Varoufakis
analisa o manifesto distópico da Palantir
A
Palantir teve a amabilidade de resumir sua ideologia espantosa em 22 pontos. E
eu tomei a liberdade de comentar cada um deles. Eis aqui minha interpretação de
todos eles, mantendo a numeração original. [Observação: o comentário de
Varoufakis é seguido do ponto da ideologia da corporação de Alex Karp]
>>
1. O
Vale do Silício tem uma dívida incomensurável com a classe dominante que
resgatou os banqueiros criminosos que arruinaram o sustento da maioria dos
americanos. A elite de engenheiros do Vale do Silício defenderá essa classe
dominante até a morte (literalmente!), em nome da maioria dos estadunidenses a
quem tratam com desprezo – ou seja, como gado que perdeu seu valor de mercado.
||| [1. O Vale do Silício tem uma dívida moral com o país que tornou
possível sua ascensão. A elite de engenheiros do Vale do Silício tem a
obrigação de participar na defesa da nação.]
>>
2. A
Palantir está de olho na Apple Store, babando ante a perspectiva de criar seu
próprio feudo tecno-feudal [sic]. É hora de substituir o iPhone por outro
dispositivo que dissolva o que resta da privacidade das pessoas. ||| [2.
Devemos nos rebelar contra a tirania dos aplicativos. Será o iPhone nosso maior
feito criativo, senão o maior da nossa civilização? O dispositivo mudou nossas
vidas, mas agora também pode estar limitando e restringindo nosso senso do
possível.]
>>
3. A
Palantir não dará nada de graça. Só se importa com seu próprio crescimento, que
persegue semeando o medo para poder vender uma falsa sensação de segurança.
||| [3. O e-mail gratuito não é suficiente. A decadência de uma cultura
ou civilização, e de fato de sua classe dirigente, só será perdoada se essa
cultura for capaz de proporcionar crescimento econômico e segurança à
população.]
>>
4. Glória
à força bruta! A ética é para os incautos. O Ocidente precisa mais do software
assassino da Palantir. ||| [4. Os limites do softpower, da mera
retórica grandiloquente, foram evidenciados. A capacidade das sociedades livres
e democráticas para se impor exige algo mais do que um apelo moral. Exige poder
duro, e o poder duro neste século se baseará no software.]
>>
5. Chegam
os robôs assassinos impulsionados por IA. A tarefa consiste em obter enormes
lucros construindo primeiro robôs assassinos e fazendo perguntas depois. Para
poder fazer isso, a Palantir fará o que for necessário para evitar a todo custo
qualquer tratado internacional que limite os robôs assassinos impulsionados por
IA. ||| [5. A questão não é se armas de IA serão fabricadas, mas quem
as fabricará e com que propósito. Nossos adversários não vão parar para se
envolver em debates teatrais sobre as vantagens de desenvolver tecnologias com
aplicações críticas para a segurança militar e nacional. Eles seguirão em
frente.]
>>
6. Todo
pobre diabo (que careça dos contatos necessários para evitar ser lançado às
trincheiras, com drones assassinos apontando para ele desde o céu) deve ser
recrutado para o exército. Esqueça pagar salário aos soldados. Todos os
pagamentos devem ser direcionados à Palantir, onde nosso próprio pessoal
prestará seu “serviço nacional”, deixando morrer aqueles que não são
acionistas. ||| [6. O serviço nacional deveria ser um dever universal.
Como sociedade, deveríamos considerar seriamente a possibilidade de nos
afastarmos de um exército composto exclusivamente por voluntários e só travar a
próxima guerra se todos compartilharmos o risco e o custo.]
>>
7. A
Palantir trabalha horas extras para equipar os fuzileiros navais estadunidenses
com robôs assassinos que lhes tiram qualquer resquício de juízo ético que ainda
lhes reste no campo de batalha. A sociedade estadunidenses deve ficar
totalmente incapacitada para qualquer debate que restrinja a capacidade da
Palantir de fazer com que o exército estadunidense elimine qualquer
oportunidade restante de rejeitar a escolha de alvos por parte de seu software.
||| [7. Se um fuzileiro naval estadunidense pedir um rifle melhor,
deveríamos fabricá-lo; e o mesmo vale para o software. Como país, deveríamos
ser capazes de manter um debate sobre a conveniência da ação militar no
exterior sem hesitar em nosso compromisso com aqueles a quem pedimos que se
coloquem em perigo.]
>>
8. A
Palantir deplora o fato de que o setor público ainda não esteja totalmente
desprovido de consciência. Os funcionários públicos devem ser demitidos em
massa, exceto alguns poucos aprovados pela Palantir, que receberão enormes
salários, pagos pelos contribuintes. ||| [8. Os funcionários públicos
não devem ser nossos sacerdotes. Qualquer empresa que remunerasse seus
empregados da mesma forma que o governo federal remunera os funcionários
públicos teria dificuldades para sobreviver.]
>>
9. A
Palantir acredita que Donald Trump deve ser beatificado por se dedicar ao
serviço público. Não perdoar tudo que pessoas como Trump fazem põe em perigo
nossa alma, sem mencionar que aumenta a possibilidade de que haja funcionários
que restrinjam o malvado projeto da Palantir. ||| [9. Deveríamos
mostrar muito mais indulgência para com aqueles que se submeteram à vida
pública. A erradicação de qualquer espaço para o perdão — o abandono de toda
tolerância com as complexidades e contradições da psique humana — pode nos
deixar com um elenco de personagens no comando dos quais acabaremos nos
arrependendo.]
>>
10. A
política deve ser como a IA, desprovida de qualquer coisa que possa se
confundir com a empatia humana. Aqueles que recorrem à arena política para
alimentar sua alma e seu senso de identidade devem ser enviados ao gulag imediatamente!
||| [10. A psicologização da política moderna está nos desviando do
caminho. Aqueles que olham para a arena política para alimentar sua alma e seu
senso de si, que dependem excessivamente de que sua vida interior encontre
expressão em pessoas que talvez nunca conheçam, ficarão decepcionados.]
>>
11. Há
algumas pessoas ansiosas demais por acelerar o desaparecimento da Palantir.
Elas deveriam repensar isso, ou então…! ||| [11. Nossa sociedade
tornou-se excessivamente impaciente em acelerar e, frequentemente, até celebrar
o desaparecimento de seus inimigos. A derrota de um oponente é um momento para
reflexão, não para celebração.]
>>
12. A
Palantir não fabrica armas nucleares, mas desenvolve alegremente outras armas
de destruição em massa. Anunciamos com orgulho que já estamos prontos para
adicionar ao Armagedom nuclear a ameaça impulsionada por IA à existência da
humanidade. ||| [12. A era atômica está chegando ao fim. Uma era de
dissuasão, a era atômica, está chegando ao fim, e está prestes a começar uma
nova era de dissuasão baseada em IA.]
>>
13. Nenhum
outro país na história do mundo cometeu tantos crimes de guerra em nome do
progresso e da liberdade. Os Estados Unidos oferecem liberdade infinita a
pessoas como os fundadores da Palantir para que lucrem tão generosamente
infligindo tanto dano à humanidade. ||| [13. Nenhum outro país na
história do mundo promoveu os valores progressistas mais do que este. Os
Estados Unidos estão longe de ser perfeitos. Mas é fácil esquecer quantas
oportunidades a mais existem neste país para aqueles que não pertencem às
elites hereditárias do que em qualquer outra nação do planeta.]
>>
14. O
poder estadunidense tem se deleitado em provocar uma guerra atrás da outra, um
golpe de Estado atrás do outro, um desastre financeiro evitável atrás do outro.
Muitos esqueceram ou talvez tenham dado como certa a capacidade dos Estados
Unidos de travar guerras eternas em nome da paz e da democracia. ||| [14.
O poder estadunidense tornou possível uma paz extraordinariamente prolongada.
Muitos esqueceram, ou talvez deem como certo, que durante quase um século
prevaleceu no mundo uma certa versão de paz sem um conflito militar entre
grandes potências. Pelo menos três gerações – bilhões de pessoas, seus filhos e
agora seus netos – nunca conheceram uma guerra mundial.]
