sexta-feira, 24 de abril de 2026

Varoufakis analisa o manifesto distópico da Palantir

A Palantir teve a amabilidade de resumir sua ideologia espantosa em 22 pontos. E eu tomei a liberdade de comentar cada um deles. Eis aqui minha interpretação de todos eles, mantendo a numeração original. [Observação: o comentário de Varoufakis é seguido do ponto da ideologia da corporação de Alex Karp]

>> 1. O Vale do Silício tem uma dívida incomensurável com a classe dominante que resgatou os banqueiros criminosos que arruinaram o sustento da maioria dos americanos. A elite de engenheiros do Vale do Silício defenderá essa classe dominante até a morte (literalmente!), em nome da maioria dos estadunidenses a quem tratam com desprezo – ou seja, como gado que perdeu seu valor de mercado. ||| [1. O Vale do Silício tem uma dívida moral com o país que tornou possível sua ascensão. A elite de engenheiros do Vale do Silício tem a obrigação de participar na defesa da nação.]

>> 2. A Palantir está de olho na Apple Store, babando ante a perspectiva de criar seu próprio feudo tecno-feudal [sic]. É hora de substituir o iPhone por outro dispositivo que dissolva o que resta da privacidade das pessoas. ||| [2. Devemos nos rebelar contra a tirania dos aplicativos. Será o iPhone nosso maior feito criativo, senão o maior da nossa civilização? O dispositivo mudou nossas vidas, mas agora também pode estar limitando e restringindo nosso senso do possível.]

>> 3. A Palantir não dará nada de graça. Só se importa com seu próprio crescimento, que persegue semeando o medo para poder vender uma falsa sensação de segurança. ||| [3. O e-mail gratuito não é suficiente. A decadência de uma cultura ou civilização, e de fato de sua classe dirigente, só será perdoada se essa cultura for capaz de proporcionar crescimento econômico e segurança à população.]

>> 4. Glória à força bruta! A ética é para os incautos. O Ocidente precisa mais do software assassino da Palantir. ||| [4. Os limites do softpower, da mera retórica grandiloquente, foram evidenciados. A capacidade das sociedades livres e democráticas para se impor exige algo mais do que um apelo moral. Exige poder duro, e o poder duro neste século se baseará no software.]

>> 5. Chegam os robôs assassinos impulsionados por IA. A tarefa consiste em obter enormes lucros construindo primeiro robôs assassinos e fazendo perguntas depois. Para poder fazer isso, a Palantir fará o que for necessário para evitar a todo custo qualquer tratado internacional que limite os robôs assassinos impulsionados por IA. ||| [5. A questão não é se armas de IA serão fabricadas, mas quem as fabricará e com que propósito. Nossos adversários não vão parar para se envolver em debates teatrais sobre as vantagens de desenvolver tecnologias com aplicações críticas para a segurança militar e nacional. Eles seguirão em frente.]

>> 6. Todo pobre diabo (que careça dos contatos necessários para evitar ser lançado às trincheiras, com drones assassinos apontando para ele desde o céu) deve ser recrutado para o exército. Esqueça pagar salário aos soldados. Todos os pagamentos devem ser direcionados à Palantir, onde nosso próprio pessoal prestará seu “serviço nacional”, deixando morrer aqueles que não são acionistas. ||| [6. O serviço nacional deveria ser um dever universal. Como sociedade, deveríamos considerar seriamente a possibilidade de nos afastarmos de um exército composto exclusivamente por voluntários e só travar a próxima guerra se todos compartilharmos o risco e o custo.]

>> 7. A Palantir trabalha horas extras para equipar os fuzileiros navais estadunidenses com robôs assassinos que lhes tiram qualquer resquício de juízo ético que ainda lhes reste no campo de batalha. A sociedade estadunidenses deve ficar totalmente incapacitada para qualquer debate que restrinja a capacidade da Palantir de fazer com que o exército estadunidense elimine qualquer oportunidade restante de rejeitar a escolha de alvos por parte de seu software. ||| [7. Se um fuzileiro naval estadunidense pedir um rifle melhor, deveríamos fabricá-lo; e o mesmo vale para o software. Como país, deveríamos ser capazes de manter um debate sobre a conveniência da ação militar no exterior sem hesitar em nosso compromisso com aqueles a quem pedimos que se coloquem em perigo.]

