sexta-feira, 24 de abril de 2026

Podem as universidades construir suas redes sociais?

Há uma crítica, recorrente e pertinente, de que as universidades públicas brasileiras operam de forma autocentrada, distantes dos conflitos e dos circuitos em que a sociedade disputa sentidos. A universidade deveria ser mais integrada à sociedade, não apenas difundindo melhor seu conhecimento, mas transformando sua própria produção científica no diálogo com outros públicos. A legitimidade da ciência depende da capacidade de participar do debate social com responsabilidade e compromisso com o interesse comum.

Hoje, essa interação ocorre majoritariamente nas mídias sociais. Plataformas comerciais tornaram-se a infraestrutura de facto da circulação pública de ideias, inclusive do conhecimento universitário. Nelas, porém, a universidade é apenas usuária, ela não define regras, critérios de visibilidade ou padrões de moderação. A arena em que a universidade busca cumprir sua missão é mediada por estruturas externas, orientadas por lógicas comerciais e com pouca transparência.

A mesma infraestrutura organiza também dimensões centrais da vida universitária como a formação de coletivos, a preservação de memória, o reconhecimento de grupos e a construção de pertencimento. As políticas de moderação dessas plataformas, assim, influenciam quem permanece, quem se cala e que tipo de debate se sustenta.

Há ainda a questão da soberania informacional. Ao operar em plataformas comerciais, a universidade cede o controle sobre o ciclo de vida dos dados produzidos por sua comunidade. Interações acadêmicas e iniciativas de divulgação tornam-se ativos regidos por termos unilaterais, o que compromete autonomia e dificulta acesso a dados para pesquisa. Recuperar essa soberania restituiria à universidade a capacidade de definir critérios públicos de uso, acesso e proteção dessas informações.

<><> Um problema estrutural das arenas abertas

É compreensível que redes digitais tenham sido celebradas como promessa de democratização da esfera pública. Ao reduzir a dependência de poucos emissores e viabilizar comunicação de muitos para muitos, elas ampliaram vozes e formas de associação. Parte do debate antes concentrado em canais centralizados passou a circular por vias alternativas, alterando regimes de visibilidade e coordenação. Essa mesma arquitetura, porém, transformou o ambiente de interação, redefinindo como reputações se constroem, conflitos escalam e a convivência se sustenta.

Interações presenciais tipicamente têm públicos relativamente definidos, papéis reconhecíveis e expectativas compartilhadas. Esse caráter situado garante, mesmo sob conflitos, certo grau de estabilidade. Nas redes abertas, em contraste, múltiplas audiências coabitam o mesmo espaço. Colegas, alunos, familiares e desconhecidos formam uma audiência indistinta, dificultando a diferenciação contextual que usamos nos encontros face a face. O “colapso de contextos” nessas arenas torna a gestão do discurso mais tensa e defensiva.

Um efeito dessa dinâmica é a instabilidade da solidariedade. A estima depende de horizontes compartilhados de valores, por isso, a mistura constante de públicos torna incertos os critérios de reconhecimento. Cresce a sensibilidade a sinais de desrespeito e a busca por pertencimentos mais nítidos, que ofereçam validação previsível. Duas estratégias, que se reforçam mutuamente, emergem desse contexto: a polarização afetiva, em que o conflito vira distância moral entre coletivos; e a busca de reconhecimento via visibilidade, quando alcance e engajamento substituem a estima social.

<><> A tragédia dos comuns da atenção e da influência

O valor de uma arena aberta depende da possibilidade de influência recíproca. Não basta que as posições coexistam, é preciso que se encontrem, sejam testadas e possam se transformar. Uma arena tem valor quando argumentos alteram convicções, críticas geram revisões e desacordos produzem aprendizado. Essa permeabilidade é um bem comum usufruído pelos usuários.

Como todo bem comum, porém, ela é vulnerável à “tragédia dos comuns”. Decisões racionalmente vantajosas no plano individual podem gerar resultados coletivamente indesejáveis. Em arenas digitais, ajustar a fala para maximizar visibilidade, proteger reputação e reforçar pertencimentos é compreensível. Agregadas, porém, essas escolhas estreitam a permeabilidade do debate, reduzindo escuta e ampliando polarização.

Comunidades podem evitar a tragédia ao criar arranjos institucionais com regras claras, monitoramento e instâncias legítimas de decisão. Recursos comuns não colapsam por natureza, mas quando faltam instituições capazes de sustentar compromissos e resolver conflitos.

Além da falta de instâncias legítimas de moderação, as plataformas comerciais, orientadas por lucro, agravam o problema ao reforçar essas estratégias identitárias e conflituosas, desalinhando-se de valores acadêmicos como revisão pública, justificativa e contestação.

<><> O que uma rede institucional permite fazer diferente

Se o problema é estrutural, a resposta também deve ser. Uma rede institucional deve reorganizar os incentivos que moldam a arena digital para preservar a capacidade de influência recíproca.

Isso exige governança legítima com regras claras e transparentes, participação efetiva da comunidade, instâncias reconhecidas de mediação e possibilidade de recurso. A moderação institucional deve ser um processo justificável e sujeito a prestação de contas.

Além disso, a arquitetura deve proteger o valor epistêmico do debate. Em vez de premiar a viralização, ela deve privilegiar a argumentação, a justificativa pública e a disposição à revisão.

Por fim, há a questão da soberania informacional. A universidade deve prezar por uma gestão de dados orientada por critérios éticos e compatíveis com a LGPD, governados por regras transparentes e, quando adequado, disponíveis para pesquisa.

<><> Rede federada

Uma rede federada reúne instâncias autônomas que compartilham um mesmo protocolo de comunicação. Cada instituição mantém sua infraestrutura e define suas próprias regras de participação e moderação, mas permanece conectada às demais por padrões comuns. Ao contrário de plataformas centralizadas, que concentram decisões em uma única autoridade, a federação distribui responsabilidade sem fragmentar a comunicação. Assim, ela combina escala e autonomia. O valor da rede cresce com o número de participantes interconectados, sem exigir concentração de controle.

Do ponto de vista da governança, redes federadas viabilizam um modelo policêntrico. Cada comunidade alinha normas e procedimentos a seus valores institucionais, preservando transparência e responsabilidade locais, enquanto mantém diálogo com outras instâncias. Essa arquitetura — efeito de rede sem centralização excessiva — é especialmente adequada a instituições públicas que buscam autonomia sem abdicar de um espaço comunicativo amplo.

Esse modelo não depende de inovação tecnológica. O protocolo aberto ActivityPub, recomendado pela W3C (The World Wide Web Consortium), permite que múltiplas instâncias autônomas se comuniquem preservando a governança local. Ele sustenta o chamado fediverso, implementado por sistemas como Mastodon, PeerTube e Pixelfed entre outros. O modelo é maduro, testado e mantido por comunidades ativas. Um piloto na USP teria valor estratégico como modelo replicável. Sua escala e diversidade permitiria experimentar, em condições reais, uma arquitetura digital governável — um laboratório institucional.

<><> Conclusão

O desafio, portanto, não é aspirar a uma esfera pública sem conflitos. Pelo contrário, o dissenso é constitutivo da vida acadêmica e democrática. O que está em jogo é a preservação, em ambientes digitais, das condições que tornam possível a influência mútua. Sem permeabilidade entre posições, sem a expectativa de que argumentos possam produzir revisões, o debate se esvazia de sua função epistêmica e política. Resta apenas a afirmação estratégica, a disputa por visibilidade e o reforço das identidades.

Se a universidade abdica a tarefa de gestão da sua arena digital, ela aceita que a arquitetura da esfera pública digital — onde hoje circulam ciência, controvérsias e formas de pertencimento — seja definida exclusivamente por incentivos comerciais. Ela aceita, em outras palavras, que as regras do debate que a envolve e a constitui sejam moldadas por finalidades que não são as suas.

A criação de uma rede social institucional pode ser um experimento republicano de governança digital, uma iniciativa replicável, capaz de inspirar outras organizações e, acima de tudo, uma decisão estratégica sobre como a universidade pretende habitar e moldar o espaço público no século XXI.

¨      Como a preservação da memória da internet corre perigo

Há 30 anos, o portal archive.org guarda a memória da internet. Sua plataforma Wayback Machine contém mais de um bilhão de sites arquivados e funciona como uma ferramenta imprescindível a partir da qual jornalistas, pesquisadores, historiadores e juristas podem acessar conteúdos originais de páginas que foram alteradas ou até mesmo excluídas.

No entanto, esse projeto fundamental da entidade criada em São Francisco, nos EUA, está diante de uma crise existencial. Por sinal, a última ameaça vem daqueles que mais precisam do arquivo – os veículos de imprensa.

Um número cada vez maior de empresas de comunicação está negando o acesso do Internet Archive aos seus conteúdos. Segundo uma pesquisa da Nieman Foundation for Journalism da Universidade de Harvard, pelo menos 241 portais de notícias de nove países já bloquearam o acesso da Wayback Machine, entre eles o britânico The Guardian, o americano New York Times e o francês Le Monde, além do USA Today, maior conglomerado jornalístico dos Estados Unidos.

<><> Abrindo mão de uma importante ferramenta

O próprio USA Today publicou recentemente uma reportagem mostrando como a polícia de imigração americana, o ICE, havia ocultado informações na web sobre a sua política de detenção. Para a apuração, o jornal utilizou como base os conteúdos da Wayback Machine do archive.org, contradizendo a própria política da empresa, que agora bloqueia o acesso da plataforma a seus artigos.

O motivo pelo qual os veículos de comunicação estão barrando o acesso da ferramenta que eles mesmos utilizam é simples. Os jornais temem que empresas de inteligência artificial, como Open AI ou Google, acessem os conteúdos jornalísticos arquivados na plataforma para treinar seus modelos de linguagem – sem autorização e sem pagar nada. "O problema é que os conteúdos do New York Times no Internet Archive são utilizados pelas empresas de IA, que infringem direitos autorais para concorrer diretamente conosco", declarou o porta-voz do NYT, Graham James.

