quinta-feira, 30 de abril de 2026

“Fim da Cracolândia”, uma ilusão conveniente

De repente, a Cracolândia desapareceu. Ou deixou de existir como aquilo que, durante anos, parecia incontornável: um território contínuo, visível e concentrado no centro de São Paulo. As imagens que a definiam — barracas improvisadas, pessoas nas calçadas, consumo aberto, circulação intensa — tornaram-se mais raras. As ruas parecem mais vazias. Desapareceu um espaço urbano capaz de sustentar uma cena aberta de uso em larga escala. Mas o desaparecimento dessa paisagem não coincide com o fim do problema. Indica uma transformação nas condições de visibilidade. Durante décadas, a Cracolândia condensou formas extremas de desigualdade e tornou visível, de maneira concentrada, aquilo que a cidade tende a dispersar. O que se dissolve agora não é esse conjunto, mas a forma que o tornava evidente: a cena aberta, contínua e concentrada. A questão, então, se desloca. O que desaparece quando desaparece a Cracolândia? O problema — ou a forma que o tornava reconhecível? Como nomear aquilo que passa a existir de maneira fragmentada? E que efeitos políticos decorrem de um regime em que a visibilidade se dispersa?

Este texto parte dessas perguntas e propõe um deslocamento: o processo recente não indica simplesmente um desaparecimento, mas coloca em crise, ao mesmo tempo, a forma e o nome que permitiam reconhecer esse conjunto como unidade. As pessoas permanecem na cidade, agora distribuídas em configurações menores, instáveis, por vezes encobertas. O desafio consiste em compreender o que acontece quando um problema perde a forma que o tornava reconhecível — e quando ainda não sabemos como nomear o que surge em seu lugar.

<><> O que sumiu da Cracolândia

Desaparecer não é um verbo simples. Pode designar a extinção de algo ou a alteração das condições sob as quais ele se torna perceptível. Entre essas possibilidades, abre-se um intervalo decisivo: a passagem entre existir e tornar-se reconhecível como objeto. No caso da Cracolândia, a transformação incide sobre o regime de visibilidade. Durante décadas, o fluxo produziu uma forma que se impunha ao olhar: concentração contínua em poucos quarteirões, presença reiterada no espaço urbano, uma configuração difícil de ignorar. Essa forma não correspondia apenas a uma aglomeração. Operava como dispositivo de produção de unidade: tornava possível reconhecer um conjunto de práticas, pessoas e relações como um problema comum, delimitável e nomeável. A concentração organizava as condições de apreensão, descrição e intervenção. Ao reunir centenas de pessoas em um mesmo território, instituía um campo de exposição no qual essas vidas se tornavam visíveis e acessíveis como objeto de ação. Estado, mídia, pesquisadores e organizações encontravam ali um referencial comum para estabilizar categorias, produzir diagnósticos e orientar intervenções. A Cracolândia se constituía, assim, como problema governável. Essa visibilidade implicava também exposição intensificada. A mesma forma que permitia reconhecer ampliava a precariedade, ao tornar essas existências continuamente acessíveis à ação policial, assistencial e midiática. A concentração operava, assim, em dois níveis: produzia evidência pública e ampliava a captura. A dissolução dessa forma reorganiza esse campo. O que se altera não é apenas a distribuição espacial, mas as condições de inteligibilidade. As pessoas que compunham essa cena permanecem na cidade, agora distribuídas em formas menores, instáveis, descontínuas, por vezes encobertas. O que se apresentava como unidade passa a operar como série fragmentada.

Observações de campo indicam que o consumo persiste, agora sob formas mais dispersas e menos visíveis. As ocorrências tornam-se intermitentes, de baixa densidade e distribuídas pelo território, sem produzir a mesma evidência da concentração anterior. A dificuldade de apreensão decorre dessa nova forma de inscrição no espaço urbano. A perda de forma torna mais difícil a estabilização como objeto. A nomeação se torna incerta, a coordenação de intervenções se fragmenta e a visibilidade pública perde intensidade. O que se dispersa no espaço se dispersa também no campo da percepção. Com a dissolução dessa forma, a questão se desloca. Interessa compreender sob quais condições o problema se torna reconhecível quando o que o tornava visível se desfaz. Desaparece a condição que permitia sua apreensão como unidade, enquanto o problema passa a existir sob outras formas de inscrição.

<><> Território: as condições de existência da Cracolândia

A Cracolândia, tal como se configurou de forma concentrada, se altera. Esse deslocamento exige um recuo analítico: não mais perguntar para onde ela foi, mas sob quais condições pôde existir — e por que naquele lugar. Cenas de uso, visíveis ou encobertas, dependem de condições específicas que tornam certos territórios mais propícios à sua formação e permanência. O centro de São Paulo reunia, há décadas, uma combinação densa dessas condições. Ali se cruzam infraestruturas que compõem um ecossistema mínimo de sobrevivência urbana, ainda que precário: transporte, assistência social, equipamentos de saúde, abrigos, hotéis populares, pensões, cortiços, restaurantes populares, redes religiosas e circuitos informais de renda. Para quem vive em situação de rua, essa densidade constitui uma vantagem. Soma-se a instabilidade histórica do centro, marcado por ciclos de valorização e abandono, que produzem zonas de menor disputa. O território oferece também anonimato: um distanciamento em relação a vínculos e olhares socialmente relevantes que incidem sobre a vida cotidiana. O centro mantém longa relação com o uso de substâncias psicoativas. Diferentes formas de consumo se sucederam ao longo do século XX, até a disseminação do crack nos anos 1990. Essas dinâmicas não dependeram da presença de equipamentos de saúde para se constituírem, ainda que a disponibilidade desses serviços integrasse o conjunto de condições que tornavam possível a permanência no território, sem que isso se reduzisse a uma relação causal direta. Na constituição da Cracolândia, articulam-se a presença de pessoas em situação de rua e circuitos consolidados de comercialização, organizados em torno de uma demanda constante por substâncias. No decorrer da pesquisa, um de nossos interlocutores condensou essa dinâmica em uma formulação direta: “o usuário quer a pedra”. O consumo de crack favorece a proximidade entre uso e oferta. A formação de cenas visíveis resulta da convergência entre trajetórias fragilizadas e circuitos de comercialização territorializados. A centralidade da Cracolândia vinculava-se a essa combinação.

Esse arranjo não se limitava à cena aberta. Formas menos visíveis sempre coexistiram: imóveis ocupados, cortiços, hotéis e outros espaços fechados. Antes da consolidação do fluxo, essas modalidades eram mais presentes. A cena aberta resulta, em parte, de intervenções que deslocaram práticas para o espaço público. O visível nunca correspondeu à totalidade. A associação entre Cracolândia e concentração em espaço aberto não esgota o fenômeno. Nos primeiros anos, o uso se organizava amplamente no interior de imóveis, em coexistência com o espaço público. Mesmo após a emergência do fluxo, esse arranjo persistiu por longo período. A consolidação da cena aberta contínua ocorre posteriormente, em um processo marcado por deslocamentos. Essa trajetória indica que a exposição do consumo é contingente. Sempre que possível, o uso se desloca para espaços menos visíveis. As configurações atuais podem ser compreendidas como rearticulações de formas já presentes. A Cracolândia pode ser pensada como o efeito visível de uma configuração urbana mais ampla. Sua existência decorria da articulação entre pobreza persistente, ruptura de vínculos, precariedade habitacional, insuficiência das redes de cuidado, infraestrutura urbana e territorialização dos circuitos de oferta. O fluxo operava como ponto de convergência: trajetórias marcadas por deslocamentos encontravam ali uma forma de estabilização relativa.

Coloca-se, então, uma questão: tratava-se apenas de um espaço de degradação ou também de uma forma de organização da vida urbana sob condições extremas? Essa formulação permite reconhecer a coexistência entre violência e forma, precariedade e estabilização. Essa ecologia urbana foi desarticulada. A forma concentrada deixa de se sustentar. As práticas persistem, agora reorganizadas de maneira dispersa. A transformação incide sobre o território e sobre a forma de aparecimento. A concentração permitia reconhecimento, nomeação e intervenção; sua dissolução desloca essas condições e orienta a análise para o problema da legibilidade.

<><> Dispersão: como se desarticula um território

A dissolução da Cracolândia como forma concentrada e aberta resulta de um processo. Um território dessa natureza não se desfaz por si só. A questão desloca-se para as operações que tornam inviável sua continuidade. A desarticulação do fluxo, nos últimos anos, decorre de intervenções sucessivas que incidem diretamente sobre a estabilização da concentração. Operações policiais recorrentes, interrupções de tentativas de recomposição e pressões constantes produzem um ambiente de instabilidade. A permanência deixa de se sustentar. Soma-se a desmontagem de circuitos econômicos informais — como a coleta e comercialização de materiais recicláveis — que, de certa forma, possibilitavam a subsistência no território. O processo incide menos sobre a retirada imediata de pessoas e mais sobre a transformação das condições de permanência. Essa transformação alcança também a circulação de substâncias, elemento central na formação do fluxo. Políticas de restrição da oferta e enfrentamento do tráfico alteram circuitos de distribuição e deslocam pontos de venda. Ao incidir sobre esses circuitos, reconfiguram a relação entre território, oferta e consumo e contribuem para a desarticulação da concentração visível, com efeitos na redistribuição no espaço urbano e nas condições de formação de cenas abertas.