>> 8. A Palantir deplora o fato de que o setor público ainda não esteja totalmente desprovido de consciência. Os funcionários públicos devem ser demitidos em massa, exceto alguns poucos aprovados pela Palantir, que receberão enormes salários, pagos pelos contribuintes. ||| [8. Os funcionários públicos não devem ser nossos sacerdotes. Qualquer empresa que remunerasse seus empregados da mesma forma que o governo federal remunera os funcionários públicos teria dificuldades para sobreviver.]

>> 9. A Palantir acredita que Donald Trump deve ser beatificado por se dedicar ao serviço público. Não perdoar tudo que pessoas como Trump fazem põe em perigo nossa alma, sem mencionar que aumenta a possibilidade de que haja funcionários que restrinjam o malvado projeto da Palantir. ||| [9. Deveríamos mostrar muito mais indulgência para com aqueles que se submeteram à vida pública. A erradicação de qualquer espaço para o perdão — o abandono de toda tolerância com as complexidades e contradições da psique humana — pode nos deixar com um elenco de personagens no comando dos quais acabaremos nos arrependendo.]

>> 10. A política deve ser como a IA, desprovida de qualquer coisa que possa se confundir com a empatia humana. Aqueles que recorrem à arena política para alimentar sua alma e seu senso de identidade devem ser enviados ao gulag imediatamente! ||| [10. A psicologização da política moderna está nos desviando do caminho. Aqueles que olham para a arena política para alimentar sua alma e seu senso de si, que dependem excessivamente de que sua vida interior encontre expressão em pessoas que talvez nunca conheçam, ficarão decepcionados.]

>> 11. Há algumas pessoas ansiosas demais por acelerar o desaparecimento da Palantir. Elas deveriam repensar isso, ou então…! ||| [11. Nossa sociedade tornou-se excessivamente impaciente em acelerar e, frequentemente, até celebrar o desaparecimento de seus inimigos. A derrota de um oponente é um momento para reflexão, não para celebração.]

>> 12. A Palantir não fabrica armas nucleares, mas desenvolve alegremente outras armas de destruição em massa. Anunciamos com orgulho que já estamos prontos para adicionar ao Armagedom nuclear a ameaça impulsionada por IA à existência da humanidade. ||| [12. A era atômica está chegando ao fim. Uma era de dissuasão, a era atômica, está chegando ao fim, e está prestes a começar uma nova era de dissuasão baseada em IA.]

>> 13. Nenhum outro país na história do mundo cometeu tantos crimes de guerra em nome do progresso e da liberdade. Os Estados Unidos oferecem liberdade infinita a pessoas como os fundadores da Palantir para que lucrem tão generosamente infligindo tanto dano à humanidade. ||| [13. Nenhum outro país na história do mundo promoveu os valores progressistas mais do que este. Os Estados Unidos estão longe de ser perfeitos. Mas é fácil esquecer quantas oportunidades a mais existem neste país para aqueles que não pertencem às elites hereditárias do que em qualquer outra nação do planeta.]

>> 14. O poder estadunidense tem se deleitado em provocar uma guerra atrás da outra, um golpe de Estado atrás do outro, um desastre financeiro evitável atrás do outro. Muitos esqueceram ou talvez tenham dado como certa a capacidade dos Estados Unidos de travar guerras eternas em nome da paz e da democracia. ||| [14. O poder estadunidense tornou possível uma paz extraordinariamente prolongada. Muitos esqueceram, ou talvez deem como certo, que durante quase um século prevaleceu no mundo uma certa versão de paz sem um conflito militar entre grandes potências. Pelo menos três gerações – bilhões de pessoas, seus filhos e agora seus netos – nunca conheceram uma guerra mundial.]

>> 15. O fascismo alemão e japonês deve voltar a ser grande. A desnazificação da Alemanha foi uma correção excessiva pela qual a Europa está pagando agora um alto preço. Um compromisso similar e muito fora de lugar com o pacifismo japonês também deve terminar imediatamente! ||| [15. A neutralização da Alemanha e do Japão após a guerra deve ser revertida. O desarmamento da Alemanha foi uma correção excessiva pela qual a Europa está pagando agora um alto preço. Um compromisso similar e altamente teatral com o pacifismo japonês, se mantido, também ameaçará alterar o equilíbrio de poder na Ásia.]

>> 16. Devemos aplaudir aqueles que tentam monopolizar tudo através de generosos contratos governamentais. Os bilionários não devem se contentar simplesmente com seus bilhões. Para se tornarem ainda mais obscenamente ricos, eles precisam de grandes narrativas que os ajudem a convencer os pobres a usar sua liberdade para mantê-los, os bilionários, no poder. E, a propósito, a Palantir adora Elon, especialmente sua grande narrativa inspirada no apartheid. ||| [16. Devemos aplaudir aqueles que tentam construir onde o mercado falhou. A cultura quase zomba do interesse de Musk pela grande narrativa, como se os bilionários devessem se limitar a enriquecer a si mesmos… Qualquer curiosidade ou interesse genuíno pelo valor do que ele criou é essencialmente descartado, ou talvez escondido sob um desprezo apenas velado.]

>> 17. O Vale do Silício deve ser livre para fazer nas cidades dos Estados Unidos o que fez em Gaza. Muitos políticos em todos os Estados Unidos têm encolhido os ombros, em essência, ao conceder à Palantir o direito de aniquilar todas as liberdades civis e direitos humanos restantes. Isso deve acabar. ||| [17. O Vale do Silício deve desempenhar um papel no combate aos crimes violentos. Muitos políticos em todos os Estados Unidos têm encolhido os ombros diante dos crimes violentos, abandonando qualquer esforço sério para abordar o problema ou assumir qualquer risco com seus eleitores ou doadores ao propor soluções e experimentos no que deveria ser uma tentativa desesperada de salvar vidas.]

>> 18. O sindicato de Epstein deveria cair no esquecimento para que pessoas encantadoras como Trump e os Clinton não se vejam dissuadidas de entrar no governo. A esfera pública deve estar livre de escrutínio, a menos que entrem nela subversivos como Sanders ou Mamdani. ||| [18. A exposição despiedadada vida privada de figuras públicas afasta talentos demais do serviço público. A esfera pública — e os ataques superficiais e mesquinhos contra aqueles que ousam fazer algo além de enriquecer — tornou-se tão implacável que a república acaba ficando com um contingente significativo de indivíduos ineficazes e vazios, cuja ambição até poderia ser perdoada se houvesse, em seu interior, alguma estrutura genuína de crenças à espreita.]

>> 19. Nós amamos figuras públicas banais, desde que deem à Palantir todos os contratos suculentos. Também amamos figuras públicas pitorescas que dão à Palantir todos os contratos suculentos. ||| [19. A cautela na vida pública que, sem perceber, fomentamos é corrosiva. Aqueles que não dizem nada mal, frequentemente não dizem quase nada.]

>> 20. Precisamos de mais ópio para as massas, já que elas não estão suficientemente embriagadas para que possamos perseguir sem obstáculos sua completa subjugação. Questionar a superstição organizada é perigoso e deve acabar. ||| [20. É preciso resistir à intolerância generalizada em relação às crenças religiosas em certos círculos. A intolerância da elite em relação às crenças religiosas é talvez um dos sinais mais reveladores de que seu projeto político constitui um movimento intelectual menos aberto do que muitos de seus membros afirmam.]

>> 21. É hora de recuperar a hierarquia racial de Hitler, com os fundadores da Palantir e Elon em seu topo ariano. É preciso descartar a ideia de que é errado julgar alguém pela cor de sua pele, sua origem étnica ou sua religião. ||| [21. Algumas culturas produziram avanços vitais; outras continuam sendo disfuncionais e regressivas. Todas as culturas são agora iguais. As críticas e os juízos de valor estão proibidos. No entanto, este novo dogma ignora o fato de que certas culturas e, de fato, subculturas… produziram maravilhas. Outras se mostraram medíocres e, pior ainda, regressivas e prejudiciais.]