<><> Milhares de consultas por segundo com robôs

De fato, dados mostram que, no site archive.org, são utilizados inúmeros robôs que procuram conteúdos jornalísticos para utilizá-los no treinamento de modelos de IA – e, assim, obter exatamente as informações que lhes são negadas. O diretor do Wayback Machine, Mark Graham, afirmou à revista Wired que algumas empresas chegaram a acessar os arquivos com dezenas de milhares de solicitações por segundo, a ponto de sobrecarregar temporariamente os servidores.

Era algo que o archive.org não esperava. A organização sem fins lucrativos apresenta-se como uma entidade comprometida com a internet aberta.

"Exatamente como uma biblioteca clássica, oferecemos acesso gratuito a pesquisadores, historiadores, cientistas e pessoas com deficiência visual e ao público em geral. Nosso objetivo é possibilitar a todas as pessoas o acesso universal a todo o conhecimento", diz o lema da associação. Isso também exclui a possibilidade de bloquear robôs e rastreadores – o que levou às sanções impostas pelas grandes editoras e empresas de mídia.

A Electronic Frontier Foundation (EFF), organização de direitos humanos especializada em questões digitais, compara a atitude dos veículos de imprensa a uma situação em que "um jornal proibisse bibliotecas de manter cópias do seu periódico".

<><> A história da internet pode se perder para sempre

Desde então, mais de 100 jornalistas assinaram uma petição em apoio ao Internet Archive. Em carta aberta, eles afirmam: "Em um cenário de mídia digital em que artigos desaparecem devido à perda de links, fusões de empresas ou cortes de custos, os jornalistas dependem frequentemente da Wayback Machine do Internet Archive para recuperar páginas que, de outra forma, estariam perdidas. Sem esse trabalho contínuo de preservação da Internet, grande parte da história jornalística recente já teria se perdido."

Mark Graham, do New York Times, afirmou também à Wired que está em conversas com as empresas de jornalismo para reaver o acesso. O desfecho ainda é incerto. "Não há dúvida de que o bloqueio crescente de grande parte da internet pública prejudica a capacidade da sociedade de compreender o que está acontecendo em nosso mundo", confessou Graham.

<><> Arquivo como infraestrutura pública

Repórter especializado em mídia e fundador do socialmedia watchblog.de, Martin Fehrensen vê no archive.org o único registro funcional da web aberta. Caso a plataforma não consiga mais cumprir essa função, isso teria consequências graves, diz ele à DW.

"Milhões de trechos da Wikipedia perderiam a referência; pesquisas sobre a responsabilidade das plataformas – ou seja, quais termos de uso vigoravam em cada momento, quais regras de moderação foram reformuladas e de que maneira – se tornariam significativamente mais difíceis; e as evidências digitais com valor probatório judicial seriam perdidas", explica, acrescentando que, especialmente para os veículos jornalístico, seria totalmente absurdo bloquear o arquivo.

Segundo Fehrensen, há duas maneiras de se resolver esse conflito. "Precisamos de um diálogo com os editores, com uma separação técnica clara entre o arquivamento e o treinamento de IA, pois esse é o verdadeiro conflito, não o arquivo em si", explica o jornalista.

A médio prazo, na opinião dele, deve ser criado um status jurídico especial para os arquivos da web. E, a longo prazo, o arquivamento da internet deve ser tratado como infraestrutura pública, não como um projeto isolado de uma ONG em São Francisco, acrescenta. "O fato de que, em 2026, ele ainda dependa de uma única organização é a verdadeira falha estrutural", conclui.

<><> Um conflito dramático – entre vários

Não é a primeira vez que o Internet Archive luta para continuar existindo. Em setembro de 2024, um ataque hacker ao site resultou no roubo de 31 milhões de contas de usuário. Foi um duro golpe, mas a organização conseguiu se recuperar.

No mesmo ano, o Archive perdeu um processo de direitos autorais em um tribunal de apelação dos EUA: as editoras Hachette, Penguin Random House, HarperCollins e Wiley entraram com uma ação contra o programa gratuito de empréstimo de e-books que o Archive havia lançado durante a pandemia de Covid-19, e obtiveram sucesso. Mais de 500 mil livros tiveram que ser retirados da plataforma. Mas o archive.org ainda enfrenta pedidos de indenização na casa dos milhões.

Em comparação com essas derrotas, a ameaça atual representada pelos bloqueios da mídia é estruturalmente mais grave, pois não pode ser sanada por uma decisão judicial ou uma atualização. Ela é o resultado de inúmeras decisões corporativas que, em conjunto, minam a essência do Wayback Machine: a documentação completa da internet pública.

 

Fonte: Por Márcio Moretto Ribeiro e Roberta Silva de Lima, no ComCiência/DW Brasil

 

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