Paulo
Motoryn: Como o Brasil pode derrubar Trump e as big techs
Escrevo
esta edição da newsletter em Toronto, no Canadá, onde passei o mês de abril
como pesquisador visitante na Universidade Metropolitana de Toronto. Meu
trabalho foi investigar como a extrema direita brasileira tem importado o
discurso anti-imigração para o país.
A
proposta inicial era ficar mais restrita a temas ligados à política e relações
internacionais. Mas, ao longo da investigação, ficou claro que há uma camada
que não pode ser ignorada e que tem moldado todos os outros debates
contemporâneos: o poder das big techs.
No
Intercept Brasil, temos o privilégio de ter no nosso time a repórter Laís
Martins, que está mergulhada nesse tema há anos. Mas a verdade é que, hoje, não
há como cobrir política ou qualquer outro assunto sem também passar,
inevitavelmente, pelas gigantes empresas de tecnologia.
Foi por
isso que saí da programação oficial do meu programa de pesquisa para ir a uma
conferência do ativista canadense Cory Doctorow, jornalista e autor de livros
de ficção científica. Eu o conhecia pelas traduções de seus textos que
publicamos no Intercept.
Nos
últimos anos, Doctorow tem ganhado repercussão global por ter cunhado o
conceito de merdificação (em inglês, enshittification), que virou livro e
oferece uma explicação com aroma escatológico para a percepção generalizada de
que a internet piorou.
O termo
foi eleito como palavra do ano pela American Dialect Society em 2023 e também
pelo Macquarie Dictionary em 2024, além de ter sido incorporado por vários dos
maiores dicionários do idioma inglês no mundo, como Merriam-Webster e
Dictionary.com.
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Nas
duas horas em que o ouvi em uma conferência em Toronto, sua cidade natal, Cory
Doctorow falou diante de uma plateia que incluía seus próprios pais. Conhecido
pelo estilo bem-humorado, naquele palco apareceu mais incisivo: desde o início,
fez referência direta à crise nas relações entre Estados Unidos e Canadá.
O
público, formado por acadêmicos, militantes e representantes do terceiro setor,
refletiu o tom inflamado. Gritos de “Vergonha!” ecoaram quando Doctorow citou
declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre sua intenção
de anexar o Canadá e transformá-lo no 51º estado dos EUA.
O que
me surpreendeu não foi o diagnóstico — já conhecido — sobre o poder das big
techs ou de Trump, mas o fato de que Doctorow se recusa ao fatalismo que é
comum nesse debate. Em vez de apenas descrever a degradação, ele apontou um
caminho para enfrentá-la.
Sua
proposta parte do diagnóstico inegável de que o domínio dos Estados Unidos
sobre a internet deixou de ser apenas uma vantagem econômica e se tornou um
risco direto à soberania global. “Big tech é Trump, e
Trump é big tech”, disse.
“As
empresas de tecnologia viraram um braço da política externa americana. Quando
Trump se irrita com alguém, essas empresas punem”. Desafiar os Estados Unidos e
as big techs não se trata, segundo ele, de uma hipótese distante e impossível.
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Vale do Silício e a merdificação
De
acordo com Doctorow, a dependência de plataformas, sistemas operacionais,
nuvens e infraestrutura digital coloca governos, empresas e cidadãos comuns de
todo o mundo sob a influência direta de decisões de Washington ou do Vale do
Silício.
E o
resultado, segundo sua teoria, tem sido uma m…. O conceito da merdificação,
vale dizer, descreve o ciclo pelo qual plataformas inicialmente atraem usuários
com bons serviços, depois passam a explorá-los para beneficiar clientes
corporativos e, por fim, degradam a experiência de todos para maximizar lucros
de acionistas.
“Na
fase um, a plataforma é boa para os usuários e encontra uma forma de
prendê-los. Na fase dois, ela piora para os usuários para beneficiar empresas.
Na fase três, ela piora para todo mundo”, explicou. Você pode ler a definição
do conceito nas palavras do próprio Doctorow nessa tradução que publicamos no
Intercept em dezembro de 2024.
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E qual a solução?
Para
Doctorow, a solução não virá por meio de uma regulação legislativa do setor.
Ele argumenta que governos vêm tentando, há anos, conter o poder das
plataformas com novas regras e leis — e acumulam derrotas.
Um dos
exemplos é o próprio Canadá, que aprovou, em 2023, a Online News Act, uma lei
que obrigou plataformas como a Meta a pagar veículos de imprensa pelo uso de
conteúdo jornalístico. Em resposta, a Meta simplesmente bloqueou todas as
notícias no Facebook e Instagram no país, alegando que essa era a única forma
de cumprir a lei.
“Acumulamos
uma sequência constrangedora de derrotas humilhantes nas tentativas de conter
as big techs. Tentamos fazer o Facebook pagar pelas notícias — eles
simplesmente tiraram as notícias da plataforma. Tentamos fazer a Netflix
incluir conteúdo canadense no catálogo — eles se recusaram”, relembrou.
O
problema, segundo ele, é estrutural. Os estados nacionais são, muitas vezes,
menores e mais lentos do que as corporações que tentam regular. O caminho que
Doctorow propõe é outro — e passa diretamente pelo tema da propriedade
intelectual.
Ele
sugere que os países passem a permitir, ou ao menos não criminalizem, a
modificação de sistemas, a engenharia reversa e a criação de alternativas às
plataformas dominantes.
Doctorow
se refere, por exemplo, a aplicativos que acessem as redes sociais, mas removam
anúncios e rastreamento; agregadores de streaming que organizam conteúdos fora
das plataformas originais; lojas de aplicativos que contornem as taxas impostas
por Apple e Google.
O
obstáculo para esse tipo de iniciativa, hoje, é jurídico. Na maior parte dos
países, é crime alterar um celular para usar uma loja de aplicativos
alternativa ou adaptar uma impressora para aceitar cartuchos genéricos.
No
Brasil, propostas como as de Doctorow esbarram em duas leis: a Lei do Software,
que dificulta modificar código ou fazer engenharia reversa sem autorização, e a
Lei de Direitos Autorais, que exige permissão para qualquer transformação de
obras.
No
Canadá, o próprio Doctorow aponta como entrave a Copyright Modernization Act,
aprovada em 2012, que proíbe burlar travas digitais.
É
justamente esse o ponto central da proposta de Doctorow: essas iniciativas hoje
esbarram na lei — mas não precisariam esbarrar.
Em
outras palavras, a “solução” que ele propõe depende de uma decisão política:
descriminalizar práticas hoje proibidas para abrir espaço a um ecossistema mais
competitivo — em que usuários e desenvolvedores possam contornar o controle
exercido pelas big techs.
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Por que o Brasil?
Os
motivos para Doctorow apostar no Brasil como um dos candidatos a puxar o
movimento são estruturais: uma base forte de desenvolvedores, tradição em
software livre, mercado interno robusto e um histórico de políticas digitais
que, em outros momentos, buscaram autonomia.
“O
Brasil tem muitos ativistas comprometidos com software livre. Tem muitos
tecnólogos, porém seu setor de tecnologia hoje funciona como uma espécie de
filial irrelevante de empresas americanas”, afirmou.
“Mas é
um país que tem capital, tem uma população enorme, tem um forte desejo de
desenvolvimento econômico que não passe pela destruição da floresta amazônica.
Isso poderia ser uma oportunidade incrível para o Brasil”, disse Doctorow.
Tirar
essa proposta do papel no Brasil exigiria coordenação entre Executivo,
Legislativo e Judiciário, já que passa pela revisão de leis como a de software
e a de direitos autorais. Não é uma mudança pontual, mas uma decisão política
de alto impacto — com potencial de colocar o país em confronto com as big
techs.
Mas, na
visão de Doctorow, o cenário pode mudar rapidamente e dar frutos ao Brasil
muito rapidamente. Países que desafiarem as regras atuais — especialmente as
que restringem a modificação de sistemas — podem atrair talento global e criar
novos polos tecnológicos.