>> 22. Os negros, os muçulmanos, a maioria dos asiáticos e, claro, as mulheres, são subumanos inferiores. Os homens dos Estados Unidos, e mais amplamente do Ocidente, têm resistido durante o último meio século a colocar esses subumanos em seu lugar em nome da inclusividade. Foi um erro. Nunca se deve permitir a entrada de tais subumanos, exceto como serventes ou provedores de serviços sexuais – pelo menos até que possamos melhorar nossos robôs, caso em que não precisaremos deles de forma alguma. ||| [22. Devemos resistir à tentação superficial de um pluralismo vazio e sem sentido. Nós, nos Estados Unidos e, mais amplamente, no Ocidente, temos resistido durante o último meio século a definir as culturas nacionais em nome da inclusividade. Mas inclusão em quê?]

¨      O manifesto Palantir e a soberania digital alheia. Por James Görgen

Imagine que uma empresa brasileira de análise de dados e inteligência artificial — fundada com capital inicial da ABIN, tendo o Ministério da Defesa como principal cliente e responsável por contratos com agências de segurança em outros países — publicasse, em uma rede social, um manifesto de 22 pontos declarando que a elite tecnológica do Brasil tem "obrigação afirmativa de participar da defesa da nação", que debates éticos sobre tecnologia militar são "teatrais" e uma perda de tempo, que o poder do Brasil "tornou possível uma paz extraordinariamente longa", que a época do soft power acabou e que culturas que não acompanharam o desenvolvimento brasileiro "permanecem disfuncionais e regressivas." Imagine, ainda, que essa empresa tivesse contratos ativos com agências públicas de saúde e educação dos Estados Unidos — contratos firmados sem licitação, através de uma triangulação com uma estatal local. Qual seria uma resposta possível de Washington? Na conjuntura atual, seria imediata, enérgica e previsível. Convocação do embaixador, acionamento do Comitê de Investimentos Estrangeiros, investigações no Congresso e quase certamente sanções. Nenhum governo empenhado em garantir a soberania nacional toleraria que uma empresa estrangeira, com laços com sua comunidade de inteligência, operasse dentro de estruturas públicas sensíveis enquanto declarava lealdade explícita a outra nação.

<><> O manifesto

Pois é exatamente isso que a empresa estadunidense Palantir acaba de fazer. No último fim de semana, a conta oficial da Palantir no X publicou um texto de 22 pontos, apresentado como síntese do livro “The Technological Republic”, que teve o CEO da empresa, Alex Karp, como um dos autores. A abertura — "porque nos perguntam muito" — simulava uma resposta despretensiosa. O conteúdo é um programa geopolítico explícito de uma empresa que se fundiu à máquina do maior complexo industrial militar da terra. Em um estilo caricato, o primeiro ponto afirma que o Vale do Silício tem "obrigação afirmativa de participar da defesa da nação" — sendo a nação, sem qualquer ambiguidade, os Estados Unidos. O quinto declara que a questão não é se armas de IA serão construídas, "mas quem as construirá e com qual propósito", descartando debates éticos como "teatrais". O décimo segundo anuncia que "a era atômica está terminando" e que uma nova era de dissuasão construída sobre IA está prestes a começar. O décimo quinto defende desfazer a contenção imposta ao Japão e à Alemanha após a Segunda Guerra. Os pontos finais denunciam o pluralismo como "vazio e oco" e afirmam que "algumas culturas produziram avanços vitais enquanto outras permanecem disfuncionais e regressivas."

Como bem sintetizou Eliot Higgins, fundador do Bellingcat, esses 22 pontos não são filosofia flutuando no espaço — são a ideologia pública de uma empresa cuja receita depende da política que está advogando. Não é a declaração de um fornecedor neutro de tecnologia. É a confissão de que a Palantir é um instrumento de poder dos Estados Unidos — e que seus contratos com governos estrangeiros existem dentro dessa lógica. Com um olhar mais corporativo, Don Moynihan critica o manifesto da Palantir por promover uma fusão entre poder estatal e tecnologia do Vale do Silício sem prestação de contas, permitindo que a empresa exerça influência sobre decisões governamentais via contratos opacos, enquanto evita escrutínio público ou congressional. Ele argumenta que isso cria um "império corporativo" ideológico, onde fornecedores de serviços ao Estado como Palantir moldam políticas de defesa e soberania digital sem responsabilidade democrática, contrastando com a necessidade de capacidade interna governamental para evitar dependências arriscadas e politizadas.

