Cientistas
testam spray nasal contra envelhecimento cerebral
Duas
doses surtiram efeito em camundongos. Casos de demência aumentam globalmente e
deverão quase triplicar no Brasil até 2050...
Durante
anos, o declínio do cérebro foi encarado como consequência inevitável da
passagem do tempo. Ele não ocorre de forma abrupta, mas avança gradualmente,
associado a processos inflamatórios que afetam regiões-chave como o hipocampo e
acabam corroendo a memória, o aprendizado e a capacidade de adaptação.
Em suas
formas mais avançadas, esse mesmo processo está ligado a doenças como o
Alzheimer. Os cientistas chamam isso de neuroinflamação. E, até pouco tempo
atrás, ela parecia irreversível.
Mas,
agora, pesquisadores da Universidade Texas A&M propõem um possível remédio.
O envelhecimento cerebral poderia ser parcialmente reversível, ao menos em
modelos experimentais. E a ferramenta não é complexa — sem recorrer a
procedimentos invasivos nem a tratamentos prolongados —, mas sim um simples
spray nasal.
A
equipe, liderada pelo pesquisador Ashok Shetty, junto com Madhu Leelavathi
Narayana e Maheedhar Kodali, desenvolveu um aerossol baseado em vesículas
extracelulares, minúsculas partículas biológicas derivadas de células-tronco
que atuam como veículos de comunicação e transporte entre as células do
organismo.
Sua
carga são microRNAs, moléculas capazes de regular processos genéticos e de
sinalização no cérebro que, segundo Narayana, "atuam como reguladores
principais" de múltiplas vias celulares. Os resultados foram publicados na
revista Journal of Extracellular Vesicles.
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Inibindo sistemas inflamatórios
Aplicadas
pelo nariz, as vesículas extracelulares conseguem contornar parcialmente a
barreira hematoencefálica — que funciona como mecanismo de proteção do cérebro
— e facilitar sua chegada a regiões cerebrais, onde são absorvidas por células
imunológicas residentes.
Uma vez
ali, os microRNAs atuam modulando ou inibindo sistemas conhecidos por alimentar
a inflamação crônica no cérebro envelhecido.
Com
duas doses, o tratamento foi associado à redução significativa da inflamação
cerebral, à melhora no funcionamento das mitocôndrias — responsáveis pela
produção de energia celular — e ao fortalecimento do desempenho da memória.
Além
disso, as mudanças foram observadas em um período relativamente curto e se
mantiveram por um longo tempo após o tratamento. "Estamos devolvendo aos
neurônios a sua centelha", afirmou Narayana.
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Faltam testes em humanos
Os
testes comportamentais foram realizados em camundongos de laboratório de 18
meses — aproximadamente equivalentes a um ser humano de 60 anos, segundo o
estudo —, nos quais os achados foram confirmados. Ainda assim, os resultados
precisam ser validados em humanos.
Os
animais tratados apresentaram uma melhora clara: mostraram maior capacidade de
se orientar no ambiente, reconhecer estímulos familiares e responder com mais
agilidade a situações novas em comparação com o grupo de controle.
Além
disso, os efeitos foram observados igualmente em machos e fêmeas, algo pouco
comum na pesquisa biomédica.
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Demência é desafio global
Segundo
a Alzheimer's Disease International, cerca de 69,2 milhões de pessoas no mundo
vivem com demência. O número pode chegar a 82 milhões em 2030 e a 152 milhões
em 2050.
Na
América Latina, os casos passariam de 6,41 milhões em 2020 para 20,55 milhões
em 2050. Já na Europa, o salto seria de 12,71 milhões para 21,64 milhões no
mesmo período.
Segundo
a Federação Brasileira das Federações de Alzheimer, o Brasil tem hoje mais de 2
milhões de pessoas vivendo com demências, e a projeção é que o número salte
para 5,5 milhões até 2050. O diagnóstico, entretanto, é um desafio, com
estimados oito a cada 10 casos sem reconhecimento formal.
"Nosso
objetivo é um envelhecimento cerebral satisfatório: manter as pessoas ativas,
alertas e conectadas. Não apenas viver mais tempo, mas viver de forma mais
inteligente e saudável", resumiu Shetty.
A
equipe solicitou uma patente nos Estados Unidos e se prepara para avançar rumo
a ensaios clínicos em humanos.
• Brasil cria 1º porco clonado da América
Latina para transplantes
Pesquisadores
brasileiros criaram o primeiro porco clonado da América Latina, um avanço
considerado estratégico para viabilizar, no futuro, o transplante de órgãos de
animais em humanos. O nascimento do animal ocorreu no fim de março, em um
laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos
Agronegócios (IZ-Apta), em Piracicaba (SP), dentro de um projeto liderado pela
Universidade de São Paulo (USP) com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de São Paulo (FAPESP).
O
resultado marca uma etapa crucial de uma linha de pesquisa desenvolvida há
quase seis anos pelo Centro de Ciência para o Desenvolvimento em
Xenotransplante (XenoBR), que busca criar suínos geneticamente modificados
capazes de fornecer órgãos para transplantes sem desencadear rejeição
imunológica em humanos.
A
iniciativa é liderada pelo cirurgião Silvano Raia, professor da Faculdade de
Medicina (FM) da USP, pela geneticista Mayana Zatz, professora do Instituto de
Biociências (IB) da USP e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e
Células-Tronco (CEGH-CEL), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID)
apoiado pela FAPESP, e pelo imunologista Jorge Kalil, professor da FM-USP.
“O
passo que demos agora é crucial porque a clonagem de suínos é uma das técnicas
mais difíceis de serem dominadas para viabilizar o xenotransplante
[transferência de órgãos entre espécies diferentes]”, diz à Agência FAPESP
Ernesto Goulart, professor do IB-USP e principal pesquisador do CCD.
“Sabíamos
que essa etapa representaria um dos maiores desafios no projeto até porque,
embora o Brasil tenha vasta experiência na clonagem de bovinos e equinos, ainda
não tem com suínos, considerados os animais mais desafiadores para essa técnica
por razões biológicas ainda não totalmente compreendidas”, afirma Goulart.
Embora
o leitão clonado ainda não possua alterações genéticas específicas para uso
clínico, sua obtenção demonstra que os pesquisadores brasileiros passaram a
dominar uma das fases mais complexas do processo: a clonagem de suínos
considerada tecnicamente mais difícil do que em outras espécies.
O
projeto tem como meta desenvolver uma plataforma nacional de xenotransplante
técnica que consiste na transferência de órgãos entre espécies diferentes para
atender à demanda do Sistema Único de Saúde (SUS) e evitar a dependência de
tecnologias e insumos importados.
A
escolha dos porcos não é aleatória. Do ponto de vista anatômico e funcional,
seus órgãos apresentam semelhanças com os humanos, o que os torna candidatos
promissores para transplantes.
Além
disso, a linhagem selecionada pelos cientistas tem crescimento rápido: em cerca
de sete meses, os animais atingem porte compatível com o de um adulto de
aproximadamente 80 quilos, o que favorece a viabilidade futura dos
procedimentos.
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Engenharia genética e desafio da rejeição
Historicamente,
o maior obstáculo ao xenotransplante sempre foi a rejeição hiperaguda, uma
resposta imunológica intensa que pode destruir o órgão transplantado em poucas
horas.
Para
contornar esse problema, a pesquisa atual aposta na engenharia genética. O
objetivo é desativar genes suínos associados à rejeição e inserir genes humanos
que aumentem a compatibilidade biológica entre doador e receptor.
Com o
avanço de ferramentas de edição genética, como o CRISPR, esse tipo de
modificação se tornou mais viável e acessível, abrindo caminho para uma nova
geração de experimentos na área.
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Etapas do projeto
A
clonagem do primeiro porco representa apenas a fase inicial de um processo mais
amplo. Até agora, os cientistas trabalharam com animais sem modificação
genética. O próximo passo será clonar embriões já editados, capazes de originar
suínos aptos a fornecer órgãos compatíveis para humanos.
Para
viabilizar o projeto, foi necessário estruturar laboratórios com alto nível de
biossegurança, inexistentes no país no início da pesquisa, o que exigiu
investimento público e privado e a criação de infraestrutura científica do
zero.
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Impacto para o sistema de saúde
A
relevância da pesquisa está diretamente ligada à demanda por transplantes no
Brasil. Atualmente, dezenas de milhares de pacientes aguardam na fila por um
órgão, especialmente rins, que concentram a maior parte dos casos.
Nesse
contexto, o desenvolvimento de órgãos produzidos em animais geneticamente
modificados pode reduzir o tempo de espera, ampliar o acesso aos procedimentos
e diminuir custos associados à importação de tecnologias estrangeiras.
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Cenário internacional
O
xenotransplante ainda é experimental em todo o mundo. Nos Estados Unidos,
alguns procedimentos já foram realizados, incluindo transplantes de coração e
rins de porcos, mas os resultados ainda são limitados e cercados de incertezas
clínicas.
Mesmo
assim, o avanço brasileiro posiciona o país em um grupo restrito de nações que
dominam as etapas iniciais dessa tecnologia, considerada uma das mais
promissoras para enfrentar a escassez global de órgãos.
Apesar
do marco, os pesquisadores destacam que o uso clínico rotineiro desses órgãos
ainda depende de etapas complexas, incluindo testes pré-clínicos, ensaios em
humanos e validação de segurança a longo prazo.
Fonte:
DW Brasil/Correio Braziliense

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