Peptídeos:
a promessa da vez na saúde e na estética exige cautela
Eles
deixaram de ser um termo restrito aos livros de biologia para ganhar espaço nas
redes sociais, nos consultórios e até nas rotinas de beleza. Os peptídeos,
cadeias curtas de aminoácidos que atuam como mensageiros no organismo,
tornaram-se protagonistas de uma nova era da saúde e da estética. Mas, com a
popularização, cresce também um cenário de promessas exageradas, uso
indiscriminado e riscos pouco discutidos.
No
corpo humano, essas moléculas desempenham funções fundamentais: participam da
produção de hormônios, regulam processos metabólicos e influenciam desde o
apetite até a regeneração celular. Substâncias como insulina e GLP-1 são
exemplos de peptídeos naturais, essenciais para o funcionamento do organismo.
O
problema surge, porém, quando não se tem a informação completa. A popularização
levou ao aumento da oferta de peptídeos no mercado paralelo, muitos sem
aprovação, sem procedência confiável e, em alguns casos, sequer testados em
humanos.
Clínico
geral e nutrólogo do Hospital Santa Lúcia, Leonardo Ferreira é especialista em
peptídeos. Ele reforça que, sem controle de qualidade, não há garantia de que o
produto contenha a substância prometida nem de que seja seguro. Além disso, o
uso sem avaliação médica ignora fatores como contraindicações, interações
medicamentosas e efeitos colaterais. "Uma droga pode ser remédio ou
veneno, o que muda é a indicação e a dose. Portanto, o uso sem critérios
médicos e indicação clínica, pode pôr em risco a saúde do paciente",
resume.
O
interesse recente do público se deve, principalmente, ao avanço de medicamentos
baseados em peptídeos. É o caso da semaglutida e da tirzepatida, inicialmente
desenvolvidas para tratar diabetes tipo 2. Essas substâncias atuam imitando
hormônios que regulam a saciedade e o metabolismo, reduzindo o apetite e
melhorando o controle glicêmico. Com isso, passaram a ser utilizadas também no
tratamento da obesidade, com resultados expressivos na perda de peso e na saúde
metabólica. Esses medicamentos têm eficácia comprovada e passaram por rigorosos
testes clínicos, com perfis de segurança bem estabelecidos.
Outro
campo que preocupa é o uso de peptídeos para performance física. Muitas
substâncias divulgadas com esse objetivo não contam com estudos clínicos em
humanos ou não foram aprovadas para esse fim. Mesmo compostos conhecidos, como
o hormônio do crescimento, têm indicações médicas específicas. Fora desse
contexto, podem causar desequilíbrios hormonais, metabólicos e
cardiovasculares.
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O que são peptídeos?
São
cadeias curtas de aminoácidos (geralmente de 2 a 50) que funcionam como
mensageiros biológicos, sinalizando às células do corpo para realizar funções
específicas. O corpo humano produz alguns hormônios que são peptídeos, como
colágeno, GLP-1, glucagon, insulina, GH, igf-1, HCG e outros.
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Principais usos
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Skincare e estética
• Estimular colágeno e elastina: atuam
sinalizando às células para produzirem mais colágeno, o que aumenta a firmeza,
reduz rugas e melhora a elasticidade da pele.
• Cicatrização e reparação: ajudam na
regeneração tecidual após lesões, sendo úteis em tratamentos pós-procedimentos.
• Ação anti-inflamatória: ajudam a acalmar
a pele sensível ou com rosácea/acne.
• Controle da melanina: regulam a
pigmentação para uniformizar o tom da pele.
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Tratamentos
• Controle de diabetes: a insulina é um
peptídeo usado há mais de um século para gerenciar os níveis de açúcar no
sangue.
• Emagrecimento e controle metabólico:
medicamentos como Ozempic e Monjaro (semaglutida/tirzepatida) imitam peptídeos
como o GLP-1 para controlar o apetite e o metabolismo.
• Regulação hormonal: usados em terapias
de reposição, como o hormônio do crescimento (GH) ou a ocitocina.
• Saúde cardiovascular: peptídeos, como a
nesiritida, tratam insuficiência cardíaca.
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Riscos do uso sem prescrição
O uso
de peptídeos sem recomendação, especialmente injeções "milagrosas"
compradas on-line, oferece riscos graves.
• Contaminação e qualidade: produtos
falsificados ou de laboratórios clandestinos podem conter impurezas, dosagens
incorretas e contaminação bacteriana.
• Desregulação hormonal/metabólica: podem
causar resistência à insulina, alterações na tireoide e desequilíbrios no
hormônio do crescimento.
• Riscos cardiovasculares: o uso de certos
peptídeos tem sido associado a aumento da pressão arterial e problemas
cardíacos.
• Reações locais e sistêmicas: injeções
podem causar dor, inchaço, infecção (abscessos) e inflamação crônica.
• Efeitos gastrointestinais: em peptídeos
orais ou injetáveis (como os para emagrecer), são comuns náuseas, vômitos e
diarreia.
O uso
deve ser estritamente médico e com produtos de procedência farmacêutica.
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Grupos de risco
• Pessoas com histórico de doenças
autoimunes
• Indivíduos com distúrbios hormonais ou
metabólicos
• Pacientes com infecções ou inflamações
agudas
• Gestantes e lactantes
• Pessoas com doenças gastrointestinais e
hepáticas
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Quando os peptídeos são recomendados
O uso
de peptídeos é indicado quando há base clínica e acompanhamento médico, em
situações como:
• Tratamento de diabetes tipo 2
• Controle da obesidade e síndrome
metabólica
• Distúrbios hormonais diagnosticados
• Doenças cardiovasculares específicas
• Condições dermatológicas que exigem
estímulo de regeneração
• Protocolos médicos de envelhecimento
saudável (com critérios rigorosos)
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Na estética
No
universo dermatológico, os peptídeos também ganharam espaço, especialmente em
cosméticos. Cremes e séruns utilizam essas moléculas para estimular a produção
de colágeno, melhorar a firmeza da pele e auxiliar na reparação cutânea. A
médica dermatologista Regina Buffman explica que, no uso dermatológico, os
peptídeos são fragmentos de proteínas que atuam como “sinalizadores” para a
pele, estimulando processos como a produção de colágeno. No entanto, os
resultados são graduais e mais sutis quando comparados a procedimentos em
consultório.
Já os
peptídeos injetáveis atuam em camadas mais profundas da pele e podem apresentar
respostas mais rápidas, mas exigem aplicação por profissionais qualificados.
Para quem deseja os resultados, mas de forma segura, a especialista recomenda optar por
dermocosméticos de marcas confiáveis, que tenham estudos clínicos e formulações
bem estabelecidas.
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O que ainda não tem comprovação
• Peptídeos para ganho “rápido” de massa
muscular
• Substâncias vendidas como
“rejuvenescedoras milagrosas”
• Protocolos estéticos sem estudos
clínicos em humano
• Uso indiscriminado para performance
física
Grande
parte desses produtos não foi aprovada ou sequer testada adequadamente.
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O que observar antes de usar
• Se o produto tem aprovação regulatória
• Se há evidência científica em humanos
• A indicação médica individualizada
• A procedência farmacêutica da substância
• Possíveis efeitos colaterais e
contraindicações
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Palavra do especialista - Leonardo Ferreira é clínico geral e nutrólogo do
Hospital Santa Lúcia, e especialista em peptídeos
• Existe diferença entre peptídeos usados
em tratamentos aprovados e os vendidos no mercado paralelo?
A
principal diferença é que os aprovados foram testados em humanos e
identificados perfis de segurança. Já os do mercado paralelo, além de muitos
serem sem aprovação, existe a questão da procedência e da garantia de que
aquela substância é mesmo o que você esta querendo usar. Resumindo, não podemos
confiar nessas substâncias.
• Peptídeos realmente melhoram a
performance física?
Quanto
aos peptídeos divulgados hoje para performance, a maioria não tem estudo
clínico em humanos ou não foi aprovado. Existem peptídeos que podem ser usados
para performance, por exemplo. Porém, não foram desenvolvidos para essa
finalidade, como o GH (hormônio do crescimento) e alguns de seus análogos muito
estudados no tratamento de lipodistrofia de pacientes com HIV.
• O que mais preocupa o senhor na
popularização desses produtos?
Hoje,
nossa principal preocupação é, primeiro, com o uso indiscriminado, sem
acompanhamento médico ou sem indicação médica, afinal toda medicação tem
contraindicação e efeito colateral. Outra preocupação é a procedência das
medicações, muitas vezes vinda do mercado ilegal, sem garantia de segurança. E
outra é o uso de substâncias que não foram aprovadas em humanos, ou até mesmo
nunca foram testadas em humanos dentro de estudos clínicos.
Fonte:
Correio Braziliense

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