Contra
a burrice: uma coisa séria
“Ensinada
nas escolas, universidades, e principalmente nas academias de louros e letras,
ela está presente.” No bojo do Maio de Paris e da Primavera de Praga, foi isso
que o amigo Tom Zé cantou em São Paulo a respeito da burrice.
O ano
era 1968. Com os quatro cascos atolados na lama infeta da ditadura militar, o
Brasil inchava, sangrava, padecia. No grupo dos dissidentes e resistentes, os
motivos eram muitos e variados para deixar a arte de lado, tirar a flor do
fuzil, e partir ao combate. Mas como a arte é teimosa, ela não parou: produziu,
cantou e manifestou, apesar de exílio e tortura.
As
ardilosas artimanhas poéticas então produzidas para driblar a censura afetaram,
obviamente, a estética vigente. Como qualquer artista na sua situação, Tom Zé
foi obrigado a disfarçar, dissimular, brincar de esconde-esconde semântico com
as autoridades da ordem e dos bons-costumes. Nessa brincadeira de atacar o
opressor pelas beiradas, muito humor, muita ironia; e, sobretudo, muita sátira:
arma-mor dos excluídos em tempos de tirania. E a sátira, como já sabemos,
conduz, quase sempre, à caricatura.
Através
do jornalismo, a caricatura ficou famosa. De algum modo, cada um de nós se
sente familiar do procedimento, e isso favorece o ensaísta que intenta
convocá-lo. Todo mundo já viu que se o tirano é alto, ele será representado,
por exemplo, como um poste; se é gordo, como um leitão; se é rico, como um
cifrão. Nada disso choca a população.
Mas,
que dizer das caricaturas que escritores e filósofos fazem não do corpo dos
tiranos, mas das paixões que eles inspiram? Como reagimos às caricaturas da
hegemonia? O que sentimos quando nos deparamos com um presidente pintado de
burro? Enfim, o que se pode dizer hoje de forma geral a respeito da burrice;
daqueles que dela zombam; e dos efeitos que a eventual zombaria suscita?
No
nosso brasileiríssimo caso, há três pistas a seguir:
1)
nossas canetas quase não abordam a burrice;
2) o
desejo coletivo de não abordar a burrice ficou forte demais para que jornais e
editoras possam superá-lo sem ônus;
3)
quando prosa e verso decidem abordar a burrice, excitam afetos hiper negativos
na maioria esmagadora da população.
Em
miúdos, o quadro atual da nossa sociedade poderia ser legendado pelo famoso
adágio: “não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe”.
Urge,
portanto, reativar uns esclarecimentos sobre a natureza disto que chamamos de
burrice e, por razões evidentes, daquilo que chamamos de inteligência.
Nada
mais justo do que convocar meu amigo Clément Rosset, que diz o seguinte:
Baseada
em uma constatação de não-compreensão, a ininteligência não consegue captar
certas mensagens. Fica quieta, silenciosa. Nada a ver com a burrice, que recebe
e emite um número infindo de mensagens. A burrice é intervencionista: consiste
não em mal decifrar, mas em emitir, continuamente. Ela fala, não para de
“acrescentar”. A ininteligência padece; a burrice age: sempre toma a
iniciativa. A ininteligência é retraída, esquiva-se de uma mensagem que não
entende; já a burrice, sempre segue em frente. A ininteligência não passa de
uma recusa, ou melhor, de uma impossibilidade de participação; a burrice se
manifesta através de um engajamento perpétuo. A ininteligência fecha as portas:
sinaliza a proibição de certas vias de acesso a tal ou tal conhecimento,
encolhendo assim o campo da experiência. A burrice se abre para tudo: fazendo
de qualquer coisa um objeto de atenção e de engajamento possível, ela fornece
ocupação para toda a vida. A ininteligência não passa de uma privação de
existência, de uma falta de potência de agir. A burrice é uma vocação, ou
melhor, um sacerdócio, com seus ídolos, seus padres, seus fiéis.
A
burrice é intervencionista, afirma o filósofo. Iniciativa, engajamento
perpétuo. Obstinação! Isso explicaria em parte a atividade mortífera dos atuais
dirigentes, que já nem se escondem para rir da desgraça que provocam. Matam
rindo e riem matando, tanto a arte quanto a gente. Seja o que for, parece bem
útil distinguir burrice de ignorância.
E
vice-versa.
Ora, na
letra de outra canção, gravada em 1973, o caro Tom Zé, destilando ironia,
apresenta dois personagens de um jogo dialético. A situação se assemelha à de
um pupilo perante o guru. “— E por que é que a gente tem que ter um medo danado
de tudo na vida?, diga Zezé. — É pra aprender que o medo é o nosso melhor
conselheiro, viu Dodó. — Ah.”
O
negócio é que, ironia ou não, quando se trata de medo, o Diabo tem menos da
cruz que o Brasil da arrogância.
Assim,
nasce um colossal embaraço quando alguém que não tem papa na língua, feito o
abusado Schopenhauer, vem recomendar que debatamos não
“com o
primeiro que aparece, mas somente com pessoas das quais sabemos que elas têm
entendimento suficiente para não vomitar abobrinhas demais; que recorrerão à
razão e não a citações; saberão ouvir um argumento racional e a ele se render,
mesmo que venha da boca de um adversário; e terão honestidade intelectual
suficiente para reconhecer que estão erradas se a verdade estiver no campo
oposto”.
O
problema nasce porque qualquer sujeito que se expressa assim é percebido pela
complexão nacional brasileira como um pedante, e, para a complexão nacional
brasileira, a pedantice é a pior das afecções – pior que a burrice, justamente
–, ainda mais quando o pedante se chama Schopenhauer e pretende que, “em cem
pessoas, uma só, e olhe lá, merece que com ela debatamos; as demais, nós as
deixaremos dizer o que quiserem, pois extravagar é um direito”.
Veja
que beleza,
em
diversas cores,
veja
que beleza,
em
vários sabores,
a
burrice está na mesa.
Durante
a ditadura militar de 1964-1985, foi mesmo burrice para todos os lados,
especialmente no ímpeto dos generais, e na grandiloquência dos doutos que os
aconselhavam. Em 1968, Tom Zé alertou. Tratava-se então de uma burrice ensinada
nas escolas e, principalmente, nas academias. Ou seja, não era burrice oriunda
de “falta”. Aquela infâmia ditatorial não resultava de uma falta de instrução,
de educação, de diploma. Ou de inteligência! Muito pelo contrário. Afinal, como
acrescenta Rosset, “os imbecis obtêm geralmente êxito na tarefa que
empreenderam: o que prova primeiro que eles não faltam com inteligência, e,
acessoriamente, que são perigosos”.
Em
outros termos, na complexão brasileira foi semeada a ideia encantadora que um
certificado de estudos superiores equivale a uma vassoura de bruxa, dotada da
vocação natural de varrer para longe a tal da imbecilidade. Não foi por acaso
que, menos de uma década após o regime militar, veio o tal do FHC e estuprou as
leis federais que inviabilizavam a abertura dessas lucrativas butiques de
diploma que usam o nome de Faculdade para sair por aí endividando e
emburrecendo, impune e indiscriminadamente, as trabalhadoras e os
trabalhadores.
Nada
mais instrutivo nesse sentido que um artigo publicado na Itália em 1917, e
assinado por Antonio Gramsci. Além de esclarecedor, o trecho seguinte é tão
semelhante à nossa atualidade que, fora citá-lo, escolhemos adaptá-lo ao nosso
próprio contexto:
As
escolas particulares […] vão de vento em popa [no Brasil]. Nenhuma lei entrava
sua proliferação nem a liberdade do seu desenvolvimento. Podem concorrer
livremente com a escola do Estado. Se são melhores, se oferecerem a quem as
frequenta uma instrução melhor que a que é possível encontrar nas escolas
públicas, elas poderão multiplicar-se infinitamente e cobrar as mensalidades
que quiserem. O Estado reconhece o direito de comprar a mercadoria “instrução”
livremente. Mas a mercadoria “instrução” tem pouco valor [no Brasil], mesmo que
seja cara. O que tem valor é a mercadoria “certificado”, que em contrapartida é
baratíssima. E é aí que começam as dores [nacionais].
Como
diria um outro italiano: A imbecilidade é uma coisa séria. Vale ressaltar aliás
que Fernando Henrique Cardoso se aposentou como professor universitário antes
dos quarenta. Como justificar tal privilégio eu não sei. Sei porém que o
estrago provocado pelas medidas desse ilustre aposentado nas fundações da
educação nacional não resulta de falta de inteligência.
Assim
como a inteligência, a burrice é, portanto, uma potência. Além de fazer parte
de nós, ambas são, entretanto, independentes. Uma não é o contrário da outra!
De jeito nenhum.
E, para
encerrar, basta postular que, em vez de marca de arrogância, toda crítica da
burrice, caricatural ou não, é um gesto de amor: as almas que ousam fazê-la,
além de correrem o risco de revelar os próprios vícios, estampam ampla
solidariedade à parte da população que mais sofre com a hiperatividade,
majestosamente danosa, dessa ilustre burrice diplomada (mais que nunca armada
de tribuna e bancada.
Fonte:
Por Diogo Santiago, em Le Monde

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