Augusto
Cury diz que, se eleito presidente, pode acabar com a fome mundial e mediar
guerra de Putin e Zelensky
Augusto
Cury é um sujeito de predicados superlativos. Escritor brasileiro mais lido da
última década, ele vendeu mais de 30 milhões de livros no
país e, agora, quer estender essa ambição à política:
mesmo começando do zero, lançou-se pré-candidato à Presidência da República
pelo partido Avante e faz planos grandiosos.
Cury
diz que não só quer ser uma alternativa a Flávio
Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio
Lula da Silva (PT)
para crises brasileiras, mas acredita ser possível ajudar a solucionar impasses
entre líderes mundiais, de Donald Trump a Vladimir
Putin e Volodymyr
Zelensky, presidentes dos Estados
Unidos, da Rússia e
da Ucrânia,
respectivamente.
"Se
tivesse o privilégio de sentar na cadeira de presidente, nos primeiros dias
chamaria vários políticos, como Putin e Zelensky, para conversar, porque sou um
especialista em pacificação de conflitos, tenho livros sobre isso", diz à
BBC News Brasil.
"Quem
sabe alguém de fora, de um país como o Brasil,
que é pacífico, seja mais ouvido. Não apenas este, mas os conflitos na África e
em outros países."
Entoando
o lema de que tem "uma mente capitalista e um coração social", o
escritor acrescenta que, caso seja eleito em outubro, espera "inspirar
outros atores nas mais diversas nações, seja na Ásia,
seja no mundo ocidental", a pôr fim às guerras e
resolver desafios como a fome mundial.
"Se
gastasse talvez 20% do que se gasta em armas, a equação da fome teria se
resolvido. Eu gostaria de chamar o G20,
ou quem sabe os quase 200 países que participam da ONU,
e meio por cento de todas as importações e exportações do mundo poderiam formar
um fundo. Ou por que não de 2% a 3% de toda compra e venda de armas formassem
um fundo para resolver a fome mundial?", ele propõe.
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Desejo antigo
O
escritor diz que lançar-se à política é um desejo antigo, mas sua família tinha
medo de que ele pudesse se ferir em um ambiente "extremamente agressivo,
espinhoso".
Dez
anos depois, com o amadurecimento de suas filhas, ele conta que teve apoio para
se candidatar, com a promessa de que, caso seja eleito, não buscará um segundo
mandato.
"Não
avaliei me candidatar a nenhum outro cargo, seja deputado, seja senador, seja
governador, porque não quero fazer carreira política. Meu objetivo é aumentar a
régua do debate", afirma.
"Só
acho que o Brasil não pode ser sequestrado por duas famílias, no bom sentido,
sem fazer julgamento dessas famílias, mas o Brasil é muito maior do que a
família Bolsonaro e
a família Lula da Silva."
Este é
o motivo pelo qual Cury afirma rejeitar declarar apoio a qualquer candidato em
um eventual segundo turno que não o inclua. Ele também evita dizer em quem
votou na eleição passada.
Hoje,
aparece com 2% das intenções de voto, segundo a pesquisa mais recente do
instituto Quaest, realizada entre 9 e 13 de abril. Ele está empatado com Renan
Santos (Missão) e à frente de Cabo Daciolo (Mobiliza) e Samara Martins (UP),
ambos com 1%. Fica pouco atrás de Romeu Zema (Novo),
com 3%, e bem distante dos líderes Flávio Bolsonaro e Lula, que têm 32% e 37%,
respectivamente.
Nos
bastidores, há quem trate a candidatura do escritor como inviável e a associe
mais a uma estratégia de marketing para impulsionar os negócios, tanto a venda
de livros quanto de cursos.
Seria
um movimento bem-vindo. Afinal, se na década passada Cury se consolidou como o
autor nacional mais lido do país, hoje enfrenta forte concorrência de livros de
autoajuda que viralizam nas redes sociais e, no mercado de cursos e palestras,
concorre com coaches que se criaram não nas livrarias, mas já na internet, um
ambiente em que navegam com mais facilidade.
A
leitura remete ao movimento de Pablo Marçal (União
Brasil), que disputou a Prefeitura paulistana no ano retrasado. Cury, porém,
rejeita essa interpretação e diz que, na prática, a incursão na política pode
até prejudicar seus negócios.
"Não
pensei muito nisso, mas vários amigos me dizem que vai prejudicar, que vou sair
ferido. Mas já tenho muito mais do que mereço, tanto financeiramente quanto
socialmente e intelectualmente."
Ele
afirma ter esperança de vencer a eleição por acreditar em histórias que, embora
pareçam improváveis, podem se concretizar quando movidas pela esperança.
Seu
maior sucesso, O Vendedor de Sonhos, ilustra essa verve narrativa —
na história, que também ganhou os cinemas, um psicólogo desiludido tenta tirar
a própria vida, mas é impedido por um mendigo, com quem passa a salvar outras
pessoas.
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'Mente capitalista, coração social'
Cury se
projeta como uma terceira via, ancorando-se no lema de que tem uma "mente
capitalista e um coração social", perfil que o distanciaria tanto de Lula
quanto de Flávio.
"Tenho
uma mente liberal, quero um Estado enxuto e eficiente, que acolha as pessoas
que estão querendo produzir, mas não têm condições, seja pelos juros
altíssimos, seja pela burocracia", diz.
"E
essa mente capitalista tem que ser acompanhada de um coração social, que
valoriza os direitos humanos no mais alto nível, a educação de qualidade, a
proteção da mulher."
Ao ser
questionado se isso não o colocaria no centro do barômetro ideológico, o
escritor rejeita a ideia e diz que "o centro está no limbo entre ser
neutro, estar em cima do muro" e que ele é "contra ser uma pessoa que
não tem opinião".
Cury
diz ser possível unir a agenda econômica e social e cita como exemplo a
proposta de rever o sistema
prisional, que, em sua avaliação, faz "com que a sociedade
pague duas vezes, porque são de R$ 3 mil a R$ 4 mil gastos por mês com cada
prisioneiro e, quando ele retorna à sociedade, reincide no crime e volta ao
presídio".
"O
Brasil aprisiona muito, ao contrário do que se acredita. Os criminosos devem,
sem dúvida, ir às barras da Justiça, mas quem estamos aprisionando? São os
criminosos de alta periculosidade ou jovens que não têm como sobreviver e
acabam cometendo crimes, vendendo drogas?", questiona.
O
escritor reconhece que pautas como essa podem levá-lo a ser ligado à esquerda
e, em última análise, a Lula e ao Partido dos Trabalhadores, mas diz ter
esperança de que o eleitorado não vá se deixar convencer por essas associações
e de que os adversários não vão lançar mão dessa estratégia.
"Isso
não é uma pauta da esquerda. As pessoas associam à esquerda, mas é uma pauta
suprapartidária, porque também a esquerda não fez nada de grande impacto para
mudar a ressocialização e impedir que as prisões se tornem escolas do crime.
Essas pautas são sequestradas", diz.
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Campanha liderada por marqueteiro de Bolsonaro
Embora
concorra por um partido de pouca expressão, Cury conta com um marqueteiro
experiente, Sergio Lima, que trabalhou com Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de
2018 e 2022, além do presidente da Câmara, o deputado federal Arthur Lira (Progressistas-AL).
Lima, aliás, acaba de se afastar da campanha de Flávio.
"Flávio
é bem assessorado pelo time que o atende na Câmara, e havia uma indefinição.
Ele tinha me convidado no início de fevereiro, aí começou uma briga política,
de quererem colocar outros marqueteiros, e resolvi que não quero isso para
mim", diz Lima, convidado para trabalhar com Cury por intermédio do
deputado Murilo Galdino (Republicanos-PB).
Questionado
sobre a possibilidade de adotar ou evitar estratégias usadas pelo marqueteiro
junto à família Bolsonaro, Cury afirma que o tema nem sequer entra em pauta.
"Sei
que ele participou das campanhas de Jair Bolsonaro, mas discutimos pouquíssimo
isso, porque ele sabe que tenho uma trajetória própria. Não amo o poder e não
preciso ser o centro das atenções."
Calejado
nos corredores de Brasília,
Lima já traçou estratégias e explica que um dos principais desafios será
alcançar o público que não acompanha nem leu os livros de Cury.
"A
eleição de Bolsonaro foi 95% emocional. O eleitor vota pela emoção, não pela
razão, e Cury é um mestre em trabalhar com a emoção das pessoas", diz o
marqueteiro.
"Ele
já fala com o público mais qualificado. A gente tem que traduzir o que ele fala
para o público de baixa renda, para que eles entendam e confiem nele. Eles
precisam se identificar com Cury."
