O
novo Plano da Bioeconomia: discurso versus realidade
Em 1º
de abril (ironicamente, o “Dia da Mentira”), o governo federal lançou o resumo
executivo de 85 páginas do novo Plano Nacional de Desenvolvimento da
Bioeconomia.
O termo “bioeconomia” tem grande apelo porque
todos são a favor, desde os povos indígenas até o agronegócio. Mas a questão
essencial é: “o que é bioeconomia?”. A apresentação do novo plano enfatiza os
benefícios sociais da “bioeconomia”, especialmente para os povos indígenas e
comunidades tradicionais. Isso indica que o foco do plano será a promoção da
extração de produtos não madeireiros de florestas nativas e a promoção do uso
desses produtos, por exemplo, como fontes de novos fármacos.
O plano
criaria cadeias de valor para produtos naturais e, assim, proporcionaria meios
de subsistência a grupos sociais desfavorecidos. Essa bioeconomia tem potencial
para gerar benefícios reais, tanto sociais quanto ambientais, embora seja
necessário cautela na forma como essa transição será implementada junto aos
povos indígenas e comunidades tradicionais. Claramente, o governo brasileiro
deveria investir nesses objetivos importantes.
Embora
a palavra “sustentável” apareça diversas vezes em praticamente todas as
páginas, o documento do plano é notavelmente desprovido de detalhes sobre quais
produtos serão produzidos como “bioeconomia”. Uma carta introdutória do
vice-presidente Geraldo Alckmin, que até início de abril era Ministro do
Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, menciona a cana-de-açúcar para
álcool e o algodão para óleos e outros produtos além de fibras. Essas são
commodities produzidas por grandes plantações mecanizadas, e não por povos
tradicionais. Uma análise mais detalhada do plano revela que a grande maioria
das ações carece dos benefícios sociais e ambientais que o plano associa ao
termo “bioeconomia”.
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Manejo florestal
O plano
propõe “Aumentar a área de florestas com Concessão para Manejo Florestal
sustentável nas para 5,28 milhões de hectares de florestas públicas concedidas
até 2035” (p. 47. Meta 4). As concessões para manejo florestal, obviamente, são
leiloadas para grandes empresas madeireiras e não são fontes de subsistência
para povos indígenas ou tradicionais. Além disso, como já foi explicado em
Amazonia Real, o manejo florestal para produção de madeira na Amazônia não é
sustentável, mesmo que as normas que o regem sejam rigorosamente seguidas.
Espécies madeireiras valiosas crescem muito lentamente e não se recuperam a uma
taxa que torne os ciclos subsequentes de corte dessas espécies economicamente
viáveis.
Um
grupo dos mais renomados pesquisadores na área de manejo florestal na Amazônia
calculou que, em vez do atual ciclo de colheita de 25 a 35 anos, com a extração
de 15 a 20 m³ por hectare por ciclo, a sustentabilidade exigiria um ciclo de 60
anos com a extração de apenas 10 m³ por hectare por ciclo, e a porcentagem do
volume florestal representada por espécies madeireiras economicamente valiosas
teria que ser de 90% — muito acima dos aproximadamente 20% existentes em
florestas amazônicas não exploradas para madeira. Outros fatores econômicos
também tornam o manejo florestal não competitivo com outros tipos de
investimento após o primeiro ciclo, além de brechas na legislação que
comprometem ainda mais a sustentabilidade. Existe também uma barreira física à sustentabilidade,
porque a exploração seletiva, independentemente de ser feita legalmente sob um
plano de manejo florestal, aumenta muito o risco de incêndios florestais
durante grandes secas, e a exploração madeireira torna esses incêndios mais
danosos quando ocorrem.
A
caracterização do manejo florestal para produção de madeira como “bioeconomia”
foi a primeira ação do atual governo Bolsonarista do estado do Amazonas, que
assumiu o poder em 2019 com o anúncio de oito grandes áreas a serem exploradas
para madeira como “bioeconomia”. O governo do Amazonas continua a promover o
manejo florestal como bioeconomia. Os ministérios federais que lançaram o novo
plano de bioeconomia estão seguindo o mesmo caminho.
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Recuperação de terras degradadas
O plano
propõe para “Recuperar 12,5 milhões de hectares de áreas degradadas com
produção de biomassa sustentável para a bioindústria, até 2035” (p. 61. Meta
3). Não está explicado o que é “biomassa sustentável para a bioindústria”. Será
cana-de-açúcar ou eucalipto? A maior parte dos 12,5 milhões de hectares deve
ser de algum tipo de plantação, já que apenas 2,3 milhões de hectares da
“recuperação” são propostos para regeneração de espécies florestais nativas (p.
47, Meta 1). Em todo caso, as vastas áreas de “biomassa sustentável” plantada
não se encaixariam na retórica de meios de subsistência socialmente benéficos
para os povos tradicionais.
O uso
de verbas “verdes” para a recuperação de terras degradadas na Amazônia
atualmente é questionável, diferentemente de regiões majoritariamente
desmatadas como a Mata Atlântica. Isso porque a prioridade máxima na Amazônia
é, de forma inequívoca, evitar a perda da floresta original por meio do
desmatamento e da degradação florestal. O plantio de árvores é especialmente
caro, custando muito mais por hectare do que evitar a perda de um hectare na
floresta amazônica remanescente, e o benefício é muito menor em termos de
carbono, reciclagem de água, biodiversidade e povos tradicionais.
Como as
verbas “verdes” são sempre insuficientes, gastá-las no plantio de árvores
significa não gastá-las na criação de unidades de conservação e terras
indígenas, na remoção de grileiros e invasores em terras governamentais, etc.
Mas, pecuaristas e produtores de soja estão ávidos por subsídios para plantar
árvores nas Áreas de Proteção Permanente (APPs) e Reservas Legais (RLs) que
desmataram ilegalmente, e geralmente se opõem a ações governamentais para criar
unidades de conservação e terras indígenas ou para remover grileiros.
Utilização
da bioeconomia para justificar a destruição.
O
documento não menciona o papel que a “bioeconomia” desempenha na promoção de
projetos de infraestrutura destrutivos, como a rodovia BR-319 (Manaus-Porto
Velho). A ideia de que promover uma bioeconomia entre a população que invadiu
terras governamentais ao longo do traçado da rodovia resultará em uma vida
sustentável para essas pessoas, sem a destruição da floresta, é pura ficção.
Essa ideia ganha força, involuntariamente, com os esforços para promover a
bioeconomia na rodovia. O termo bioeconomia é usado para insinuar que devemos
enviar as escavadeiras para começar a construir a estrada, pois tudo será
sustentável. Infelizmente, a realidade é outra, bem diferente desta.
Fonte:
Amazônia Real

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