A
poluição plástica e a cultura do descartável
A
assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia, após mais de duas décadas
de negociação, foi recebida como um marco para o comércio internacional. Seus
efeitos, no entanto, extrapolam os setores tradicionalmente analisados — e
alcançam, de forma ainda pouco visível, a cadeia produtiva do plástico.
A
ampliação das exportações brasileiras de grãos e de proteínas para o mercado
europeu tende a intensificar o uso de embalagens, o que pode resultar em um
aumento significativo da produção de plástico no país. Esse movimento ocorre em
um contexto global já crítico: desde 1950, mais de 12,5 bilhões de toneladas de
plástico foram produzidas em 2025, das quais, de acordo com o Atlas do
Plástico, apenas 9% foram recicladas. O restante se acumula em aterros, é
incinerado ou disperso no meio ambiente.
A
presença do plástico tornou-se estrutural na vida contemporânea. Mais do que um
material, ele sustenta um modelo de consumo baseado na descartabilidade. A
conveniência de produtos de uso único consolidou uma lógica produtiva que
externaliza custos ambientais e sanitários, frequentemente invisibilizados no
cotidiano.
Esse
desequilíbrio começa a se impor de forma incontornável. A poluição marinha, a
disseminação de microplásticos e os impactos já identificados sobre a saúde
humana evidenciam que o problema deixou de ser difuso para se tornar sistêmico.
Diante
disso, a resposta não pode se restringir ao âmbito nacional. A ausência de
mecanismos globais eficazes para regular a produção, a circulação e o descarte
de plásticos limita o alcance de políticas domésticas. Medidas como a
transparência e a rastreabilidade, por exemplo, são fundamentais para
viabilizar cadeias de reuso e reciclagem e reduzir danos ambientais e à saúde
humana.
Nesse
cenário, o acordo Mercosul-União Europeia suscita preocupações adicionais. Além
de potencialmente estimular a produção e consumo interno, há indicações de que
a redução de tarifas sobre resinas e insumos químicos pode favorecer a
importação de produtos plásticos semiacabados. Trata-se de uma dinâmica que, na
prática, pode ampliar a circulação de materiais problemáticos, de baixa
reciclabilidade, que perpetuam o colonialismo do lixo.
Ainda
que os ganhos econômicos do acordo sejam frequentemente destacados, seus
efeitos ambientais demandam análise mais criteriosa. A produção desenfreada de
plásticos tende a aprofundar um problema já caracterizado pelo excesso – em um
planeta que acumula resíduos em ritmo superior à qualquer tecnologia de
tratamento disponível.
Esse
contexto reforça a necessidade de um tratado global sobre poluição plástica.
Como um fenômeno transnacional, o problema exige coordenação internacional. No
entanto, as negociações têm enfrentado entraves significativos, em grande
medida associados à atuação de interesses vinculados à indústria petroquímica.
Não por acaso: cerca de 99% dos plásticos são derivados de combustíveis
fósseis, e 234 lobistas desta indústria estiveram presentes na penúltima rodada
de negociação do tratado global sobre plásticos – delegação quase quatro vezes
maior que a dos cientistas livres de conflito de interesse presentes.
Apesar
dessas resistências, há avanços relevantes. A crescente produção de evidências
científicas e o reconhecimento público da gravidade do problema vêm ampliando a
pressão por respostas mais robustas. Mesmo com desafios de transparência no
setor, hoje é sabido que mais de 16.000 substâncias estão presentes em
plásticos, e mais de 25% são consideradas de preocupação. Muitas carecem de
dados públicos, e apenas 1% é regulado a nível internacional. A poluição
plástica já se impõe não apenas como uma questão ambiental, mas como um desafio
de saúde pública e de organização econômica.
No
Brasil, iniciativas como o Projeto de Lei 2524/22, que propõe a promoção da
economia circular do plástico, indicam caminhos possíveis. Ao recolocar o tema
no centro do debate, o projeto retoma um princípio fundamental da Política
Nacional de Resíduos Sólidos: a prioridade deve estar na redução e na não
geração de resíduos.
Ainda
assim, a tramitação da proposta permanece estagnada desde 2024, o que retarda a
adoção de medidas mais restritivas sobre plásticos amplamente reconhecidos como
problemáticos – muitos já banidos na União Europeia desde 2021. Esse
descompasso evidencia o risco de o Brasil operar em um ambiente regulatório
fragilizado, especialmente em um contexto de maior integração comercial.
Mais do
que uma questão regulatória, o debate sobre o plástico exige uma revisão do
próprio modelo de produção e consumo. Reduzir a dependência deste material
implica investir em alternativas, redesenhar cadeias produtivas, garantindo a
transição justa para catadores, e enfrentar interesses pelo lucro acima da
proteção da saúde humana e do meio ambiente.
Sem
esse movimento, a expansão econômica pode aprofundar passivos ambientais que já
se mostram difíceis de conter. Não podemos manter um nível de produção de
plástico em que mais de um terço de todo o plástico produzido seja de
embalagens, de acordo com o Atlas do Plástico. A cultura do descartável, ao
sustentar um sistema de produção intensivo em resíduos, nos aproxima de um
limite que deixa de ser abstrato – e passa a ser material, mensurável e, cada
vez mais, irreversível.
Fonte:
Por Marcelo Montenegro e Rafael Eudes, no Le Monde

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