Oportunidades
e desafios da cooperação dos BRICS em inteligência artificial
Com a
expansão acelerada da economia digital, os países do BRICS têm enfatizado cada
vez mais o papel decisivo das tecnologias emergentes, como a inteligência
artificial (IA), na promoção da inovação nacional, da competitividade econômica
e da transformação e modernização industrial. Na Cúpula dos BRICS de 2025, os
líderes emitiram uma declaração conjunta sobre IA, delineando princípios de
desenvolvimento e governança multidirecionais. Em fevereiro deste ano, a Índia
sediou com êxito o AI Impact Summit e será também anfitriã da Cúpula dos BRICS.
Espera-se que a IA permaneça como um dos principais focos para todas as partes.
A
infraestrutura digital é uma preocupação compartilhada entre os países do BRICS
e um eixo central para a cooperação futura. A implementação bem-sucedida de
aplicações de inteligência artificial depende do acesso a infraestruturas como
capacidade computacional, armazenamento, redes e serviços em nuvem. De modo
geral, os países do BRICS adotam uma estratégia de desenvolvimento baseada na
combinação de “autossuficiência + cooperação aberta”, buscando consolidar a
soberania tecnológica ao mesmo tempo em que enfrentam fragilidades em seus
ecossistemas locais. Por exemplo, o Brasil lançou, em 2024, o Plano Brasileiro
de Inteligência Artificial (PBIA 2024–2028), estabelecendo um orçamento
dedicado de US$ 4 bilhões para apoiar a implantação nacional de clusters de
data centers e a internalização da produção de chips de memória. A empresa
chinesa Longsys Electronics Co., Ltd. investiu RMB 859 milhões para expandir
sua linha de encapsulamento e testes de chips de memória em São Paulo e, em
parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),
criou um fundo especial para infraestrutura de IA, orientando a participação de
capital privado na modernização de redes em áreas rurais e remotas.
A
Missão Nacional de IA da Índia recebeu US$ 1,25 bilhão em financiamento
governamental para a aquisição de GPUs da NVIDIA, a construção de uma
plataforma nacional de computação em IA e a criação dos chamados “Centros de
Excelência em IA”. Além disso, o governo indiano, por meio do NITI Aayog
(Comissão Nacional de Planejamento), tem colaborado com provedores
internacionais de serviços em nuvem, como AWS, Microsoft e Google, para
estabelecer laboratórios conjuntos, oferecendo recursos computacionais a startups
e instituições de pesquisa.
A
Indonésia, apoiando-se no projeto de cabos submarinos Palapa Ring e na
modernização nacional das estações-base 4G/5G, vem colaborando com a Microsoft
e a Alibaba Cloud para construir centros locais de computação em nuvem e dados
para IA. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos despontam na implantação
de supercomputação verde no Oriente Médio. O supercomputador Shaheen-3, apoiado
pelo Fundo de Investimento Público saudita (PIF), conta com dezenas de milhares
de GPUs e atua em parceria com o setor energético do país para integrar energia
solar e eólica aos sistemas de resfriamento e fornecimento de energia de seus
data centers. Nos Emirados Árabes Unidos, o Grupo G42 investiu centenas de
bilhões de dólares na construção de clusters de GPUs em Abu Dhabi e Dubai,
estabelecendo uma rede global de serviços em nuvem voltada para inteligência
artificial.
Em suas
estratégias de desenvolvimento em IA, os países do BRICS concentram-se na
aplicação da inteligência artificial em áreas-chave, lançando projetos
demonstrativos em setores cruciais como agricultura, saúde, finanças e energia.
Por
exemplo, a Etiópia prioriza aplicações na agricultura e na atenção primária à
saúde. O Instituto Etíope de Inteligência Artificial (EAII), em colaboração com
o Ministério da Agricultura, utiliza imagens de sensoriamento remoto de
satélites Landsat e dados de drones como insumo para modelos de machine
learning, permitindo o monitoramento do crescimento das culturas, a previsão de
safras e a identificação de pragas e doenças.
A Índia
avança de forma abrangente na aplicação da IA em agricultura inteligente,
transporte inteligente e educação online. Apoiado pela plataforma “Digital
India”, o governo colabora com o IRRI (Instituto Internacional de Pesquisa do
Arroz) no desenvolvimento de sistemas inteligentes de irrigação e controle de
pragas. Plataformas de ensino online, como a Byju’s, utilizam algoritmos de
recomendação para oferecer cursos personalizados a milhões de estudantes.
A Abu
Dhabi National Oil Company (ADNOC), em parceria com a Masdar (empresa local de
energias renováveis), lançou uma plataforma baseada em IA para monitoramento e
otimização de emissões de carbono. Na cúpula dos BRICS deste ano, espera-se que
os países-membros e parceiros avancem em resultados mais concretos de
cooperação, especialmente no uso da IA em agricultura, saúde, finanças e
energia.
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O foco no desenvolvimento de talentos também se impõe como elemento central
De modo
geral, os países do BRICS estruturam seus ecossistemas de formação a partir de
quatro frentes: educação básica, formação profissional, pesquisa universitária
e cooperação internacional, buscando construir um sistema “de ponta a ponta”,
que vai da capacitação geral à pesquisa científica de alto nível.
O
Brasil, além de lançar em 2024 o Programa de Certificação Profissional em IA no
âmbito do PBIA, também firmou parcerias com Microsoft e IBM para oferecer o
ConectAI, com cursos gratuitos de alfabetização digital e habilidades em
engenharia de IA voltados a populações urbanas e rurais em situação de
vulnerabilidade.
A
Índia, por sua vez, tem mobilizado o programa “FutureSkills”, criando bolsas
nacionais e esquemas de financiamento para doutorado, com o objetivo de
incentivar estudantes a seguir formações avançadas em IA. O governo também
estabeleceu parcerias com empresas como Google e Amazon para criar centros
locais de capacitação, já tendo formado milhões de pessoas em habilidades
digitais.
A China
liderou a criação do “Centro China-BRICS de Desenvolvimento e Cooperação em
Inteligência Artificial”, com o objetivo de promover a colaboração em diálogo
de políticas públicas, intercâmbio tecnológico e formação de talentos em IA. A
Base de Inovação de Xiamen da Parceria para a Nova Revolução Industrial dos
BRICS mantém cooperação com outros países do grupo em projetos voltados à
capacitação de recursos humanos e ao aprimoramento de habilidades em
digitalização e manufatura inteligente, além de oferecer a bolsa de estudos
“Garça Dourada” (“Golden Egret”).
No
entanto, a cooperação aprofundada entre os países do BRICS em inteligência
artificial também enfrenta desafios de natureza estrutural. A partir de
diferentes necessidades de segurança nacional, arranjos industriais e
preferências de governança, os países desenvolvem entendimentos distintos sobre
“soberania digital” e “soberania inteligente”. Divergências nas normas
regulatórias domésticas relativas à segurança de dados tendem a dificultar a
cooperação mais profunda no âmbito do BRICS, especialmente no que diz respeito
aos fluxos transfronteiriços de dados e ao compartilhamento de capacidade
computacional. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) do Brasil associa a
soberania digital à combinação de “localização de dados + conformidade
transfronteiriça”, protegendo a privacidade individual ao mesmo tempo em que
permite o reconhecimento mútuo e o fluxo de dados com a União Europeia, os
Estados Unidos e outros países, desde que sejam estabelecidos acordos de
proteção de dados.
A Índia
enfatiza a “soberania computacional”, destacando a autossuficiência em
infraestrutura. Ao mesmo tempo, sua Lei de Proteção de Dados Pessoais Digitais
(2023) incorpora a transparência e a explicabilidade algorítmica ao escopo da
soberania digital, exigindo o registro local de “relatórios de avaliação de
impacto” e “especificações algorítmicas”, além de impor autorizações rigorosas
para o acesso transfronteiriço a serviços locais de dados.
A
Rússia concentra-se na soberania inteligente por meio da combinação entre
“autonomia tecnológica e proteção de dados”. Ao apoiar o desenvolvimento de
chips e modelos de IA de produção nacional, o país busca alcançar autonomia em
toda a cadeia “hardware–software–algoritmo”. Além disso, no plano da soberania
de dados, a Lei de Dados Pessoais da Federação Russa exige que todos os dados
públicos e sensíveis sejam armazenados no território nacional, ao mesmo tempo
em que estabelece mecanismos de censura de VPNs, canais criptografados e
auditorias de segurança para acessos externos.
A
África do Sul, a Indonésia e a Etiópia ressaltam que a soberania digital deve
abranger o direito dos cidadãos à informação, à participação e à
responsabilização em relação aos dados e algoritmos, bem como o respeito a um
desenvolvimento social inclusivo. Já a Arábia Saudita e os Emirados Árabes
Unidos destacam um modelo de soberania digital que articula energia verde e
capacidade computacional. Todos os países buscam projetar seus próprios modelos
de desenvolvimento e governança para suas regiões e, em certa medida, para o
cenário internacional mais amplo. Ainda assim, a coordenação e a integração
dessas diferentes concepções e práticas tendem a impor um desafio significativo
ao mecanismo de cooperação dos BRICS.
Uma
cooperação efetiva em governança de IA entre os países do BRICS exige o melhor
aproveitamento dos recursos e plataformas já existentes entre os
Estados-membros, em especial a Iniciativa Cinturão e Rota, que pode desempenhar
um papel relevante na redução das lacunas de infraestrutura em IA. Ao mesmo
tempo, torna-se necessário estruturar um mecanismo de comunicação e cooperação
mais ágil e em múltiplos níveis no campo da IA, capaz de ampliar, de forma
coordenada, a voz do bloco no cenário internacional de governança. No plano da
governança, propõe-se a criação de um mecanismo estratégico de diálogo e
construção de confiança em IA no âmbito do BRICS, com a realização de diálogos
regulares em torno dos objetivos estratégicos nacionais, bem como o estabelecimento
de grupos de trabalho permanentes, plataformas de compartilhamento de
informações e redes de intercâmbio entre especialistas. O arcabouço regulatório
e de cooperação em dados do BRICS deve ser aprimorado, promovendo o
reconhecimento mútuo e a coordenação regulatória em temas centrais, como
auditoria de algoritmos de IA, avaliação de riscos e fluxos transfronteiriços
de dados.
No
plano industrial, os países do BRICS devem avançar na construção de uma rede de
cooperação em infraestrutura computacional, de modo a atender com maior
eficácia às demandas de desenvolvimento do Sul Global. O programa conjunto de
formação de talentos em IA deve ser mantido e ampliado, ao passo que se propõe
a criação de um mecanismo de cooperação em investimento e financiamento em IA
no âmbito do BRICS, capaz de oferecer suporte financeiro estável e de longo
prazo ao desenvolvimento dessa tecnologia.
Fonte:
Por Dr. Tianjiao Jiang, no Le Monde

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