Especialista
alerta: 'A internet virou uma colônia — e ninguém tenta esconder isso'
A
Internet opera hoje sob uma lógica de neocolonialismo digital, em que países
inteiros dependem de plataformas, infraestruturas e regras impostas por grandes
corporações norte-americanas, afirmou o especialista Lars Hilse à Sputnik. Para
ele, "a Internet é uma colônia — e ninguém está tentando esconder
isso".
O
veterano especialista independente em cibersegurança Lars Hilse, em entrevista
à Sputnik, afirmou que o debate sobre desigualdade digital mascara um problema
mais profundo: a transformação da Internet em um sistema de dependência
estrutural que limita a soberania de países inteiros.
"Não
é uma lacuna. É uma arquitetura", resumiu o analista. Para ele, o termo
"exclusão digital" suaviza uma realidade mais dura: a exploração
ativa de nações que dependem de infraestrutura e serviços controlados por
gigantes da tecnologia.
Hilse
argumenta que o neocolonialismo digital não se refere apenas ao acesso
desigual, mas ao controle das regras, dos fluxos de dados e da capacidade de
desligar sistemas inteiros. Mesmo países com alta penetração de smartphones
podem estar, segundo ele, "colonizados", caso dependam de Android,
servidores do Google, publicidade da Meta (empresa dona do Facebook, Instagram
e WhatsApp cujas atividades são proibidas na Rússia por serem consideradas
extremistas) e armazenamento em nuvens regidas pela legislação dos Estados
Unidos. "O que exatamente significa soberania nacional nesse
contexto?", questiona.
O
especialista descreve um mecanismo simples: tornar-se indispensável e, depois,
tornar a saída impossível. Soluções gratuitas, como Google Workspace, criam
dependência administrativa; nuvens como AWS e Azure capturam infraestrutura
crítica; e sistemas de pagamento globais permitem que sanções norte-americanas
interrompam economias inteiras. "Gratuito não é gratuito — é denominado em
dados e dependência", afirma.
A
camada de inteligência artificial (IA), diz Hilse, aprofunda a assimetria.
"E
agora, IA. Talvez a camada mais insidiosa. Grandes modelos de linguagem exigem
poder computacional e acesso contínuo à Interface de Programação de Aplicações
[API, na sigla em inglês], recursos que apenas algumas empresas podem fornecer.
Um governo que constrói serviços públicos com IA usando a API da OpenAI ou o
Gemini do Google está, efetivamente, construindo sua soberania em terras
alugadas — de um proprietário sujeito aos controles de exportação dos EUA.
Durma bem", ironizou.
O
analista também aponta que empresas como Google, Meta, Microsoft e Apple
exercem influência direta sobre o cotidiano digital de bilhões de pessoas. O
Google controla cabos submarinos e o ecossistema Android; a Meta domina a
comunicação no Sul Global; a Microsoft administra a burocracia estatal de
dezenas de países; e a Apple impõe taxas e regras sobre economias inteiras via
iOS. "O cabo submarino é o império. Todo o resto vem a reboque",
afirma.
Hilse
relata ainda que dados coletados em países pobres alimentam perfis
comportamentais vendidos a anunciantes globais, enquanto a receita é registrada
em paraísos fiscais. Os dados, depois de processados, ofertam os mais diversos
produtos e serviços nos fazendo questionar o que é privacidade.
"Isso
é real! Quando eu trabalhava nas Maldivas, estava em uma chamada de Skype com
um amigo e estávamos brincando sobre o tema do aborto. De repente, dez segundos
depois, entro no Facebook e me deparo com um anúncio de clínicas de aborto
anônimas no Sri Lanka [...] e isso foi há mais de uma década e meia!",
lembrou.
A
camada de consentimento, segundo ele, é ilusória. Em mercados onde o WhatsApp é
essencial para trabalhar, recusar os termos de uso não é uma opção real.
"Consentimento sob monopólio não é consentimento", afirma. Os termos,
redigidos sob a legislação norte-americana, funcionam como concessões coloniais
modernas.
Hilse
também critica programas de segurança financiados pelos EUA, como os da Agência
dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), Organização do
Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e empresas como Palantir, que, segundo ele,
oferecem capacitação enquanto ampliam a visibilidade norte-americana sobre
infraestruturas críticas.
"Você
não está comprando uma ferramenta neutra. Está entrando em uma parceria com a
agência de espionagem da sua contraparte", afirma.
Para o
especialista, o sistema funciona independentemente da intenção individual de
engenheiros ou gestores. "Os incentivos se alinham para desfavorecer os
menos poderosos", disse, destacando ainda que a retórica da inclusão
digital serve como cobertura ideológica para desviar críticas estruturais.
Hilse
conclui que a disputa central não é tecnológica, mas geopolítica. "Isso
não é uma lacuna. Isso é arquitetura", reforça. E, enquanto cabos, nuvens
e plataformas permanecerem sob controle de poucas corporações norte-americanas,
a soberania digital continuará sendo, para muitos países, apenas uma ilusão
administrada.
• Colonialismo de dados das big techs
envolve soft power, repressão e economia, diz analista
O
avanço das big techs e seu controle sobre o fluxo comunicacional e a circulação
de informações levantam dúvidas crescentes sobre os impactos do poder político
que essas empresas detêm. Além disso, questionam-se os limites entre a
moderação de conteúdo e a censura privada baseada nos dados de usuários,
fenômeno que gera impactos em escala global.
Nesse
complexo ambiente virtual, com acentuada centralização por parte de grandes
companhias de tecnologia, emerge uma espécie de colonização — tema inclusive
destacado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua última visita a
Barcelona, onde criticou plataformas tecnológicas que impõem um colonialismo
digital.
Nessa
perspectiva, Caio Almendra, cofundador do Instituto Brasileiro de Ciência de
Dados (Bi0s) e sócio na rede de inovação Templo.cc, em entrevista à Sputnik
Brasil, enfatiza que esse tipo de colonialismo moderno tem resquícios com o do
passado e explica que a operacionalização matemática dos algoritmos também
consegue prever comportamentos e tendências.
"O
colonialismo de dados, assim como o antigo, envolve soft power que é a opinião,
hard power que é a repressão e movimento econômico. A partir de um conjunto de
dados, desenvolve-se na máquina a predictibilidade, ou seja, por meio da
matemática, prevê-se o que pode acontecer. Isso não é previsão de futuro, mas
sim algo estatístico. Inicialmente teve um valor econômico que é a recomendação
de consumo [aos usuários]", disse.
Ainda
no âmbito da economia, as big techs — por terem um poder concentrador no fluxo
tecno-informacional — acabam tendo acesso ao valor de recursos a nível mundial,
segundo o pesquisador, que também se refere ao conceito de colonialismo de
dados como imperialismo de dados. Assim sendo, gerou-se o desenvolvimento da
criptomoeda como forma de tentar driblar a vigilância imposta pelos grandes
conglomerados do setor de tecnologia.
"As
big techs sabem quanto dinheiro sai do bolso de cada pessoa e onde ela está, e
entendem o fluxo de recursos a partir de big datas de quase toda a riqueza
mundial. Uma das consequências desse imperialismo de dados é o surgimento da
economia criptografada. Por isso que países sob sanções como Coreia do Norte,
Irã e Cuba usam para conseguir existir fora do olho do grande irmão [big
techs]", destaca.
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No espaço virtual, a opinião é restrita
Apesar
de propagarem "liberdade" e "democracia" aos usuários que
usam esses serviços para produzir conteúdo, plataformas como o Facebook e o
Instagram da Meta (proibidas na Rússia por extremismo) concentram dados e
algoritmos e até a capacidade de decidir quem fala, quem circula e quem
desaparece do espaço digital. Para Almendra, como essas empresas são dos EUA,
acabam agindo conforme os interesses de seu país de origem.
"Tanto
na aplicação de repressão e de soft power, há uma evolução técnica que envolve
comunicação. Hoje, a opinião na rede social é transformada em matemática e, com
a ajuda da IA, pode censurar dados, que permite o controle fino da política.
