segunda-feira, 27 de abril de 2026

Seca no Rio Xingu expõe limites de Belo Monte frente à crise climática

As maiores usinas hidrelétricas da Amazônia estão se tornando cada vez mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, e Belo Monte pode estar dando o alerta mais evidente até agora. Construída no Rio Xingu, próxima à cidade de Altamira, sudoeste do Pará, após anos de debate sobre seus impactos ambientais e a confiabilidade de sua geração de energia, a megausina enfrenta um problema que seus projetistas não conseguiram resolver por meio da engenharia: a escassez de água.

Dois estudos publicados no final de 2025 reforçam as evidências dessa situação — um elaborado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) em parceria com o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e outro pelo Escritório Federal de Pesquisa Energética (EPE), vinculado ao Ministério de Minas e Energia. Sob perspectivas diferentes, ambos os relatórios concluem que as mudanças climáticas estão remodelando de forma fundamental os sistemas hídricos e energéticos do país e exigindo adaptações urgentes, já que 43,7% da energia do Brasil provém de usinas hidrelétricas.

O relatório da ANA e da UFRGS alerta que as usinas hidrelétricas da região amazônica podem perder até 40% de sua capacidade de geração de energia nos próximos 20 a 30 anos, caso o planejamento continue a ser baseado em dados históricos de vazão dos rios, em vez de projeções ajustadas ao clima atual. A bacia do Rio Xingu, em particular, enfrentará estações secas significativamente mais longas e intensas nas próximas décadas. As vazões máximas dos rios poderão cair até 50%, segundo o estudo, publicado em novembro de 2025. Os dados também indicam que períodos consecutivos de seca — historicamente em torno de 20 dias — poderão se estender a até 40 dias até o fim do século, com alguns períodos de estiagem chegando a 150 dias.

Esses números apontam para o futuro, mas a gravidade das secas e seus impactos nas usinas da Amazônia já são realidade. Em 2024, durante o pico da estação seca, entre setembro e novembro, Belo Monte gerou, em média, apenas 145 megawatts por dia — pouco mais de 1% de sua capacidade instalada de 11.233 megawatts, de acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico.

“Esse desempenho reflete a seca mais severa registrada no Brasil desde o início dos registros históricos, em 1950”, disse Saulo Aires, coordenador de mudanças climáticas da ANA, à Mongabay. “O que estamos vendo agora é que a realidade hidrológica já mudou.”

O estudo da EPE, também publicado em novembro de 2025, analisa as consequências energéticas dessas mudanças. Ele conclui que compensar a redução na confiabilidade da geração hidrelétrica exigirá investimentos significativos em fontes alternativas de energia. Construir um portfólio elétrico resiliente e de baixas emissões pode demandar a implantação de 121 gigawatts de capacidade adicional, especialmente em armazenamento, energia solar, energia eólica e tecnologias complementares. Mesmo com custos operacionais mais baixos, o investimento total no sistema pode crescer 70%, chegando a R$ 144 bilhões, o que reflete a escala da adaptação necessária para manter a segurança energética.

Os estudos da ANA e da EPE também mostram que, enquanto o Norte do país terá estações secas mais severas, o Sul deve registrar um aumento das chuvas. No entanto, essa mudança não se traduz em maior potencial hidrelétrico. Rafael Kelman, diretor-executivo da consultoria de energia PSR e coordenador do estudo da EPE, disse à Mongabay que a topografia do Sul do país dificulta muito a construção de novas hidrelétricas. “Em geral, o saldo é negativo para o Brasil. Haverá menos energia hidrelétrica”, afirmou.

Ao mesmo tempo, o aumento das temperaturas deve elevar a demanda por eletricidade, especialmente devido ao uso de ar-condicionado. “Menos chuva significa menos hidroeletricidade, e mais calor significa mais demanda”, disse Kelman. “É uma pressão dupla sobre o sistema.”

<><> Exposição aos riscos climáticos

Belo Monte entrou em operação em 2016 como uma usina do tipo fio d’água, ou seja, sem um grande reservatório para armazenar água durante os períodos chuvosos. A escolha deste modelo foi crucial para superar as controvérsias sobre a barragem, que se estenderam por anos. A opção por uma usina do tipo fio d’água foi apresentada pelos responsáveis pela obra como uma forma de reduzir a área alagada e os danos ambientais. O modelo, no entanto, também deixou o empreendimento altamente exposto aos riscos dos períodos de seca.

Em 2024, por exemplo, a usina não atingiu sua projeção de geração de energia em nenhum dia do ano. O maior volume diário foi registrado em 30 de abril, quando, em um breve intervalo, Belo Monte produziu 10.397 megawatts, antes que a geração caísse bruscamente com o retorno da estação seca. No fim de agosto, mesmo antes do pico da seca, apenas uma das 18 turbinas da usina estava em operação, cada uma com capacidade de 611 megawatts.

Rodrigo Paiva, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos autores do estudo em parceria com a ANA, destaca a situação frágil de Belo Monte, localizada em uma região onde os modelos climáticos indicam os sinais mais fortes de redução futura das vazões dos rios.

“O que obtivemos como resultado é uma projeção para as próximas décadas de uma grande redução dos rios amazônicos, especialmente nos afluentes meridionais mais afetados, como o Xingu e o Tapajós”, disse Paiva. “Mesmo considerando um cenário moderado de emissões de gases de efeito estufa, essa grande redução de chuvas e vazões acabou se manifestando.”

Paiva acrescentou que o estudo não simulou uma transformação completa da floresta em savana, a partir do temido e iminente ponto de não retorno na Amazônia, o que sugere que essas projeções podem ser conservadoras. “Isso poderia amplificar ainda mais essas mudanças no regime hidrológico”, alertou.

<><> Levando a ciência a sério

Para Aires, da ANA, o maior erro no monitoramento, coleta e análise de dados para planejar sistemas hídricos atualmente é olhar para o passado. “Mas o futuro não vai repetir o passado. Já chegamos a um ponto de não retorno em termos de hidrologia. O esforço agora é minimizar os impactos.”

Kelman afirmou que Belo Monte exemplifica os riscos de projetar megaempreendimentos sem considerar plenamente o conhecimento científico sobre o clima. “A ciência já apontava que essa região da Amazônia teria uma redução significativa nas precipitações”, disse. “Nesse projeto, as mudanças climáticas deveriam ter sido consideradas mais seriamente no dimensionamento da usina.”

O coordenador do estudo da EPE lembrou que estudos realizados por volta de 2010, quando Belo Monte estava sendo planejada, já sugeriam que a usina deveria ter sido cerca de 30% menor. “Aquela escala foi por razões econômicas. Considerando as mudanças climáticas, provavelmente deveria ter sido ainda menor.”

Segundo Kelman, a falta de dados hidrológicos de longo prazo para rios como o Xingu agravou a incerteza. “Ninguém sabe qual era a vazão do Xingu em 1930 ou em 1940”, disse. “Você a infere estatisticamente, às vezes, usando dados coletados a 2 mil quilômetros de distância. A confiabilidade disso é muito baixa.”

A conturbada história da usina há muito tempo alimenta críticas de grupos ambientalistas. O processo de licenciamento de Belo Monte foi um dos mais problemáticos da história do Brasil, marcado por disputas judiciais e alegações de que condicionantes ambientais fundamentais não foram cumpridas antes do início das obras. O Ministério Público Federal ajuizou 26 ações contra o projeto, e organizações indígenas alertaram diversas vezes sobre danos sociais e ecológicos, incluindo o aparecimento de peixes com deformidades. A usina agora enfrenta um processo polêmico de renovação de licença.

<><> Da promessa à realidade

A operadora de Belo Monte, a Norte Energia, contesta a ideia de que a usina está se tornando obsoleta. Em nota à Mongabay, a empresa afirmou que a hidrelétrica continua sendo fundamental para o sistema brasileiro e que, em determinados momentos, chegou a suprir até 19% da demanda nacional de eletricidade.

“Durante a semana de virada do ano de 2025 para 2026, em meio a uma onda de calor no Sudeste do Brasil, Belo Monte gerou, em média, 8,55 gigawatts, o que corresponde a 9,3% do consumo total do país”, disse a empresa. “Isso é equivalente à demanda de 28 milhões de residências.”

A Norte Energia afirmou que as regras operacionais da usina, incluindo seu hidrograma — que determina quanta água pode ser usada para geração de energia, um dos pontos mais polêmicos junto às comunidades locais — foram definidas durante o processo de licenciamento e estão sujeitas a decisões das autoridades ambientais e dos tribunais. A empresa disse que continua defendendo a manutenção do chamado “hidrograma de consenso”, um modelo que seleciona a opção mais segura e viável entre dois hidrogramas possíveis, supostamente equilibrando a proteção ambiental com a segurança energética.

Moradores e cientistas argumentam, no entanto, que a vazão é insuficiente para reproduzir o fluxo natural do Rio Xingu, o que provoca o colapso das populações de peixes.

A empresa também destacou investimentos de mais de 8 bilhões de reais em medidas de mitigação ambiental, incluindo 1,4 bilhão de reais destinados a projetos envolvendo indígenas. Os planos da Norte Energia incluem o monitoramento de fauna, flora e recursos hídricos, além de melhorias na infraestrutura nos municípios vizinhos, como Altamira e Vitória do Xingu.

Mesmo assim, pesquisadores afirmam que a adaptação será inevitável. “Infelizmente, esse projeto não vai entregar o que foi prometido”, disse Paiva sobre Belo Monte. “O que pode ser feito agora é adaptar a operação, incorporar cenários climáticos e aceitar que a energia garantida do passado não existe mais.”

Para o Brasil, a lição de Belo Monte pode moldar decisões futuras sobre a renovação da licença da usina e sobre o futuro de toda a Amazônia. “Novos projetos nessa região já deveriam considerar que teremos menos vazão nos rios”, disse Paiva. “Planejar com base apenas em condições históricas não é mais viável.”

 

Fonte: Mongabay

 

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