sexta-feira, 24 de abril de 2026

Especialista alerta: 'A internet virou uma colônia — e ninguém tenta esconder isso'

A Internet opera hoje sob uma lógica de neocolonialismo digital, em que países inteiros dependem de plataformas, infraestruturas e regras impostas por grandes corporações norte-americanas, afirmou o especialista Lars Hilse à Sputnik. Para ele, "a Internet é uma colônia — e ninguém está tentando esconder isso".

O veterano especialista independente em cibersegurança Lars Hilse, em entrevista à Sputnik, afirmou que o debate sobre desigualdade digital mascara um problema mais profundo: a transformação da Internet em um sistema de dependência estrutural que limita a soberania de países inteiros.

"Não é uma lacuna. É uma arquitetura", resumiu o analista. Para ele, o termo "exclusão digital" suaviza uma realidade mais dura: a exploração ativa de nações que dependem de infraestrutura e serviços controlados por gigantes da tecnologia.

Hilse argumenta que o neocolonialismo digital não se refere apenas ao acesso desigual, mas ao controle das regras, dos fluxos de dados e da capacidade de desligar sistemas inteiros. Mesmo países com alta penetração de smartphones podem estar, segundo ele, "colonizados", caso dependam de Android, servidores do Google, publicidade da Meta (empresa dona do Facebook, Instagram e WhatsApp cujas atividades são proibidas na Rússia por serem consideradas extremistas) e armazenamento em nuvens regidas pela legislação dos Estados Unidos. "O que exatamente significa soberania nacional nesse contexto?", questiona.

O especialista descreve um mecanismo simples: tornar-se indispensável e, depois, tornar a saída impossível. Soluções gratuitas, como Google Workspace, criam dependência administrativa; nuvens como AWS e Azure capturam infraestrutura crítica; e sistemas de pagamento globais permitem que sanções norte-americanas interrompam economias inteiras. "Gratuito não é gratuito — é denominado em dados e dependência", afirma.

A camada de inteligência artificial (IA), diz Hilse, aprofunda a assimetria.

"E agora, IA. Talvez a camada mais insidiosa. Grandes modelos de linguagem exigem poder computacional e acesso contínuo à Interface de Programação de Aplicações [API, na sigla em inglês], recursos que apenas algumas empresas podem fornecer. Um governo que constrói serviços públicos com IA usando a API da OpenAI ou o Gemini do Google está, efetivamente, construindo sua soberania em terras alugadas — de um proprietário sujeito aos controles de exportação dos EUA. Durma bem", ironizou.

O analista também aponta que empresas como Google, Meta, Microsoft e Apple exercem influência direta sobre o cotidiano digital de bilhões de pessoas. O Google controla cabos submarinos e o ecossistema Android; a Meta domina a comunicação no Sul Global; a Microsoft administra a burocracia estatal de dezenas de países; e a Apple impõe taxas e regras sobre economias inteiras via iOS. "O cabo submarino é o império. Todo o resto vem a reboque", afirma.

Hilse relata ainda que dados coletados em países pobres alimentam perfis comportamentais vendidos a anunciantes globais, enquanto a receita é registrada em paraísos fiscais. Os dados, depois de processados, ofertam os mais diversos produtos e serviços nos fazendo questionar o que é privacidade.

"Isso é real! Quando eu trabalhava nas Maldivas, estava em uma chamada de Skype com um amigo e estávamos brincando sobre o tema do aborto. De repente, dez segundos depois, entro no Facebook e me deparo com um anúncio de clínicas de aborto anônimas no Sri Lanka [...] e isso foi há mais de uma década e meia!", lembrou.

A camada de consentimento, segundo ele, é ilusória. Em mercados onde o WhatsApp é essencial para trabalhar, recusar os termos de uso não é uma opção real. "Consentimento sob monopólio não é consentimento", afirma. Os termos, redigidos sob a legislação norte-americana, funcionam como concessões coloniais modernas.

Hilse também critica programas de segurança financiados pelos EUA, como os da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e empresas como Palantir, que, segundo ele, oferecem capacitação enquanto ampliam a visibilidade norte-americana sobre infraestruturas críticas.

"Você não está comprando uma ferramenta neutra. Está entrando em uma parceria com a agência de espionagem da sua contraparte", afirma.

Para o especialista, o sistema funciona independentemente da intenção individual de engenheiros ou gestores. "Os incentivos se alinham para desfavorecer os menos poderosos", disse, destacando ainda que a retórica da inclusão digital serve como cobertura ideológica para desviar críticas estruturais.

Hilse conclui que a disputa central não é tecnológica, mas geopolítica. "Isso não é uma lacuna. Isso é arquitetura", reforça. E, enquanto cabos, nuvens e plataformas permanecerem sob controle de poucas corporações norte-americanas, a soberania digital continuará sendo, para muitos países, apenas uma ilusão administrada.

•        Colonialismo de dados das big techs envolve soft power, repressão e economia, diz analista

O avanço das big techs e seu controle sobre o fluxo comunicacional e a circulação de informações levantam dúvidas crescentes sobre os impactos do poder político que essas empresas detêm. Além disso, questionam-se os limites entre a moderação de conteúdo e a censura privada baseada nos dados de usuários, fenômeno que gera impactos em escala global.

Nesse complexo ambiente virtual, com acentuada centralização por parte de grandes companhias de tecnologia, emerge uma espécie de colonização — tema inclusive destacado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua última visita a Barcelona, onde criticou plataformas tecnológicas que impõem um colonialismo digital.

Nessa perspectiva, Caio Almendra, cofundador do Instituto Brasileiro de Ciência de Dados (Bi0s) e sócio na rede de inovação Templo.cc, em entrevista à Sputnik Brasil, enfatiza que esse tipo de colonialismo moderno tem resquícios com o do passado e explica que a operacionalização matemática dos algoritmos também consegue prever comportamentos e tendências.

"O colonialismo de dados, assim como o antigo, envolve soft power que é a opinião, hard power que é a repressão e movimento econômico. A partir de um conjunto de dados, desenvolve-se na máquina a predictibilidade, ou seja, por meio da matemática, prevê-se o que pode acontecer. Isso não é previsão de futuro, mas sim algo estatístico. Inicialmente teve um valor econômico que é a recomendação de consumo [aos usuários]", disse.

Ainda no âmbito da economia, as big techs — por terem um poder concentrador no fluxo tecno-informacional — acabam tendo acesso ao valor de recursos a nível mundial, segundo o pesquisador, que também se refere ao conceito de colonialismo de dados como imperialismo de dados. Assim sendo, gerou-se o desenvolvimento da criptomoeda como forma de tentar driblar a vigilância imposta pelos grandes conglomerados do setor de tecnologia.

"As big techs sabem quanto dinheiro sai do bolso de cada pessoa e onde ela está, e entendem o fluxo de recursos a partir de big datas de quase toda a riqueza mundial. Uma das consequências desse imperialismo de dados é o surgimento da economia criptografada. Por isso que países sob sanções como Coreia do Norte, Irã e Cuba usam para conseguir existir fora do olho do grande irmão [big techs]", destaca.

<><> No espaço virtual, a opinião é restrita

Apesar de propagarem "liberdade" e "democracia" aos usuários que usam esses serviços para produzir conteúdo, plataformas como o Facebook e o Instagram da Meta (proibidas na Rússia por extremismo) concentram dados e algoritmos e até a capacidade de decidir quem fala, quem circula e quem desaparece do espaço digital. Para Almendra, como essas empresas são dos EUA, acabam agindo conforme os interesses de seu país de origem.

"Tanto na aplicação de repressão e de soft power, há uma evolução técnica que envolve comunicação. Hoje, a opinião na rede social é transformada em matemática e, com a ajuda da IA, pode censurar dados, que permite o controle fino da política. Por isso, mensagens de extrema direita têm mais alcance do que as de esquerda que não interessam ao governo americano", comenta.

O professor de história João Cláudio Pitillo, criador do canal Guerra Patriótica, teve sua conta no YouTube (plataforma administrada pelo Google) removida em outubro de 2025. O canal era uma de suas fontes de renda e, embora tenha obtido o restabelecimento do canal na esfera judicial, a decisão não garantiu o retorno da monetização.

Além disso, a gigante norte-americana excluiu seu e-mail pessoal no Gmail, gerando mais transtornos. O processo tramita na Justiça do Rio de Janeiro sob o número 3018351-88.2025.8.19.0001/RJ.

"O meu canal foi tirado do ar sob a alegação de que fiz vídeos glorificando o Hamas e o Hezbollah. A Justiça brasileira exigiu que restabelecesse o meu acesso aos meus vídeos. O Google reativou o meu canal sem monetização, e depois cancelaram meu e-mail, ou seja, estou sem acesso ao meu próprio canal. Estou recorrendo em segunda instância", revela.

<><> Pix desafia os interesses das big techs e dos EUA

Recentemente, o Pix, mais uma vez, foi mencionado em um relatório do governo dos Estados Unidos como algo prejudicial às operadoras de cartão de crédito estadunidenses, além de tornar a criticar a operação desse método de pagamento ser subordinado ao Banco Central. Nesse contexto, Almendra aponta que isso faz com que o Brasil demonstre a capacidade brasileira de ter sua soberania digital, assim como Rússia e China.

"Assim como a Rússia e a China, que têm suas próprias infraestruturas digitais, o Brasil tem algumas áreas que desenvolvem as suas ferramentas, como o Pix, que é uma infraestrutura digital de finanças que está sob ataque porque permite um método de pagamento sem empresas [estrangeiras] e, por isso, os EUA querem sancionar o Pix e não deixar que se expanda a outros países", conclui.

© Sputnik

Nesse cenário em que plataformas concentram dados, algoritmos e capacidade de decidir quem fala, quem circula e quem desaparece do espaço digital, dessa forma, o ciberespaço cada vez mais se torna uma trincheira de disputa geopolítica e de controle.

•        Para se tornar alternativa regional, Pix precisa eliminar dependência do SWIFT, diz especialista

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a "falta de vontade política" e constantes mudanças de orientação de governos impedem a criação de um sistema de pagamento, inspirado no modelo brasileiro, capaz de integrar e dinamizar as economias da região.

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, defendeu a adoção de um sistema de pagamento inspirado no Pix ou mesmo a expansão da ferramenta brasileira para seu país.

Petro pediu uma cooperação direta com o Brasil sobre o tema e afirmou nas redes sociais que o modelo brasileiro representa uma alternativa mais eficiente no sistema financeiro internacional.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Daniel Santos Kosinski, do Departamento de Evolução Econômica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destaca que um ponto normalmente esquecido em debates sobre o controle de transações financeiras é que elas são uma "ferramenta poderosa de informação" sobre a sociedade de um país.

"Nossos hábitos de consumo, o que nós gostamos ou o que nós não gostamos, com quem nós vivemos, quais são as nossas famílias, se nós temos filhos pequenos, grandes, se temos bichos de estimação, enfim, tudo isso pode ser deduzido simplesmente a partir das transferências financeiras que nós fazemos", explica.

Ele acrescenta que, dependendo do uso que for feito, essas informações também podem ser uma ferramenta de controle social. Diante disso, ao retirar consumidores das bandeiras de cartão de crédito norte-americanas, o Pix também reduz o controle que essas empresas têm sobre nossas informações financeiras.

"Então, da mesma forma que o Pix tem uma importância estratégica muito grande para o Brasil hoje, um sistema semelhante a ele terá para a Colômbia, terá para qualquer país que adote, que desenvolva algo parecido com o Pix."

Kosinski diz que um obstáculo para transformar o Pix em uma alternativa regional aos sistemas tradicionais de pagamento é o fato de ele depender dos bancos tradicionais para operar, que integram o sistema SWIFT.

"Você usa o Pix através de uma conta corrente em um banco comercial. No Banco do Brasil, no Bradesco, no Itaú, na Caixa, enfim, você precisa de uma conta de um banco comercial. E os bancos comerciais usam sistemas tradicionais, […] são parte integrante, são o próprio sistema tradicional. Então, se você usa o Pix, você está dentro, você não está fora de um sistema tradicional", afirma.

Logo, para se tornar uma alternativa regional aos sistemas tradicionais, o Pix precisaria ter uma nova configuração, que eliminasse a dependência do sistema SWIFT, o que, segundo ele, teria uma "grande oposição" dos bancos comerciais.

"Quer dizer, algum tipo de infraestrutura semelhante à do SWIFT para realizar os pagamentos internacionais, ligando um país ao outro, uma instituição financeira brasileira a uma estrangeira, por exemplo, mas sem passar pelo SWIFT."

Outro obstáculo apontado por Kosinski para a criação de um sistema de pagamento regional é a falta de vontade política. Ele frisa que a América Latina e do Sul são regiões instáveis, com mudanças radicais nas orientações de governo que atrapalham a integração regional.

"Por exemplo, hoje o Brasil e a Colômbia possuem governos convergentes em grande medida e que podem também convergir nesse objetivo. Tudo bem, vamos impulsionar um sistema de pagamentos latino-americano, mas e amanhã? Ou depois de amanhã? Ninguém sabe se continuará havendo essa convergência […], da mesma forma, Brasil e Argentina já tiveram governos convergentes em diferentes momentos", observa o especialista.

Maria Elena Rodríguez, professora de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), avalia que a criação de um sistema de pagamento sul-americano reduziria burocracias, tornaria os mercados mais dinâmicos e seria uma oportunidade única para catalisar a integração econômica da região.

"Mas falta a vontade política dos países […] se a gente pensa do ponto de vista político, geopolítico, eu tenho minhas dúvidas se, efetivamente, muitos dos governos gostariam de participar dessa empreitada. Mas, em termos econômicos e pragmáticos, seria muito bom para a região."

No entanto, ela aponta que, no caso da Colômbia, há uma tentativa bastante grande de alinhar os sistemas e ressalta que o país já conta com um modelo parecido com o Pix, o Bre-B. A diferença é que, enquanto o Pix é uma infraestrutura única do Banco Central, o sistema colombiano atua mais como um hub de conexão entre as redes privadas de pagamento.

"Mas me parece que o que se quer é que todos esses sistemas sejam totalmente compatíveis e que seja, sobretudo, pensando em adotar a tecnologia Pix do Brasil de uma maneira muito mais complexa. Acho que é uma oportunidade única para facilitar essa digitalização econômica e fortalecer os laços comerciais", afirma.

Porém, Rodríguez diz que a iniciativa, além do objetivo de integração das economias, também traz um ponto de vista geopolítico, e que as falas de Petro seguramente vão ser vistas como um desafio aos interesses dos EUA, o que pode levar a retaliações.

"Se a gente pega como referência todas as discussões que o presidente [norte-americano, Donald] Trump fez contra as tentativas dos BRICS de criar um sistema único também de pagamentos, que quase que colocou sanções, ou seja, colocou a ideia de que cada um dos países poderia entrar em sanções, se ousava pensar em outro sistema, me parece que [ele] não teria nenhum temor, obviamente, em colocar os dois países sob custódia e sob sanções."

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

Nenhum comentário: