Renda,
custo de vida e dívida: quando o dinheiro não chega ao final do mês
A
melhora recente do mercado de trabalho, analisada no artigo anterior, trouxe
consigo um movimento esperado: a elevação da renda média dos brasileiros. De
acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio
atingiu R$ 3.652,00 no início de 2026 e a massa de rendimentos atingiu o maior
nível da série histórica iniciada em 2012.
À
primeira vista, esses números sugeririam uma melhora consistente das condições
de vida. No entanto, essa leitura não se sustenta quando observada à luz da
experiência cotidiana. A elevação da renda ocorre em um contexto de custo de
vida elevado, especialmente nas grandes cidades, onde as despesas com moradia,
alimentação e transporte absorvem uma parcela significativa do orçamento
familiar.
Forma-se,
assim, um descompasso persistente: a renda cresce, mas o bem-estar não
acompanha na mesma proporção. Esse descompasso se expressa no fato de que,
embora o consumo das famílias permaneça elevado no PIB, a renda disponível
cresce de forma mais limitada.
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O custo invisível: juros e estrutura do crédito
Esse
descompasso não pode ser compreendido apenas pela inflação. Ele está
profundamente associado ao custo do dinheiro no Brasil.
O país
mantém, há décadas, uma das mais elevadas taxas reais de juros do mundo. Em
2026, continua entre os líderes globais nesse indicador. Aparece entre os
maiores juros nominais globais e ocupa posição de destaque em juros reais,
liderando a América Latina nesse critério.
Esse
padrão não se limita ao ambiente macroeconômico — ele se difunde por toda a
estrutura de preços, crédito e consumo.
No
plano concreto, isso significa que o custo financeiro se incorpora ao cotidiano
das famílias, ainda que de forma pouco visível. Ele está presente no preço dos
bens, nas condições de financiamento, no parcelamento e na própria estrutura de
consumo.
O
impacto desses níveis de juros ultrapassa a política monetária. Ele se difunde
por toda a economia, afetando preços, investimentos e, sobretudo, o consumo das
famílias.
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O crédito mais caro do mundo como mecanismo de sobrevivência
Se a
taxa básica de juro já é elevada, o custo efetivo enfrentado pelas famílias é
ainda mais expressivo. O Brasil ocupa o primeiro lugar global em juros ao
consumidor.
O
crédito pessoal frequentemente supera 80% ao ano, enquanto o rotativo do cartão
de crédito pode chegar a 450%, segundo o Banco Central do Brasil.
Comparativamente aos demais países do mundo, com economia mais ou menos
desenvolvida que o Brasil, praticamente todos operam com taxas bem inferiores.
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Essa
estrutura altera a função do crédito na economia. Em vez de instrumento de
expansão do consumo, ele passa a operar como mecanismo de compensação da renda
insuficiente.
O
crédito deixa de ser escolha e passa a ser necessidade para compor o orçamento
familiar. Essa transformação se expressa na evolução simultânea do
endividamento, da inadimplência e do comprometimento da renda, que avançam de
forma articulada ao longo da década.
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O parcelamento e a persistência do custo invisível
Esse
processo é reforçado por uma característica específica do sistema brasileiro: o
parcelamento “sem juros”.
Na
prática, o custo financeiro não desaparece. Ele é embutido nos preços. O
consumidor, acreditando na promessa de “sem juros”, paga parcelas fixas, mas
sobre valores previamente inflados.
O que a
comparação internacional revela é que esse mecanismo tem efeitos muito
distintos conforme o nível de juros da economia. Em países de juros baixos, o
parcelamento altera pouco o valor econômico da compra. No Brasil, ocorre o
oposto: o valor real do bem, quando trazido a preços reais, descontado o ágio,
pode cair drasticamente.
A
discrepância com o padrão de juros internacional pode ser constatada quando se
compara o valor real de um bem parcelado em dez vezes “sem juros” no cartão de
crédito no Brasil e o valor sem ágio do mesmo bem na Europa e em países como
México, Paraguai e EUA, caso esses países adotassem prática semelhante à
adotada no Brasil.
Quanto
maior a taxa de juros, menor o valor real da compra parcelada. No Brasil, um
bem anunciado por R$ 100,00 “sem juros” parcelados em dez meses equivale,
economicamente, a um valor real entre R$ 70,90 e R$ 77,10, quando se retira o
juro embutido.
Essa
diferença não é apenas técnica. Ela mostra que o parcelamento “sem juros”, no
contexto brasileiro, funciona como um subsídio implícito ao consumo — ao mesmo
tempo em que reforça a incorporação do custo financeiro aos preços.
O
resultado é um sistema no qual o custo do dinheiro está incorporado ao
cotidiano, ainda que de forma pouco perceptível pelo comprador. O crédito se
naturaliza como componente do consumo, ao mesmo tempo em que eleva o nível
geral de preços.
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Endividamento das famílias como condição estrutural
O nível
de endividamento das famílias expressa esse modelo. Em 2026, cerca de 80% das
famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, segundo a Confederação
Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Esse
dado, no entanto, exige qualificação. O endividamento não tem o mesmo
significado em todas as faixas de renda.
Entre
os mais pobres, o endividamento está associado à sobrevivência — isto é, ao uso
do crédito para cobrir despesas básicas e recorrentes diante da insuficiência
de renda. Já entre os mais ricos, ele se vincula à gestão financeira,
funcionando como instrumento de planejamento, investimento e alavancagem
patrimonial, em condições de custo e controle significativamente mais
favoráveis.
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A armadilha do rotativo: a dívida que cresce sozinha
Se o
parcelamento revela o custo invisível do crédito, o rotativo do cartão expõe
sua face mais dura.
Aqui, o
tempo deixa de suavizar o pagamento e passa a amplificar a dívida. Em ambientes
de juros elevados, pequenas dívidas se transformam rapidamente em passivos
desproporcionais.
O
contraste internacional é contundente. Enquanto em economias desenvolvidas uma
dívida cresce de forma relativamente controlada ao longo do tempo, no Brasil
ela assume trajetória explosiva.
Uma
dívida de R$ 100,00 no crédito rotativo do cartão de crédito se transforma em
um valor entre R$ 400,00 e R$ 550,00 em 12 meses, entre R$ 1.600,00 e R$
3.025,00 em 24 meses e entre R$ 6.400,00 e R$ 16.637,50 em 36 meses, se
aplicados os juros praticados e que variam entre 300% e 450% ao ano. Mais do
que abusivos, são juros escorchantes.
Os
devedores não se dão conta desses valores porque as amortizações mensais
mascaram os juros reais cobrados.
A
interação entre juros elevados e capitalização composta produz um efeito
cumulativo que altera completamente a experiência do endividamento. O crédito,
que inicialmente funciona como instrumento de ajuste do orçamento, pode
rapidamente se transformar em fator de desorganização financeira.
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As bets e a nova pressão sobre o orçamento das famílias
Nos
últimos anos, contudo, um elemento negativo adicional passou a incidir sobre
essa dinâmica. A expansão das apostas online introduziu uma nova forma de
comprometimento da renda, particularmente relevante nas faixas de menor renda.
O
endividamento segue estruturalmente determinado pelo crédito caro, mas passa a
ser agravado pelas novas formas de comprometimento do orçamento exercidas pelas
bets, sobretudo entre os mais pobres. Os dados indicam não apenas aumento do
endividamento, mas uma mudança de regime: a dívida deixa de ser episódica e
passa a estruturar o funcionamento do orçamento familiar.
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Regulação tardia e limites institucionais
A
expansão das apostas também revela limites institucionais importantes.
Autorizadas
em 2018, durante o governo Temer, as bets atuaram no Brasil sem qualquer
regulamentação e sem serem tributadas durante todo o governo Bolsonaro e só
começaram a ser regulamentadas em 2023, no início do atual governo Lula. Quando
o Estado passou a estruturar regras mais claras, encontrou resistência no
sistema político, o que fez com que sua regulamentação só fosse efetivamente
implantada em 2025.
Essa
resistência não se expressa como oposição aberta à regulação, mas como disputa
em torno de sua intensidade — especialmente no que diz respeito à tributação, à
publicidade e ao controle das plataformas.
Setores
do Congresso vinculados a interesses econômicos — incluindo segmentos do
Centrão, parlamentares ligados ao sistema esportivo e interesses do mercado
publicitário — tendem a atuar no sentido de limitar a carga regulatória.
Por
outro lado, há uma pressão crescente, vinda de setores do Executivo, de
parlamentares com agenda social e de órgãos reguladores, no sentido de ampliar
o controle e mitigar os efeitos sobre o endividamento e o consumo.
O
resultado é um processo de regulação parcial, que avança, mas não elimina os
efeitos negativos já produzidos pela rápida expansão do setor.
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Entre o dado e a experiência: a economia percebida
O ponto
decisivo está na forma como essa dinâmica é vivida.
O
eleitor não avalia a economia a partir de indicadores agregados, mas da
experiência concreta de seu orçamento. A dificuldade de fechar o mês, a
necessidade recorrente de crédito e a impossibilidade de poupar produzem uma
percepção persistente de aperto.
Esse
quadro é reforçado pela incorporação de novas formas de gasto e perda
financeira, como as apostas, que se somam às pressões tradicionais sem alterar
a estrutura central do problema.
Essa
percepção é reforçada por circuitos de comunicação distintos. Enquanto
indicadores macroeconômicos apontam melhora, o cotidiano — amplificado por
redes sociais, mídia popular e interações diretas — enfatiza o custo de vida.
Forma-se,
assim, uma dissociação entre economia medida e economia percebida. Essa
dissociação não é apenas subjetiva: ela se manifesta empiricamente na
coexistência entre melhora de indicadores agregados e pressão persistente sobre
o orçamento das famílias.
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Do orçamento ao voto: a tradução política do aperto
Esse
descompasso tem efeitos diretos sobre o comportamento eleitoral.
A
melhora da renda impede uma deterioração mais profunda da avaliação econômica,
mas não produz satisfação suficiente para estruturar o voto. O resultado é um
eleitorado que reconhece avanços, mas não os percebe como transformação efetiva
de sua condição de vida.
Nesse
contexto, o aperto financeiro cotidiano se articula com outras dimensões —
especialmente a percepção de insegurança e a busca por estabilidade, aumentando
o peso de pautas não econômicas.
A
economia continua relevante, mas deixa de ser decisiva por si só.
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O limite do modelo econômico cotidiano
O
Brasil revela, assim, uma dinâmica particular: o trabalho gera renda, mas o
custo de viver — amplificado pelos juros e pelo crédito — redefine a forma como
essa renda é experimentada.
A
introdução de novas formas de comprometimento da renda, como as apostas online,
não altera essa estrutura, mas a torna mais complexa e, em muitos casos, mais
intensa.
É nesse
intervalo entre o ganho e sua capacidade real de sustentar o cotidiano que se
forma, de maneira cada vez mais decisiva, a percepção econômica.
E é
dessa percepção — mais do que dos indicadores — que deriva, em grande medida, a
decisão do voto. Esse limite decorre do fato de que uma parcela crescente da
renda já está previamente comprometida, reduzindo a capacidade do crescimento
econômico se traduzir em melhora efetiva das condições de vida.
Fonte:
Por Benedito Tadeu Cesar, na Rede Estação Democracia - Colaborou: Maria da
Graça Pinto Bulhões

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