Podem
as universidades construir suas redes sociais?
Há uma
crítica, recorrente e pertinente, de que as universidades públicas brasileiras
operam de forma autocentrada, distantes dos conflitos e dos circuitos em que a
sociedade disputa sentidos. A universidade deveria ser mais integrada à
sociedade, não apenas difundindo melhor seu conhecimento, mas transformando sua
própria produção científica no diálogo com outros públicos. A legitimidade da
ciência depende da capacidade de participar do debate social com
responsabilidade e compromisso com o interesse comum.
Hoje,
essa interação ocorre majoritariamente nas mídias sociais. Plataformas
comerciais tornaram-se a infraestrutura de facto da circulação pública de
ideias, inclusive do conhecimento universitário. Nelas, porém, a universidade é
apenas usuária, ela não define regras, critérios de visibilidade ou padrões de
moderação. A arena em que a universidade busca cumprir sua missão é mediada por
estruturas externas, orientadas por lógicas comerciais e com pouca
transparência.
A mesma
infraestrutura organiza também dimensões centrais da vida universitária como a
formação de coletivos, a preservação de memória, o reconhecimento de grupos e a
construção de pertencimento. As políticas de moderação dessas plataformas,
assim, influenciam quem permanece, quem se cala e que tipo de debate se
sustenta.
Há
ainda a questão da soberania informacional. Ao operar em plataformas
comerciais, a universidade cede o controle sobre o ciclo de vida dos dados
produzidos por sua comunidade. Interações acadêmicas e iniciativas de
divulgação tornam-se ativos regidos por termos unilaterais, o que compromete
autonomia e dificulta acesso a dados para pesquisa. Recuperar essa soberania
restituiria à universidade a capacidade de definir critérios públicos de uso,
acesso e proteção dessas informações.
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Um problema estrutural das arenas abertas
É
compreensível que redes digitais tenham sido celebradas como promessa de
democratização da esfera pública. Ao reduzir a dependência de poucos emissores
e viabilizar comunicação de muitos para muitos, elas ampliaram vozes e formas
de associação. Parte do debate antes concentrado em canais centralizados passou
a circular por vias alternativas, alterando regimes de visibilidade e
coordenação. Essa mesma arquitetura, porém, transformou o ambiente de
interação, redefinindo como reputações se constroem, conflitos escalam e a
convivência se sustenta.
Interações
presenciais tipicamente têm públicos relativamente definidos, papéis
reconhecíveis e expectativas compartilhadas. Esse caráter situado garante,
mesmo sob conflitos, certo grau de estabilidade. Nas redes abertas, em
contraste, múltiplas audiências coabitam o mesmo espaço. Colegas, alunos,
familiares e desconhecidos formam uma audiência indistinta, dificultando a
diferenciação contextual que usamos nos encontros face a face. O “colapso de
contextos” nessas arenas torna a gestão do discurso mais tensa e defensiva.
Um
efeito dessa dinâmica é a instabilidade da solidariedade. A estima depende de
horizontes compartilhados de valores, por isso, a mistura constante de públicos
torna incertos os critérios de reconhecimento. Cresce a sensibilidade a sinais
de desrespeito e a busca por pertencimentos mais nítidos, que ofereçam
validação previsível. Duas estratégias, que se reforçam mutuamente, emergem
desse contexto: a polarização afetiva, em que o conflito vira distância moral
entre coletivos; e a busca de reconhecimento via visibilidade, quando alcance e
engajamento substituem a estima social.
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A tragédia dos comuns da atenção e da influência
O valor
de uma arena aberta depende da possibilidade de influência recíproca. Não basta
que as posições coexistam, é preciso que se encontrem, sejam testadas e possam
se transformar. Uma arena tem valor quando argumentos alteram convicções,
críticas geram revisões e desacordos produzem aprendizado. Essa permeabilidade
é um bem comum usufruído pelos usuários.
Como
todo bem comum, porém, ela é vulnerável à “tragédia dos comuns”. Decisões
racionalmente vantajosas no plano individual podem gerar resultados
coletivamente indesejáveis. Em arenas digitais, ajustar a fala para maximizar
visibilidade, proteger reputação e reforçar pertencimentos é compreensível.
Agregadas, porém, essas escolhas estreitam a permeabilidade do debate,
reduzindo escuta e ampliando polarização.
Comunidades
podem evitar a tragédia ao criar arranjos institucionais com regras claras,
monitoramento e instâncias legítimas de decisão. Recursos comuns não colapsam
por natureza, mas quando faltam instituições capazes de sustentar compromissos
e resolver conflitos.
Além da
falta de instâncias legítimas de moderação, as plataformas comerciais,
orientadas por lucro, agravam o problema ao reforçar essas estratégias
identitárias e conflituosas, desalinhando-se de valores acadêmicos como revisão
pública, justificativa e contestação.
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O que uma rede institucional permite fazer diferente
Se o
problema é estrutural, a resposta também deve ser. Uma rede institucional deve
reorganizar os incentivos que moldam a arena digital para preservar a
capacidade de influência recíproca.
