JUVENTUDE
BRASILEIRA: Trabalho precarizado e religião de ultradireita
Por
que, diante de um cenário de precarização, insegurança e bloqueio de futuro –
cujas causas estão estruturalmente associadas ao neoliberalismo – a juventude
tem encontrado respostas mais convincentes justamente em plataformas políticas
que tendem a aprofundar essas mesmas condições?...
A
juventude brasileira vive hoje um dos momentos mais precários de sua relação
com o mundo do trabalho em décadas. A geração mais escolarizada da história se
depara com um mercado de trabalho instável, fragmentado e crescentemente
mediado por plataformas. Resultado de décadas de neoliberalismo e agudizada
pelas reformas liberais recentes, seria razoável esperar que o mal-estar da
juventude se convertesse em revolta contra as estruturas que o produzem. Os
dados, porém, apontam outra direção.
A
pesquisa Juventudes: Tarefa Pendente (2025), da Fundação
Friedrich-Ebert-Stiftung, mostra que o Brasil apresenta um dos mais altos
níveis de identificação da juventude com a direita: 38% dos jovens se
posicionam nesse campo, sendo 17% na extrema-direita – o maior percentual em
toda a América Latina. Em comparação, apenas 18% se identificam com a esquerda.
Quando
observados em perspectiva histórica, esses números revelam uma transformação
profunda. No início dos anos 2000, levantamentos como o Perfil da Juventude
Brasileira (Fundação Perseu Abramo) indicavam maior presença da esquerda e uma
extrema-direita ainda marginal. Duas décadas mais tarde, o quadro se inverte: a
extrema-direita praticamente triplicou sua presença entre os jovens (de 6% para
17%), enquanto a esquerda perdeu cerca de um terço (de 27% para 18%).
A
recente pesquisa Quem são e o que pensam os jovens brasileiros, publicada em
janeiro de 2026 pelo Centro de Estudos SoU_Ciência (Unifesp) em parceria com o
coletivo Juventude Fogo no Pavio, oferece elementos para complexificar o
diagnóstico. Realizado com 1.034 jovens de 18 a 27 anos, o levantamento mostra
que 23% dos jovens se declaram bolsonaristas ou próximos ao bolsonarismo,
contra 28% que se dizem petistas ou próximos ao petismo.
A
questão que se impõe, então, é incômoda: por que, diante de um cenário de
precarização, insegurança e bloqueio de futuro – cujas causas estão
estruturalmente associadas ao neoliberalismo – a juventude tem encontrado
respostas mais convincentes justamente em plataformas políticas que tendem a
aprofundar essas mesmas condições?
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Da sociabilidade do trabalho à sociabilidade da religião
Para
responder a essa pergunta, é preciso olhar para os mecanismos concretos de
socialização que organizam a vida da juventude hoje. As mudanças no mundo do
trabalho tornaram as relações laborais radicalmente mais precárias para a
juventude. Somam-se a isso o encarecimento do custo de vida e outros fatores
que ajudam a compreender, ao mesmo tempo, a falta de perspectiva do trabalho
como dimensão emancipatória e o papel cada vez mais central da família – não
apenas como categoria valorativa abstrata, mas como esteio material concreto:
abrigo, alimentação e apoio financeiro.
Os
dados da pesquisa da Unifesp ajudam a dimensionar esse quadro. Mais de 60% dos
jovens vivem em famílias com renda mensal de cerca de dois salários-mínimos (R$
2.824). A origem da renda individual revela um mercado de trabalho fragmentado:
40,9% têm contrato CLT, 13,3% atuam como autônomos PJ/MEI, 11,8% como autônomos
informais ocasionais, 10,1% estão desempregados e 8,4% vivem sem renda própria
por estarem estudando. Em outras palavras: cerca de 4 em cada 10 jovens vivem
hoje fora de qualquer relação de trabalho estruturada.
Mais
reveladora ainda é a desidentificação com a condição de trabalhador formal.
Embora 41% dos jovens estejam atualmente em regime CLT, apenas 11% indicam
querer seguir essa carreira no futuro. Em contrapartida, 30% afirmam querer ter
um negócio próprio e 18% – quase 1 em cada 6 – declaram preferir “viver de
renda” ou de investimentos, ainda que hoje apenas 1% esteja efetivamente nessa
condição. Esse “salto desejado” para a posição de rentista, como observam os
pesquisadores, “aparece menos como plano econômico realista e mais como
imaginação social de saída do trabalho subordinado”. E é justamente entre os
jovens de direita/centro-direita (20,3%) e os mais próximos do bolsonarismo
(24,6%) que esse desejo se intensifica.
É nesse
vácuo entre expectativa e realidade que a religião ganha a cena. A pesquisa
aponta que quase metade (48,3%) dos jovens de direita ou centro-direita são
evangélicos. Os jovens evangélicos têm 2,5 vezes mais chance de se declarar de
direita do que os demais e 1,8 vezes mais chance de se identificar com o
bolsonarismo (33,8% contra 18,7%). São também os que avaliam o governo Lula
como ruim ou péssimo em proporção significativamente maior (41,3% contra
30,8%).
A força
política das igrejas evangélicas entre a juventude periférica não é casual.
Trata-se de uma juventude majoritariamente periférica e negra – entre os jovens
evangélicos, 69% se autodeclaram pretos ou pardos – que encontra nas igrejas
três coisas simultaneamente: primeiro, um poderoso meio de socialização em rede
que conecta território, família, amigos e vizinhos; segundo, uma comunidade de
identidade, afetos e senso de pertencimento que, em boa medida, substituiu
aquilo que o trabalho formal já não oferece mais; terceiro, um ecossistema
próprio de informações, organizado por influenciadores digitais, veículos de
comunicação e lideranças fundamentalistas com forte capilaridade política. Sem
considerar essa realidade, corremos o risco de reduzir os evangélicos a um
conjunto de crenças e costumes, perdendo de vista que o avanço das igrejas é
fruto de uma combinação mais ou menos articulada entre sociabilidade
periférica, senso de comunidade e consumo de informação em massa produzida pela
extrema direita.
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A contracultura hoje é de direita
Nesse
processo, a juventude tem encontrado nas redes sociais uma contracultura
organizada pela extrema direita, com alcance muito superior ao dos
influenciadores progressistas. O resultado é uma reconfiguração profunda do
próprio objeto da revolta da juventude. Nas gerações anteriores, ela se dirigia
contra os pais, a família e o capitalismo/imperialismo – instituições
percebidas como sufocantes, conservadoras e autoritárias. Hoje, com a família
convertida em apoio material indispensável e a igreja em comunidade de
pertencimento, a revolta se desloca e passa a se concentrar contra “o sistema”
e suas adjetivações: “progressista”, “globalista”, “woke”.
Para um
jovem brasileiro hoje, esse “sistema” tem nome: o PT e a esquerda. Um jovem de
23 anos assistiu o PT governar o Brasil por 16 anos – mais de 70% de toda a sua
vida. Tudo o que conhece como ordem social estabelecida, no limite, foi gestado
sob governos petistas. E, mesmo quando as consequências de uma ordem neoliberal
agudizada pelas reformas dos governos Temer e Bolsonaro – em especial a Reforma
do Ensino Médio e a Reforma Trabalhista, que impactam diretamente a vida dessa
juventude – elas são traduzidas, em sua leitura cotidiana, como consequência do
“sistema” do qual o PT seria o principal responsável.
É nesse
terreno que se articula uma combinação estranha, mas politicamente eficaz,
entre fundamentalismos religiosos, reacionarismos conservadores, extremismos
antidemocráticos, influenciadores digitais e oportunistas financeiros. Apesar
da heterogeneidade, todos compartilham de uma mesma gramática: a esquerda e a
ordem neoliberal passam a ser percebidas como partes de um mesmo sistema –
velho, disfuncional, demagógico e excludente. Incapaz, portanto, de oferecer
futuro.
Mais do
que diagnosticar, é preciso repensar urgentemente imaginários de futuro para a
juventude como alternativa ao neoliberalismo e à extrema direita. Sem disputar
o terreno onde a vida concreta dos jovens hoje se desenrola, qualquer projeto
de transformação se tornará abstrato, obsoleto e com pouca adesão popular – e
será, mais uma vez, atravessado pela direita. É o futuro que queremos?
• QUEM PAGA A CONTA? Trabalho por
aplicativos e o PLP 152/2025. Por Rafael Molina Vita
A
expansão do trabalho por aplicativos tem sido associada à inovação e à
ampliação de oportunidades de renda. Por trás da eficiência deste modelo, há
uma dinâmica menos conhecida: a transferência de custos sistemáticos para o
Estado e sociedade. Saúde pública, previdência e infraestrutura urbana passam a
absorver impactos que não são incorporados aos modelos de negócios das
plataformas. A regulamentação do trabalho via plataformas digitais está sendo
debatida no mundo todo. Diferentes modelos vêm sendo implementados. Na União
Europeia, uma lei estabelece a presunção da relação de trabalho. Nos Estados
Unidos, não existe uma regra única, mas arranjos fragmentados e disputas
jurídicas entre reconhecer vínculo trabalhista ou manter os trabalhadores como
independentes. No Brasil, o debate esquentou com o PLP 152/2025. O PL propõe um
modelo intermediário para trabalhadores por aplicativo, mantendo sua
classificação como autônomos, mas introduzindo mecanismos mínimos de proteção
social, como direitos previdenciários. O texto também dispõe sobre regras de
transparência, critérios para gestão e eventual desativação de contas pelas
plataformas.
Contudo,
esse modelo enfrenta oposição de uma parte dos trabalhadores, especialmente no
que se refere ao pagamento obrigatório de contribuição previdenciária – apesar
de que na proposta a contribuição tenha a base reduzida: 5%, incidente sobre
25% do total da remuneração. De maneira geral, O PL é visto, por alguns, como
uma interferência indevida do Estado. Por outro lado, as plataformas também se
posicionam contra algumas medidas, alegando que o aumento da remuneração mínima
dos entregadores encareça o preço do serviço para o consumidor final.
O
problema central é que a manutenção da desregulamentação, não envolve apenas o
consumidor final, mas toda a sociedade – inclusive quem não utiliza esse tipo
de serviço.
A
atividade econômica explorada pelas plataformas gera externalidades negativas,
ou seja, impacta no sistema de saúde, previdência e trânsito urbano. São custos
distribuídos para toda a sociedade, que concede uma espécie de “subsídio
invisível” para que essas empresas funcionem livremente, sem as amarras da
regulamentação.
O custo
mais evidente está no sistema de saúde. Sem qualquer proteção social, os
trabalhadores são submetidos a longas jornadas de trabalho, exposição ao clima
e ao trânsito pesado das grandes cidades. Em caso de acidentes e doenças
relacionadas ao trabalho, parte desses trabalhadores recorre ao SUS, gerando
aumento da demanda e custos médicos não arcados pelas plataformas.
Os
custos da seguridade social também são socializados. Sem contribuição
previdenciária regular, os trabalhadores ficam desprotegidos em caso de doença,
invalidez e velhice. A base do financiamento do sistema é reduzida e, no
futuro, muitos destes trabalhadores dependerão do benefício de prestação
continuada e de programas estatais de renda mínima.
Outro
aspecto relevante diz respeito aos impactos no trânsito e infraestrutura
urbana: A expansão das plataformas gera o aumento de veículos em circulação e,
consequentemente, intensifica congestionamentos, eleva os níveis de poluição e
acelera o desgaste das vias públicas.
Ainda,
a ausência de regulamentação produz insegurança jurídica e alimenta a
judicialização, impondo custos institucionais crescentes ao Poder Judiciário.
Em
suma, a informalidade do trabalho reduz capacidade de arrecadação do Estado, o
que significa menos recursos públicos para saúde, educação e infraestrutura.
Trata-se da conhecida privatização dos lucros e socialização dos prejuízos: as
empresas ficam com o lucro, enquanto os trabalhadores assumem os riscos
imediatos e a sociedade absorve os custos estruturais.
Diante
deste cenário, a questão da regulamentação do trabalho dos aplicativos no
Brasil é mais complexa do que parece, e envolve a todos. Recentemente, o
Governo Federal, ao apresentar o relatório final do Grupo Técnico de Trabalho
interministerial (GTT) a respeito do tema, anunciou duas medidas, entre outras,
que podem esclarecer e qualificar o debate público.
O
Ministério da Justiça anunciou a edição de uma Portaria. A norma busca ampliar
a transparência dos preços praticados por aplicativos, de modo que o consumidor
seja informado sobre a parcela do valor final destinada à plataforma e aquela
destinada ao motorista ou entregador.
Também
foi definida, pelo Ministério da Saúde, a inclusão do item “Trabalhador de
plataforma digital” nas fichas de notificação do Sistema de Informação de
Agravos de Notificação (Sinan), iniciativa essencial para a coleta de dados e
formulação de políticas públicas voltadas à prevenção de acidentes de trabalho.
São
medidas que, ao proporcionar maior transparência e uma coleta de dados mais
precisa sobre o assunto, contribuem para tornar o debate mais qualificado e
racional. O desafio agora é encontrar soluções que equilibrem proteção social,
viabilidade econômica das plataformas e eficiência dos serviços, para atender
de forma justa trabalhadores, empresas e a sociedade em geral.
Fonte:
Por Rafael Rodrigues da Costa, no Le Monde

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