<><> Atuação no Brasil

A pergunta que o manifesto torna impossível de adiar é: diante desta declaração, o que a Palantir faz atualmente dentro do Estado brasileiro e até quando este vínculo se sustentará?

A resposta mais documentada vem do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Desde março de 2024, a Palantir faz gestão e análise de dados do Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar (Pnate). Como mostrou a revista Carta Capital, o Relatório de Gestão do FNDE do primeiro semestre 2025, que atualmente não se encontra mais na página do Fundo, ainda confirmava o uso do software Palantir Foundry e da Artificial Intelligence Platform (AIP). A publicação de 2024 ainda está disponível e menciona explicitamente. O contrato foi viabilizado por uma triangulação que merece escrutínio. Via Serpro, o Estado contratou a infraestrutura de nuvem da Amazon Web Services e, dentro do AWS Marketplace, a Palantir entrou como camada adicional de serviço — sem licitação específica, sem concorrência pública. O próprio gerente de Cloud do Serpro confirmou o arranjo em evento no FNDE: "O Serpro é um grande viabilizador para que o FNDE consiga ter acesso às ferramentas da AWS e da Palantir." A estatal pública de TI criada para ser uma alternativa de constituição de nossa soberania digital foi convertida em intermediária de uma empresa que acaba de declarar lealdade à outra nação. E o FNDE é apenas o caso documentado. O vice-presidente da Palantir para a América Latina afirmou, em agosto de 2024, que o sistema da empresa "já roda em importantes organizações do país, desde o setor de saúde pública até agências de educação." Incorporada em uma declaração de um acordo com empresa privada, a menção a instituições estatais foi feita sem nomear contratos, sem detalhar quais dados são processados e sem que nenhuma autoridade brasileira tenha exigido esclarecimentos públicos.

Há ainda uma camada de risco que permanece pouco visível no debate público brasileiro. Em outubro de 2025, o ministro Alexandre Padilha renovou em Londres a parceria bilateral entre o SUS e o NHS britânico — apresentada, com razão histórica, como uma cooperação entre dois dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. O que o comunicado oficial não menciona é que o NHS opera hoje uma de suas plataformas de dados sob um contrato de £330 milhões com a Palantir — contrato que gerou resistência intensa de organizações de direitos digitais no Reino Unido, como a Foxglove, exatamente pelos riscos de compartilhamento de dados e pela ausência de debate público sobre a decisão.  Pesquisadores da Fiocruz e do Laboratório de Políticas Públicas e Internet já alertaram que a cooperação Brasil-Reino Unido em saúde digital — que inclui a McKinsey como "parceira implementadora" — , assinada inicialmente no governo Bolsonaro, pode carregar embutida, sem que isso apareça em nenhum contrato assinado em Brasília, a mesma arquitetura de dados que a Palantir opera no NHS. Não há, até o momento, um contrato direto identificado entre a Palantir e o Ministério da Saúde brasileiro. Mas quando a empresa declara publicamente que seu sistema já roda em organizações brasileiras de saúde pública sem nomear quais, e quando o principal parceiro de referência do SUS no exterior é um sistema de saúde gerido pela Palantir, a ausência de transparência deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser, ela mesma, o problema.

<><> O espelho suíço

Na Suíça, o processo foi semelhante. A Palantir abriu escritório em Zurique em 2018 e buscou contratos com o governo federal. Em dezembro do ano passado, a revista independente Republik publicou investigação baseada em 59 pedidos de acesso à informação revelando que o Exército suíço havia conduzido auditorias formais concluindo que os sistemas da Palantir eram incompatíveis com a soberania helvética. A conclusão foi estrutural. Mesmo com servidores em solo suíço, a legislação americana pode compelir a empresa a fornecer acesso a dados ao governo dos EUA — um risco avaliado não como gerenciável, mas como característica inerente ao produto. A reação da Palantir foi elucidativa. Em vez de contestar os fatos, a empresa acionou um mecanismo judicial de "direito de resposta" exigindo que a Republik publicasse sua versão dos eventos — sem indicar quais fatos eram incorretos, uma vez que os documentos eram de acesso público. A Federação Europeia de Jornalistas classificou a ação como SLAPP, conhecida estratégia para silenciar a participação pública. Uma empresa de 400 bilhões de dólares processando uma pequena revista independente que ousou informar cidadãos suíços sobre a avaliação de risco conduzida pelo próprio governo deles. O caso ainda tramita.

<><> Contrato emergencial

A França oferece talvez o exemplo mais perturbador de dependência estrutural à Palantir. Em 2016, a partir dos impactos dos atentados em Paris, a DGSI — agência de inteligência interna francesa — contratou o software de vigilância Gotham, da Palantir, em caráter emergencial. O que era para ser uma solução temporária de gestão de crise tornou-se permanente. Em dezembro do ano passado, o contrato emergencial foi renovado pela terceira vez por mais três anos. Hoje, agentes da própria empresa estão fisicamente alocados dentro dos serviços de inteligência franceses para garantir o funcionamento do sistema — uma presença que o próprio Estado francês reconhece como risco real de vazamento de dados. Isso é tão procedente que duas divisões da DGSI, as de proteção de ativos econômicos e de contraespionagem, proibiram internamente o uso do software. O paradoxo é ainda mais brutal que o caso suíço. Ou seja, uma agência encarregada de detectar espionagem estrangeira opera com tecnologia de uma empresa estadunidense, cujo acesso pode ser cortado unilateralmente por Washington a qualquer momento. Exatamente o tipo de alavancagem que a administração Trump já demonstrou disposição de usar contra aliados que contrariaram seus interesses.

<><> Soberania na berlinda

O manifesto publicado no X representa algo sem precedentes no debate global sobre governança digital e mesmo sobre a atuação político-corporativa de empresas dos EUA. Trata-se de uma grande empresa de tecnologia com contratos ativos em governos de múltiplos países declarando publicamente, de forma organizada e com orgulho, que atua como instrumento de poder de uma nação específica, que considera debates éticos como obstáculos teatrais e que sua lealdade está colocada no projeto geopolítico dos Estados Unidos. Empresas estadunidenses de tecnologia sempre estiveram sujeitas à legislação que as obriga a responder ao governo dos EUA. Empresas de outros ramos participaram de golpes de estado e sustentaram ditaduras na América Latina. Mas nenhuma havia transformado essa realidade em identidade corporativa — até agora. Nesse contexto, manter contratos com uma empresa que acaba de publicar que tem "obrigação afirmativa" com a defesa dos Estados Unidos não é apenas inconsistência política. É uma contradição que compromete a credibilidade de qualquer agenda de soberania digital que o Brasil queira sustentar — inclusive a Nuvem de Governo que o próprio governo federal construiu com Serpro e Dataprev para proteger dados sensíveis. Mesmo as declarações internacionais que o Presidente Lula vem manifestando neste sentido se tornam prejudicadas por esta relação contratual. A Suíça conduziu auditorias formais e chegou à conclusão de que o produto da Palantir era estruturalmente incompatível com sua soberania. O Brasil precisa fazer a mesma pergunta — e com a mesma seriedade: auditoria dos contratos, verificação dos dados processados, avaliação dos riscos estruturais e rescisão dos vínculos que não possam ser justificados à luz dos compromissos do país com a proteção de dados de seus cidadãos.

Voltemos à cena imaginária do início. Se uma empresa brasileira com DNA na ABIN fizesse tudo isso em solo americano, nós chamaríamos de espionagem. Quando a Palantir faz o equivalente em território brasileiro, nós chamamos de modernização da administração pública. Isso precisa mudar.

 

Fonte: Por Yanis Varoufakis, no CTXT | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras/Brasil 247

 

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