Isso
exige governança legítima com regras claras e transparentes, participação
efetiva da comunidade, instâncias reconhecidas de mediação e possibilidade de
recurso. A moderação institucional deve ser um processo justificável e sujeito
a prestação de contas.
Além
disso, a arquitetura deve proteger o valor epistêmico do debate. Em vez de
premiar a viralização, ela deve privilegiar a argumentação, a justificativa
pública e a disposição à revisão.
Por
fim, há a questão da soberania informacional. A universidade deve prezar por
uma gestão de dados orientada por critérios éticos e compatíveis com a LGPD,
governados por regras transparentes e, quando adequado, disponíveis para
pesquisa.
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Rede federada
Uma
rede federada reúne instâncias autônomas que compartilham um mesmo protocolo de
comunicação. Cada instituição mantém sua infraestrutura e define suas próprias
regras de participação e moderação, mas permanece conectada às demais por
padrões comuns. Ao contrário de plataformas centralizadas, que concentram
decisões em uma única autoridade, a federação distribui responsabilidade sem
fragmentar a comunicação. Assim, ela combina escala e autonomia. O valor da
rede cresce com o número de participantes interconectados, sem exigir
concentração de controle.
Do
ponto de vista da governança, redes federadas viabilizam um modelo
policêntrico. Cada comunidade alinha normas e procedimentos a seus valores
institucionais, preservando transparência e responsabilidade locais, enquanto
mantém diálogo com outras instâncias. Essa arquitetura — efeito de rede sem
centralização excessiva — é especialmente adequada a instituições públicas que
buscam autonomia sem abdicar de um espaço comunicativo amplo.
Esse
modelo não depende de inovação tecnológica. O protocolo aberto ActivityPub,
recomendado pela W3C (The World Wide Web Consortium), permite que múltiplas
instâncias autônomas se comuniquem preservando a governança local. Ele sustenta
o chamado fediverso, implementado por sistemas como Mastodon, PeerTube e
Pixelfed entre outros. O modelo é maduro, testado e mantido por comunidades
ativas. Um piloto na USP teria valor estratégico como modelo replicável. Sua
escala e diversidade permitiria experimentar, em condições reais, uma
arquitetura digital governável — um laboratório institucional.
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Conclusão
O
desafio, portanto, não é aspirar a uma esfera pública sem conflitos. Pelo
contrário, o dissenso é constitutivo da vida acadêmica e democrática. O que
está em jogo é a preservação, em ambientes digitais, das condições que tornam
possível a influência mútua. Sem permeabilidade entre posições, sem a
expectativa de que argumentos possam produzir revisões, o debate se esvazia de
sua função epistêmica e política. Resta apenas a afirmação estratégica, a
disputa por visibilidade e o reforço das identidades.
Se a
universidade abdica a tarefa de gestão da sua arena digital, ela aceita que a
arquitetura da esfera pública digital — onde hoje circulam ciência,
controvérsias e formas de pertencimento — seja definida exclusivamente por
incentivos comerciais. Ela aceita, em outras palavras, que as regras do debate
que a envolve e a constitui sejam moldadas por finalidades que não são as suas.
A
criação de uma rede social institucional pode ser um experimento republicano de
governança digital, uma iniciativa replicável, capaz de inspirar outras
organizações e, acima de tudo, uma decisão estratégica sobre como a
universidade pretende habitar e moldar o espaço público no século XXI.
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Como a preservação da memória da internet corre perigo
Há 30
anos, o portal archive.org guarda a memória da internet. Sua plataforma Wayback
Machine contém mais de um bilhão de sites arquivados e funciona como uma
ferramenta imprescindível a partir da qual jornalistas, pesquisadores,
historiadores e juristas podem acessar conteúdos originais de páginas que foram
alteradas ou até mesmo excluídas.
No
entanto, esse projeto fundamental da entidade criada em São Francisco, nos EUA,
está diante de uma crise existencial. Por sinal, a última ameaça vem daqueles
que mais precisam do arquivo – os veículos de imprensa.
Um
número cada vez maior de empresas de comunicação está negando o acesso do
Internet Archive aos seus conteúdos. Segundo uma pesquisa da Nieman Foundation
for Journalism da Universidade de Harvard, pelo menos 241 portais de notícias
de nove países já bloquearam o acesso da Wayback Machine, entre eles o
britânico The Guardian, o americano New York Times e o francês Le Monde, além
do USA Today, maior conglomerado jornalístico dos Estados Unidos.
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Abrindo mão de uma importante ferramenta
O
próprio USA Today publicou recentemente uma reportagem mostrando como a polícia
de imigração americana, o ICE, havia ocultado informações na web sobre a sua
política de detenção. Para a apuração, o jornal utilizou como base os conteúdos
da Wayback Machine do archive.org, contradizendo a própria política da empresa,
que agora bloqueia o acesso da plataforma a seus artigos.
O
motivo pelo qual os veículos de comunicação estão barrando o acesso da
ferramenta que eles mesmos utilizam é simples. Os jornais temem que empresas de
inteligência artificial, como Open AI ou Google, acessem os conteúdos
jornalísticos arquivados na plataforma para treinar seus modelos de linguagem –
sem autorização e sem pagar nada. "O problema é que os conteúdos do New
York Times no Internet Archive são utilizados pelas empresas de IA, que
infringem direitos autorais para concorrer diretamente conosco", declarou
o porta-voz do NYT, Graham James.
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Milhares de consultas por segundo com robôs
De
fato, dados mostram que, no site archive.org, são utilizados inúmeros robôs que
procuram conteúdos jornalísticos para utilizá-los no treinamento de modelos de
IA – e, assim, obter exatamente as informações que lhes são negadas. O diretor
do Wayback Machine, Mark Graham, afirmou à revista Wired que algumas empresas
chegaram a acessar os arquivos com dezenas de milhares de solicitações por
segundo, a ponto de sobrecarregar temporariamente os servidores.
Era
algo que o archive.org não esperava. A organização sem fins lucrativos
apresenta-se como uma entidade comprometida com a internet aberta.
"Exatamente
como uma biblioteca clássica, oferecemos acesso gratuito a pesquisadores,
historiadores, cientistas e pessoas com deficiência visual e ao público em
geral. Nosso objetivo é possibilitar a todas as pessoas o acesso universal a
todo o conhecimento", diz o lema da associação. Isso também exclui a
possibilidade de bloquear robôs e rastreadores – o que levou às sanções
impostas pelas grandes editoras e empresas de mídia.
A
Electronic Frontier Foundation (EFF), organização de direitos humanos
especializada em questões digitais, compara a atitude dos veículos de imprensa
a uma situação em que "um jornal proibisse bibliotecas de manter cópias do
seu periódico".
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A história da internet pode se perder para sempre
Desde
então, mais de 100 jornalistas assinaram uma petição em apoio ao Internet
Archive. Em carta aberta, eles afirmam: "Em um cenário de mídia digital em
que artigos desaparecem devido à perda de links, fusões de empresas ou cortes
de custos, os jornalistas dependem frequentemente da Wayback Machine do
Internet Archive para recuperar páginas que, de outra forma, estariam perdidas.
Sem esse trabalho contínuo de preservação da Internet, grande parte da história
jornalística recente já teria se perdido."
Mark
Graham, do New York Times, afirmou também à Wired que está em conversas com as
empresas de jornalismo para reaver o acesso. O desfecho ainda é incerto.
"Não há dúvida de que o bloqueio crescente de grande parte da internet
pública prejudica a capacidade da sociedade de compreender o que está
acontecendo em nosso mundo", confessou Graham.
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Arquivo como infraestrutura pública
Repórter
especializado em mídia e fundador do socialmedia watchblog.de, Martin Fehrensen
vê no archive.org o único registro funcional da web aberta. Caso a plataforma
não consiga mais cumprir essa função, isso teria consequências graves, diz ele
à DW.
"Milhões
de trechos da Wikipedia perderiam a referência; pesquisas sobre a
responsabilidade das plataformas – ou seja, quais termos de uso vigoravam em
cada momento, quais regras de moderação foram reformuladas e de que maneira –
se tornariam significativamente mais difíceis; e as evidências digitais com
valor probatório judicial seriam perdidas", explica, acrescentando que,
especialmente para os veículos jornalístico, seria totalmente absurdo bloquear
o arquivo.
Segundo
Fehrensen, há duas maneiras de se resolver esse conflito. "Precisamos de
um diálogo com os editores, com uma separação técnica clara entre o
arquivamento e o treinamento de IA, pois esse é o verdadeiro conflito, não o
arquivo em si", explica o jornalista.
A médio
prazo, na opinião dele, deve ser criado um status jurídico especial para os
arquivos da web. E, a longo prazo, o arquivamento da internet deve ser tratado
como infraestrutura pública, não como um projeto isolado de uma ONG em São
Francisco, acrescenta. "O fato de que, em 2026, ele ainda dependa de uma
única organização é a verdadeira falha estrutural", conclui.
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Um conflito dramático – entre vários
Não é a
primeira vez que o Internet Archive luta para continuar existindo. Em setembro
de 2024, um ataque hacker ao site resultou no roubo de 31 milhões de contas de
usuário. Foi um duro golpe, mas a organização conseguiu se recuperar.
No
mesmo ano, o Archive perdeu um processo de direitos autorais em um tribunal de
apelação dos EUA: as editoras Hachette, Penguin Random House, HarperCollins e
Wiley entraram com uma ação contra o programa gratuito de empréstimo de e-books
que o Archive havia lançado durante a pandemia de Covid-19, e obtiveram
sucesso. Mais de 500 mil livros tiveram que ser retirados da plataforma. Mas o
archive.org ainda enfrenta pedidos de indenização na casa dos milhões.
Em
comparação com essas derrotas, a ameaça atual representada pelos bloqueios da
mídia é estruturalmente mais grave, pois não pode ser sanada por uma decisão
judicial ou uma atualização. Ela é o resultado de inúmeras decisões
corporativas que, em conjunto, minam a essência do Wayback Machine: a
documentação completa da internet pública.
Fonte:
Por Márcio Moretto Ribeiro e Roberta Silva de Lima, no ComCiência/DW Brasil

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