Lima
acrescenta que busca atrair eleitores que votaram em branco ou nulo — índice
que foi de 4,41% em 2022, o menor desde 1994, mas que tem girado em torno de
10% na última década —, além dos que se abstiveram, que somaram 20,9% no último
pleito, o maior percentual desde 1998, segundo o Tribunal Superior Eleitoral
(TSE).
"A
gente entende que podemos trazer o voto tanto de centro-esquerda quanto de
centro-direita. Não queremos pescar no aquário de quem já está consolidado,
tirar voto do Flávio ou do Lula", diz o marqueteiro.
Outra
estratégia de campanha é evitar associações a outros políticos. Cury afirma que
"é muito difícil se inspirar em um político brasileiro" e prefere
citar o presidente americano Abraham Lincoln e sua resiliência como guias.
"Ele
passou por vários dramas, sua noiva morreu, passou por falências, candidatou-se
a vários cargos e perdeu, mas, por fim, ganhou", lembra.
O
pré-candidato diz que não pretende usar o Fundo Especial de Assistência
Financeira aos Partidos Políticos para custear a campanha.
Ele diz
que está bancando os primeiros honorários do marqueteiro, mas que, no longo
prazo, não pretende usar recursos próprios e espera financiar a corrida com
doações. A ideia é arrecadar R$ 5 milhões em um mês, a partir da segunda
quinzena de maio.
"As
pessoas que querem usar e precisam desse recurso é legítimo, é a regra do jogo,
mas quero dar exemplo de não usar fundo partidário", diz Cury.
"Conversei
com minha esposa e também não quero usar recursos próprios, porque isso não tem
fim. Quero doações de quem acredita neste sonho. Lembra quando Barack Obama fez
sua campanha? Assim como estou doando meu tempo, parando minhas atividades,
deixando de ganhar, espero que as pessoas se doem <><> Reforma
no STF com o lema 'make humanity great again'
Ao
longo da entrevista à BBC News Brasil, concedida de sua casa na região de
Ribeirão Preto, no interior paulista, Cury não se furtou a comentar geopolítica
global — citou diversos países, seus problemas e possíveis soluções —, mas
também detalhou propostas para o Brasil.
A
principal delas envolve mudanças na estrutura de poder, com apoio do Congresso.
Ele defende mudanças no presidencialismo, com a criação do cargo de
primeiro-ministro, e no Judiciário, especialmente no Supremo
Tribunal Federal (STF), que, em sua avaliação, estaria
"sufocando os outros poderes" e precisa "ser preservado de
qualquer interferência política".
Ele diz
que pretende articular com o Congresso "o fim da vitaliciedade dos
ministros". "Eles ficariam de oito a dez anos. Essa história de
entrar com 40 e sair com 75 seria encerrada", diz.
"Além
disso, dois terços teriam que vir da magistratura, ou seja, ser juízes de
carreira, não mais escolhidos pelo presidente, mas pela própria classe e, quem
sabe, até pelo voto público."
Cury
critica a "espetacularização" da atuação dos ministros da Corte e
propõe que seus votos deixem de ser transmitidos ao vivo.
"Por
mais que sejamos livres para expressar ideias, toda vez que você está debaixo
dos holofotes denotam-se vários gatilhos mentais e você acaba dando respostas
que não daria se não estivesse debaixo dos holofotes."
O
escritor, que também é médico psiquiatra, acrescenta que as mudanças que propõe
se baseiam em seus estudos sobre a mente humana e em outro lema de sua
campanha, "make humanity great again", ou "torne a humanidade
grande novamente", inspirado no movimento americano Maga
("Make America Great Again"), encampado por Trump.
"Quando
alguém te ofende, te rejeita ou te critica, detona o primeiro copiloto do eu,
abre uma janela traumática e, se o volume de tensão é grande, a âncora gera
hiperfoco", diz Cury.
"Milhares
de arquivos mentais deixam de ser acessados para dar respostas inteligentes.
O Homo sapiens se torna Homo bios, instintivo,
animal, e comete os maiores erros. Professores, casais e também líderes
internacionais têm suas piores atitudes. Dizem palavras que nunca deveriam ser
ditas", prossegue o pré-candidato, que promete evitar conflitos em sua
campanha: "Será 100% projetos, 0% ataques".
Fonte: Por
Pedro Martins, da BBC News Brasil em Londres

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