, Truth Social, para elevar o tom das ameaças
militares. O republicano afirmou ter dado ordens diretas à Marinha para
destruir embarcações iranianas que interfiram na livre circulação do estreito.
“Ordenei
à Marinha dos Estados Unidos que atire e destrua qualquer embarcação, por menor
que seja (todos os seus navios, 159 deles, estão no fundo do mar!), que esteja
lançando minas nas águas do Estreito de Ormuz. Não deve haver hesitação“,
declarou.
Apesar
da retórica belicosa, Trump havia anunciado na terça-feira (21) a extensão
indefinida de um cessar-fogo para permitir novas conversas intermediadas pelo
Paquistão.
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Impasse diplomático
O
cenário é agravado pela guerra paralela no Líbano, onde ataques israelenses
mataram cinco pessoas na quarta-feira (22). O Irã condiciona o avanço de
qualquer diálogo global à manutenção da trégua em território libanês.
Para
assessores do parlamento em Teerã, os movimentos de Washington são vistos como
uma “manobra para ganhar tempo“, enquanto as forças navais de ambos os lados
permanecem em prontidão de combate.
Fonte:
Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil/Opera Mundi/Jornal GGN

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