>>
15. O
fascismo alemão e japonês deve voltar a ser grande. A desnazificação da
Alemanha foi uma correção excessiva pela qual a Europa está pagando agora um
alto preço. Um compromisso similar e muito fora de lugar com o pacifismo
japonês também deve terminar imediatamente! ||| [15. A neutralização da
Alemanha e do Japão após a guerra deve ser revertida. O desarmamento da
Alemanha foi uma correção excessiva pela qual a Europa está pagando agora um
alto preço. Um compromisso similar e altamente teatral com o pacifismo japonês,
se mantido, também ameaçará alterar o equilíbrio de poder na Ásia.]
>>
16. Devemos
aplaudir aqueles que tentam monopolizar tudo através de generosos contratos
governamentais. Os bilionários não devem se contentar simplesmente com seus
bilhões. Para se tornarem ainda mais obscenamente ricos, eles precisam de
grandes narrativas que os ajudem a convencer os pobres a usar sua liberdade
para mantê-los, os bilionários, no poder. E, a propósito, a Palantir adora
Elon, especialmente sua grande narrativa inspirada no apartheid. ||| [16.
Devemos aplaudir aqueles que tentam construir onde o mercado falhou. A cultura
quase zomba do interesse de Musk pela grande narrativa, como se os bilionários
devessem se limitar a enriquecer a si mesmos… Qualquer curiosidade ou interesse
genuíno pelo valor do que ele criou é essencialmente descartado, ou talvez
escondido sob um desprezo apenas velado.]
>>
17. O
Vale do Silício deve ser livre para fazer nas cidades dos Estados Unidos o que
fez em Gaza. Muitos políticos em todos os Estados Unidos têm encolhido os
ombros, em essência, ao conceder à Palantir o direito de aniquilar todas as
liberdades civis e direitos humanos restantes. Isso deve acabar. ||| [17.
O Vale do Silício deve desempenhar um papel no combate aos crimes violentos.
Muitos políticos em todos os Estados Unidos têm encolhido os ombros diante dos
crimes violentos, abandonando qualquer esforço sério para abordar o problema ou
assumir qualquer risco com seus eleitores ou doadores ao propor soluções e
experimentos no que deveria ser uma tentativa desesperada de salvar vidas.]
>>
18. O
sindicato de Epstein deveria cair no esquecimento para que pessoas encantadoras
como Trump e os Clinton não se vejam dissuadidas de entrar no governo. A esfera
pública deve estar livre de escrutínio, a menos que entrem nela subversivos
como Sanders ou Mamdani. ||| [18. A exposição despiedadada vida privada
de figuras públicas afasta talentos demais do serviço público. A esfera pública
— e os ataques superficiais e mesquinhos contra aqueles que ousam fazer algo
além de enriquecer — tornou-se tão implacável que a república acaba ficando com
um contingente significativo de indivíduos ineficazes e vazios, cuja ambição
até poderia ser perdoada se houvesse, em seu interior, alguma estrutura genuína
de crenças à espreita.]
>>
19. Nós
amamos figuras públicas banais, desde que deem à Palantir todos os contratos
suculentos. Também amamos figuras públicas pitorescas que dão à Palantir todos
os contratos suculentos. ||| [19. A cautela na vida pública que, sem
perceber, fomentamos é corrosiva. Aqueles que não dizem nada mal,
frequentemente não dizem quase nada.]
>>
20. Precisamos
de mais ópio para as massas, já que elas não estão suficientemente embriagadas
para que possamos perseguir sem obstáculos sua completa subjugação. Questionar
a superstição organizada é perigoso e deve acabar. ||| [20. É preciso
resistir à intolerância generalizada em relação às crenças religiosas em certos
círculos. A intolerância da elite em relação às crenças religiosas é talvez um
dos sinais mais reveladores de que seu projeto político constitui um movimento
intelectual menos aberto do que muitos de seus membros afirmam.]
>>
21. É
hora de recuperar a hierarquia racial de Hitler, com os fundadores da Palantir
e Elon em seu topo ariano. É preciso descartar a ideia de que é errado julgar
alguém pela cor de sua pele, sua origem étnica ou sua religião. ||| [21.
Algumas culturas produziram avanços vitais; outras continuam sendo
disfuncionais e regressivas. Todas as culturas são agora iguais. As críticas e
os juízos de valor estão proibidos. No entanto, este novo dogma ignora o fato
de que certas culturas e, de fato, subculturas… produziram maravilhas. Outras
se mostraram medíocres e, pior ainda, regressivas e prejudiciais.]
>>
22. Os
negros, os muçulmanos, a maioria dos asiáticos e, claro, as mulheres, são
subumanos inferiores. Os homens dos Estados Unidos, e mais amplamente do
Ocidente, têm resistido durante o último meio século a colocar esses subumanos
em seu lugar em nome da inclusividade. Foi um erro. Nunca se deve permitir a
entrada de tais subumanos, exceto como serventes ou provedores de serviços
sexuais – pelo menos até que possamos melhorar nossos robôs, caso em que não
precisaremos deles de forma alguma. ||| [22. Devemos resistir à
tentação superficial de um pluralismo vazio e sem sentido. Nós, nos Estados
Unidos e, mais amplamente, no Ocidente, temos resistido durante o último meio
século a definir as culturas nacionais em nome da inclusividade. Mas inclusão
em quê?]
¨
O manifesto Palantir e a soberania digital alheia. Por
James Görgen
Imagine
que uma empresa brasileira de análise de dados e inteligência artificial —
fundada com capital inicial da ABIN, tendo o Ministério da Defesa como
principal cliente e responsável por contratos com agências de segurança em
outros países — publicasse, em uma rede social, um manifesto de 22 pontos
declarando que a elite tecnológica do Brasil tem "obrigação afirmativa de
participar da defesa da nação", que debates éticos sobre tecnologia
militar são "teatrais" e uma perda de tempo, que o poder do Brasil "tornou
possível uma paz extraordinariamente longa", que a época do soft
power acabou e que culturas que não acompanharam o desenvolvimento
brasileiro "permanecem disfuncionais e regressivas." Imagine, ainda,
que essa empresa tivesse contratos ativos com agências públicas de saúde e
educação dos Estados Unidos — contratos firmados sem licitação, através de uma
triangulação com uma estatal local. Qual seria uma resposta possível de
Washington? Na conjuntura atual, seria imediata, enérgica e previsível.
Convocação do embaixador, acionamento do Comitê de Investimentos Estrangeiros,
investigações no Congresso e quase certamente sanções. Nenhum governo empenhado
em garantir a soberania nacional toleraria que uma empresa estrangeira,
com laços com sua
comunidade de inteligência, operasse dentro de estruturas públicas sensíveis
enquanto declarava lealdade explícita a outra nação.
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O manifesto
Pois é
exatamente isso que a empresa estadunidense Palantir acaba de fazer. No último
fim de semana, a conta oficial da Palantir no X publicou um texto de 22 pontos, apresentado como
síntese do livro “The Technological Republic”, que teve o CEO da empresa, Alex
Karp, como um dos autores. A abertura — "porque nos perguntam muito"
— simulava uma resposta despretensiosa. O conteúdo é um programa geopolítico explícito
de uma empresa que se
fundiu à máquina do
maior complexo industrial militar da terra. Em um estilo caricato, o primeiro ponto
afirma que o Vale do Silício tem "obrigação afirmativa de participar da
defesa da nação" — sendo a nação, sem qualquer ambiguidade, os Estados
Unidos. O quinto declara que a questão não é se armas de IA serão construídas, "mas
quem as construirá e com qual propósito", descartando debates éticos como
"teatrais". O décimo segundo anuncia que "a era atômica está
terminando" e que uma nova era de dissuasão construída sobre IA está
prestes a começar. O décimo quinto defende desfazer a contenção imposta ao
Japão e à Alemanha após a Segunda Guerra. Os pontos finais denunciam o
pluralismo como "vazio e oco" e afirmam que "algumas culturas
produziram avanços vitais enquanto outras permanecem disfuncionais e
regressivas."
Como
bem sintetizou Eliot
Higgins,
fundador do Bellingcat,
esses 22 pontos não são filosofia flutuando no espaço — são a ideologia pública
de uma empresa cuja receita depende da política que está advogando. Não é a
declaração de um fornecedor neutro de tecnologia. É a confissão de que a
Palantir é um instrumento de poder dos Estados Unidos — e que seus contratos
com governos estrangeiros existem dentro dessa lógica. Com um olhar mais
corporativo, Don Moynihan critica o manifesto da
Palantir por promover uma fusão entre poder estatal e tecnologia do Vale do
Silício sem prestação de contas, permitindo que a empresa exerça influência
sobre decisões governamentais via contratos opacos, enquanto evita escrutínio
público ou congressional. Ele argumenta que isso cria um "império
corporativo" ideológico, onde fornecedores de serviços ao Estado como
Palantir moldam políticas de defesa e soberania digital sem responsabilidade
democrática, contrastando com a necessidade de capacidade interna governamental
para evitar dependências arriscadas e politizadas.
<><>
Atuação no Brasil
A
pergunta que o manifesto torna impossível de adiar é: diante desta declaração,
o que a Palantir faz atualmente dentro do Estado brasileiro e até quando este
vínculo se sustentará?
A
resposta mais documentada vem do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
(FNDE). Desde março de 2024, a Palantir faz gestão e análise de dados do
Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar (Pnate). Como mostrou a
revista Carta Capital, o Relatório de Gestão
do FNDE do
primeiro semestre 2025, que atualmente não se encontra mais na página do Fundo,
ainda confirmava o uso do software Palantir Foundry e da Artificial
Intelligence Platform (AIP). A publicação de 2024 ainda está
disponível e menciona
explicitamente.
O contrato foi viabilizado por uma triangulação que merece escrutínio. Via
Serpro, o Estado contratou a infraestrutura de nuvem da Amazon Web Services e,
dentro do AWS Marketplace, a Palantir entrou como camada adicional de serviço —
sem licitação específica, sem concorrência pública. O próprio gerente de Cloud
do Serpro confirmou o arranjo em evento no
FNDE: "O Serpro é um grande viabilizador para que o FNDE consiga ter
acesso às ferramentas da AWS e da Palantir." A estatal pública de TI
criada para ser uma alternativa de constituição de nossa soberania digital
foi convertida em
intermediária de
uma empresa que acaba de declarar lealdade à outra nação. E o FNDE é apenas o
caso documentado. O vice-presidente da Palantir para a América Latina afirmou, em agosto de 2024,
que o sistema da empresa "já roda em importantes organizações do país,
desde o setor de saúde pública até agências de educação." Incorporada em
uma declaração de um acordo com empresa privada, a menção a instituições estatais
foi feita sem nomear contratos, sem detalhar quais dados são processados e sem
que nenhuma autoridade brasileira tenha exigido esclarecimentos públicos.
Há
ainda uma camada de risco que permanece pouco visível no debate público
brasileiro. Em outubro de 2025, o ministro Alexandre Padilha renovou em Londres a parceria
bilateral entre o SUS e o NHS britânico — apresentada, com razão histórica,
como uma cooperação entre dois dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo.
O que o comunicado oficial não menciona é que o NHS opera hoje uma de suas
plataformas de dados sob um contrato de £330 milhões com a Palantir — contrato
que gerou resistência intensa de organizações de direitos digitais no Reino
Unido, como a Foxglove, exatamente pelos riscos de compartilhamento de dados e
pela ausência de debate público sobre a decisão. Pesquisadores da Fiocruz
e do Laboratório de Políticas Públicas e Internet já alertaram que a
cooperação Brasil-Reino Unido em saúde digital — que inclui a McKinsey como
"parceira implementadora" — , assinada inicialmente no governo
Bolsonaro, pode carregar embutida, sem que isso apareça em nenhum contrato
assinado em Brasília, a mesma arquitetura de dados que a Palantir opera no NHS.
Não há, até o momento, um contrato direto identificado entre a Palantir e o
Ministério da Saúde brasileiro. Mas quando a empresa declara publicamente que
seu sistema já roda em organizações brasileiras de saúde pública sem nomear
quais, e quando o principal parceiro de referência do SUS no exterior é um
sistema de saúde gerido pela Palantir, a ausência de transparência deixa de ser
um detalhe técnico e passa a ser, ela mesma, o problema.
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O espelho suíço
Na
Suíça, o processo foi semelhante. A Palantir abriu escritório em Zurique em
2018 e buscou contratos com o governo federal. Em dezembro do ano passado, a
revista independente Republik publicou investigação baseada em
59 pedidos de acesso à informação revelando que o Exército suíço havia
conduzido auditorias formais concluindo que os sistemas da Palantir eram
incompatíveis com a soberania helvética. A conclusão foi estrutural. Mesmo com
servidores em solo suíço, a legislação americana pode compelir a empresa a
fornecer acesso a dados ao governo dos EUA — um risco avaliado não como
gerenciável, mas como característica inerente ao produto. A reação da
Palantir foi elucidativa. Em vez de contestar
os fatos, a empresa acionou um mecanismo judicial de "direito de
resposta" exigindo que a Republik publicasse sua versão
dos eventos — sem indicar quais fatos eram incorretos, uma vez que os
documentos eram de acesso público. A Federação Europeia de Jornalistas
classificou a ação como SLAPP, conhecida estratégia para silenciar a
participação pública. Uma empresa de 400 bilhões de dólares processando uma
pequena revista independente que ousou informar cidadãos suíços sobre a
avaliação de risco conduzida pelo próprio governo deles. O caso ainda tramita.
<><>
Contrato emergencial
A
França oferece talvez o exemplo mais
perturbador de dependência estrutural à Palantir. Em 2016, a partir dos
impactos dos atentados em Paris, a DGSI — agência de inteligência interna
francesa — contratou o software de vigilância Gotham, da Palantir, em caráter
emergencial. O que era para ser uma solução temporária de gestão de crise
tornou-se permanente. Em dezembro do ano passado, o contrato emergencial foi
renovado pela terceira vez por mais três anos. Hoje, agentes da própria empresa
estão fisicamente alocados dentro dos serviços de inteligência franceses para
garantir o funcionamento do sistema — uma presença que o próprio Estado francês
reconhece como risco real de vazamento de dados. Isso é tão procedente que duas
divisões da DGSI, as de proteção de ativos econômicos e de contraespionagem,
proibiram internamente o uso do software. O paradoxo é ainda mais brutal que o
caso suíço. Ou seja, uma agência encarregada de detectar espionagem estrangeira
opera com tecnologia de uma empresa estadunidense, cujo acesso pode ser cortado
unilateralmente por Washington a qualquer momento. Exatamente o tipo de
alavancagem que a administração Trump já demonstrou disposição de usar contra
aliados que contrariaram seus interesses.
<><>
Soberania na berlinda
O
manifesto publicado no X representa algo sem precedentes no debate global sobre
governança digital e mesmo sobre a atuação político-corporativa de empresas dos
EUA. Trata-se de uma grande empresa de tecnologia com contratos ativos em
governos de múltiplos países declarando publicamente, de forma organizada e com
orgulho, que atua como instrumento de poder de uma nação específica, que
considera debates éticos como obstáculos teatrais e que sua lealdade está
colocada no projeto geopolítico dos Estados Unidos. Empresas estadunidenses de
tecnologia sempre estiveram sujeitas à legislação que as obriga a responder ao
governo dos EUA. Empresas de outros ramos participaram de golpes de estado e
sustentaram ditaduras na América Latina. Mas nenhuma havia transformado essa
realidade em identidade corporativa — até agora. Nesse contexto, manter
contratos com uma empresa que acaba de publicar que tem "obrigação
afirmativa" com a defesa dos Estados Unidos não é apenas inconsistência
política. É uma contradição que compromete a credibilidade de qualquer agenda
de soberania digital que o Brasil queira sustentar — inclusive a Nuvem de
Governo que o próprio governo federal construiu com Serpro e Dataprev para
proteger dados sensíveis. Mesmo as declarações internacionais que o Presidente
Lula vem manifestando neste sentido se tornam prejudicadas por esta relação
contratual. A Suíça conduziu auditorias formais e chegou à conclusão de que o
produto da Palantir era estruturalmente incompatível com sua soberania. O
Brasil precisa fazer a mesma pergunta — e com a mesma seriedade: auditoria dos
contratos, verificação dos dados processados, avaliação dos riscos estruturais
e rescisão dos vínculos que não possam ser justificados à luz dos compromissos
do país com a proteção de dados de seus cidadãos.
Voltemos
à cena imaginária do início. Se uma empresa brasileira com DNA na ABIN fizesse
tudo isso em solo americano, nós chamaríamos de espionagem. Quando a Palantir
faz o equivalente em território brasileiro, nós chamamos de modernização da
administração pública. Isso precisa mudar.
Fonte: Por
Yanis Varoufakis, no CTXT | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras/Brasil
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