Por isso, mensagens de extrema direita têm mais alcance do que as de esquerda
que não interessam ao governo americano", comenta.
O
professor de história João Cláudio Pitillo, criador do canal Guerra Patriótica,
teve sua conta no YouTube (plataforma administrada pelo Google) removida em
outubro de 2025. O canal era uma de suas fontes de renda e, embora tenha obtido
o restabelecimento do canal na esfera judicial, a decisão não garantiu o
retorno da monetização.
Além
disso, a gigante norte-americana excluiu seu e-mail pessoal no Gmail, gerando
mais transtornos. O processo tramita na Justiça do Rio de Janeiro sob o número
3018351-88.2025.8.19.0001/RJ.
"O
meu canal foi tirado do ar sob a alegação de que fiz vídeos glorificando o
Hamas e o Hezbollah. A Justiça brasileira exigiu que restabelecesse o meu
acesso aos meus vídeos. O Google reativou o meu canal sem monetização, e depois
cancelaram meu e-mail, ou seja, estou sem acesso ao meu próprio canal. Estou
recorrendo em segunda instância", revela.
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Pix desafia os interesses das big techs e dos EUA
Recentemente,
o Pix, mais uma vez, foi mencionado em um relatório do governo dos Estados
Unidos como algo prejudicial às operadoras de cartão de crédito estadunidenses,
além de tornar a criticar a operação desse método de pagamento ser subordinado
ao Banco Central. Nesse contexto, Almendra aponta que isso faz com que o Brasil
demonstre a capacidade brasileira de ter sua soberania digital, assim como
Rússia e China.
"Assim
como a Rússia e a China, que têm suas próprias infraestruturas digitais, o
Brasil tem algumas áreas que desenvolvem as suas ferramentas, como o Pix, que é
uma infraestrutura digital de finanças que está sob ataque porque permite um
método de pagamento sem empresas [estrangeiras] e, por isso, os EUA querem
sancionar o Pix e não deixar que se expanda a outros países", conclui.
©
Sputnik
Nesse
cenário em que plataformas concentram dados, algoritmos e capacidade de decidir
quem fala, quem circula e quem desaparece do espaço digital, dessa forma, o
ciberespaço cada vez mais se torna uma trincheira de disputa geopolítica e de
controle.
• Para se tornar alternativa regional, Pix
precisa eliminar dependência do SWIFT, diz especialista
Ao
podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a "falta de
vontade política" e constantes mudanças de orientação de governos impedem
a criação de um sistema de pagamento, inspirado no modelo brasileiro, capaz de
integrar e dinamizar as economias da região.
O
presidente da Colômbia, Gustavo Petro, defendeu a adoção de um sistema de
pagamento inspirado no Pix ou mesmo a expansão da ferramenta brasileira para
seu país.
Petro
pediu uma cooperação direta com o Brasil sobre o tema e afirmou nas redes
sociais que o modelo brasileiro representa uma alternativa mais eficiente no
sistema financeiro internacional.
Em
entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Daniel Santos Kosinski, do
Departamento de Evolução Econômica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ), destaca que um ponto normalmente esquecido em debates sobre o controle
de transações financeiras é que elas são uma "ferramenta poderosa de
informação" sobre a sociedade de um país.
"Nossos
hábitos de consumo, o que nós gostamos ou o que nós não gostamos, com quem nós
vivemos, quais são as nossas famílias, se nós temos filhos pequenos, grandes,
se temos bichos de estimação, enfim, tudo isso pode ser deduzido simplesmente a
partir das transferências financeiras que nós fazemos", explica.
Ele
acrescenta que, dependendo do uso que for feito, essas informações também podem
ser uma ferramenta de controle social. Diante disso, ao retirar consumidores
das bandeiras de cartão de crédito norte-americanas, o Pix também reduz o
controle que essas empresas têm sobre nossas informações financeiras.
"Então,
da mesma forma que o Pix tem uma importância estratégica muito grande para o
Brasil hoje, um sistema semelhante a ele terá para a Colômbia, terá para
qualquer país que adote, que desenvolva algo parecido com o Pix."
Kosinski
diz que um obstáculo para transformar o Pix em uma alternativa regional aos
sistemas tradicionais de pagamento é o fato de ele depender dos bancos
tradicionais para operar, que integram o sistema SWIFT.
"Você
usa o Pix através de uma conta corrente em um banco comercial. No Banco do
Brasil, no Bradesco, no Itaú, na Caixa, enfim, você precisa de uma conta de um
banco comercial. E os bancos comerciais usam sistemas tradicionais, […] são
parte integrante, são o próprio sistema tradicional. Então, se você usa o Pix,
você está dentro, você não está fora de um sistema tradicional", afirma.
Logo,
para se tornar uma alternativa regional aos sistemas tradicionais, o Pix
precisaria ter uma nova configuração, que eliminasse a dependência do sistema
SWIFT, o que, segundo ele, teria uma "grande oposição" dos bancos
comerciais.
"Quer
dizer, algum tipo de infraestrutura semelhante à do SWIFT para realizar os
pagamentos internacionais, ligando um país ao outro, uma instituição financeira
brasileira a uma estrangeira, por exemplo, mas sem passar pelo SWIFT."
Outro
obstáculo apontado por Kosinski para a criação de um sistema de pagamento
regional é a falta de vontade política. Ele frisa que a América Latina e do Sul
são regiões instáveis, com mudanças radicais nas orientações de governo que
atrapalham a integração regional.
"Por
exemplo, hoje o Brasil e a Colômbia possuem governos convergentes em grande
medida e que podem também convergir nesse objetivo. Tudo bem, vamos impulsionar
um sistema de pagamentos latino-americano, mas e amanhã? Ou depois de amanhã?
Ninguém sabe se continuará havendo essa convergência […], da mesma forma,
Brasil e Argentina já tiveram governos convergentes em diferentes
momentos", observa o especialista.
Maria
Elena Rodríguez, professora de relações internacionais da Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), avalia que a criação de um
sistema de pagamento sul-americano reduziria burocracias, tornaria os mercados
mais dinâmicos e seria uma oportunidade única para catalisar a integração
econômica da região.
"Mas
falta a vontade política dos países […] se a gente pensa do ponto de vista
político, geopolítico, eu tenho minhas dúvidas se, efetivamente, muitos dos
governos gostariam de participar dessa empreitada. Mas, em termos econômicos e
pragmáticos, seria muito bom para a região."
No
entanto, ela aponta que, no caso da Colômbia, há uma tentativa bastante grande
de alinhar os sistemas e ressalta que o país já conta com um modelo parecido
com o Pix, o Bre-B. A diferença é que, enquanto o Pix é uma infraestrutura
única do Banco Central, o sistema colombiano atua mais como um hub de conexão
entre as redes privadas de pagamento.
"Mas
me parece que o que se quer é que todos esses sistemas sejam totalmente
compatíveis e que seja, sobretudo, pensando em adotar a tecnologia Pix do
Brasil de uma maneira muito mais complexa. Acho que é uma oportunidade única
para facilitar essa digitalização econômica e fortalecer os laços
comerciais", afirma.
Porém,
Rodríguez diz que a iniciativa, além do objetivo de integração das economias,
também traz um ponto de vista geopolítico, e que as falas de Petro seguramente
vão ser vistas como um desafio aos interesses dos EUA, o que pode levar a
retaliações.
"Se
a gente pega como referência todas as discussões que o presidente
[norte-americano, Donald] Trump fez contra as tentativas dos BRICS de criar um
sistema único também de pagamentos, que quase que colocou sanções, ou seja,
colocou a ideia de que cada um dos países poderia entrar em sanções, se ousava
pensar em outro sistema, me parece que [ele] não teria nenhum temor,
obviamente, em colocar os dois países sob custódia e sob sanções."
Fonte:
Sputnik Brasil

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