Outro plano de intervenção diz respeito ao desmonte de áreas do centro associadas à sustentação do fluxo. Essas ações atingem a rede mais ampla que tornava aquela configuração possível, deslocando o problema para além do ponto visível. Seus modos de execução, efeitos sobre as populações e níveis de violência ainda demandam investigação mais precisa. Esse processo se articula a uma disputa narrativa. Discursos recentes de governos estadual e municipal atribuem centralidade ao tráfico localizado na Favela do Moinho como principal responsável pelo abastecimento da Cracolândia. A presença de atividades ilícitas nesse território é reconhecida, mas a hipótese de que constituía a fonte predominante carece de sustentação empírica. Evidências etnográficas e registros acumulados ao longo das últimas décadas indicam a existência de circuitos de produção e circulação distribuídos pela região central, incluindo espaços fechados e menos visíveis. A cobertura midiática também documentou, de forma recorrente, a presença desses circuitos em diferentes pontos do entorno. Esses elementos apontam para uma rede mais difusa de produção e circulação.

O que se delineia é um conjunto de intervenções que operam simultaneamente sobre circulação, permanência, acesso e território. Isoladamente, não explicam a dissolução; em combinação, produzem a progressiva impossibilidade de sustentar uma concentração densa e aberta. A dispersão emerge desse processo. Não se trata de afirmar que essa reorganização agrava ou resolve o problema, mas de explicitar os efeitos que produz. Essa reorganização altera a forma de aparecimento. Ao inviabilizar a aglomeração, altera as condições de reconhecimento como unidade. O que se desfaz não é apenas um território, mas um regime de visibilidade. A concentração sustentava a nomeação e a apreensão como problema comum; sua dissolução desloca essas condições. A dispersão redistribui as pessoas no espaço urbano e reorganiza os modos de ver, nomear e intervir. O que se apresentava como unidade passa a operar como série fragmentada, de difícil estabilização. A transformação altera diretamente as formas de intervenção, ao modificar as condições sob as quais práticas de cuidado, controle e acompanhamento se tornam possíveis.

<><> Cuidado e controle: quando o cuidado se confunde com coerção

A dispersão não incide apenas sobre o espaço. Ela transforma as práticas que se organizavam em torno dele e altera o modo como o cuidado se torna possível. Durante anos, equipes de saúde e assistência social operaram, ainda que de forma incipiente, a partir de uma relativa estabilidade: presença contínua, construção de vínculos e oferta de cuidado nos territórios. Essa prática dependia de uma condição frágil: a confiança.

Relatos etnográficos indicam uma inflexão nesse arranjo. Informações produzidas no contexto do cuidado passam a circular por circuitos institucionais mais amplos, e a presença de equipes pode anteceder operações policiais de dispersão. O cuidado deixa de operar como espaço relativamente protegido e passa a se articular diretamente a dispositivos de controle. Os vínculos se reconfiguram: a aproximação passa a operar em uma zona de ambiguidade entre suporte e risco. Essa inflexão se expressa nos dispositivos institucionais. A internação, inclusive compulsória, ganha centralidade como resposta. Situações complexas são traduzidas como urgência de retirada. A intervenção incide simultaneamente sobre o sujeito e sobre o território: retirar alguém reorganiza o espaço. Os encaminhamentos convergem para comunidades terapêuticas, frequentemente organizadas em torno de abstinência, disciplina, trabalho e referenciais religiosos, situadas fora dos centros urbanos. Esse deslocamento não apenas afasta pessoas, mas também reduz a visibilidade pública das práticas que as atravessam.

Pesquisas em saúde coletiva e antropologia apontam tensões persistentes: regimes disciplinares, formas de contenção, assimetrias institucionais e denúncias recorrentes de violência. Não se trata de casos isolados, mas de um campo marcado por práticas que tensionam os limites entre cuidado e coerção. A dispersão urbana e esses encaminhamentos produzem um deslocamento convergente. O problema deixa o campo de visibilidade concentrada e passa a operar em espaços fragmentados e menos acessíveis: hotéis populares, cortiços, imóveis abandonados, terrenos baldios, baixos de viadutos e instituições. Também reaparece de forma dispersa em espaços públicos, sobretudo em determinados horários. Nesse contexto, a violência não se apresenta apenas como evento excepcional, mas como efeito das próprias configurações de intervenção. Situações em que o acesso ao cuidado depende da submissão e em que as alternativas se estreitam não constituem desvios, mas parte da forma que esse campo assume. A distinção entre cuidado e coerção perde nitidez no plano empírico. As categorias tradicionais — cuidado, proteção, tratamento, controle — deixam de operar como distinções estáveis. Passam a coexistir em arranjos nos quais seus limites se tornam difusos. Essa reconfiguração incide diretamente sobre a forma de aparecimento na cidade e participa da dispersão e da multiplicação de cenas.

<><> Espalhamento: quando a cidade se fragmenta em cenas

A dissolução da forma concentrada não elimina as práticas que antes se organizavam naquele território. O que emerge é outra forma: uma multiplicidade de cenas menores, instáveis, distribuídas por diferentes pontos da cidade, algumas delas encobertas. Grupos se formam e se desfazem rapidamente, deslocam-se com maior frequência e ocupam espaços variados — praças, calçadas, terrenos vazios, baixos de viaduto, ruas centrais fora do horário comercial. A dinâmica passa a operar como fragmentação. Essa fragmentação não se limita ao que se torna visível. O uso de crack sempre incluiu modalidades menos expostas — em imóveis ocupados, cortiços, hotéis precários e outros espaços fechados. A centralidade do fluxo concentrou a atenção sobre a cena aberta. A dispersão recoloca em primeiro plano a coexistência entre formas abertas e encobertas. O termo “cenas abertas de uso” descreve apenas uma parte desse conjunto. A fragmentação pode sugerir redução de intensidade. Sem a grande aglomeração, cada cena parece menor. O que ocorre, no entanto, é redistribuição. O uso deixa de se concentrar e passa a se espalhar pelo tecido urbano, com centralidade enfraquecida, compondo uma rede de ocorrências nem sempre simultâneas nem facilmente reconhecíveis como parte de um mesmo processo.

Essa transformação altera a geografia da cidade. O que antes se concentrava em um território específico passa a atravessar diferentes regiões, aproximando-se de áreas que não conviviam diretamente com essa dinâmica. A experiência urbana se torna mais difusa, intermitente e menos previsível. Observações empíricas indicam maior mobilidade e ocupações provisórias que dificultam a estabilização de pontos fixos. A concentração produzia unidade e permitia nomear, descrever e acompanhar. Com a dispersão, essa unidade se desfaz. Cenas menores passam a aparecer como episódios isolados, frequentemente desconectados de um quadro mais amplo. A fragmentação incide diretamente sobre as condições de inteligibilidade. A perda de forma compromete o reconhecimento como problema coletivo. O que se dispersa no espaço se dispersa também na percepção. A dificuldade deixa de ser apenas localizar e passa a envolver a possibilidade de reunir aquilo que se apresenta de maneira descontínua. Essa alteração produz efeitos ambíguos. A visibilidade como questão pública perde intensidade e a mobilização se enfraquece. Ao mesmo tempo, a presença parece ampliada: o problema surge em múltiplos pontos, de forma intermitente. A cidade deixa de ter um lugar específico e passa a conviver com ocorrências difusas. O ponto não consiste em avaliar se essa transformação é melhor ou pior, mas em compreender os efeitos que produz.

Essa ambivalência é também política. Regimes de visibilidade distribuem de maneira desigual as possibilidades de reconhecimento e intervenção. Um problema concentrado se impõe como questão pública; um problema disperso se torna mais difícil de sustentar como objeto de disputa. Coloca-se, assim, uma questão: a quem interessa um regime no qual o problema se torna menos visível como unidade e mais difícil de apreender? Diferentes formas de organização da visibilidade produzem efeitos políticos distintos. A transformação não se limita à redistribuição espacial. Envolve uma alteração de escala, de forma e de regime de visibilidade. O uso persiste sob condições nas quais sua apreensão como unidade se torna incerta. A questão final se impõe: ainda faz sentido falar de “a” Cracolândia? Ou o que se apresenta corresponde a um conjunto de configurações que não se deixam reunir sob um mesmo nome? A fragmentação desestabiliza as categorias que permitiam apreendê-la. Sua existência persiste enquanto sua nomeação se torna incerta.

