Mundo
atinge recorde de bilionários: “Bolha vai afetar mais vulneráveis”, diz
especialista
Os
ricos estão cada vez mais ricos. O aviso feito com humor por um grupo de axé
music em 1999 dominou as rádios brasileiras numa época em que a tradicional
lista de super-ricos da revista Forbes trazia menos de 500 bilionários, que,
juntos, não somavam sequer 1 trilhão de dólares. No levantamento de 2026,
lançado em março, a Forbes já lista 3.428 bilionários, sete vezes mais do que
na época do hit carnavalesco de “As Meninas”, e os integrantes da lista somam
um patrimônio de 20 trilhões de dólares, o equivalente ao PIB da China ou a
oito vezes a economia do Brasil.
A lista
ganhou 400 novos nomes em um ano, é liderada pelo magnata Elon Musk, que
caminha para se tornar o primeiro trilionário da história, e conta com 71 nomes
brasileiros, 16 a mais do que em 2025. Juntos, apenas os brasileiros listados
concentram uma riqueza superior a R$ 1,5 trilhão. A lista completa de
bilionários brasileiros pode ser conferida no fim do texto.
O mais
rico bilionário de origem brasileira segue sendo Eduardo Saverin, um dos
fundadores do Facebook, que acumula 35,9 bilhões de dólares (R$ 185,6 bilhões).
O segundo lugar na versão nacional da revista coube à herdeira do Banco Safra,
Vicky Safra, grega naturalizada brasileira, que acumula 27,1 bilhões de dólares
(R$ 140,1 bilhões), um montante maior do que o orçamento do município de São
Paulo para todo o ano de 2026. Na lista internacional, diferentemente dos anos
anteriores, ela passou a ser contabilizada pela Grécia.
Professor
aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Antonio David
Cattani dedicou parte da carreira acadêmica a estudar os super-ricos – algo
raro na área da ciência social, em que a pobreza costuma ser um tema mais
recorrente. Em entrevista à Agência Pública, o autor dos livros “A Riqueza
Desmistificada” (2013) “Ricos, Podres de Ricos” (2017) e “Carí$$imos Ricos”
(2019) vai na contramão do “tom apologético” que a lista da Forbes costuma
ganhar nas manchetes e descreve o avanço da concentração de riqueza como
incompatível com o regime democrático e “nefasto” para a economia.
“[Os
bilionários] conseguem manipular as eleições, os governos, e escapar de todos
os controles elementares que a democracia, bem ou mal, foi construindo nesses
últimos anos. Isso, com o tempo, é um caminho para o desastre, que infelizmente
vai afetar mais as pessoas vulneráveis, assalariados, aposentados e pequenos
empresários. Esse deve ser o alerta que o jornalismo, a universidade, os
intelectuais, os sindicalistas têm que levantar: não se caminha para uma
situação de equilíbrio. Pelo contrário, estamos caminhando de forma acelerada
para a beira de um precipício”, avalia.
Para o
pesquisador, parte da concentração de riqueza está ligada a “uma dimensão
especulativa”, com empresas com valores de mercado artificialmente muito
maiores do que sua capacidade produtiva. “Por isso, há centenas de analistas de
várias áreas e tendências ideológicas dizendo que vai estourar uma bolha, que
não corresponde à realidade da economia, [com a possibilidade de] termos a
repetição de uma crise como a de 2008 ou como a de 1929. A grande questão é que
ninguém sabe quando”, afirma.
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Confira os principais destaques da entrevista.
• Estamos perto de ter o primeiro
trilionário da história e a lista da Forbes chegou a 3.428 bilionários. Por que
há cada vez mais bilionários?
É um
processo internacional que vem se acentuando desde os anos 1980. Milionários
sempre existiram, mas o que chama a atenção é essa proliferação de figuras
desconhecidas, com negócios que a gente nem sabia que permitiam uma acumulação
tão grande de riqueza. O que é importante é o aumento exponencial da riqueza e
a velocidade desse processo.
No
início do século 20, os bilionários americanos e ingleses levavam anos para
construir os seus impérios. [Hoje,] os processos especulativos e as inovações
tecnológicas fazem com que, em questão de meses, um jovem de 30 anos vire
bilionário.
Há uns
10 anos, o pessoal que faz essa revista [Forbes], a edição original americana,
colocou uma nota metodológica que é muito interessante. A nota dizia que,
apesar de todos os recursos que a própria Forbes tem, eles não conseguiam
identificar muitos dos ricos, porque há uma parte que não tem interesse na
divulgação. Outros têm, é uma questão de prestígio, às vezes até como uma
estratégia de mercado, de ostentar a riqueza.
