sexta-feira, 24 de abril de 2026

A Igreja Universal na reconfiguração do campo político-religioso

O megaevento “Família ao Pé da Cruz”, promovido pela Igreja Universal do Reino de Deus na Sexta-Feira Santa de 2026, não foi apenas uma demonstração de fé ou um ato de mobilização religiosa em larga escala. Foi, sobretudo, um movimento político no sentido mais sofisticado do termo: aquele que não se afirma de maneira explícita, mas que se constrói naquilo que escolhe dizer, e, principalmente, naquilo que decide silenciar. Trata-se de uma instituição que ocupa posição central no campo religioso brasileiro, sendo frequentemente apontada como a terceira maior denominação evangélica do país, com cerca de 2 milhões de membros, e uma das principais expressões do neopentecostalismo contemporâneo (IBGE; Datafolha).

Espalhado por grandes estádios do país e reunindo centenas de milhares de pessoas, o evento reafirmou a impressionante capacidade de articulação nacional da Igreja. No entanto, ao contrário do que se esperava nos bastidores políticos e midiáticos, não houve um discurso frontal contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tampouco um alinhamento direto ao campo da direita ou ao bolsonarismo. A fala do bispo Edir Macedo, especialmente no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, seguiu uma linha espiritualizada, conciliadora e cuidadosamente despolitizada no plano central.

Essa escolha não foi casual. Ao deslocar o eixo da narrativa para a restauração da família, para a fé como instrumento de transformação pessoal e para a ideia de que a felicidade não depende de fatores externos como governo, economia ou condições materiais, a Igreja promove uma inflexão discursiva relevante. A política, que nos últimos anos ocupou espaço significativo na retórica de parte das lideranças evangélicas, é retirada do centro da vida cotidiana dos fiéis e substituída por uma dimensão espiritual que reorganiza o sentido da experiência social. Esse tipo de formulação dialoga diretamente com a chamada teologia da prosperidade. Essa teoria religiosa enfatiza a fé como caminho para a superação individual e a conquista de bem-estar material e simbólico, deslocando a centralidade das estruturas sociais para a responsabilidade individual (Coleman, 2000; Mariano, 1999).

Esse movimento, de evitar o confronto direto, não significa ausência de política. Pelo contrário. Trata-se de uma reorganização estratégica da forma de intervenção no campo político. Neste momento, a Universal parece optar por uma recentralização institucional. Assim, preservando o púlpito principal como espaço de autoridade religiosa e deslocando eventuais sinalizações políticas para camadas periféricas (manifestações de outras lideranças, articulações partidárias ou movimentos nos bastidores). Esse arranjo pode ser lido à luz da noção de “guerra dos deuses”, formulada por Max Weber, na qual diferentes sistemas de valores entram em disputa no espaço social, exigindo dos atores a capacidade de transitar entre esferas de sentido em permanente tensão. No caso da Universal, essa disputa não ocorre apenas externamente, entre projetos políticos concorrentes, mas também internamente, na definição de qual racionalidade deve prevalecer na condução da sua ação pública.

Para compreender esse movimento, é necessário olhar o percurso recente da Igreja. Desde 2018, a Universal foi identificada com um alinhamento mais direto ao bolsonarismo, em um contexto em que valores morais e identitários passaram a ocupar o centro da disputa política. Esse alinhamento, no entanto, nunca foi puramente ideológico. Ele sempre carregou um componente pragmático, orientado pela lógica de poder e de preservação institucional. Esse padrão revela uma característica central do neopentecostalismo político brasileiro: sua capacidade de operar simultaneamente no plano simbólico e no plano estratégico, ajustando seu discurso conforme as condições do ambiente político.

A inflexão começa a se desenhar ainda em 2022, quando a derrota de Jair Bolsonaro se torna uma possibilidade concreta. A partir dali, Edir Macedo inicia um movimento de distensão, simbolizado pelo episódio em que declara ter “perdoado” Luiz Inácio Lula da Silva. Não se tratava de adesão, mas de reposicionamento. A mensagem era clara: a Igreja não se confundiria com um projeto político derrotado. Trata-se de um movimento típico de instituições que buscam preservar sua capacidade de influência em contextos de alternância de poder.

No início de 2023, esse reposicionamento ensaia um passo além. Há tentativas de aproximação institucional com o novo governo, mediadas por gestos simbólicos e interlocuções políticas, inclusive por meio do partido Republicanos. No entanto, essa aproximação encontra limites. De um lado, a resistência de parte significativa do eleitorado evangélico ao governo Lula. De outro, o receio da própria Igreja de comprometer sua base ao se associar de forma mais direta ao Planalto. O resultado é uma relação pragmática, fria e incompleta, que evidencia as dificuldades estruturais de construção de pontes entre campos simbólicos em disputa.

É nesse contexto que emergem ou se tornam mais visíveis as tensões internas. A disputa que envolve Marcos Pereira, liderança do Republicanos, e setores da cúpula religiosa não é apenas pessoal. Ela expressa projetos distintos de atuação política e diferentes concepções sobre o papel da Igreja no sistema político. Marcos Pereira representa a institucionalização do braço partidário da Igreja, com capacidade de diálogo amplo, trânsito entre diferentes governos e autonomia relativa em relação à hierarquia religiosa.

Em contraposição, figuras como Renato Cardoso, nome central na sucessão simbólica da Igreja, e Alessandro Paschoal aparecem como representantes de uma linha que busca reforçar o controle eclesiástico sobre a ação política e adotar um discurso mais ideologicamente marcado, especialmente no campo dos costumes e na oposição à esquerda. Não se trata necessariamente de um bloco homogêneo, mas de uma pressão interna por maior nitidez política, em sintonia com concepções próximas à chamada teologia do domínio, que defende a ocupação de espaços institucionais como forma de afirmação de valores cristãos na sociedade. O que está em jogo, portanto, não é apenas a orientação política da Igreja, mas o próprio modelo de mediação entre fé, poder e representação.

Nesse cenário, ganha relevo o contraste entre a leitura midiática e o que efetivamente se materializou no evento. Parte da imprensa interpretou a mobilização, incluindo o aluguel simultâneo de grandes estádios, como um recado direto ao governo e ao campo político . Essa leitura capta corretamente a dimensão de força e o contexto de disputa, mas não apreende integralmente a estratégia adotada. O que se observou, na prática, foi um descompasso entre o ruído periférico, marcado por sinais de politização em discursos secundários, e o núcleo do evento, rigidamente controlado por Edir Macedo. Mais do que um recado direto, a Universal produziu uma ambiguidade calculada, forte o suficiente para reafirmar poder, cautelosa o bastante para não fechar portas. Essa diferença entre expectativa e execução reforça a hipótese de que a Igreja atua em múltiplas camadas, permitindo leituras diversas sem abrir mão do controle final sobre sua posição política.

O evento “Família ao Pé da Cruz” deve ser lido à luz dessa disputa. Ao recentralizar o discurso em Edir Macedo, com um tom conciliador e despolitizado, a Igreja sinaliza que, neste momento, a linha dominante é a do controle e da contenção. O púlpito principal não foi cedido ao embate ideológico. A política foi mantida em estado latente, fora do foco central.

No plano mais amplo do campo evangélico, o cenário reforça essa complexidade. O apoio do bispo Samuel Ferreira à pré-candidatura de Ronaldo Caiado evidencia que não há mais um bloco evangélico unificado. Ao mesmo tempo em que setores permanecem próximos ao bolsonarismo, outros ensaiam alternativas mais moderadas, sinalizando fissuras na direita religiosa e indicando um processo mais amplo de recomposição desse campo.

Nesse ambiente, a movimentação do senador Flávio Bolsonaro é relevante. Sua estratégia de aproximação com lideranças religiosas e denominações importantes indica uma tentativa de consolidar uma base evangélica robusta para 2026. Ainda assim, a ausência de um apoio explícito da Universal mostra que a Igreja prefere manter sua posição de arbitrar o processo, e não de se comprometer antecipadamente, preservando sua capacidade de negociação futura.

Do outro lado, Luiz Inácio Lula da Silva segue tentando construir pontes com o segmento evangélico, mas enfrenta dificuldades estruturais, marcadas por desconfiança, disputas simbólicas e uma comunicação adversa consolidada, o que limita a efetividade de seus movimentos de aproximação.

O que o evento revela, portanto, é menos uma posição e mais uma estratégia de poder. A Universal reafirma sua capacidade de mobilização, reorganiza sua base, administra suas tensões internas e preserva sua autonomia para decidir, no tempo que considerar adequado, seu grau de envolvimento na disputa eleitoral. Trata-se, em última instância, de um reposicionamento que dialoga com transformações mais amplas da política contemporânea, marcadas pela centralidade dos valores, pela crise das mediações tradicionais e pela crescente sobreposição entre religião e esfera pública.

Não houve silêncio. Houve comando. Não houve ausência de política. Houve política sob controle.

Se havia a expectativa de um recado direto ao governo ou ao campo da direita, ele de fato não veio. E talvez esse seja, justamente, o recado mais importante. A Igreja Universal não abriu mão de seu papel político. Apenas decidiu, mais uma vez, que esse papel será exercido sob seus próprios termos, no momento que julgar mais conveniente e com a narrativa rigorosamente controlada por sua liderança central. E, ao fazê-lo, reafirma não apenas sua força institucional, mas sua capacidade de influenciar os rumos da política brasileira em um contexto cada vez mais marcado pela disputa de sentidos e pela reorganização das formas de poder.

 

Fonte: Por Marcio Ferreira, no Le Monde

 

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