O
cenário insano que pode tornar a guerra global
Os
Estados Unidos estão entrando em uma nova fase da guerra contra o Irã. Pode não
ser o que muitos esperam (especialmente nos mercados financeiros). No sábado,
19/4, Trump disse, entre outras coisas, que o Estreito de Ormuz estava aberto e
que o Irã concordou em nunca mais fechá-lo; que Teerã, com a ajuda dos EUA,
removeu ou está removendo todas as minas marítimas; e que EUA e Irã
trabalhariam juntos para extrair do Irã o urânio altamente enriquecido (UAE)
que o país produziu. Trump escreveu:
“Vamos
resolver isso. Vamos trabalhar com o Irã, em um ritmo tranquilo, e começar a
escavar com máquinas pesadas… Traremos os resultados para os Estados Unidos
muito em breve.”
O
presidente afirmara um dia antes que o Irã concordou em entregar seu estoque de
urânio altamente enriquecido. Nenhuma dessas afirmações era verdadeira . Ou Trump estava
imaginando (apegando-se a fantasias, embora acreditando que fossem
verdadeiras); ou estava manipulando os mercados. Se foi o último caso, houve
sucesso. O preço do petróleo caiu e os mercados dispararam. Segundo relatos, 20 minutos antes da
afirmação do presidente, de que o Estreito de Ormuz estava aberto e jamais
fecharia novamente, uma posição vendida de US$ 760 milhões em petróleo foi
aberta… Alguém ganhou uma fortuna.
Toda
essa turbulência gerou muita confusão. Trump também afirmou que uma nova rodada
de negociações e um provável acordo com o Irã aconteceriam muito em breve —
inclusive neste fim de semana. A probabilidade de negociações é falsa. A
agência de notícias iraniana Tasnim informou que “o
lado norte-americano foi informado, por meio do mediador paquistanês, de que
nós [Irã] não concordamos com uma segunda rodada [de negociações]”.
Desde o
início do cessar-fogo mediado pelo Paquistão, o Irã deveria permitir a passagem
diária de um número limitado de navios. No entanto, isso sempre esteve sujeito
às condições iranianas para a passagem em trânsito. O resultado final das
manipulações de Trump foi fazer com que o Irã reafirmasse suas condições sobre
Ormuz, sobre seus estoques de urânio altamente enriquecido e sobre seu “direito
de enriquecer”, em uma definição mais restrita e menos flexível.
As
negociações em Islamabad já haviam demonstrado ao Irã que sua proposta
estruturada em 10 pontos — inicialmente vista por Trump como uma “base
viável” para o início de negociações diretas — não poderia prosperar. O lance
iraniano foi descartado no final do dia, à
medida em que os EUA voltaram-se para seus principais pontos para uma planejada
vitória: abandono, para sempre, do enriquecimento de urânio pelo Irã; entrega
aos EUA de seu estoque de 430 kg de urânio enriquecido a 60%; e a abertura do
Estreito de Ormuz — sem pedágios.
Em
resumo, a posição dos EUA foi apenas uma continuação das exigências de longa
data de Israel. A experiência adicional do Irã, com a falsificação promovida
dos EUA na sexta-feira, só serviu para confirmar a convicção de permanecer
sempre alerta, e de encarar a confusão fabricada como uma possível manobra dos
EUA para acobertar os preparativos para uma escalada militar planejada .
Ao
recusar essas exigências cruciais, o Irã desencadeou a repentina decisão dos
EUA, de desistir de Islamabad, evidenciando o contexto fundamental por trás
dessa retirada norte-americana: Netanyahu estava frustrado. Muito
frustrado. “Como [Netanyahu] afirma, ‘a mídia’, esse conveniente
‘vilão’, conseguiu consolidar a narrativa de que Israel perdeu a guerra [com o
Irã]”, escreveu Ravit Hecht no Haaretz.
Ele prosseguiu:
“Poucas
pessoas entendem melhor que Netanyahu o poder de mensagens curtas, diretas e
inequívocas… Com o tempo se esgotando e sua reputação internacional em
declínio, ele está desesperado para apresentar pelo menos uma história de
sucesso inequívoca, dentre as metas ambiciosas que proclamou na primeira semana
da guerra – quando a arrogância e a adrenalina ainda permeavam todas as
coletivas de imprensa do governo.
“Mudança
de regime em Teerã? Já não está em discussão. O vago objetivo de ‘criar
condições’ para tal mudança evaporou-se. Acabar com o programa de mísseis
balísticos do Irã parece agora extremamente irrealista – os ministros de
Netanyahu também reconhecem isso. Quanto à rede de aliados regionais do Irã,
sua influência pode se tornar mais sutil, mas poucos acreditam que possa ser
completamente desmantelada.
“Isso
deixa apenas uma carta em jogo: o urânio.
“O
círculo de Netanyahu espera que, como em crises passadas, a crescente pressão
possa obrigar o Irã a abrir mão de seu estoque de urânio enriquecido. Netanyahu
está apostando tudo nesse resultado – ou na possibilidade de que uma nova
guerra ainda possa desestabilizar o regime.
“Foi
por isso que o vice-presidente dos EUA, J.D.Vance — que recebia instruções da
Casa Branca ou de Tel Aviv quase a cada hora — encerrou as prematuramente
negociações em Islamabad, no início do mês. Não era possível esperar do diálogo
uma mensagem de vitória concisa e incisiva, da qual depende o futuro de
Netanyahu”.
O
advogado constitucionalista norte-americano Robert Barnes (amigo de Vance)
relatou em entrevista que:
“Trump
começou a apresentar sinais de demência precoce em setembro de 2025… Ele
frequentemente confabula – inventa histórias –, perde a paciência
rotineiramente e profere discursos raivosos e descontrolados, sendo incapaz de
pensamento crítico. E nesse estado, segundo Barnes, Trump realmente acredita
que os EUA derrotaram o Irã e não compreende o enorme prejuízo econômico que o
fechamento do Estreito de Ormuz está causando à economia global”.
Resumindo,
Barnes afirma que o delírio de Trump, de que o Irã está prestes a se render,
reflete seu estado mental comprometido — uma dificuldade em compreender a
realidade (uma interpretação panglossiana que o secretário de Defesa, Pete
Hegseth faz o possível para reforçar).
Assim
como Netanyahu, Trump provavelmente também acredita que pressionar de forma
crescente o Irã poderia render o troféu da vitória de exibir 430 kg de urânio
enriquecido — seja por meio de pressão econômica, seja por meio de uma
apreensão dramática em solo iraniano pelas forças norte-americanas.
Diante
dessa crise no coração da Casa Branca, o vice-presidente Vance, novamente
segundo Barnes, tem trabalhado intensamente nos bastidores para organizar um
novo encontro com o Irã em Islamabad. Age assim apesar de o processo político
estar sendo deliberadamente prejudicado por ataques aéreos e terrestres
israelenses em larga escala no Líbano, que mataram e feriram até mil pessoas
(quase todas civis) durante as negociações de cessar-fogo, bem como pelos
ataques contínuos, desde que Trump supostamente “proibiu” Israel de atacar o
Líbano no início do cessar-fogo.
No
entanto, após muita negociação por parte do Paquistão, com mensagens circulando
em várias direções, “na noite passada [19/4], um oficial militar
iraniano afirmou que Teerã havia emitido um ultimato final aos EUA, informando
que estava a uma hora de iniciar uma operação militar e ataques com mísseis
contra as forças israelenses que atacavam o Líbano, o que [finalmente] forçou
Trump a declarar um cessar-fogo no país”, causando grande indignação
em Israel. Autoridades israelenses ficaram furiosas, reclamando que só foram
informadas depois do ocorrido.
Não
está nada claro se Israel irá respeitar o acordo (Telaviv já violou o
cessar-fogo). Netanyahu, todos os líderes da oposição israelense e uma grande
maioria da população estão unidos no desejo de que a guerra
continue.
As
negociações de Islamabad fracassaram, em primeiro lugar, porque as divergências
entre as duas partes eram intransponíveis; e, segundo, porque as partes tinham
visões diferentes e contraditórias da realidade no território. Os EUA,
aparentemente, entraram nas negociações partindo da “hipótese” de que a outra
parte já estava militarmente destruída e em situação desesperadora.
O Irã,
por outro lado, entrou convicto de que havia saído mais forte do que após a
Guerra dos Doze Dias. Em sua interpretação, isso significava que o controle de
Ormuz e do Mar Vermelho ainda não havia atingido o estágio em que o equilíbrio
de sofrimento pudesse pesar decisivamente favorável ao Irã — e certamente não
havia chegado ao ponto em que concessões significativas por parte de Teerão
fossem apropriadas.
Qual
será, provavelmente, a próxima etapa? Mais guerra! Uma guerra cinética
de maior escala, com foco provavelmente em outra série maciça de ataques com
mísseis, principalmente contra a infraestrutura civil do Irã.
Em 14
de abril, o Conselho de Segurança da Rússia
alertou que “as
negociações de cessar-fogo podem ser uma cortina de fumaça usada por Washington
para se preparar para uma guerra terrestre… Os Estados Unidos e Israel podem
usar as negociações de paz para se preparar para uma operação por terra contra
o Irã, enquanto o Pentágono continua aumentando o número de soldados
norte-americanos na região”.