<><> Nomear o quê? Quando o problema perde seu nome

A dissolução da Cracolândia como território evidente e a fragmentação do fluxo deslocam o problema para o plano da nomeação. Já não se trata apenas de descrever transformações, mas de compreender sob quais condições algo se torna reconhecível como problema. Durante anos, “Cracolândia” funcionou como forma de condensação: reunia práticas, pessoas e espaços em um objeto identificável, nomeava um lugar, um conflito e um campo de intervenção. Sua força residia na capacidade de sustentar uma unidade. Esse nome, porém, nunca foi neutro. Surge na imprensa, associado a narrativas de degradação e perigo, e carrega uma marca estigmatizante. Ao longo do tempo, também foi apropriado e reinscrito pelos próprios sujeitos que habitavam esses territórios. Nomear, nesse sentido, não apenas descreve: organiza o campo no qual algo pode aparecer como problema. Com a perda da forma concentrada, esse regime se altera. O termo permanece em circulação, mas perde aderência. Ganha espaço um novo vocabulário. Expressões como “cenas abertas de uso” — mais assépticas e alinhadas a repertórios técnicos internacionais — passam a nomear aquilo que se torna visível. Ao fazê-lo, delimitam o conjunto ao espaço público e deixam à margem formas encobertas que persistem – e cuja extensão, inclusive sua possível proliferação, permanece em aberto. Essa substituição, frequentemente acelerada, não é neutra: ao mesmo tempo em que descreve, também reorganiza o campo do visível e do nomeável. Ao dissolver referências associadas à Cracolândia, contribui para enfraquecer a memória de uma configuração que se impunha como problema comum. A linguagem, nesse caso, não apenas acompanha a transformação — participa ativamente dela.

Essa mudança tem efeitos diretos. Um nome que condensava produzia unidade; um vocabulário distribuído fragmenta a apreensão. O problema deixa de se apresentar como um só e passa a operar como série de situações. A recusa do termo “Cracolândia” participa desse deslocamento: pode reduzir o estigma ou marcar uma ruptura, mas também dificulta a reunião do que aparece de forma dispersa. É nesse ponto que se situa a contribuição deste texto: descrever, com base empírica, os processos pelos quais a forma concentrada da Cracolândia pôde ser desarticulada, ao mesmo tempo em que se confronta a leitura apressada — hoje amplamente difundida — que confunde deslocamento com solução. Longe de indicar um desaparecimento, as transformações em curso apontam para uma recomposição ainda instável, capaz de assumir diferentes configurações: desde a multiplicação de cenas abertas, menores e dispersas, até a possível expansão de formas encobertas cuja extensão permanece difícil de dimensionar. O que se altera não é a existência do problema, mas o regime sob o qual ele se torna visível e reconhecível. Tomar essa mudança como resolução equivale a confundir a reorganização da visibilidade com o enfrentamento do problema. Sem uma forma que sustente a unidade, a nomeação se torna instável — e, com ela, enfraquecem os diagnósticos, as controvérsias públicas e as possibilidades de intervenção. Colocam-se, então, algumas perguntas: o que acontece quando um problema deixa de se impor como evidência? Como reunir, sob um mesmo nome, aquilo que passa a operar de maneira fragmentada? E que efeitos políticos decorrem de um regime em que a dispersão reduz a pressão coletiva?

Essa indeterminação não se encerra no presente. As intervenções que atravessaram esse território — operações policiais, dispersões sucessivas, deslocamentos forçados, internações compulsórias, a articulação entre cuidado e controle — compõem uma experiência que ainda resiste à nomeação. Essa escrita já está em curso, em pesquisas e registros que buscam dar forma ao que se passou. Haverá um momento em que esse conjunto poderá ser reconhecido com maior nitidez: nomear a violência, descrever seus modos de operação, situar seus efeitos. Quem fará essa escrita? Com que palavras? Sob quais categorias? Que nome receberão, no futuro, práticas que hoje se distribuem entre segurança, saúde e assistência? E como serão lembrados os espaços onde se concentraram? Enfim, o problema não desapareceu. Persiste, redistribuído no espaço urbano e operando sob outras condições de visibilidade. A forma concentrada cede lugar à fragmentação, dificultando sua apreensão como unidade e sua constituição como objeto de intervenção. As tensões que o estruturam seguem ativas e se reinscrevem na cidade. Seus desdobramentos permanecem em aberto. O que deixou de ser visível não deixou de existir — apenas mudou de lugar, como tantas coisas que a cidade aprende a não ver.

 

Fonte: Por Ygor Diego Delgado Alves e Pedro Paulo Gomes Pereira, em Outras Palavras

 

Nenhum comentário: