Luiz
Martins de Melo: É possível renovar a esquerda?
A
postura política defensiva da centro-esquerda e da esquerda no século XXI fez
com que parecessem um guardião de uma institucionalidade injusta. Buscar o
reformismo radical oferece uma alternativa para voltar às suas origens
democráticas e desafiadoras da institucionalidade hegemônica no capitalismo de
Estado dominante.
Desde
seus inícios, durante as revoluções de 1848, a social democracia e a esquerda
socialista têm sido um projeto político definido por sua natureza
transformadora. A partir do progresso alcançado ao longo do século XX, a
esquerda sempre foi caracterizada por uma atitude contínua de desafio ao estado
de coisas predominante. Essa atitude crítica em relação à estrutura da
sociedade e suas instituições não apenas levou a uma transformação da sociedade
– por meio de conquistas, como a criação do estado de bem-estar social – mas
também permitiu que a esquerda mudasse a forma como suas políticas centrais
eram implementadas, garantindo que sempre refletissem as necessidades
contemporâneas e continuassem beneficiando as pessoas comuns.
Por
alguns anos, porém, esse lado transformador – que sempre definiu a forma da
esquerda fazer política – vem se desgastando. Com a ascensão do populismo de
direita e sua ameaça inerente à democracia, a esquerda foi forçado a se
posicionar na defensiva. Embora conscientes do descontentamento generalizado
com o estado atual das coisas e da necessidade urgente de mudança em vários
aspectos da sociedade, diante da possibilidade de algo muito pior ganhar poder,
a esquerda se viu numa posição de defesa do status quo com todas as suas
falhas, em vez de oferecer a mudança ousada que a população exigia.
Como
resultado, recentemente, adotou uma atitude conservadora em relação à política.
Não conservadora em suas políticas, mas conservadora em sua postura,
caracterizada não mais por sua ênfase tradicional na transformação gradual da
sociedade, mas por um desejo defensivo de preservar o que já conquistara,
apesar da necessidade de atualizar essas conquistas conforme as necessidades
atuais. Devido a essa forma conservadora de fazer política, a esquerda que
antes era vista como o lado do progresso e da reforma social rumo a uma
sociedade mais justa, liderando um processo de aprofundamento da democracia,
passou a ser vista como apoiadora de um sistema que a maioria das pessoas
considera injusto. Essa mudança de percepção da população teve consequências
eleitorais visíveis e dolorosas para a esquerda e para sociedade.
A
esquerda e a centro-esquerda nunca foram uma força conservadora. Sua forma de
fazer política, de agir sobre assuntos públicos, baseia-se no princípio do
reformismo, na convicção de que, por meio de um processo de reforma gradual e
constante das instituições existentes, pode-se torná-las mais justas e, por sua
vez, tornar a sociedade mais livre e mais igualitária. Portanto, devem rejeitar
essa atitude conservadora que os tem atormentado nos últimos anos e reabraçar a
abordagem que tornou seu movimento uma força política positiva, progressista e
transformadora. Em resumo, precisa retomar o reformismo radical.
Quando
falamos de reformismo radical, estamos falando de um princípio de ação. Ou
seja, estamos falando de uma atitude em relação à política, sobre a forma como
a política de esquerda deve ser conduzida.
Não se
trata apenas de rejeitar a defesa cega das instituições existentes, mas também
de manter uma visão crítica em relação a elas. Trata-se de reconhecer e
defender seus elementos centrais liberais que abrem espaço para o avanço do
processo democrático, ao mesmo tempo em que estamos dispostos a repensar como
essas mesmas políticas e instituições devem ser implementadas e colocadas em
prática. Levar o reformismo radical para além do liberalismo. Significa ter
coragem e disposição para mudar e remodelar as instituições e organizações que
apoiamos, e a humildade de ouvir aqueles que estão insatisfeitos e sentem que
foram prejudicados.
Considere
o Estado de bem-estar social como exemplo. Embora seja verdade que as reformas
alcançadas pela esquerda nessa área melhoraram a vida das pessoas em um ritmo
sem precedentes, é igualmente verdade que há um sentimento generalizado de que
os serviços públicos que compõem o Estado de bem-estar social não estão
cumprindo seus propósitos universalistas. À medida que a realidade muda e
surgem novos problemas e necessidades, a resposta da esquerda não pode ser
defender cegamente os serviços públicos como eles existem atualmente. Em vez
disso, deveria ser reconhecer que, embora seus princípios fundamentais
permaneçam corretos, sua organização e financiamento atuais não são adequados
para atender às necessidades da população e, portanto, precisam ser reformados
e adaptados. Nesse caso, essa mudança significa abandonar a estrutura
burocrática e centralizada dos serviços públicos e reorganizá-los para que
operem em nível comunitário, mais próximos de seus usuários e mais responsivos
às suas necessidades.
O termo
“radical” sugere uma postura política de transformação da hegemonia liberal
atual para uma democrática. Essa hegemonia de construção de instituições
democráticas é centro da visão de uma nova sociedade mais igualitária e livre.
Livre da exploração e apropriação selvagem, econômica e financeira hoje, e das
ameaças autoritárias e violentas do neofascismo. A esquerda deve se convencer
de que há um senso de urgência para esse reformismo ampliado, que as mudanças
necessárias devem ser feitas o mais rápido possível e que devem ser
implementadas de forma a garantir que seus efeitos sejam sentidos o mais rápido
possível. Embora, a princípio, isso possa levantar obstáculos e resistências
dos grupos conservadores, esse radicalismo busca reforçar a sua natureza
transformadora, sua capacidade de melhorar a vida das pessoas e com isso ganhar
força política para vencer essas resistências.
Esse
radicalismo, no entanto, não pode ser demonstrado apenas por meio de medidas
políticas. Mais importante ainda, ele deve ser demonstrado na comunicação,
contando uma história da sociedade que o projeto busca construir, demonstrando
tanto vontade de mudar, quanto uma visão clara do que essa mudança envolve.
Além de possuir ambições e políticas transformadoras, a esquerda deve
desenvolver um discurso enérgico que enfatize que seu projeto não é apenas
gerenciar a sociedade, mas reformá-la por meio das instituições existentes e da
criação de novas. Como um projeto político cujo mandato é dado pelo povo, sua
forma de comunicação deve sempre refletir o desejo generalizado por mudanças
rápidas e enérgicas. O discurso da esquerda não pode ser de apaziguamento, deve
ser uma linguagem de movimento, moldada por uma visão clara dos elementos
centrais da transformação oferecida.
Para
muitos que ainda se apegam a essa atitude conservadora e à abordagem
tecnocrática da política, adotar essa postura diante do nosso discurso e
apresentação pública corre o risco de ser acusada de populista, fazendo a
esquerda parecer irresponsável e perder o eleitorado centrista. No entanto,
essa perspectiva está equivocada. Basta olhar para o mundo ao nosso redor para
perceber que a população em geral está ansiosa por mudanças. Embora a esquerda
sempre tenha representado mudanças positivas, nosso discurso e ritmo de ação
também devem refletir essa identidade. Os resultados de não incorporar a força
da mudança estão para todos verem: esse papel inevitavelmente será ocupado por
aqueles que se apresentem como agentes de mudança, mas que apenas nos oferecem
a pior versão possível do presente –apresentam-se como defensores da liberdade,
escondem o ovo da serpente do autoritarismo, da desigualdade social e do
conservadorismo cultural.
As
mudanças radicais para os serviços públicos são exemplos do efeito do
reformismo radical nas propostas da esquerda. Mantendo intactos os princípios e
elementos centrais dos serviços públicos, ou seja, sua natureza estatal,
baseada na necessidade e universalista, essa abordagem consegue olhar
criticamente para suas deficiências atuais e mudá-las, tanto em sua
organização, quanto na alocação de recursos, para que reflitam melhor as
necessidades contemporâneas. Em vez de permanecer na defensiva, buscando apenas
preservar o que existe apesar das crescentes frustrações das pessoas, busca
apresentar um modelo mais justo, refletindo a natureza sempre transformadora e
crítica do reformismo radical.
Em
todas essas áreas, os compromissos centrais da esquerda, a existência de uma
economia de mercado fortemente regulada, um estado de bem-estar social
universal fornecido publicamente e um sistema tributário progressivo são
mantidos intactos. No entanto, a forma como esses compromissos são traduzidos
na realidade é diferente: mais ousada, mais imaginativa e reveladora da
capacidade de pensar criticamente sobre as próprias conquistas da
social-democracia e adaptá-las às circunstâncias atuais.
Em
resumo, essa é a atitude reformista radical que a esquerda deve adotar.
Significa adotar a essência reformista de sua ideologia e aplicá-la com o senso
de urgência e rápida transformação que os tempos atuais exigem. Trata-se de
deixar de ser defensivo e, finalmente, partir para o ataque. O ataque que
aponta para esperança de uma transformação na vida das pessoas para mais
igualdade e liberdade.
Ao
fazer isso, e rejeitando a atitude conservadora que tem mantido a esquerda
recuada e tímida, ainda poderá haver esperança para um futuro mais justo.
• Flávio, aposentadoria, BPC, saúde,
educação e real natureza da trapaça. Por Reinaldo Azevedo
Já
assistiram a um espetáculo de “teatro de sombras”? Eu já. Tem seu fascínio.
Silhuetas que se veem em razão de um jogo de luzes representam um papel em que
se dispensa a excessiva personalização. O que vale é o simbolismo. A expressão
pode ser metáfora de uma percepção superficial dos fatos que não corresponde à
verdade essencial das coisas. Bem, os mais dedicados às coisinhas da filosofia
logo se lembraram, e com razão, da caverna de Platão, né?
AGENDA
ESCONDIDA
Flávio
Bolsonaro não chega a ser meu melhor exemplo para explicar a distância entre o
mundo da percepção, com seus enganos, e o das ideias. Mas serve por agora. A
turma do pré-candidato do PL à Presidência vazou para, como costumo escrever,
“Uzmercáduz” que, se eleito, ele vai desvincular do salário mínimo as correções
das aposentadorias e do BPC (Benefício de Prestação Continuada,
Notem
bem: sou contra a desvinculação, mas não considero isso um crime. O que é
inaceitável, aí sim, é esconder a agenda. Anuncia-se, ainda, que o dito Zero Um
quer privatizar 95% das estatais. Rememoro: privatizações têm disciplina
constitucional: Inciso XIX do Artigo 37 da Constituição. Não basta dizer “vou
vender e pronto!” Tem de passar pelo Congresso. “Ah, a maioria do Parlamento
será de direita; vai ser bico!” Falso. Depende muito de como os interesses
cartoriais vão se organizar.
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SAÚDE.
EDUCAÇÃO E PRIVATIZAÇÕES
Mais: o
pré-candidato do PL também pretende, se eleito, mexer com os respectivos
Orçamentos de Saúde e Educação. Seriam corrigidos, também eles, apenas pela
inflação. Acabar-se-iam as vinculações que impõem desembolsos de 15% da receita
corrente líquida no primeiro caso e 18% da receita líquida de impostos no
segundo.
“Uzmercáduz”
entram em frêmitos gozosos nessas horas.
Flávio
quer esconder a sua agenda sobre aposentadoria, BPC e gastos em Saúde e
Educação mais do que o diabo pretende esconder a sua condição de Anjo Caído.
Pode ser criptonita eleitoral para quem se quer um novo Super-Homem.
O
“homem da direita” também estaria disposto a vender 95% das estatais… É mesmo?
Depende de como seja percebido o debate. A ideia seria passar nos cobres, por
exemplo, a Petrobras abaixo do seu valor de mercado, como Tarcísio de Freitas
fez com a Sabesp? Nota: é possível vender subsidiárias de empresas públicas ou
mistas por decisão administrativa, submetendo-se apenas à Lei 9.491, das
privatizações. No caso das empresas-mãe, não.
REAÇÃO
Pois
bem: a campanha de Flávio e ele próprio saíram chutando a Folha, que deu a
notícia com indisfarçável entusiasmo. É do jogo: em se tratando de extrema
direita, bata sempre na imprensa, mesmo que ela se mostre a favor.
Fato: o
“vazamento” passou um recado aos mercados: “Flávio é esse cara”. Ou, em
linguagem de peso histórico-religioso, “Ecce homo”. Mas não se trata de Pilatos
mandando crucificar um Cristo. Ao contrário. Trata-se de exultação: “Vejam aí:
eis o homem de vocês”. Mas o pré-candidato do PL tem de fazer a sua parte no
minueto: “Que absurdo? Eu? diminuir, na prática, o valor das aposentadorias do
BPC? Tudo fake news”. Assim, quase todo mundo ganha:
– os
mercados ficam felizes porque se confirma ser essa, de fato, a agenda de
Flávio;
– o
pré-candidato ganha porque bate “na imprensa”, ainda que lhe tenha prestado o
favor de dizer a quem interessa o que realmente pensa.
“Ah,
Tio, então todos vencem?” Bem, caras, caros e cares, se ele ganhar, os
aposentados, os que recebedores do BPC e os que dependem de saúde e educação
públicas obviamente perderão. Mas, nesse caso, quem se importará? Um dia haverá
o futuro sorrindo para todos, não é?, muito especialmente para os desvalidos
que ainda não perceberam as virtudes da espera e da perda que será, um dia,
ganho. Mas para as futuras gerações de desvalidos.
Amanhã
tudo será melhor.
Fonte:
Terapia Política/Metrópoles

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