Trump
acrescentou agora uma nova frente , com o objetivo de
maximizar ainda mais o impacto econômico de sanções e bloqueios sobre o Irã. A
China é o principal alvo porque, como afirma o Secretário do Tesouro Scott
Bessent, Beijing tem sido a maior compradora de petróleo iraniano vendido com
desconto. Bessent alega que essa nova dimensão é o equivalente financeiro aos
ataques militares conjuntos EUA/Israel anteriores contra o Irã. Ele a chamou de
parte da “Operação Fúria Econômica” — destinada a cortar as fontes de receita
do Irã, especialmente as provenientes da venda de petróleo e das supostas redes
de contrabando.
Bessent
também afirmou que os EUA imporiam sanções secundárias a quaisquer países,
empresas ou instituições financeiras que continuassem comprando petróleo
iraniano ou que permitissem a circulação de dinheiro iraniano em suas contas.
Descreveu isso como uma “medida muito severa”. Bessent advertiu explicitamente
que, se fosse comprovado que fundos iranianos estavam circulando por meio de
contas bancárias, os EUA aplicariam sanções secundárias.
Se este
anúncio tem como objetivo coagir a China a pressionar o Irã para que este se
renda a Israel e aos EUA, isso constitui uma leitura flagrantemente equivocada
da situação tanto no Irã quanto na China. É provável que se volte contra Trump.
Isso provocará o surgimento de mais uma frente econômica na guerra — e
estenderá a guerra econômica a um nível global.
É
provável que a China e a Rússia interpretem essa declaração apenas como mais
uma tentativa dos EUA (após o bloqueio à Venezuela) de restringir o
fornecimento de energia à China. O Estreito de Ormuz continua aberto para
navios chineses. A tentativa de bloqueio de Trump foi a pressão inicial — agora
ele ameaça sancionar bancos e empresas chinesas.
A
guerra tarifária de Trump será vista em retrospectiva como insignificante,
comparada ao ataque iminente às cadeias de abastecimento da China. Os mercados
podem comemorar prematuramente, mas a próxima fase será, tudo indica, uma
guerra ainda maior e mais intensa.
¨
Guerra do Irã começa a gerar crise na aviação civil
A guerra no Irã está tendo
um profundo impacto no setor da aviação global, com a escassez de combustível e o aumento dos
preços causando estragos nas rotas de voo.
Nesta
terça-feira (21/04), a Lufthansa, a maior companhia aérea da Alemanha,
anunciou o cancelamento de 20 mil voos entre maio e outubro, numa tentativa
de economizar combustível.
A
companhia aérea afirmou que o corte nos voos de curta distância representaria
uma redução de "aproximadamente 40 mil toneladas métricas de combustível
de aviação, cujo preço dobrou desde o início do conflito com o Irã".
A
companhia aérea holandesa KLM cancelou 160 voos para o próximo mês na semana
passada, enquanto outras companhias aéreas na Europa e em toda a região da
Ásia-Pacífico estão aumentando os preços e lidando com a possibilidade de
cancelamentos em massa, à medida em que se aproxima o período de férias de
verão no Hemisfério Norte.
O
diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol,
afirmou recentemente que a Europa tem reservas de combustível de aviação para
apenas seis semanas. Nesta quinta-feira, em entrevista à emissora CNBC, ele
disse que o mundo enfrenta a "maior ameaça à segurança energética da
história".
O
comissário europeu de Energia, Dan Jorgensen, disse que a situação
atual está passando de uma crise de preços altos para uma crise de
abastecimento. Ele afirmou que os Estados-membros da UE já estão explorando a
possibilidade de compartilhar entre si os estoques de combustível de aviação
para manter o tráfego aéreo.
O
fechamento contínuo do Estreito de Ormuz interrompeu
gravemente os fluxos globais de gás e petróleo. O setor de aviação europeu está
particularmente afetado, já que grande parte do querosene que a região importa
para combustível de aviação vem do Oriente Médio.
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Baixos estoques
No
entanto, existe alguma discordância sobre a rapidez com que os estoques podem
realmente se esgotar. Na segunda-feira, o governo holandês afirmou estimar que
a UE tenha querosene suficiente para
combustível de aviação e outros fins, como aquecimento e iluminação, por pelo
menos cinco meses.
A
Holanda abriga algumas das maiores refinarias de petróleo bruto da Europa,
muitas das quais importam querosene e produzem combustível de aviação. A UE
produz entre 60% e 70% do seu combustível de aviação, enquanto importa entre
30% e 40%, sendo que cerca de metade dessa importação passa pelo Estreito de
Ormuz.
"É
um alerta sério e um claro apelo à ação", diz o economista do banco
holandês ING Rico Luman, que é especializado em transportes. Ele acredita
que a estimativa de seis semanas pode muito bem se confirmar e que os planos da
UE para o compartilhamento de combustível talvez precisem ser postos em
prática.
No
entanto, John Grant, analista-chefe da empresa de dados de aviação OAG,
diz não acreditar que a situação seja tão "grave" quanto algumas
estimativas e afirma que muitos dos voos que foram cancelados até agora são em
rotas com alta frequência de alternativas.
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Quais são os planos da UE?
Os
ministros dos Transportes da UE reuniram-se nesta terça-feira para
discutir planos para lidar com a escassez de combustível de aviação e fornecer
orientações às companhias aéreas. O comissário europeu dos Transportes,
Apostolos Tzitzikostas, afirmou que um bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz
seria catastrófico para a Europa e para a economia global.
A
Comissão Europeia pretende apresentar um pacote de medidas relativas à energia
e aos transportes, incluindo planos para a gestão coletiva das reservas de
combustível de aviação e a possível distribuição das reservas existentes entre
os Estados-membros.
Outra
medida em análise é permitir que os Estados-membros comprem mais combustível de
aviação dos EUA. "Caso esta crise continue, estamos prontos para intervir
e flexibilizar as coisas para as companhias aéreas", disse Tzitzikostas.
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Faltam alternativas
A crise
evidenciou a vulnerabilidade das companhias aéreas a choques de abastecimento,
particularmente na Europa e na Ásia, onde a dependência do querosene
proveniente do Oriente Médio é elevada.
Num
relatório divulgado em novembro passado pela Associação Internacional de
Transporte Aéreo (IATA), a entidade que representa o setor aéreo, foi alertado
que "a resiliência do fornecimento de combustível de aviação na Europa
diminuiu à medida que a dependência das importações aumenta".
O
relatório afirmou que o setor é especialmente dependente do querosene de
aviação convencional e instou os participantes da indústria a
intensificarem o uso do combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em
inglês), que são combustíveis derivados de biomassa provenientes de plantas,
animais ou resíduos.
O
regulamento ReFuelEU da UE para o setor da aviação, que entrou em vigor em
2024, exige aumentos graduais no uso de combustível sustentável de aviação nos
aeroportos da UE, atingindo 6% em 2030 e 70% em 2050. A taxa a partir de
janeiro de 2026 é de 2%. No entanto, a baixa oferta e os altos custos são dois
problemas relacionados ao SAF.
"Não
existem muitas alternativas para a indústria da aviação", diz Luman.
"Mudar mais para o SAF como substituto não é realista, dada a oferta
disponível. Além disso, os preços do SAF dispararam juntamente com o
combustível de aviação."
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Preços altos e instabilidade
Mesmo
que o fornecimento de combustível de aviação não se esgote completamente, é
provável que os altos preços permaneçam, elevando o valor das passagens aéreas
para os consumidores.
Embora
muitas das principais companhias aéreas pratiquem o "hedge" do
combustível de aviação, uma estratégia na qual fixam os preços futuros para se
protegerem da volatilidade, algumas abandonaram essa prática nos últimos anos.
Em
relação a uma possível saída para a crise, Luman afirma que a única
solução realista a curto prazo, supondo que o Estreito de Ormuz permaneça
fechado, é a redução do consumo de combustível. Ele prevê mais
cancelamentos como parte de um plano de emergência e diz que o aumento dos
preços é inevitável.
Luman cita
o exemplo da Ásia, onde os preços do combustível de aviação já são muito mais
altos e os comerciantes vendem para quem paga mais. A Cathay Pacific, de Hong
Kong, a Air New Zealand e a Air Asia X, da Malásia, já cortaram rotas para
economizar combustível, enquanto outras companhias aéreas, tanto na região
quanto em todo o mundo, também estão aumentando os preços e introduzindo taxas
sobre o combustível.
A crise
demonstrou mais uma vez a vulnerabilidade do setor a eventos geopolíticos e
pode afetar a confiança do consumidor, um conceito vital na aviação civil.
"Isso só demonstra o quão frágil esse setor realmente é",
observa Yi Gao, professor associado da Escola de Aviação e Tecnologia de
Transporte da Universidade Purdue, nos EUA. "Sua operação se baseia em
muitas premissas, como estabilidade, disponibilidade de espaço aéreo e o preço
relativamente acessível do combustível."
Fonte:
Por Alastair Crooke, em Outras Palavras/DW Brasil

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