Ele
compara esse processo ao surgimento de paraísos fiscais, dizendo que ambientes
regulatórios específicos podem concentrar capital e conhecimento em pouco
tempo.
Doctorow
usa o caso de Tonga, país no Pacífico, como metáfora de como decisões
regulatórias podem reposicionar países inteiros na economia digital. “Nós vimos
isso com Tonga nos anos 2000”, disse.
A
referência é baseada em um caso real: ainda nos anos 1990 e 2000, Tonga
percebeu que podia explorar brechas nas regras para uso de satélites e
frequências de rádio que quase ninguém utilizava — e, como empresas tinham
dificuldade de obter esse tipo de autorização em outros países, passaram a
recorrer ao pequeno arquipélago do Pacífico.
Com
isso, o país transformou uma política pública em negócio e atraiu dinheiro,
empresas e profissionais qualificados que estavam com a inovação travada por
regulações mais rígidas em outros lugares.
“Eles
decidiram se tornar um polo de espectro de rádio — e, de repente, gente do
mundo inteiro foi para lá fazer experimentos que não podiam fazer em nenhum
outro lugar”.
A
proposta de Doctorow é essa: quando um país afrouxa regras em um ponto
estratégico — seja espectro, software ou propriedade intelectual —, ele pode
atrair talentos e capital quase instantaneamente. “Um ambiente regulatório
diferente pode puxar gente do mundo inteiro”, afirmou.
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Quando isso pode acontecer?
Segundo
ele, a oportunidade surge, paradoxalmente, em uma crise. Doctorow argumenta que
a escalada política liderada por Donald Trump pode acelerar a ruptura. “Ele é
uma máquina de transformar desastres em câmera lenta em catástrofes impossíveis
de ignorar”, pontuou.
A
lógica é que, diante de um evento extremo — uma sanção, um bloqueio, uma
retaliação —, países deixarão de confiar na infraestrutura dos EUA e buscarão
alternativas. “Ele vai fazer algo tão extremo que vai se tornar impossível
fingir que dá para confiar nos produtos digitais americanos. E aí vira uma
corrida”.
“Quem
conseguir roubar o fogo do Vale do Silício primeiro pode garantir uma vantagem
duradoura”, disse. “Pode ser o Brasil”, acredita ele.
• Marcio Pochmann: Do Iluminismo ao
algoritmo
Se Karl
Jaspers identificou na chamada “era axial” um momento de ruptura, em que
diferentes civilizações produziram formas superiores de pensamento abstrato,
reflexivo e universal, o século XXI parece apontar para um movimento inverso,
com a reconfiguração regressiva das capacidades cognitivas sob a hegemonia das
grandes plataformas digitais. Guardadas as devidas proporções históricas,
trata-se de um processo que poderia sugerir uma espécie de nova forma de
obscurecimento.
A era
axial foi marcada pela emergência de figuras como Buda, Confúcio, Sócrates,
Jesus Cristo e Maomé, associadas à ampliação do vocabulário humano e à
formulação de categorias abstratas fundamentais, como ética, transcendência,
razão e universalidade. Foi um salto qualitativo na capacidade humana de
simbolizar, argumentar e refletir.
Com a
Idade média eurasiana, o retrocesso obscurantista que se manifestou concentrado
no saber nas instituições religiosas por dez séculos, coube ao Iluminismo
colocar a razão, a crítica e a autonomia intelectual no centro da vida social.
Ao defender o conhecimento científico, a liberdade de pensamento e a
secularização do saber, o Iluminismo ampliou as bases da reflexão racional e da
contestação das verdades impostas pela autoridade religiosa e política. Ainda
que não tenha eliminado as formas de dominação, representou um avanço histórico
decisivo ao afirmar a capacidade humana de compreender, explicar e transformar
o mundo por meio do uso público da razão.
Hoje,
sob o domínio quase monopolista das big techs, consolida-se uma nova
infraestrutura do pensamento, baseada menos na expansão da consciência do que
em sua captura e fragmentação. O que está em jogo não é apenas o conteúdo da
informação, mas a própria forma de pensar.
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Do monopólio da fé ao monopólio do algoritmo
Se, no
passado, o obscurecimento esteve ligado ao monopólio religioso do saber, o
presente digital revela um novo tipo de concentração, não mais a da verdade
teológica, mas a da atenção e da mediação cognitiva. Os algoritmos não apenas
distribuem informação, pois eles hierarquizam o que merece visibilidade,
privilegiando conteúdos de alta circulação e baixa complexidade. Com isso,
contribuem para formar um ambiente em que o vocabulário se simplifica, a
escrita se torna mais funcional e imediata, e a abstração cede lugar à reação.
Essa é
a transformação silenciosa da linguagem e, por consequência, da própria
consciência. A linguagem não seria apenas instrumento de comunicação, mas a
condição do pensamento abstrato. Quando o vocabulário se empobrece, reduzem-se
também as possibilidades de conceituar e compreender o mundo.
George
Orwell já alertava para esse problema ao criticar a degradação da linguagem
política. Empobrecer as palavras é reduzir a capacidade de pensar criticamente.
Na era digital, frases curtas substituem argumentos, imagens substituem
conceitos e velocidade substitui reflexão.
O
resultado não é ignorância no sentido clássico, mas algo mais profundo, como o
enfraquecimento da capacidade de sustentar raciocínios complexos e encadeados.
Filosofia, ciência e política dependem de tempo, silêncio e continuidade. No
ambiente digital, ao contrário, predomina a interrupção permanente. Quanto
maior a quantidade de informação disponível, menor tende a ser a capacidade de
processá-la em profundidade.
Não se
trata de falta de inteligência individual, mas de um ambiente que fragmenta
sistematicamente a atenção, recompensa a superficialidade e penaliza o esforço
cognitivo prolongado. O resultado é uma mudança na própria ecologia do
pensamento. Por isso, a hipótese de redução do QI deve ser tratada com cautela,
ainda que haja indícios de estagnação ou reversão em algumas sociedades.
Mais
importante do que esse debate, porém, é reconhecer que estamos diante de uma
mudança qualitativa, com menos memória interna e mais dependência externa, bem
como menos leitura profunda e mais navegação superficial, menos argumentação e
mais reação. A inteligência, assim, não desaparece, mas tem sido redirecionada
para tarefas compatíveis com a lógica das plataformas.
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Sob o capitalismo de plataforma, a regressão cognitiva
Esse
processo não é acidental. Ele está inscrito no modelo de negócios das
plataformas digitais, cujo objetivo central é maximizar tempo de permanência e
engajamento. A simplificação cognitiva não é mero efeito colateral, mas um
subproduto funcional de um sistema que transforma atenção em valor econômico.
Nesse
sentido, a regressão da capacidade de abstração pode ser entendida como uma
forma contemporânea de dominação estrutural. O controle já não se exerce
principalmente pela censura, mas pela modulação dos padrões de pensamento. Se a
Era Axial representou um momento de expansão da consciência humana, o desafio
do século XXI talvez seja evitar sua contração.
A
questão, portanto, não seria rejeitar a tecnologia, mas disputar as suas formas
de organização e seus objetivos sociais. Isso exige reconstruir espaços de
pensamento lento e profundo, revalorizar a linguagem como ferramenta crítica e
submeter os sistemas algorítmicos ao controle democrático.
A era
digital não inaugura uma nova Idade das trevas no sentido clássico. Ela produz
algo mais sofisticado, como uma forma de obscurecimento que opera não pela
falta de informação, mas, sobretudo, por seu excesso desestruturado. Não se
trata da proibição do pensamento, mas de a sua dispersão.
Se Karl
Jaspers identificou na história momentos de elevação da consciência, o presente
obriga a perguntar se não está diante do risco de sua negação. A questão não é
apenas técnica. É política. E, sobretudo, urgente.
Fonte:
The Intercept/A Terra é Redonda

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