'Não
queremos guerra com EUA, mas estamos preparados', afirma Díaz-Canel
O
presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel afirmou que a ilha socialista não busca
confronto com os Estados Unidos, mas mantém prontidão diante de um cenário
de ameaças do governo
Trump.
Em meio ao agravamento das pressões externas e ao endurecimento do bloqueio energético
norte-americano,
o líder cubano reforçou o caráter defensivo da estratégia adotada por Havana.
“Cuba
não é uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Os Estados Unidos sempre
desempenharam o papel de potência agressora, e Cuba, o de ilha agredida.
Portanto, sempre tivemos que nos preparar para o perigo iminente de uma
agressão militar, que se manifestou em diferentes níveis, em diferentes
governos dos Estados Unidos, em distintos momentos do contexto internacional e
também regional”, disse.
A fala
de Díaz-Canel ocorreu durante a entrevista exclusiva que o líder cubano
concedeu ao fundador de Opera Mundi, Breno Altman, em uma edição especial
do programa 20 MINUTOS.
Segundo
o mandatário cubano, a posição de Cuba parte de uma tradição histórica
de resistência e
da necessidade de preservar a soberania nacional diante de ameaças recorrentes,
destacando que o país não representa risco à segurança norte-americana e que
qualquer agressão seria injustificada. Apesar do cenário, Díaz-Canel reiterou a
disposição para o diálogo com Washington, desde que conduzido em bases de
respeito mútuo e sem imposições. Para ele, a negociação continua sendo o
caminho preferencial, ainda que o país siga se preparando para cenários
adversos.
O
presidente destacou que Cuba tem recebido apoio tanto do
Brasil quanto de diversos países e atores internacionais, em um
movimento que combina iniciativas governamentais e solidariedade popular.
Segundo ele, o governo brasileiro tem atuado na denúncia do bloqueio e busca
formas de enviar ajuda material, enquanto movimentos sociais e representantes
políticos também contribuíram com doações diretas ao povo cubano.
Esse
apoio se soma ao de países como China, Colômbia, México e Rússia que têm enviado
alimentos, insumos e suporte energético, além da participação de organizações e
grupos internacionais que mobilizam recursos e ações solidárias diante das
dificuldades enfrentadas pela ilha.
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Confira trechos da entrevista de Breno Altman com Díaz-Canel:
·
Presidente, na sua opinião, há risco real de uma
intervenção militar dos Estados Unidos na ilha?
Cuba é
um país de paz. Já o demonstramos ao longo da história. Cuba não é uma ameaça à
segurança dos Estados Unidos. Cuba não é um país que tenha pretendido agredir
ninguém, nunca. Portanto, a partir dessa visão, posso garantir que não há
justificativa nem qualquer desculpa possível para que o governo dos Estados
Unidos tente uma agressão contra nós. Assim, uma agressão contra Cuba só poderia
ocorrer por uma abordagem hegemônica, prepotente e agressiva dos Estados Unidos
em relação ao nosso país. E essa tem sido, precisamente, a história das
relações entre Cuba e os Estados Unidos ao longo dos anos da Revolução.
Os
Estados Unidos sempre desempenharam o papel de potência agressora, e Cuba, o de
ilha agredida. Portanto, sempre tivemos que nos preparar para o perigo iminente
de uma agressão militar, que se manifestou em diferentes níveis, em diferentes
governos dos Estados Unidos, em distintos momentos do contexto internacional e
também regional.
Portanto,
digo-lhe que, nas condições atuais, é possível que tentem agredir Cuba. Devemos
nos preparar para que não haja surpresa nem derrota. Não promovemos a guerra,
não a estimulamos, mas não a tememos se for necessário defender a
Revolução,
a soberania e a independência do país.
Preparamo-nos
não com uma visão ofensiva, mas com uma visão defensiva, baseada em uma
concepção construída também em contextos anteriores de agressão por parte de
governos dos Estados Unidos. Essa concepção combina uma estratégia de guerra
simétrica, a partir de nossa experiência histórica, com uma guerra irregular de
participação popular — conhecida como “guerra de todo o povo” —, na qual cada
cubano tem um papel e uma missão na defesa da pátria, o que constitui uma honra
e um dever, conforme estabelece nossa Constituição.
·
O senhor está pessoalmente preparado para o risco de uma
intervenção militar dos Estados Unidos?
Claro
que sim. Estamos todos preparados em Cuba, e todos aqueles que ocupam cargos de
responsabilidade também estão.
·
Há negociações com os Estados Unidos neste momento?
Tentamos
iniciar um diálogo. Negociar ou chegar a um acordo em uma relação entre nações
e governos é um processo longo, que exige, primeiro, o estabelecimento de
canais de diálogo, a construção de uma agenda de debate e, a partir dela, a
possibilidade de alcançar entendimentos.
Cuba
sempre teve disposição histórica para dialogar com o governo dos Estados
Unidos, desde que isso ocorra com respeito ao nosso sistema político, à nossa
soberania e à nossa independência, sem imposições e em condições de igualdade.
Impor condições não é dialogar, e a imposição inviabiliza a negociação. Um
processo de diálogo é, antes de tudo, delicado, pois envolve relações
bilaterais entre países. Deve ser conduzido com responsabilidade, ética e
decência.
Essa é
uma posição histórica de Cuba nas relações com os Estados Unidos. Em diferentes
administrações, esses processos avançaram mais ou menos, mas sempre existiram.
Neste momento, estamos em uma fase muito preliminar, inicial, do que pode vir a
ser um processo mais amplo de conversações.
·
Presidente, o Brasil está ajudando Cuba? Sei que o senhor
recebeu Chico Buarque recentemente. O
Brasil está prestando ajuda neste momento?
O
Brasil é uma nação irmã, com a qual mantemos excelente relação governamental.
Também temos uma relação muito positiva com o presidente Lula. Os povos do Brasil
e de Cuba são irmãos, unidos por sentimentos de amizade, respeito e admiração
mútua. Recebemos apoio tanto do governo quanto do povo brasileiro e de seus
movimentos sociais. No comboio que mencionei, vieram representantes de partidos
de esquerda, do Movimento dos Sem-Terra e de outros movimentos sociais,
trazendo doações ao povo cubano.
O
governo brasileiro tem sido um dos mais ativos na denúncia do bloqueio
energético e do bloqueio em geral contra Cuba. O presidente Lula sempre foi um
porta-voz dessa denúncia e do apoio ao nosso país. Além disso, o governo
brasileiro busca formas de enviar ajuda material, embora esteja sujeito às
limitações impostas por esse sistema.
·
Ainda não chegou?
A ajuda
ainda não chegou. O problema é que o sistema de bloqueio, ampliado com a
aplicação do Capítulo III da Lei Burton, afeta não apenas a economia cubana,
mas também qualquer relação econômica com Cuba, envolvendo empresários ou
instituições de qualquer parte do mundo. Os países também ficam sujeitos a
essas medidas coercitivas impostas pelos Estados Unidos.
Apesar
disso, há disposição do governo brasileiro em ajudar. Empresários brasileiros
também têm apoiado Cuba em diversos processos. Observamos, por exemplo, as
experiências do Brasil com biocombustíveis e buscamos desenvolver tecnologias
nessa área. O Brasil também tem apoiado nosso país com alimentos.
·
Qual é a necessidade diária de combustível de Cuba?
Nós
temos uma parte do combustível. Podemos operar com cerca de 7 milhões de
toneladas por ano e produzimos entre 3 e 4 milhões de toneladas com petróleo
nacional. O restante, porém, precisamos importar. Portanto, hoje garantimos a
geração de energia elétrica de nossas usinas termelétricas com petróleo
nacional, mas temos mais de 100 MW de geração distribuída que recuperamos ao
longo desse período, como parte dos investimentos que vínhamos realizando para
melhorar a estabilidade do sistema elétrico nacional, e que, há quatro meses,
não estão disponíveis por falta de combustível.
O que
nos permite manter a geração de energia elétrica são os investimentos que
vínhamos fazendo, com a mudança da matriz energética para fontes renováveis,
sobretudo em parques fotovoltaicos. No ano passado, instalamos mais de 1.000
MW, passando de 3% para 10% de participação desse tipo de energia — ou seja,
crescemos, em um ano, 10% na geração com fontes renováveis.
Portanto,
já há um primeiro fator de grande impacto, que é o energético. Praticamente, o
que geramos é suficiente apenas para garantir um nível mínimo de energia
elétrica para as atividades essenciais da vida cotidiana. A geração para a
população é muito limitada, enquanto quase toda a economia fica paralisada, o
que começa a afetar a produção e os serviços.
Já
tivemos momentos de 30 horas consecutivas de apagão em uma comunidade. Tudo
isso nos levou a adotar um conjunto de medidas para reorganizar, por exemplo, a
atividade laboral. Tivemos que realocar pessoas, mudar atividades produtivas e
recorrer mais ao trabalho remoto ou ao teletrabalho.
Também
reorganizamos as atividades escolares: tanto o ensino fundamental quanto o
superior passaram a adotar formatos menos presenciais, com maior uso de
tecnologias de ensino a distância. No entanto, o uso dessas tecnologias também
é limitado, pois, durante apagões, as conexões são interrompidas, dificultando
o acesso a plataformas didáticas e pedagógicas.
Há
também um impacto significativo nos sistemas de saúde, especialmente nos
serviços de cirurgia. Temos uma lista de mais de 96 mil pessoas aguardando
procedimentos, entre elas mais de 11 mil crianças. São atividades que sabemos
realizar e realizar bem, mas estamos limitados por algo que representa uma
punição coletiva.
É uma
política criminosa, realmente genocida. Tudo se complica: o transporte, o
abastecimento de água — já que, sem energia, os sistemas de bombeamento são
interrompidos — e os ciclos de distribuição se prolongam. Há impacto em
diversos serviços, como a coleta de lixo sólido, pois falta combustível para
quase tudo.
Às
vezes, há alimentos e medicamentos, mas não há como transportá-los com
eficiência e no tempo necessário. Na vida cotidiana, imagine uma família
enfrentando longas horas de apagão. Se a energia retorna de madrugada, esse
período se transforma em tempo para realizar tarefas domésticas que não puderam
ser feitas antes.
No dia
seguinte, essa família estará cansada para trabalhar e levar as crianças à
escola. Soma-se a isso a dificuldade de transporte, de acesso ao café da manhã
e até de retorno para casa. Em que momento as crianças podem fazer suas tarefas
escolares sem energia? Isso prejudica diretamente o aprendizado.
Faltam
medicamentos. Temos tratamentos para pacientes oncológicos que não conseguimos
adquirir devido ao agravamento do bloqueio. Faltam serviços e produção para
atender diversas necessidades. O que devemos considerar é a capacidade de
resistência desse povo, que, nessas condições, conseguiu se manter unido,
preservar a esperança e não se dobrar.
·
Presidente, como descreveria o impacto do endurecimento
do bloqueio norte-americano sobre a economia e a vida cotidiana em Cuba nos
últimos meses?
Para
explicar esse impacto, podemos analisá-lo em dois âmbitos: o nacional e o
cotidiano da vida familiar. Em primeiro lugar, é importante destacar que a
situação atual — especialmente nos últimos quatro meses, após a ordem executiva
de 29 de janeiro, que impõe um bloqueio energético sob a alegação de que Cuba
seria uma ameaça extraordinária aos Estados Unidos — não é recente. Trata-se de
um processo acumulado que vem se tornando cada vez mais complexo.
Cuba
enfrenta bloqueio há mais de 60 anos, mas ele adquiriu nova dimensão no final
de 2019, quando o governo Trump adotou cerca de 240 medidas e incluiu o país na
lista de Estados que supostamente apoiam o terrorismo. Isso intensificou e
internacionalizou o bloqueio.
A
partir daí, surgiram problemas com divisas, produção, acesso a matérias-primas,
turismo, remessas e viagens. Houve também perseguição financeira e energética,
agravando carências de alimentos, medicamentos e itens básicos, situação que se
prolongou durante a pandemia sob a manutenção dessa política.
Posteriormente,
com novas medidas, incluindo sanções à Venezuela, o fornecimento de combustível
ao país foi afetado, culminando na imposição de um bloqueio energético. Nenhuma
economia pode sobreviver sem combustível, e seus efeitos se refletem diretamente
na geração de energia elétrica.
·
Qual é o papel da solidariedade internacional nesse
contexto, especialmente de Rússia e China?
Cuba
mantém laços históricos de amizade, solidariedade e cooperação com China e
Rússia. Ambos os países têm contribuído, dentro de suas possibilidades, para o
apoio energético e alimentar, mesmo diante das restrições impostas por sanções.
Além da
ajuda governamental, há forte participação de movimentos sociais e iniciativas
solidárias internacionais. Recentemente, o país recebeu um comboio
internacional com representantes de diversos movimentos e doações populares.
Os
principais desafios atuais são energia, medicamentos e alimentos. Houve apoio
significativo do México, com envio de suprimentos e materiais para sistemas
fotovoltaicos. Colômbia, China e Vietnã também contribuíram com ajuda,
especialmente nas áreas alimentar e energética.
·
Os envios de petróleo da Rússia são suficientes?
Cuba
passou quatro meses sem receber combustível, operando apenas com reservas.
Recentemente, chegou um navio russo com petróleo — um gesto simbólico
importante, embora insuficiente para resolver totalmente a situação.
A carga
representa cerca de um terço da necessidade mensal e garante abastecimento por
aproximadamente 10 dias. Esse combustível permitirá ampliar temporariamente a
geração de energia, especialmente no período noturno, mas seus efeitos são
limitados no tempo.
A
Rússia anunciou novos envios, e Cuba reafirma
seu direito de importar combustível. Além disso, o país passou a autorizar a
importação por entidades privadas — algo inédito —, o que tem permitido
pequenas entradas de combustível, ainda que em volumes reduzidos e com
processos complexos.
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Cuba cobra ‘prioridade máxima’ para fim do bloqueio
energético em reunião com delegação dos EUA
O governo de Cuba confirmou ter
tido uma reunião de caráter “respeitoso e profissional” em Havana com a
delegação dos Estados Unidos. A confirmação foi dada na segunda-feira (20/14)
pelo vice-diretor-geral do Ministério das Relações Exteriores cubano, Alejandro
García del Toro, responsável pelos assuntos norte-americanos ao jornal Granma,
acrescentando que durante as conversações pediram à Casa Branca urgência
na suspensão do cerco energético.
“Nenhuma
das partes estabeleceu prazos ou fez propostas ameaçadoras”, disse García del
Toro. De acordo com o diplomata, a delegação de Washington era composta por
secretários assistentes do Departamento de Estado, enquanto do lado cubano
participavam “no nível de vice-ministro das Relações Exteriores”.
O
funcionário de alto escalão também enfatizou que essas reuniões são conduzidas
sob um critério de discricionariedade devido à sensibilidade das questões
abordadas no âmbito bilateral. A principal prioridade cubana no encontro foi a
exigência de eliminar o cerco energético que pesa sobre o país.
“A
eliminação do cerco energético contra o país era uma questão de máxima
prioridade para nossa delegação. Esse ato de coerção econômica é uma punição
injustificada para toda a população cubana. Também é uma chantagem em escala
global contra Estados soberanos, que têm todo o direito de exportar combustível
para Cuba, em virtude das regras que regem o livre comércio”, disse.
Em 29
de janeiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem
executiva intensificando o bloqueio contra Cuba, ao declarar uma
suposta emergência nacional, considerando a ilha uma “ameaça incomum e
extraordinária” à segurança nacional. A medida permitiu que Washington
sancionasse países que tentassem fornecer petróleo direta ou indiretamente a
Cuba, o que resultou em uma escassez de combustível e deflagrou uma grave crise
humanitária e energética no país caribenho.
O
governo de Cuba reiterou sua disposição de dialogar com as autoridades dos
Estados Unidos, mantendo uma posição aberta à comunicação desde que as trocas
sejam realizadas com base em respeito e não interferência. Em entrevistas a
veículos norte-americanos, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel abriu a
possibilidade de negociações e reiterou que o diálogo deve sempre ocorrer “em
condições iguais” e com pleno respeito à soberania, ao sistema político, à
autodeterminação e ao direito internacional.
Fonte:
Opera Mundi/Telesur

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