Mas o
pessoal da Forbes assumia que existe um outro universo, quase paralelo, de
ricos que têm o maior interesse em passar despercebidos. [A lista] já
surpreende pela quantidade, pelo volume de riqueza, mas nós temos que
considerar que existem muito mais.
• Um apontamento que aparece em alguns
textos é de que o processo de aumento da quantidade e dos recursos dos
bilionários tem a ver com uma financeirização da economia. É por aí?
Nunca
existe uma causa única. São vários processos. Eu diria que uma parte dessa nova
riqueza está ligada às inovações tecnológicas, áreas de negócios que antes eram
inimagináveis, não tinham nem sentido, e [hoje] propiciam essa acumulação de
riqueza. Outro aspecto, normalmente associado, é a questão da financeirização.
Esses multimilionários não só extraem recursos e rendimentos de atividades
físicas, serviços, indústria, mas também com uma dimensão especulativa na área
financeira.
Se
pensarmos em algumas das fortunas do Vale do Silício nos Estados Unidos, o
rendimento que as empresas propiciam não corresponde ao seu valor de mercado.
Por exemplo, um serviço de informática, uma inovação tecnológica, que renda,
digamos, 100 milhões de dólares por ano, mas que tem seu valor de mercado, das
ações negociadas em bolsa, podendo chegar a US$ 1 bilhão ou até a US$ 10
bilhões. Não há uma correspondência entre esse valor nominal que circula e a
base concreta de prestação de serviço ou geração de algum produto industrial. É
especulativo. Vende as ações, negocia, faz uma fusão, etc., mas é uma espécie
de castelo de cartas que não tem fundamento sólido.
Por
isso, há centenas de analistas de várias áreas e tendências ideológicas dizendo
que vai estourar uma bolha que não corresponde à realidade da economia, [com a
possibilidade de] termos a repetição de uma crise como a de 2008 ou como a de
1929. A grande questão é que ninguém sabe quando.
A
[explosão dessa] bolha vai afetar os mais vulneráveis. Alguns grandes
quebrarão, perderão parte do seu patrimônio, mas os verdadeiramente ricos, nas
Big Techs, no setor financeiro, têm um leque de investimentos que garantem que,
mesmo com uma crise, uma guerra, eles continuem mantendo seu patrimônio.
• O noticiário brasileiro nos últimos
meses só fala de Banco Master e Daniel Vorcaro. A despeito de não constar na
lista de bilionários da Forbes, as informações que temos é de que ele tinha um
patrimônio vultoso, na casa dos bilhões, e que utilizava esse poder econômico
para se blindar e influenciar o poder político. Paralelamente, vemos nos EUA os
donos das Big Techs, que têm patrimônios na casa das dezenas e centenas de
bilhões, com uma relação umbilical com o governo Trump. Essa concentração de
riqueza é compatível com o regime democrático?
Não,
absolutamente não. Isso levanta a questão mais grave quando se trata de
analisar a riqueza concentrada. O princípio de organização dessa dinâmica mais
recente do capitalismo é de uma ganância sem fim. Mesmo que contribuam para uma
política suicida, para a ampliação da bolha especulativa que vai explodir, esse
pessoal não tem freios.
Imagina
alguém que tenha um bilhão, que esse um bilhão renda, não sei, 100 milhões.
Humanamente é impossível aproveitar uma riqueza nesse volume. Ele pode ter 30
casas, meia dúzia de jatinhos, mas humanamente ele não vai poder visitar todas
as suas casas, comer tudo que tem de imaginável e de caríssimo no mundo. Mesmo
assim, eles continuam querendo mais. Agora vai ser um iate um pouquinho maior,
depois vai ser uma casa em Aspen, um castelo no sul da França, uma fazenda
maior, que vai render mais ainda. É uma ganância sem limite.
E, para
manter essa dinâmica, eles precisam, sim, de um respaldo político, de comprar
impunidade em face aos crimes que eles cometem, de influenciar governos,
ministros, deputados para que não haja tributação justa, que não haja controle.
E essa dimensão é nitidamente criminosa, não tem outra palavra. Pode-se dizer
que estão gerando emprego e renda, mas é uma dimensão incontrolável. Eles
tentam escapar dos controles e vai chegando a uma coisa amplamente destrutiva.
Se a
gente ouvir as declarações desses grandes da Big Techs, é uma coisa assim… são
criminosos, assumidamente criminosos. Eles querem ampliar o seu poder às custas
de uma desumanização de milhões de trabalhadores, de pessoas sem recursos. É
uma coisa insaciável, eles querem mais e mais – como sempre foi no sistema
capitalista, mas agora está chegando a uma dimensão, não vou dizer
autodestrutiva, porque eles vão se safar, mas destrutiva da civilização, da
natureza, da cultura.
A
cultura está sendo bestificada para que não haja movimentos mais contestadores.
E o que assusta é a velocidade. O que levava décadas agora acontece em meses.
• Nesse cenário, em que algumas figuras
conseguem direcionar a inovação, a tecnologia e a própria agenda pública, é
possível termos uma sociedade justa?
Eu
tenho uma frase em um livro que diz exatamente isso. “Não é possível, é
necessário”. Mesmo que pareça impossível, combater esse tipo de dinâmica e de
comportamento empresarial é uma necessidade de sobrevivência. Existem
mecanismos muito simples, que começam a iniciar uma mudança, como o trabalho
que você está fazendo, que não é o trabalho jornalístico deslumbrado, que
falsifica. A primeira solução é essa, um trabalho de esclarecimento.
A outra
questão é mais técnica. Cerca de 10 anos atrás foi criado o Instituto de
Justiça Fiscal – e inclusive tem figuras proeminentes, que têm participado do
debate público, e que trabalham com uma perspectiva bem pé no chão, que é
“vamos taxar a riqueza”. O que acontece? A maioria dessas empresas, desses
multimilionários, tem assessorias fiscais para evitar o pagamento de imposto na
proporção que eles teriam o dever de contribuir. Um assalariado que ganha R$ 10
mil paga proporcionalmente muitíssimo mais.
“Ah,
mas já houve a tributação na empresa”. Não interessa. A riqueza sobre a qual
nós estamos falando é uma que as pessoas recebem. Imagine alguém recebendo R$ 1
bilhão por ano de rendimentos que são isentos. Um único indivíduo recebendo 1
bilhão. Qual é o orçamento aí da Agência Pública? Vocês com um bilhão, o que
daria para fazer?
• A gente falou um pouco dos efeitos na
própria democracia, na construção de uma sociedade justa, mas em uma entrevista
que o senhor deu para a BBC, anos atrás, outros efeitos são citados, como na
própria economia…
Esse
tipo de concentração é nefasta para a economia. Primeiro, há o aspecto negativo
de pessoas recebendo uma miséria, quando poderiam ter um padrão de vida melhor,
já que quem produz a riqueza a está transferindo de forma coletiva para
indivíduos que têm essa capacidade de se apropriar do trabalho coletivo. Mas a
economia como um todo está ficando disfuncional com essa desproporção de poder,
que já não é um poder democrático.
[Os
bilionários] conseguem manipular as eleições, os governos, e escapar de todos
os controles elementares que a democracia, bem ou mal, foi construindo nesses
últimos anos. Isso, com o tempo, é um caminho para o desastre, que infelizmente
vai afetar mais as pessoas vulneráveis, assalariados, aposentados e pequenos
empresários. Esse deve ser o alerta que o jornalismo, a universidade, os
intelectuais, os sindicalistas têm que levantar: não se caminha para uma
situação de equilíbrio. Pelo contrário, estamos caminhando de forma acelerada
para a beira de um precipício.
• Dá para relacionar essa concentração de
riqueza ao “sentimento” da população global? Em outras palavras, o avanço de
ideias extremistas, muitas vezes reacionárias, tem alguma relação com essa
dinâmica, uma certa percepção de que não dá pra vencer na vida enquanto os
ricos “ficam cada vez mais ricos”?
O meu
último ensaio acadêmico se chama “A Síndrome do Mal”. Ele trata não tanto sobre
a questão da concentração de riqueza ou o papel dos bilionários mas dessa volta
de um… volta não, de um reacionarismo que sempre esteve presente e que agora
pode ser mobilizado e potencializado pelas grandes fortunas.
Por
exemplo, o Véio da Havan. Ele [Luciano Hang] usa o seu poder tanto para ampliar
a sua empresa, quanto para fortificar uma imagem reacionária, fascista. O foco
[do ensaio] é nesse sentimento de parte da população, que é um sentimento
autoritário, são crenças obscurantistas, discriminatórias, elitistas. Isso
sempre existiu, mas por que aparece agora? Porque tem apoio. O troglodita do
vizinho, do parente, os bolsonaristas já estavam ali, só precisaram de uma
certa mobilização. E essa mobilização vem, em parte, dessas figuras que
controlam o poder econômico.
• Quando a Forbes levou ao ar a lista de
bilionários brasileiros em 2025, a publicação disse o seguinte: “a chegada de
novos nomes na lista de bilionários deve ser especialmente comemorada, mostra a
renovação dos negócios, a circulação de capital (…), mostra que a economia
brasileira ainda oferece oportunidades a quem se dispõe a explorá-las”. Há essa
imagem de bilionários que chegaram lá graças ao seu esforço, ao seu trabalho.
Na prática, é por aí? Qual é o perfil dos bilionários?
Parte
do fenômeno é, sim, de gente inovadora, que teve uma sacada em algum negócio.
Isso existe. Agora, o que não aparece [destacado na publicação] da Forbes é a
questão da herança, de uma série de personagens que já são a segunda ou a
terceira geração, que o avô era milionário e o pai era bilionário. Eles podem
ter a capacidade de administrar isso e ampliar seus negócios, ou simplesmente
usufruir do bom e do melhor sem fazer força. Eles só têm que ter os seus
ajudantes, serviços de planejamento tributário, administradores, advogados e
etc.
Eu acho
que é importante mostrar que o quadro apologético que apresentam as revistas e
o caráter deslumbrado de parte da grande imprensa é completamente equivocado.
“Eles conseguiram, todo mundo consegue” ou “ficou bilionário por esforço
próprio”. É uma coisa de culpabilizar os pobres pela sua pobreza e valorizar os
ricos pela sua riqueza. O quadro é bem mais complicado, de relação de força e
de poder.
O
próprio Bill Gates, inventou uma maravilha, mas depois, o crescimento só foi
possível porque ele destruiu parte da concorrência. Parte das inovações da
Microsoft foram conseguidas com golpes de força, comprando ou destruindo
concorrentes, construindo praticamente um monopólio.
A
partir de um volume fantástico de riqueza, não existe mais livre concorrência,
mas simplesmente situações de poder que, com o tempo, como no caso da
Microsoft, se revelam ineficientes para a economia. Poderia haver a prestação
de serviços de forma bem mais barata, mais racional, se não houvesse esse
monopólio.
• Quando o governo brasileiro trouxe a
proposta de isentar o imposto de renda para quem paga até 5 mil e estabelecer
uma tributação mínima para os super-ricos, quem era contrário se apoiou na tese
de que os ricos iriam levar seu dinheiro para outros países. Há, em nível
global, uma discussão sobre um imposto que evite esses subterfúgios. Como fazer
com que isso aconteça frente a multibilionários que utilizam poder econômico e
influência política contra a proposta? Há uma perspectiva de frear essa
dinâmica de ricos cada vez mais ricos ou essa é uma tendência que se mostra
irreversível?
Nada é
irreversível quando se fala da humanidade. Foi uma construção histórica e, com
muita luta, poderá ser mudada. Agora, em relação à ideia de que [a taxação
provocaria] a transferência de patrimônios e empresas para outros países, isso
é um engodo completo, eles não conseguem fazer isso. É o mesmo discurso na
França, na Suíça, nos Estados Unidos. “Ah, se tiver tributação, vamos embora”.
Não vão embora.
Vamos
pegar o caso do agronegócio brasileiro. Esses empresários vão para onde? Para o
Texas? Não, vão continuar aqui. Eles podem estar morando em Miami, mas o locus
da sua atividade é sempre nacional. Ele pode tentar transferir parte do
dinheiro para outros lugares, mas eles não vão sair. Isso é simplesmente para
ameaçar. “Ah, faremos isso e a economia vai desandar”. Não, não vai.
Tem que
taxar. Ninguém está propondo a guilhotina para esse pessoal. Estão simplesmente
propondo que paguem impostos, como todos os outros pagam, que contribuem para o
bem comum, para a infraestrutura do país. Normalmente quando se fala em
imposto, se pensa muito em imposto de renda, em IPI [Imposto sobre Produtos
Industrializados], etc. Mas tem um imposto muito importante, que é o de
transmissão [de heranças], e que o Brasil tem uma das taxas mais baixas do
mundo.
Imagina,
um multimilionário deixa uma fortuna de ações, propriedades, transmite para os
seus herdeiros e não paga nada? Só no Brasil. No Japão, na Suécia, na Finlândia
e nos próprios Estados Unidos, o imposto de sucessão é considerado justo e,
dependendo do país, vai de 20%, 30%, até 40%. Claro, [os super-ricos] conseguem
contornar em partes, mas não tem como escapar desse imposto. O herdeiro recebeu
alguns bilhões, vai pagar alguns milhões, mas paga. Aqui no Brasil, a
transmissão é praticamente isenta. Mesmo que a pessoa pague a taxação oficial,
ela é muito baixa, de 6, 7, 8%, até menos, a depender do estado.
[Para
fazer frente à concentração de riqueza] é preciso coisas bem objetivas, mas que
não passam no Congresso, porque quem tem alguns bilhões tem alguns prepostos no
Congresso que barram esse tipo de taxação mínima – que é considerada comum,
normal e justa em países que eles mesmos admiram como os Estados Unidos e a
Inglaterra. Não é nada de outro mundo, são medidas bem prosaicas, mas que são
necessárias para avançarmos um pouquinho em termos de justiça social.
Fonte:
Por Rafael Oliveira, da Agência Pública

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