A
histórica condenação da Lafarge, a grande empresa do setor de cimento, por
fomentar o terrorismo internacional
A
histórica condenação de uma das empresas mais importantes da França sacode o
mundo das multinacionais e poderá mudar sua forma de operação em zonas de
conflito.
Na
segunda-feira, 13 de abril, a empresa do setor de cimento Lafarge foi
considerada culpada pelo pagamento de milhões de dólares em subornos a grupos
jihadistas, incluindo o autodenominado grupo Estado Islâmico (EI), para manter
seus negócios na Síria durante a guerra civil do país (2011-2024).
Oito
ex-diretores da empresa também foram declarados culpados por financiar o
terrorismo internacional. Entre eles, está o seu ex-diretor-executivo, Bruno
Lafont, condenado a seis anos de prisão, com início imediato do cumprimento da
pena.
Atualmente,
a empresa faz parte do conglomerado suíço Holcim. Ela efetuou pagamentos a três
organizações jihadistas, incluindo o EI, por um montante de cerca de 5,6
milhões de euros (cerca de R$ 32,3 milhões) entre 2013 e 2014. O objetivo era
manter em funcionamento uma fábrica no norte da Síria, segundo a sentença do
Tribunal Penal de Paris.
O
dinheiro teria permitido que o IE "organizasse atentados
terroristas", como o ataque ao semanário francês Charlie Hebdo em janeiro
de 2015, segundo o tribunal.
A
advogada do ex-diretor-executivo da Lafarge, Jacqueline Laffont, defendeu que a
decisão contrária ao seu cliente não é "justa, nem razoável".
"Esta
não será a primeira, nem a última vez, em que uma decisão de juízes de primeira
instância é revogada pelo Tribunal de Recursos", declarou ela em
entrevista à rede de rádio pública francesa France Info.
"Trata-se
de uma sentença sem provas, sem demonstração. O tribunal presume a
culpabilidade de Bruno Lafont e que ele tinha conhecimento dos pagamentos em
questão, que ocorreram dentro da empresa Lafarge, pelo simples fato de que era
seu presidente."
Lafont
dirigiu a empresa entre 2007 e 2015. Ele reiterou que é inocente e afirmou ter
dito a verdade durante o julgamento.
Seus
representantes informaram que irão recorrer ao veredito, mas a sentença pode
mudar o tabuleiro das multinacionais que operam em zonas de conflito.
A
Lafarge declarou à BBC que reconhece a sentença judicial e garantiu que as
ações "que ocorreram há mais de uma década constituíram uma violação
flagrante do código de conduta da Lafarge".
A
empresa descreveu a decisão como um "marco importante" nos seus
esforços para "tratar de forma responsável deste tema herdado".
<><>
Decisão histórica
O
professor de direito e ciências penais Didier Rebut, da Universidade
Paris-Panthéon-Assas, na França, afirma que a decisão é "histórica"
por vários motivos.
"Em
primeiro lugar, ela é histórica pela qualificação de terrorismo aplicada a
fatos cometidos por uma empresa e seus dirigentes no âmbito da sua atividade
econômica", declarou ele à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Para
ele, "o que se deduz é que uma empresa e seus diretores podem ser
condenados por terrorismo, em razão das suas decisões econômicas e
financeiras".
"Trata-se,
aparentemente, da primeira vez na França e no mundo que uma grande empresa
internacional e seus dirigentes são condenados por terrorismo, mesmo que, é
claro, não exista nenhuma adesão ideológica, nem conivência com os grupos
terroristas em questão."
Rebut
destaca que a decisão também é histórica devido à gravidade das penas impostas.
Ele explica que o veredito demonstra que a qualificação de terrorismo, uma vez
mantida, implica sanções proporcionais à sua gravidade.
"Com
isso, o tribunal deixa claro que, quando o assunto é terrorismo, não há por que
atenuar a pena pelo simples fato de que a conduta em questão consistia em uma
decisão econômica ou financeira, não em um ato violento", explica ele.
O
professor também destaca que a decisão demonstra que as grandes empresas não
estão isentas de sanções quando contribuem, "incluindo por meio de
mecanismos econômicos, para o funcionamento de organizações terroristas".
<><>
Pagamentos para garantir acesso e matéria-prima
A
Lafarge adquiriu a fábrica de cimento de Jalabiya, no norte da Síria, em 2008,
por US$ 680 milhões (cerca de R$ 3,4 bilhões). Ela começou a operar em 2010,
poucos meses antes do início da guerra civil no país, em 2011.
Os
promotores indicam que os funcionários da empresa residiam na localidade
próxima de Manbij. Eles precisavam cruzar o rio Eufrates para ter acesso à
fábrica, localizada em uma região que ficaria mergulhada no conflito pouco
tempo depois.
A
acusação afirma que os pagamentos foram realizados entre 2013 e setembro de
2014. Eles incluíram cerca de 800 mil euros (cerca de R$ 4,3 milhões),
destinados a garantir a segurança dos trabalhadores, bem como 1,6 milhão de
euros (cerca de R$ 13 milhões) para a compra de matérias-primas em pedreiras
sob o controle do Estado Islâmico.
A
guerra civil da Síria começou em março de 2011, após violenta repressão dos
protestos antigovernamentais do então presidente Bashar al-Assad, que governou
o país entre 2000 e 2024.
Em
2014, os jihadistas do Estado Islâmico se apoderaram de amplas zonas da Síria e
do vizinho Iraque. Ali, eles proclamaram um autodenominado "califado"
transfronteiriço, onde impuseram sua interpretação extremista da lei islâmica.
<><>
'Não é possível alegar que eles simplesmente se adaptaram'
A juíza
Isabelle Prévost-Desprez afirmou que os pagamentos foram
"fundamentais" para que o EI pudesse controlar os recursos naturais
da Síria.
"Isso
permitiu que eles financiassem atos terroristas, tanto na região quanto no
exterior, especialmente na Europa", destacou ela.
A
Promotoria Nacional Antiterrorista da França (PNAT) qualificou o caso em
dezembro como "um deslize, uma perversão que levou a Lafarge, uma
referência da indústria francesa, a acabar financiando organizações terroristas
com um único objetivo: o lucro".
Didier
Rebut destaca que a principal consequência desta sentença é o aumento do nível
de exigência para as empresas multinacionais.
"As
empresas que operam em zonas de conflito não poderão mais alegar que
simplesmente se adaptaram a um contexto local difícil, se seus pagamentos,
intermediários, fornecedores ou circuitos logísticos beneficiarem grupos
armados ou entidades que receberam sanções", explica ele.
Este
veredito provavelmente irá obrigar muitas empresas a reforçar seus sistemas de
controle, logística e administração.
"Essencialmente,
quando uma empresa sabe que sua atividade depende de tratar com organizações
terroristas, o risco deixa de ser sua reputação e passa a ser penal, tanto para
a companhia quanto para seus diretores", prossegue Rebut.
O
professor afirma que o caso da Lafarge define um precedente importante. Ele
demonstra que as empresas podem ser processadas por apoiar economicamente
grupos armados em zonas de guerra.
Mas ele
esclarece que não haverá necessariamente muitos casos futuros por financiamento
do terrorismo, já que esta acusação exige condições jurídicas muito
específicas.
Por
outro lado, Rebut alerta que a decisão aumenta o risco de que as empresas sejam
investigadas por cumplicidade em crimes de guerra ou de lesa-humanidade se
continuarem operando, sabendo que suas atividades beneficiam grupos violentos.
Fonte:
Por Norberto Paredes, da BBC News Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário