sexta-feira, 24 de abril de 2026

Cientistas testam spray nasal contra envelhecimento cerebral

Duas doses surtiram efeito em camundongos. Casos de demência aumentam globalmente e deverão quase triplicar no Brasil até 2050...

Durante anos, o declínio do cérebro foi encarado como consequência inevitável da passagem do tempo. Ele não ocorre de forma abrupta, mas avança gradualmente, associado a processos inflamatórios que afetam regiões-chave como o hipocampo e acabam corroendo a memória, o aprendizado e a capacidade de adaptação.

Em suas formas mais avançadas, esse mesmo processo está ligado a doenças como o Alzheimer. Os cientistas chamam isso de neuroinflamação. E, até pouco tempo atrás, ela parecia irreversível.

Mas, agora, pesquisadores da Universidade Texas A&M propõem um possível remédio. O envelhecimento cerebral poderia ser parcialmente reversível, ao menos em modelos experimentais. E a ferramenta não é complexa — sem recorrer a procedimentos invasivos nem a tratamentos prolongados —, mas sim um simples spray nasal.

A equipe, liderada pelo pesquisador Ashok Shetty, junto com Madhu Leelavathi Narayana e Maheedhar Kodali, desenvolveu um aerossol baseado em vesículas extracelulares, minúsculas partículas biológicas derivadas de células-tronco que atuam como veículos de comunicação e transporte entre as células do organismo.

Sua carga são microRNAs, moléculas capazes de regular processos genéticos e de sinalização no cérebro que, segundo Narayana, "atuam como reguladores principais" de múltiplas vias celulares. Os resultados foram publicados na revista Journal of Extracellular Vesicles.

<><> Inibindo sistemas inflamatórios

Aplicadas pelo nariz, as vesículas extracelulares conseguem contornar parcialmente a barreira hematoencefálica — que funciona como mecanismo de proteção do cérebro — e facilitar sua chegada a regiões cerebrais, onde são absorvidas por células imunológicas residentes.

Uma vez ali, os microRNAs atuam modulando ou inibindo sistemas conhecidos por alimentar a inflamação crônica no cérebro envelhecido.

Com duas doses, o tratamento foi associado à redução significativa da inflamação cerebral, à melhora no funcionamento das mitocôndrias — responsáveis pela produção de energia celular — e ao fortalecimento do desempenho da memória.

Além disso, as mudanças foram observadas em um período relativamente curto e se mantiveram por um longo tempo após o tratamento. "Estamos devolvendo aos neurônios a sua centelha", afirmou Narayana.

<><> Faltam testes em humanos

Os testes comportamentais foram realizados em camundongos de laboratório de 18 meses — aproximadamente equivalentes a um ser humano de 60 anos, segundo o estudo —, nos quais os achados foram confirmados. Ainda assim, os resultados precisam ser validados em humanos.

Os animais tratados apresentaram uma melhora clara: mostraram maior capacidade de se orientar no ambiente, reconhecer estímulos familiares e responder com mais agilidade a situações novas em comparação com o grupo de controle.

Além disso, os efeitos foram observados igualmente em machos e fêmeas, algo pouco comum na pesquisa biomédica.

<><> Demência é desafio global

Segundo a Alzheimer's Disease International, cerca de 69,2 milhões de pessoas no mundo vivem com demência. O número pode chegar a 82 milhões em 2030 e a 152 milhões em 2050.

Na América Latina, os casos passariam de 6,41 milhões em 2020 para 20,55 milhões em 2050. Já na Europa, o salto seria de 12,71 milhões para 21,64 milhões no mesmo período.

Segundo a Federação Brasileira das Federações de Alzheimer, o Brasil tem hoje mais de 2 milhões de pessoas vivendo com demências, e a projeção é que o número salte para 5,5 milhões até 2050. O diagnóstico, entretanto, é um desafio, com estimados oito a cada 10 casos sem reconhecimento formal.

"Nosso objetivo é um envelhecimento cerebral satisfatório: manter as pessoas ativas, alertas e conectadas. Não apenas viver mais tempo, mas viver de forma mais inteligente e saudável", resumiu Shetty.

A equipe solicitou uma patente nos Estados Unidos e se prepara para avançar rumo a ensaios clínicos em humanos.

•        Brasil cria 1º porco clonado da América Latina para transplantes

Pesquisadores brasileiros criaram o primeiro porco clonado da América Latina, um avanço considerado estratégico para viabilizar, no futuro, o transplante de órgãos de animais em humanos. O nascimento do animal ocorreu no fim de março, em um laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), em Piracicaba (SP), dentro de um projeto liderado pela Universidade de São Paulo (USP) com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

O resultado marca uma etapa crucial de uma linha de pesquisa desenvolvida há quase seis anos pelo Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR), que busca criar suínos geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos para transplantes sem desencadear rejeição imunológica em humanos.

A iniciativa é liderada pelo cirurgião Silvano Raia, professor da Faculdade de Medicina (FM) da USP, pela geneticista Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências (IB) da USP e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP, e pelo imunologista Jorge Kalil, professor da FM-USP.

“O passo que demos agora é crucial porque a clonagem de suínos é uma das técnicas mais difíceis de serem dominadas para viabilizar o xenotransplante [transferência de órgãos entre espécies diferentes]”, diz à Agência FAPESP Ernesto Goulart, professor do IB-USP e principal pesquisador do CCD.

“Sabíamos que essa etapa representaria um dos maiores desafios no projeto até porque, embora o Brasil tenha vasta experiência na clonagem de bovinos e equinos, ainda não tem com suínos, considerados os animais mais desafiadores para essa técnica por razões biológicas ainda não totalmente compreendidas”, afirma Goulart.

Embora o leitão clonado ainda não possua alterações genéticas específicas para uso clínico, sua obtenção demonstra que os pesquisadores brasileiros passaram a dominar uma das fases mais complexas do processo: a clonagem de suínos considerada tecnicamente mais difícil do que em outras espécies.

O projeto tem como meta desenvolver uma plataforma nacional de xenotransplante técnica que consiste na transferência de órgãos entre espécies diferentes para atender à demanda do Sistema Único de Saúde (SUS) e evitar a dependência de tecnologias e insumos importados.

A escolha dos porcos não é aleatória. Do ponto de vista anatômico e funcional, seus órgãos apresentam semelhanças com os humanos, o que os torna candidatos promissores para transplantes.

Além disso, a linhagem selecionada pelos cientistas tem crescimento rápido: em cerca de sete meses, os animais atingem porte compatível com o de um adulto de aproximadamente 80 quilos, o que favorece a viabilidade futura dos procedimentos.

<><> Engenharia genética e desafio da rejeição

Historicamente, o maior obstáculo ao xenotransplante sempre foi a rejeição hiperaguda, uma resposta imunológica intensa que pode destruir o órgão transplantado em poucas horas.

Para contornar esse problema, a pesquisa atual aposta na engenharia genética. O objetivo é desativar genes suínos associados à rejeição e inserir genes humanos que aumentem a compatibilidade biológica entre doador e receptor.

Com o avanço de ferramentas de edição genética, como o CRISPR, esse tipo de modificação se tornou mais viável e acessível, abrindo caminho para uma nova geração de experimentos na área.

<><> Etapas do projeto

A clonagem do primeiro porco representa apenas a fase inicial de um processo mais amplo. Até agora, os cientistas trabalharam com animais sem modificação genética. O próximo passo será clonar embriões já editados, capazes de originar suínos aptos a fornecer órgãos compatíveis para humanos.

Para viabilizar o projeto, foi necessário estruturar laboratórios com alto nível de biossegurança, inexistentes no país no início da pesquisa, o que exigiu investimento público e privado e a criação de infraestrutura científica do zero.

<><> Impacto para o sistema de saúde

A relevância da pesquisa está diretamente ligada à demanda por transplantes no Brasil. Atualmente, dezenas de milhares de pacientes aguardam na fila por um órgão, especialmente rins, que concentram a maior parte dos casos.

Nesse contexto, o desenvolvimento de órgãos produzidos em animais geneticamente modificados pode reduzir o tempo de espera, ampliar o acesso aos procedimentos e diminuir custos associados à importação de tecnologias estrangeiras.

<><> Cenário internacional

O xenotransplante ainda é experimental em todo o mundo. Nos Estados Unidos, alguns procedimentos já foram realizados, incluindo transplantes de coração e rins de porcos, mas os resultados ainda são limitados e cercados de incertezas clínicas.

Mesmo assim, o avanço brasileiro posiciona o país em um grupo restrito de nações que dominam as etapas iniciais dessa tecnologia, considerada uma das mais promissoras para enfrentar a escassez global de órgãos.

Apesar do marco, os pesquisadores destacam que o uso clínico rotineiro desses órgãos ainda depende de etapas complexas, incluindo testes pré-clínicos, ensaios em humanos e validação de segurança a longo prazo.

 

Fonte: DW Brasil/Correio Braziliense

 

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