sexta-feira, 24 de abril de 2026

O cenário insano que pode tornar a guerra global

Os Estados Unidos estão entrando em uma nova fase da guerra contra o Irã. Pode não ser o que muitos esperam (especialmente nos mercados financeiros). No sábado, 19/4, Trump disse, entre outras coisas, que o Estreito de Ormuz estava aberto e que o Irã concordou em nunca mais fechá-lo; que Teerã, com a ajuda dos EUA, removeu ou está removendo todas as minas marítimas; e que EUA e Irã trabalhariam juntos para extrair do Irã o urânio altamente enriquecido (UAE) que o país produziu. Trump escreveu:

“Vamos resolver isso. Vamos trabalhar com o Irã, em um ritmo tranquilo, e começar a escavar com máquinas pesadas… Traremos os resultados para os Estados Unidos muito em breve.”

O presidente afirmara um dia antes que o Irã concordou em entregar seu estoque de urânio altamente enriquecido. Nenhuma dessas afirmações era verdadeira . Ou Trump estava imaginando (apegando-se a fantasias, embora acreditando que fossem verdadeiras); ou estava manipulando os mercados. Se foi o último caso, houve sucesso. O preço do petróleo caiu e os mercados dispararam. Segundo relatos, 20 minutos antes da afirmação do presidente, de que o Estreito de Ormuz estava aberto e jamais fecharia novamente, uma posição vendida de US$ 760 milhões em petróleo foi aberta… Alguém ganhou uma fortuna.

Toda essa turbulência gerou muita confusão. Trump também afirmou que uma nova rodada de negociações e um provável acordo com o Irã aconteceriam muito em breve — inclusive neste fim de semana. A probabilidade de negociações é falsa. A agência de notícias iraniana Tasnim informou que “o lado norte-americano foi informado, por meio do mediador paquistanês, de que nós [Irã] não concordamos com uma segunda rodada [de negociações]”.

Desde o início do cessar-fogo mediado pelo Paquistão, o Irã deveria permitir a passagem diária de um número limitado de navios. No entanto, isso sempre esteve sujeito às condições iranianas para a passagem em trânsito. O resultado final das manipulações de Trump foi fazer com que o Irã reafirmasse suas condições sobre Ormuz, sobre seus estoques de urânio altamente enriquecido e sobre seu “direito de enriquecer”, em uma definição mais restrita e menos flexível.

As negociações em Islamabad já haviam demonstrado ao Irã que sua proposta estruturada em  10 pontos — inicialmente vista por Trump como uma “base viável” para o início de negociações diretas — não poderia prosperar. O lance iraniano foi descartado no final do dia, à medida em que os EUA voltaram-se para seus principais pontos para uma planejada vitória: abandono, para sempre, do enriquecimento de urânio pelo Irã; entrega aos EUA de seu estoque de 430 kg de urânio enriquecido a 60%; e a abertura do Estreito de Ormuz — sem pedágios.

Em resumo, a posição dos EUA foi apenas uma continuação das exigências de longa data de Israel. A experiência adicional do Irã, com a falsificação promovida dos EUA na sexta-feira, só serviu para confirmar a convicção de permanecer sempre alerta, e de encarar a confusão fabricada como uma possível manobra dos EUA para acobertar os preparativos para uma escalada militar planejada .

Ao recusar essas exigências cruciais, o Irã desencadeou a repentina decisão dos EUA, de desistir de Islamabad, evidenciando o contexto fundamental por trás dessa retirada norte-americana: Netanyahu estava frustrado. Muito frustrado. “Como [Netanyahu] afirma, ‘a mídia’, esse conveniente ‘vilão’, conseguiu consolidar a narrativa de que Israel perdeu a guerra [com o Irã]”, escreveu Ravit Hecht no Haaretz. Ele prosseguiu:

“Poucas pessoas entendem melhor que Netanyahu o poder de mensagens curtas, diretas e inequívocas… Com o tempo se esgotando e sua reputação internacional em declínio, ele está desesperado para apresentar pelo menos uma história de sucesso inequívoca, dentre as metas ambiciosas que proclamou na primeira semana da guerra – quando a arrogância e a adrenalina ainda permeavam todas as coletivas de imprensa do governo.

“Mudança de regime em Teerã? Já não está em discussão. O vago objetivo de ‘criar condições’ para tal mudança evaporou-se. Acabar com o programa de mísseis balísticos do Irã parece agora extremamente irrealista – os ministros de Netanyahu também reconhecem isso. Quanto à rede de aliados regionais do Irã, sua influência pode se tornar mais sutil, mas poucos acreditam que possa ser completamente desmantelada.

“Isso deixa apenas uma carta em jogo: o urânio.

“O círculo de Netanyahu espera que, como em crises passadas, a crescente pressão possa obrigar o Irã a abrir mão de seu estoque de urânio enriquecido. Netanyahu está apostando tudo nesse resultado – ou na possibilidade de que uma nova guerra ainda possa desestabilizar o regime.

“Foi por isso que o vice-presidente dos EUA, J.D.Vance — que recebia instruções da Casa Branca ou de Tel Aviv quase a cada hora — encerrou as prematuramente negociações em Islamabad, no início do mês. Não era possível esperar do diálogo uma mensagem de vitória concisa e incisiva, da qual depende o futuro de Netanyahu”.

O advogado constitucionalista norte-americano Robert Barnes (amigo de Vance) relatou em entrevista que:

“Trump começou a apresentar sinais de demência precoce em setembro de 2025… Ele frequentemente confabula – inventa histórias –, perde a paciência rotineiramente e profere discursos raivosos e descontrolados, sendo incapaz de pensamento crítico. E nesse estado, segundo Barnes, Trump realmente acredita que os EUA derrotaram o Irã e não compreende o enorme prejuízo econômico que o fechamento do Estreito de Ormuz está causando à economia global”.

Resumindo, Barnes afirma que o delírio de Trump, de que o Irã está prestes a se render, reflete seu estado mental comprometido — uma dificuldade em compreender a realidade (uma interpretação panglossiana que o secretário de Defesa, Pete Hegseth faz o possível para reforçar).

Assim como Netanyahu, Trump provavelmente também acredita que pressionar de forma crescente o Irã poderia render o troféu da vitória de exibir 430 kg de urânio enriquecido — seja por meio de pressão econômica, seja por meio de uma apreensão dramática em solo iraniano pelas forças norte-americanas.

Diante dessa crise no coração da Casa Branca, o vice-presidente Vance, novamente segundo Barnes, tem trabalhado intensamente nos bastidores para organizar um novo encontro com o Irã em Islamabad. Age assim apesar de o processo político estar sendo deliberadamente prejudicado por ataques aéreos e terrestres israelenses em larga escala no Líbano, que mataram e feriram até mil pessoas (quase todas civis) durante as negociações de cessar-fogo, bem como pelos ataques contínuos, desde que Trump supostamente “proibiu” Israel de atacar o Líbano no início do cessar-fogo.

No entanto, após muita negociação por parte do Paquistão, com mensagens circulando em várias direções, “na noite passada [19/4], um oficial militar iraniano afirmou que Teerã havia emitido um ultimato final aos EUA, informando que estava a uma hora de iniciar uma operação militar e ataques com mísseis contra as forças israelenses que atacavam o Líbano, o que [finalmente] forçou Trump a declarar um cessar-fogo no país”, causando grande indignação em Israel. Autoridades israelenses ficaram furiosas, reclamando que só foram informadas depois do ocorrido.

Não está nada claro se Israel irá respeitar o acordo (Telaviv já violou o cessar-fogo). Netanyahu, todos os líderes da oposição israelense e uma grande maioria da população estão unidos no desejo de que a guerra continue.

As negociações de Islamabad fracassaram, em primeiro lugar, porque as divergências entre as duas partes eram intransponíveis; e, segundo, porque as partes tinham visões diferentes e contraditórias da realidade no território. Os EUA, aparentemente, entraram nas negociações partindo da “hipótese” de que a outra parte já estava militarmente destruída e em situação desesperadora.

O Irã, por outro lado, entrou convicto de que havia saído mais forte do que após a Guerra dos Doze Dias. Em sua interpretação, isso significava que o controle de Ormuz e do Mar Vermelho ainda não havia atingido o estágio em que o equilíbrio de sofrimento pudesse pesar decisivamente favorável ao Irã — e certamente não havia chegado ao ponto em que concessões significativas por parte de Teerão fossem apropriadas.

Qual será, provavelmente, a próxima etapa? Mais guerra! Uma guerra cinética de maior escala, com foco provavelmente em outra série maciça de ataques com mísseis, principalmente contra a infraestrutura civil do Irã.

Em 14 de abril, o Conselho de Segurança da Rússia alertou que “as negociações de cessar-fogo podem ser uma cortina de fumaça usada por Washington para se preparar para uma guerra terrestre… Os Estados Unidos e Israel podem usar as negociações de paz para se preparar para uma operação por terra contra o Irã, enquanto o Pentágono continua aumentando o número de soldados norte-americanos na região”.

Trump acrescentou agora uma nova frente , com o objetivo de maximizar ainda mais o impacto econômico de sanções e bloqueios sobre o Irã. A China é o principal alvo porque, como afirma o Secretário do Tesouro Scott Bessent, Beijing tem sido a maior compradora de petróleo iraniano vendido com desconto. Bessent alega que essa nova dimensão é o equivalente financeiro aos ataques militares conjuntos EUA/Israel anteriores contra o Irã. Ele a chamou de parte da “Operação Fúria Econômica” — destinada a cortar as fontes de receita do Irã, especialmente as provenientes da venda de petróleo e das supostas redes de contrabando.

Bessent também afirmou que os EUA imporiam sanções secundárias a quaisquer países, empresas ou instituições financeiras que continuassem comprando petróleo iraniano ou que permitissem a circulação de dinheiro iraniano em suas contas. Descreveu isso como uma “medida muito severa”. Bessent advertiu explicitamente que, se fosse comprovado que fundos iranianos estavam circulando por meio de contas bancárias, os EUA aplicariam sanções secundárias.

Se este anúncio tem como objetivo coagir a China a pressionar o Irã para que este se renda a Israel e aos EUA, isso constitui uma leitura flagrantemente equivocada da situação tanto no Irã quanto na China. É provável que se volte contra Trump. Isso provocará o surgimento de mais uma frente econômica na guerra — e estenderá a guerra econômica a um nível global.

É provável que a China e a Rússia interpretem essa declaração apenas como mais uma tentativa dos EUA (após o bloqueio à Venezuela) de restringir o fornecimento de energia à China. O Estreito de Ormuz continua aberto para navios chineses. A tentativa de bloqueio de Trump foi a pressão inicial — agora ele ameaça sancionar bancos e empresas chinesas.

A guerra tarifária de Trump será vista em retrospectiva como insignificante, comparada ao ataque iminente às cadeias de abastecimento da China. Os mercados podem comemorar prematuramente, mas a próxima fase será, tudo indica, uma guerra ainda maior e mais intensa.

¨      Guerra do Irã começa a gerar crise na aviação civil

guerra no Irã está tendo um profundo impacto no setor da aviação global, com a escassez de combustível e o aumento dos preços causando estragos nas rotas de voo.

Nesta terça-feira (21/04), a Lufthansa, a maior companhia aérea da Alemanha, anunciou o cancelamento de 20 mil voos entre maio e outubro, numa tentativa de economizar combustível.

A companhia aérea afirmou que o corte nos voos de curta distância representaria uma redução de "aproximadamente 40 mil toneladas métricas de combustível de aviação, cujo preço dobrou desde o início do conflito com o Irã".

A companhia aérea holandesa KLM cancelou 160 voos para o próximo mês na semana passada, enquanto outras companhias aéreas na Europa e em toda a região da Ásia-Pacífico estão aumentando os preços e lidando com a possibilidade de cancelamentos em massa, à medida em que se aproxima o período de férias de verão no Hemisfério Norte.

O diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, afirmou recentemente que a Europa tem reservas de combustível de aviação para apenas seis semanas. Nesta quinta-feira, em entrevista à emissora CNBC, ele disse que o mundo enfrenta a "maior ameaça à segurança energética da história".

O comissário europeu de Energia, Dan Jorgensen, disse que a situação atual está passando de uma crise de preços altos para uma crise de abastecimento. Ele afirmou que os Estados-membros da UE já estão explorando a possibilidade de compartilhar entre si os estoques de combustível de aviação para manter o tráfego aéreo.

O fechamento contínuo do Estreito de Ormuz interrompeu gravemente os fluxos globais de gás e petróleo. O setor de aviação europeu está particularmente afetado, já que grande parte do querosene que a região importa para combustível de aviação vem do Oriente Médio.

<><> Baixos estoques

No entanto, existe alguma discordância sobre a rapidez com que os estoques podem realmente se esgotar. Na segunda-feira, o governo holandês afirmou estimar que a UE tenha querosene suficiente para combustível de aviação e outros fins, como aquecimento e iluminação, por pelo menos cinco meses.

A Holanda abriga algumas das maiores refinarias de petróleo bruto da Europa, muitas das quais importam querosene e produzem combustível de aviação. A UE produz entre 60% e 70% do seu combustível de aviação, enquanto importa entre 30% e 40%, sendo que cerca de metade dessa importação passa pelo Estreito de Ormuz.

"É um alerta sério e um claro apelo à ação", diz o economista do banco holandês ING Rico Luman, que é especializado em transportes. Ele acredita que a estimativa de seis semanas pode muito bem se confirmar e que os planos da UE para o compartilhamento de combustível talvez precisem ser postos em prática.

No entanto, John Grant, analista-chefe da empresa de dados de aviação OAG, diz não acreditar que a situação seja tão "grave" quanto algumas estimativas e afirma que muitos dos voos que foram cancelados até agora são em rotas com alta frequência de alternativas.

<><> Quais são os planos da UE?

Os ministros dos Transportes da UE reuniram-se nesta terça-feira para discutir planos para lidar com a escassez de combustível de aviação e fornecer orientações às companhias aéreas. O comissário europeu dos Transportes, Apostolos Tzitzikostas, afirmou que um bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz seria catastrófico para a Europa e para a economia global.

A Comissão Europeia pretende apresentar um pacote de medidas relativas à energia e aos transportes, incluindo planos para a gestão coletiva das reservas de combustível de aviação e a possível distribuição das reservas existentes entre os Estados-membros.

Outra medida em análise é permitir que os Estados-membros comprem mais combustível de aviação dos EUA. "Caso esta crise continue, estamos prontos para intervir e flexibilizar as coisas para as companhias aéreas", disse Tzitzikostas.

<><> Faltam alternativas

A crise evidenciou a vulnerabilidade das companhias aéreas a choques de abastecimento, particularmente na Europa e na Ásia, onde a dependência do querosene proveniente do Oriente Médio é elevada.

Num relatório divulgado em novembro passado pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), a entidade que representa o setor aéreo, foi alertado que "a resiliência do fornecimento de combustível de aviação na Europa diminuiu à medida que a dependência das importações aumenta".

O relatório afirmou que o setor é especialmente dependente do querosene de aviação convencional e instou os participantes da indústria a intensificarem o uso do combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês), que são combustíveis derivados de biomassa provenientes de plantas, animais ou resíduos.

O regulamento ReFuelEU da UE para o setor da aviação, que entrou em vigor em 2024, exige aumentos graduais no uso de combustível sustentável de aviação nos aeroportos da UE, atingindo 6% em 2030 e 70% em 2050. A taxa a partir de janeiro de 2026 é de 2%. No entanto, a baixa oferta e os altos custos são dois problemas relacionados ao SAF.

"Não existem muitas alternativas para a indústria da aviação", diz Luman. "Mudar mais para o SAF como substituto não é realista, dada a oferta disponível. Além disso, os preços do SAF dispararam juntamente com o combustível de aviação."

<><> Preços altos e instabilidade

Mesmo que o fornecimento de combustível de aviação não se esgote completamente, é provável que os altos preços permaneçam, elevando o valor das passagens aéreas para os consumidores.

Embora muitas das principais companhias aéreas pratiquem o "hedge" do combustível de aviação, uma estratégia na qual fixam os preços futuros para se protegerem da volatilidade, algumas abandonaram essa prática nos últimos anos.

Em relação a uma possível saída para a crise, Luman afirma que a única solução realista a curto prazo, supondo que o Estreito de Ormuz permaneça fechado, é a redução do consumo de combustível. Ele prevê mais cancelamentos como parte de um plano de emergência e diz que o aumento dos preços é inevitável.

Luman cita o exemplo da Ásia, onde os preços do combustível de aviação já são muito mais altos e os comerciantes vendem para quem paga mais. A Cathay Pacific, de Hong Kong, a Air New Zealand e a Air Asia X, da Malásia, já cortaram rotas para economizar combustível, enquanto outras companhias aéreas, tanto na região quanto em todo o mundo, também estão aumentando os preços e introduzindo taxas sobre o combustível.

A crise demonstrou mais uma vez a vulnerabilidade do setor a eventos geopolíticos e pode afetar a confiança do consumidor, um conceito vital na aviação civil. "Isso só demonstra o quão frágil esse setor realmente é", observa Yi Gao, professor associado da Escola de Aviação e Tecnologia de Transporte da Universidade Purdue, nos EUA. "Sua operação se baseia em muitas premissas, como estabilidade, disponibilidade de espaço aéreo e o preço relativamente acessível do combustível."

 

Fonte: Por Alastair Crooke, em Outras Palavras/DW Brasil

 

Nenhum comentário: