sexta-feira, 24 de abril de 2026

Contra a burrice: uma coisa séria

“Ensinada nas escolas, universidades, e principalmente nas academias de louros e letras, ela está presente.” No bojo do Maio de Paris e da Primavera de Praga, foi isso que o amigo Tom Zé cantou em São Paulo a respeito da burrice.

O ano era 1968. Com os quatro cascos atolados na lama infeta da ditadura militar, o Brasil inchava, sangrava, padecia. No grupo dos dissidentes e resistentes, os motivos eram muitos e variados para deixar a arte de lado, tirar a flor do fuzil, e partir ao combate. Mas como a arte é teimosa, ela não parou: produziu, cantou e manifestou, apesar de exílio e tortura.

As ardilosas artimanhas poéticas então produzidas para driblar a censura afetaram, obviamente, a estética vigente. Como qualquer artista na sua situação, Tom Zé foi obrigado a disfarçar, dissimular, brincar de esconde-esconde semântico com as autoridades da ordem e dos bons-costumes. Nessa brincadeira de atacar o opressor pelas beiradas, muito humor, muita ironia; e, sobretudo, muita sátira: arma-mor dos excluídos em tempos de tirania. E a sátira, como já sabemos, conduz, quase sempre, à caricatura.

Através do jornalismo, a caricatura ficou famosa. De algum modo, cada um de nós se sente familiar do procedimento, e isso favorece o ensaísta que intenta convocá-lo. Todo mundo já viu que se o tirano é alto, ele será representado, por exemplo, como um poste; se é gordo, como um leitão; se é rico, como um cifrão. Nada disso choca a população.

Mas, que dizer das caricaturas que escritores e filósofos fazem não do corpo dos tiranos, mas das paixões que eles inspiram? Como reagimos às caricaturas da hegemonia? O que sentimos quando nos deparamos com um presidente pintado de burro? Enfim, o que se pode dizer hoje de forma geral a respeito da burrice; daqueles que dela zombam; e dos efeitos que a eventual zombaria suscita?

No nosso brasileiríssimo caso, há três pistas a seguir:

1) nossas canetas quase não abordam a burrice;

2) o desejo coletivo de não abordar a burrice ficou forte demais para que jornais e editoras possam superá-lo sem ônus;

3) quando prosa e verso decidem abordar a burrice, excitam afetos hiper negativos na maioria esmagadora da população.

Em miúdos, o quadro atual da nossa sociedade poderia ser legendado pelo famoso adágio: “não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe”.

Urge, portanto, reativar uns esclarecimentos sobre a natureza disto que chamamos de burrice e, por razões evidentes, daquilo que chamamos de inteligência.

Nada mais justo do que convocar meu amigo Clément Rosset, que diz o seguinte:

Baseada em uma constatação de não-compreensão, a ininteligência não consegue captar certas mensagens. Fica quieta, silenciosa. Nada a ver com a burrice, que recebe e emite um número infindo de mensagens. A burrice é intervencionista: consiste não em mal decifrar, mas em emitir, continuamente. Ela fala, não para de “acrescentar”. A ininteligência padece; a burrice age: sempre toma a iniciativa. A ininteligência é retraída, esquiva-se de uma mensagem que não entende; já a burrice, sempre segue em frente. A ininteligência não passa de uma recusa, ou melhor, de uma impossibilidade de participação; a burrice se manifesta através de um engajamento perpétuo. A ininteligência fecha as portas: sinaliza a proibição de certas vias de acesso a tal ou tal conhecimento, encolhendo assim o campo da experiência. A burrice se abre para tudo: fazendo de qualquer coisa um objeto de atenção e de engajamento possível, ela fornece ocupação para toda a vida. A ininteligência não passa de uma privação de existência, de uma falta de potência de agir. A burrice é uma vocação, ou melhor, um sacerdócio, com seus ídolos, seus padres, seus fiéis.

A burrice é intervencionista, afirma o filósofo. Iniciativa, engajamento perpétuo. Obstinação! Isso explicaria em parte a atividade mortífera dos atuais dirigentes, que já nem se escondem para rir da desgraça que provocam. Matam rindo e riem matando, tanto a arte quanto a gente. Seja o que for, parece bem útil distinguir burrice de ignorância.

E vice-versa.

Ora, na letra de outra canção, gravada em 1973, o caro Tom Zé, destilando ironia, apresenta dois personagens de um jogo dialético. A situação se assemelha à de um pupilo perante o guru. “— E por que é que a gente tem que ter um medo danado de tudo na vida?, diga Zezé. — É pra aprender que o medo é o nosso melhor conselheiro, viu Dodó. — Ah.”

O negócio é que, ironia ou não, quando se trata de medo, o Diabo tem menos da cruz que o Brasil da arrogância.

Assim, nasce um colossal embaraço quando alguém que não tem papa na língua, feito o abusado Schopenhauer, vem recomendar que debatamos não

“com o primeiro que aparece, mas somente com pessoas das quais sabemos que elas têm entendimento suficiente para não vomitar abobrinhas demais; que recorrerão à razão e não a citações; saberão ouvir um argumento racional e a ele se render, mesmo que venha da boca de um adversário; e terão honestidade intelectual suficiente para reconhecer que estão erradas se a verdade estiver no campo oposto”.

O problema nasce porque qualquer sujeito que se expressa assim é percebido pela complexão nacional brasileira como um pedante, e, para a complexão nacional brasileira, a pedantice é a pior das afecções – pior que a burrice, justamente –, ainda mais quando o pedante se chama Schopenhauer e pretende que, “em cem pessoas, uma só, e olhe lá, merece que com ela debatamos; as demais, nós as deixaremos dizer o que quiserem, pois extravagar é um direito”.

Veja que beleza,

em diversas cores,

veja que beleza,

em vários sabores,

a burrice está na mesa.

Durante a ditadura militar de 1964-1985, foi mesmo burrice para todos os lados, especialmente no ímpeto dos generais, e na grandiloquência dos doutos que os aconselhavam. Em 1968, Tom Zé alertou. Tratava-se então de uma burrice ensinada nas escolas e, principalmente, nas academias. Ou seja, não era burrice oriunda de “falta”. Aquela infâmia ditatorial não resultava de uma falta de instrução, de educação, de diploma. Ou de inteligência! Muito pelo contrário. Afinal, como acrescenta Rosset, “os imbecis obtêm geralmente êxito na tarefa que empreenderam: o que prova primeiro que eles não faltam com inteligência, e, acessoriamente, que são perigosos”.

Em outros termos, na complexão brasileira foi semeada a ideia encantadora que um certificado de estudos superiores equivale a uma vassoura de bruxa, dotada da vocação natural de varrer para longe a tal da imbecilidade. Não foi por acaso que, menos de uma década após o regime militar, veio o tal do FHC e estuprou as leis federais que inviabilizavam a abertura dessas lucrativas butiques de diploma que usam o nome de Faculdade para sair por aí endividando e emburrecendo, impune e indiscriminadamente, as trabalhadoras e os trabalhadores.

Nada mais instrutivo nesse sentido que um artigo publicado na Itália em 1917, e assinado por Antonio Gramsci. Além de esclarecedor, o trecho seguinte é tão semelhante à nossa atualidade que, fora citá-lo, escolhemos adaptá-lo ao nosso próprio contexto:

As escolas particulares […] vão de vento em popa [no Brasil]. Nenhuma lei entrava sua proliferação nem a liberdade do seu desenvolvimento. Podem concorrer livremente com a escola do Estado. Se são melhores, se oferecerem a quem as frequenta uma instrução melhor que a que é possível encontrar nas escolas públicas, elas poderão multiplicar-se infinitamente e cobrar as mensalidades que quiserem. O Estado reconhece o direito de comprar a mercadoria “instrução” livremente. Mas a mercadoria “instrução” tem pouco valor [no Brasil], mesmo que seja cara. O que tem valor é a mercadoria “certificado”, que em contrapartida é baratíssima. E é aí que começam as dores [nacionais].

Como diria um outro italiano: A imbecilidade é uma coisa séria. Vale ressaltar aliás que Fernando Henrique Cardoso se aposentou como professor universitário antes dos quarenta. Como justificar tal privilégio eu não sei. Sei porém que o estrago provocado pelas medidas desse ilustre aposentado nas fundações da educação nacional não resulta de falta de inteligência.

Assim como a inteligência, a burrice é, portanto, uma potência. Além de fazer parte de nós, ambas são, entretanto, independentes. Uma não é o contrário da outra! De jeito nenhum.

E, para encerrar, basta postular que, em vez de marca de arrogância, toda crítica da burrice, caricatural ou não, é um gesto de amor: as almas que ousam fazê-la, além de correrem o risco de revelar os próprios vícios, estampam ampla solidariedade à parte da população que mais sofre com a hiperatividade, majestosamente danosa, dessa ilustre burrice diplomada (mais que nunca armada de tribuna e bancada.

 

Fonte: Por Diogo Santiago, em Le Monde

 

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