A
Igreja Universal na reconfiguração do campo político-religioso
O
megaevento “Família ao Pé da Cruz”, promovido pela Igreja Universal do Reino de
Deus na Sexta-Feira Santa de 2026, não foi apenas uma demonstração de fé ou um
ato de mobilização religiosa em larga escala. Foi, sobretudo, um movimento
político no sentido mais sofisticado do termo: aquele que não se afirma de
maneira explícita, mas que se constrói naquilo que escolhe dizer, e,
principalmente, naquilo que decide silenciar. Trata-se de uma instituição que
ocupa posição central no campo religioso brasileiro, sendo frequentemente
apontada como a terceira maior denominação evangélica do país, com cerca de 2
milhões de membros, e uma das principais expressões do neopentecostalismo
contemporâneo (IBGE; Datafolha).
Espalhado
por grandes estádios do país e reunindo centenas de milhares de pessoas, o
evento reafirmou a impressionante capacidade de articulação nacional da Igreja.
No entanto, ao contrário do que se esperava nos bastidores políticos e
midiáticos, não houve um discurso frontal contra o governo do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, tampouco um alinhamento direto ao campo da direita ou ao
bolsonarismo. A fala do bispo Edir Macedo, especialmente no estádio do
Maracanã, no Rio de Janeiro, seguiu uma linha espiritualizada, conciliadora e
cuidadosamente despolitizada no plano central.
Essa
escolha não foi casual. Ao deslocar o eixo da narrativa para a restauração da
família, para a fé como instrumento de transformação pessoal e para a ideia de
que a felicidade não depende de fatores externos como governo, economia ou
condições materiais, a Igreja promove uma inflexão discursiva relevante. A
política, que nos últimos anos ocupou espaço significativo na retórica de parte
das lideranças evangélicas, é retirada do centro da vida cotidiana dos fiéis e
substituída por uma dimensão espiritual que reorganiza o sentido da experiência
social. Esse tipo de formulação dialoga diretamente com a chamada teologia da
prosperidade. Essa teoria religiosa enfatiza a fé como caminho para a superação
individual e a conquista de bem-estar material e simbólico, deslocando a
centralidade das estruturas sociais para a responsabilidade individual
(Coleman, 2000; Mariano, 1999).
Esse
movimento, de evitar o confronto direto, não significa ausência de política.
Pelo contrário. Trata-se de uma reorganização estratégica da forma de
intervenção no campo político. Neste momento, a Universal parece optar por uma
recentralização institucional. Assim, preservando o púlpito principal como
espaço de autoridade religiosa e deslocando eventuais sinalizações políticas
para camadas periféricas (manifestações de outras lideranças, articulações
partidárias ou movimentos nos bastidores). Esse arranjo pode ser lido à luz da
noção de “guerra dos deuses”, formulada por Max Weber, na qual diferentes
sistemas de valores entram em disputa no espaço social, exigindo dos atores a
capacidade de transitar entre esferas de sentido em permanente tensão. No caso
da Universal, essa disputa não ocorre apenas externamente, entre projetos
políticos concorrentes, mas também internamente, na definição de qual
racionalidade deve prevalecer na condução da sua ação pública.
Para
compreender esse movimento, é necessário olhar o percurso recente da Igreja.
Desde 2018, a Universal foi identificada com um alinhamento mais direto ao
bolsonarismo, em um contexto em que valores morais e identitários passaram a
ocupar o centro da disputa política. Esse alinhamento, no entanto, nunca foi
puramente ideológico. Ele sempre carregou um componente pragmático, orientado
pela lógica de poder e de preservação institucional. Esse padrão revela uma
característica central do neopentecostalismo político brasileiro: sua
capacidade de operar simultaneamente no plano simbólico e no plano estratégico,
ajustando seu discurso conforme as condições do ambiente político.
A
inflexão começa a se desenhar ainda em 2022, quando a derrota de Jair Bolsonaro
se torna uma possibilidade concreta. A partir dali, Edir Macedo inicia um
movimento de distensão, simbolizado pelo episódio em que declara ter “perdoado”
Luiz Inácio Lula da Silva. Não se tratava de adesão, mas de reposicionamento. A
mensagem era clara: a Igreja não se confundiria com um projeto político
derrotado. Trata-se de um movimento típico de instituições que buscam preservar
sua capacidade de influência em contextos de alternância de poder.
No
início de 2023, esse reposicionamento ensaia um passo além. Há tentativas de
aproximação institucional com o novo governo, mediadas por gestos simbólicos e
interlocuções políticas, inclusive por meio do partido Republicanos. No
entanto, essa aproximação encontra limites. De um lado, a resistência de parte
significativa do eleitorado evangélico ao governo Lula. De outro, o receio da
própria Igreja de comprometer sua base ao se associar de forma mais direta ao
Planalto. O resultado é uma relação pragmática, fria e incompleta, que
evidencia as dificuldades estruturais de construção de pontes entre campos
simbólicos em disputa.
É nesse
contexto que emergem ou se tornam mais visíveis as tensões internas. A disputa
que envolve Marcos Pereira, liderança do Republicanos, e setores da cúpula
religiosa não é apenas pessoal. Ela expressa projetos distintos de atuação
política e diferentes concepções sobre o papel da Igreja no sistema político.
Marcos Pereira representa a institucionalização do braço partidário da Igreja,
com capacidade de diálogo amplo, trânsito entre diferentes governos e autonomia
relativa em relação à hierarquia religiosa.
Em
contraposição, figuras como Renato Cardoso, nome central na sucessão simbólica
da Igreja, e Alessandro Paschoal aparecem como representantes de uma linha que
busca reforçar o controle eclesiástico sobre a ação política e adotar um
discurso mais ideologicamente marcado, especialmente no campo dos costumes e na
oposição à esquerda. Não se trata necessariamente de um bloco homogêneo, mas de
uma pressão interna por maior nitidez política, em sintonia com concepções
próximas à chamada teologia do domínio, que defende a ocupação de espaços
institucionais como forma de afirmação de valores cristãos na sociedade. O que
está em jogo, portanto, não é apenas a orientação política da Igreja, mas o
próprio modelo de mediação entre fé, poder e representação.
Nesse
cenário, ganha relevo o contraste entre a leitura midiática e o que
efetivamente se materializou no evento. Parte da imprensa interpretou a
mobilização, incluindo o aluguel simultâneo de grandes estádios, como um recado
direto ao governo e ao campo político . Essa leitura capta corretamente a
dimensão de força e o contexto de disputa, mas não apreende integralmente a
estratégia adotada. O que se observou, na prática, foi um descompasso entre o
ruído periférico, marcado por sinais de politização em discursos secundários, e
o núcleo do evento, rigidamente controlado por Edir Macedo. Mais do que um
recado direto, a Universal produziu uma ambiguidade calculada, forte o
suficiente para reafirmar poder, cautelosa o bastante para não fechar portas.
Essa diferença entre expectativa e execução reforça a hipótese de que a Igreja
atua em múltiplas camadas, permitindo leituras diversas sem abrir mão do
controle final sobre sua posição política.
O
evento “Família ao Pé da Cruz” deve ser lido à luz dessa disputa. Ao
recentralizar o discurso em Edir Macedo, com um tom conciliador e
despolitizado, a Igreja sinaliza que, neste momento, a linha dominante é a do
controle e da contenção. O púlpito principal não foi cedido ao embate
ideológico. A política foi mantida em estado latente, fora do foco central.
No
plano mais amplo do campo evangélico, o cenário reforça essa complexidade. O
apoio do bispo Samuel Ferreira à pré-candidatura de Ronaldo Caiado evidencia
que não há mais um bloco evangélico unificado. Ao mesmo tempo em que setores
permanecem próximos ao bolsonarismo, outros ensaiam alternativas mais
moderadas, sinalizando fissuras na direita religiosa e indicando um processo
mais amplo de recomposição desse campo.
Nesse
ambiente, a movimentação do senador Flávio Bolsonaro é relevante. Sua
estratégia de aproximação com lideranças religiosas e denominações importantes
indica uma tentativa de consolidar uma base evangélica robusta para 2026. Ainda
assim, a ausência de um apoio explícito da Universal mostra que a Igreja
prefere manter sua posição de arbitrar o processo, e não de se comprometer
antecipadamente, preservando sua capacidade de negociação futura.
Do
outro lado, Luiz Inácio Lula da Silva segue tentando construir pontes com o
segmento evangélico, mas enfrenta dificuldades estruturais, marcadas por
desconfiança, disputas simbólicas e uma comunicação adversa consolidada, o que
limita a efetividade de seus movimentos de aproximação.
O que o
evento revela, portanto, é menos uma posição e mais uma estratégia de poder. A
Universal reafirma sua capacidade de mobilização, reorganiza sua base,
administra suas tensões internas e preserva sua autonomia para decidir, no
tempo que considerar adequado, seu grau de envolvimento na disputa eleitoral.
Trata-se, em última instância, de um reposicionamento que dialoga com
transformações mais amplas da política contemporânea, marcadas pela
centralidade dos valores, pela crise das mediações tradicionais e pela
crescente sobreposição entre religião e esfera pública.
Não
houve silêncio. Houve comando. Não houve ausência de política. Houve política
sob controle.
Se
havia a expectativa de um recado direto ao governo ou ao campo da direita, ele
de fato não veio. E talvez esse seja, justamente, o recado mais importante. A
Igreja Universal não abriu mão de seu papel político. Apenas decidiu, mais uma
vez, que esse papel será exercido sob seus próprios termos, no momento que
julgar mais conveniente e com a narrativa rigorosamente controlada por sua
liderança central. E, ao fazê-lo, reafirma não apenas sua força institucional,
mas sua capacidade de influenciar os rumos da política brasileira em um
contexto cada vez mais marcado pela disputa de sentidos e pela reorganização
das formas de poder.
Fonte:
Por Marcio Ferreira, no Le Monde

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