Ser
professor em tempos de desgaste e invisibilidade
"Ser
professor, hoje, é muitas vezes habitar um lugar sem crédito. Mas talvez
justamente aí resida a grandeza da docência: permanecer formando mesmo quando o
mundo parece já não saber honrar aqueles que o tornam habitável"
O
artigo é de Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves mestre em Teologia pela
Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), professor de Ensino Religioso
do Colégio Santa Catarina - Juiz de Fora, professor de Filosofia, Sociologia e
de Projeto de Vida do Centro Educacional do Raciocínio e Aprendizagem
Socializada - RAS em Juiz de Fora.
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Eis o artigo.
Há uma
condição dolorosa que atravessa hoje a experiência docente e que nem sempre é
dita com a devida franqueza: ser professor tornou-se, muitas vezes, ocupar um
lugar sem crédito e sem prestígio. Não porque ensinar tenha perdido dignidade,
mas porque a cultura contemporânea parece ter enfraquecido o reconhecimento
social daquilo que o professor representa.
Durante
muito tempo, a figura do mestre esteve associada à autoridade intelectual, à
mediação do saber e à formação humana. Havia, no gesto de ensinar, um
reconhecimento público de sua relevância. Hoje, em muitos contextos, esse lugar
parece erodido. O professor é frequentemente cobrado, vigiado, responsabilizado
por impasses estruturais, mas raramente valorizado na mesma medida.
Espera-se
que ele resolva problemas pedagógicos, emocionais, sociais e até familiares.
Espera-se que adapte conteúdos, acolha vulnerabilidades, administre conflitos,
preencha plataformas, responda a métricas, produza evidências e, ainda assim,
mantenha resultados. Mas esse acúmulo de exigências nem sempre vem acompanhado
de confiança ou prestígio; ao contrário, muitas vezes vem acompanhado de
suspeita.
Há algo
profundamente sintomático nisso. A profissão que deveria ser sustentada pela
confiança pública passa, em certos ambientes, a existir sob a lógica da
contestação permanente. A palavra do professor é relativizada, sua autoridade
confundida com rigidez, sua exigência interpretada como excesso. Como se
orientar fosse constranger. Como se corrigir fosse violência.
Nesse
cenário, a condição docente se converte, não raro, numa experiência de
adaptação sem reconhecimento. O professor precisa ceder, reformular, ajustar-se
continuamente para manter condições mínimas de trabalho, mas o faz, muitas
vezes, sem o crédito simbólico que legitima sua missão.
E essa
perda de prestígio não é mero problema corporativo; é sintoma de uma crise mais
profunda. Porque quando uma sociedade desvaloriza seus professores, ela está,
no fundo, relativizando o valor da própria formação. Onde o saber perde
autoridade, cresce a opinião imediata; onde o mestre perde lugar, o improviso
ganha status.
Há
também um desgaste silencioso na relação com as famílias. Não raro, a escola é
chamada a compensar ausências formativas, mas, ao mesmo tempo, vê suas normas
contestadas. Exige-se que o professor acolha tudo, adapte tudo e suporte tudo —
mas sem lhe conceder a autoridade correspondente para educar.
E,
ainda assim, apesar dessa erosão simbólica, o professor continua. Continua
sustentando rotinas, oferecendo referências, organizando sentidos em meio ao
ruído. Há nisso algo quase paradoxal: uma profissão socialmente fragilizada e,
ao mesmo tempo, civilizatoriamente indispensável.
Talvez
um dos dramas do nosso tempo seja este: vivemos numa sociedade que proclama a
centralidade da educação, mas frequentemente esvazia o lugar de quem educa.
Recuperar
o prestígio do professor não é nostalgia de um passado idealizado. É reconhecer
que não há formação ética, cidadã e humana onde o educador seja reduzido a
executor de demandas ou gestor de adaptações.
Ser
professor, hoje, é muitas vezes habitar um lugar sem crédito. Mas talvez
justamente aí resida a grandeza da docência: permanecer formando mesmo quando o
mundo parece já não saber honrar aqueles que o tornam habitável.
• A crise da educação: um ataque
sistemático ao conhecimento
A
educação, pilar fundamental para o desenvolvimento de qualquer sociedade,
encontra-se em um estado crítico. No Brasil, essa crise se manifesta de forma
particularmente alarmante, com reflexos diretos na qualidade do ensino, na
valorização dos profissionais da educação e, consequentemente, no futuro do
país.
Hannah
Arendt foi uma filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais
influentes do século XX. Em seus escritos sobre a crise da educação ela
desenvolve seu pensamento e acrescenta a perigosa perda da autoridade em nome
da liberdade, desta maneira é preciso observar que há uma contumaz angústia
quando o quesito é liberdade.
Enquanto
a retórica política exalta a importância da educação, a prática cotidiana
denuncia um descompasso entre discurso e realidade. Vivemos uma crise
estrutural e moral, na qual o conhecimento é relegado a segundo plano, e os
professores, outrora respeitados como pilares da formação humana, tornam-se
alvos de desprezo e indiferença.
Um dos
aspectos mais preocupantes dessa crise é o desrespeito sistemático aos
professores. Historicamente, a figura do educador era reverenciada como um guia
intelectual e moral. No entanto, nos últimos tempos, os professores têm sido
submetidos a uma desvalorização crescente, como: precarização das condições de
trabalho, a sobrecarga de funções e a falta de reconhecimento contribuem para
um cenário de desmotivação e esgotamento profissional, impactando diretamente a
qualidade do ensino.
Paralelamente
à desvalorização dos professores, observa-se um crescente descaso com o
conhecimento. A cultura do imediatismo, a disseminação de informações falsas e
a valorização exacerbada do lucro têm minado a importância da educação como
ferramenta de transformação social. A busca desenfreada por resultados rápidos
e a superficialidade nas relações humanas têm levado a uma desvalorização do
conhecimento aprofundado e da reflexão crítica.
Essa
realidade é apresentada, por Byung-Chul Han, como a crise da sociedade que vive
em constante consumo e produção. É preciso destacar que a crise da educação não
é um fenômeno isolado, mas sim resultado de um conjunto de fatores
interligados. A falta de investimentos públicos em educação, a desigualdade
social, a mercantilização do ensino e a fragilidade das políticas educacionais
são apenas alguns dos elementos que contribuem para esse cenário.
O
sujeito da sociedade contemporânea, chamado por Han de "sujeito de
desempenho", é alguém que se autoconstrange a ser sempre mais eficiente e
produtivo, internalizando essa pressão de maneira profunda. Ao invés de serem
forçados a produzir por uma autoridade externa, os indivíduos agora se sentem
compelidos a isso por uma motivação interna que visa superar constantemente
seus próprios limites. Se antes os indivíduos eram moldados por uma disciplina
externa, regulada por instituições como escolas, fábricas e prisões, hoje eles
são regidos por uma lógica de autoexploração.
As
consequências dessa crise são graves e de longo prazo, pois, a desvalorização
dos professores e o descaso com o conhecimento geram um ciclo vicioso que
perpetua a desigualdade e a exclusão social. Somado a isso o escárnio com os
professores é reflexo direto do desprezo crescente pelo conhecimento em nossa
sociedade.
Em uma
era marcada pela desinformação e pelo imediatismo das redes sociais, a
construção do saber é frequentemente vista como secundária. O valor do
aprendizado foi substituído por métricas de produtividade superficial, em que o
ensino é tratado como uma mera ferramenta de certificação para o mercado de
trabalho, e não como um espaço de formação integral do indivíduo.
Essa
lógica mercantilista transforma o estudante em um consumidor e o professor em
um prestador de serviços, rompendo a essência dialógica do processo educativo.
A ciência, a arte e a filosofia, campos que deveriam alimentar a criticidade e
a criatividade, são marginalizados em prol de conteúdos técnicos e utilitários.
Isso contribui para a formação de cidadãos menos reflexivos e mais suscetíveis
à manipulação política e cultural.
Outro
aspecto preocupante é a banalização da autoridade dos professores e da própria
escola enquanto instituição formadora. O discurso que deslegitima o papel do
docente, atribuindo-lhes a culpa por problemas estruturais do sistema
educacional, reforça estereótipos e reduz a complexidade dos desafios
enfrentados. Essa retórica cria um ciclo de desmotivação, no qual o professor
deixa de ser visto como agente transformador e passa a ser tratado como um
obstáculo ao sucesso do estudante.
Esse
fenômeno se insere em uma cultura mais ampla de desrespeito às figuras de
autoridade que, paradoxalmente, reflete o individualismo exacerbado de nossa
época. A valorização de opiniões desinformadas, muitas vezes disseminadas em
redes sociais, contribui para a descrença em especialistas e no conhecimento
acadêmico, minando a função educacional.
O
resultado dessa crise é uma geração que cresce em um ambiente onde o
conhecimento é tratado como descartável e o professor, como figura irrelevante.
Essa conjuntura compromete a formação integral do indivíduo, afetando a
capacidade de análise crítica, a empatia e a participação cidadã. Uma sociedade
que desvaloriza seus educadores compromete seu futuro, criando um ciclo de
ignorância e desigualdade que perpetua por várias gerações.
Para
reverter esse quadro, é necessário um esforço conjunto de toda a sociedade. É
fundamental valorizar a educação, garantir condições de trabalho dignas para os
professores e promover a democratização do acesso ao conhecimento.
A crise
da educação é um desafio urgente que exige uma resposta comprometida e que
apresente soluções eficazes. Ignorar essa realidade é condenar as futuras
gerações a um futuro incerto e desigual. É preciso reconhecer a importância da
educação como um direito fundamental e investir na formação de cidadãos
críticos, criativos e capazes de construir um futuro melhor para todos.
Portanto,
a crise educacional que vivemos hoje não é apenas uma questão sistêmica, mas um
sintoma de uma sociedade que negligencia os valores fundamentais para seu
desenvolvimento. O desprezo pelo conhecimento e o escárnio com os professores
são afrontas que cobram um preço alto: o comprometimento do futuro das novas
gerações. Reverter esse cenário é não apenas uma necessidade, mas um dever
moral de todos aqueles que acreditam no poder transformador da educação. É hora
de resgatar a dignidade do professor e devolver à educação o lugar de honra que
ela merece.
Fonte:
Por Robson Ribeiro, para IHU

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