Benedito
Tadeu César: Valores e identidade - o conservadorismo como força estruturante
do voto
Impulsionado
pela insegurança, pela religiosidade e pela centralidade das pautas
comportamentais, o conservadorismo se consolida como eixo organizador da
política no Brasil e redefine o comportamento eleitoral.
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Da insegurança à busca por ordem
A
percepção de insegurança, analisada no artigo anterior desta série, não se
refere apenas à violência. Ela se projeta sobre outros aspectos da vida social,
produzindo uma demanda mais ampla por estabilidade, previsibilidade e
pertencimento.
Em
contextos marcados por incerteza econômica, desigualdade persistente e sensação
de insegurança quanto ao dia de amanhã, cresce a adesão aos valores de ordem,
autoridade e tradição. Esse movimento foi amplamente documentado por pesquisas
comparativas como o World Values Survey, realizadas em diferentes países do
mundo.
Nessa
situação, a política deixa de ser estruturada predominantemente por variáveis
econômicas e passa a incorporar, de forma central, disputas morais, culturais e
identitárias.
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Uma mudança que ultrapassa o Brasil
Essa
adesão a valores conservadores de ordem, autoridade e tradição não é exclusiva
do caso brasileiro. Ela se insere em um movimento mais amplo de reconfiguração
política observado em diversas democracias, nas quais os princípios
democráticos vêm perdendo credibilidade.
Levantamentos
do Pew Research Center mostram que, em meados da década de 2020, em torno de
65% da população em mais de trinta países declararam insatisfação com o
funcionamento da democracia, apenas cerca de 34% confiavam no governo, enquanto
menos de 30% acreditavam ter influência nas decisões públicas.
Na
América Latina, dados do Latinobarômetro indicam que cerca de 54% aceitariam um
governo não democrático caso ele resolvesse seus problemas, enquanto a
confiança nas instituições permaneceu baixa, na casa de 20%.
Ambientes
que combinam frustração econômica, insegurança social e descrédito
institucional vêm criando condições favoráveis à emergência de discursos que
prometem ordem, proteção e clareza moral.
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O caso brasileiro: valores em transformação
O
avanço do conservadorismo é um fenômeno global que assume características
regionais específicas e, no caso brasileiro, encontra condições que o tornam
eixo estruturante do comportamento político. Pesquisas de opinião indicam que a
dimensão moral ganhou centralidade no debate público.
Levantamentos
do Datafolha e do Ipec mostram que mais da metade da população no país defende
a presença de valores religiosos na política, enquanto cerca de 60% atribuem
maior importância aos valores familiares do que às propostas econômicas.
Esse
conjunto de dados revela uma tensão importante: a adesão formal à democracia
convive com expectativas de ordem e eficácia que podem relativizar os
princípios democráticos. A baixa confiança institucional, a frustração
econômica e a alta percepção de insegurança são fatores que favorecem discursos
políticos mais duros e simplificados, centrados em ordem, autoridade e valores
tradicionais.
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Religião e política: uma conexão estruturante
A
dimensão religiosa é central para compreender o avanço do pensamento
conservador no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, com base no Censo Demográfico de 2022 (divulgado plenamente em
2024), indicam que os católicos ainda são predominantes, representando cerca de
56,7% da população, enquanto os evangélicos alcançam aproximadamente 26,9%, em
trajetória de crescimento contínuo. Entre 1970 e 1990, o número de templos de
igrejas pentecostais e neopentecostais passou de 1.049 para 17.033,
evidenciando uma expansão acelerada que se mantém nas décadas seguintes —
apenas em 2019 foram abertos 6.356 templos.
Essa
presença crescente não se explica apenas por fatores demográficos, mas pela
forma como a religião se insere no cotidiano social. A centralidade da fé
aparece também nas percepções: pesquisa Quaest de 2023, apresentada no livro
Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, mostra que 86% dos brasileiros com 16 anos
ou mais consideravam a fé mais importante que a ciência, enquanto 96% afirmavam
que Deus está no comando de suas vidas.
Em
áreas marcadas pela fragilidade da presença estatal, essa dimensão ganha
densidade concreta. A insegurança passa a organizar o cotidiano, especialmente
para mulheres das periferias urbanas. O risco de que filhos e companheiros
sejam atraídos pelo tráfico ou vitimados pela violência é uma preocupação
constante, agravada por confrontos armados e operações policiais que tornam o
ambiente ainda mais instável.
É nesse
cenário que as igrejas evangélicas ampliam seu papel. Mais do que espaços de
culto, funcionam como redes locais de apoio, oferecendo pertencimento,
orientação prática e referências de conduta. Ao criar vínculos comunitários e
rotinas compartilhadas, ajudam a dar previsibilidade à vida em contextos
marcados pela incerteza.
A forte
capilaridade territorial das igrejas evangélicas, sobretudo em áreas urbanas
periféricas e regiões de maior vulnerabilidade social, fortalece sua
legitimidade e amplia sua influência para além da esfera religiosa. A atuação
dessas igrejas passa a conectar experiência cotidiana, valores e orientação
política, contribuindo para moldar percepções e escolhas eleitorais. A
religião, assim, deixa de operar apenas como crença individual e se consolida
como uma força estruturante na organização social e na formação do voto.
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A centralidade das pautas comportamentais
A
ascensão do conservadorismo está diretamente associada à centralidade das
chamadas pautas comportamentais. Temas como família, moralidade, educação,
gênero e religião passaram a ocupar posição central na disputa política.
Dados
do World Values Survey indicam que cerca de 70% dos brasileiros atribuem grande
relevância à religião na formação dos filhos. Ao mesmo tempo, mais de 60%
valorizam autoridade e obediência.
Segundo
a pesquisa Quaest de 2023, o Brasil nesse ano havia retrocedido à posição mais
conservadora que tivera em 1997, sendo que este retrocesso conservador teria se
acelerado a partir de 2018.
Em
2023, a pesquisa indicou que a família era a coisa mais importante da vida para
96% dos brasileiros. Mais de 90% dos brasileiros acreditavam que as mulheres
precisam ter filhos para se realizar pessoalmente; entre 64% e 74% dos homens
de acordo com sua cor (brancos, pardos, pretos, outras cores) achavam que uma
mulher que fez um aborto devia ser presa, sendo que entre as mulheres, este
índice variava de 58% a 64%. E 71% afirmavam que a homossexualidade não era
justificável, sendo que 43% se incomodavam em ver casais homossexuais se
beijando.
Esse
quadro de predomínio da concepção conservadora, no entanto, não é homogêneo. O
país apresenta também segmentos expressivos com posições mais liberais,
especialmente em grandes centros urbanos e entre grupos mais escolarizados e
grupos mais jovens. Forma-se, assim, um campo de tensão permanente entre
valores tradicionais e perspectivas mais liberais.
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Mediação, comunicação e identidade
A força
dessas pautas não pode ser compreendida sem considerar sua mediação. Redes
sociais, mídias religiosas e influenciadores desempenharam papel decisivo na
difusão e na consolidação desses valores.
Diferentemente
de temas econômicos, que exigem maior elaboração, as pautas morais operam com
códigos simples, mobilizam emoções e produzem identificação imediata. Essa
característica lhes confere grande eficácia comunicacional.
Nesse
ambiente, valores deixam de ser apenas referências culturais e se tornam
instrumentos ativos de disputa política.
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O retorno da direita e a normalização da extrema-direita
Esse
ambiente comunicacional e simbólico também foi decisivo para um fenômeno
político de maior envergadura: o retorno explícito da direita como identidade
política legítima e a progressiva normalização de posições associadas à
extrema-direita no Brasil.
Nos
anos que se seguiram à redemocratização, a direita brasileira viveu um período
de retração simbólica. Associada ao regime autoritário encerrado em 1985 e
confrontada pela expansão das forças democráticas e da organização popular, a
direita evitava afirmar-se abertamente. A identidade “de direita” era
frequentemente diluída em discursos técnicos, liberais ou desideologizados.
Esse
quadro se alterou de forma consistente a partir da década de 2010 e, de maneira
mais acelerada, após 2018. A direita não apenas retornou abertamente ao espaço
público como passou a ser afirmada com orgulho por parcelas significativas da
sociedade. Mais do que isso, segmentos radicalizados passaram a reivindicar
explicitamente posições de extrema-direita, incorporando elementos
autoritários, com discursos ultranacionalistas e antissistêmicos.
Esse
deslocamento não foi apenas discursivo. Ele se expressou na formação de redes
organizadas, na ampliação de comunidades políticas coesas e na difusão
sistemática de conteúdos ideológicos em ambientes digitais. A internet
tornou-se o principal vetor dessa reorganização, permitindo a articulação
descentralizada e a expansão de redes com forte capacidade de mobilização.
Os
dados disponíveis apontam para uma dinâmica de crescimento consistente.
Levantamentos indicam que o número de núcleos extremistas de direita no Brasil
ultrapassava 500 já no início da década de 2020, com milhares de participantes
distribuídos em diferentes regiões. Entre 2019 e 2021, o contingente de
integrantes desses grupos cresceu de forma acelerada, evidenciando expansão
significativa.
Mais
recentemente, investigações e relatórios indicaram a continuidade desse avanço.
Segundo a Polícia Federal, casos de apologia ao nazismo cresceram mais de 240%
nos últimos anos, concentrados nas regiões Sul e Sudeste, mas com ocorrências
registradas em diversos estados do país. Em paralelo, levantamentos
identificaram a existência de milhares de usuários brasileiros em canais
digitais de orientação neonazista, revelando capilaridade e capacidade de
recrutamento.
As
denúncias relacionadas ao neonazismo e a outras formas de discurso de ódio
também cresceram significativamente ao longo da última década. Ainda que haja
oscilações — muitas vezes associadas à migração dessas atividades para
ambientes fechados e de difícil monitoramento —, a tendência estrutural é a
persistência, a adaptação e a reorganização dessas redes.
No
plano institucional, o tema deixou de ser marginal. Órgãos de Estado e
instâncias de direitos humanos passaram a tratar o avanço de grupos extremistas
como questão relevante, com iniciativas de monitoramento, investigação e alerta
em nível nacional e internacional.
A
relevância desse fenômeno não reside apenas em sua dimensão quantitativa. Seu
impacto mais profundo está na reconfiguração do ambiente político e cultural. A
circulação ampliada de ideias extremistas desloca os limites do debate público,
tornando mais aceitáveis discursos antes marginalizados e ampliando o espaço
para soluções autoritárias.
O
crescimento de núcleos de extrema direita se articula diretamente com os
fatores já analisados ao longo deste artigo — insegurança social, frustração
econômica, descrédito institucional e centralidade das pautas morais. A extrema
direita não emerge como fenômeno isolado, mas como expressão radicalizada
dessas tensões.
O
resultado é uma transformação mais profunda: não apenas a presença mais visível
da extrema direita, mas a redefinição dos parâmetros de legitimidade no espaço
público. Ideias que antes eram socialmente inaceitáveis passaram a circular com
maior naturalidade, influenciando identidades, percepções e, de forma decisiva,
o comportamento eleitoral.
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Valores, conservadorismo e comportamento eleitoral
Em
contextos de instabilidade econômica, insegurança e erosão da confiança
institucional, valores como família, religião, autoridade e ordem assumem
função estruturante na orientação do comportamento político. Não operam como
determinantes automáticos, mas como matrizes de interpretação que organizam
percepções, hierarquizam problemas e delimitam o campo do aceitável.
O
avanço do conservadorismo insere-se nesse quadro como resposta social à
percepção de desorganização provocada por mudanças nos costumes, na estrutura
produtiva e nas formas de sociabilidade. Mais do que uma doutrina coesa,
trata-se de uma reação adaptativa, que oferece repertórios simbólicos de
estabilização diante de experiências de perda, deslocamento ou incerteza.
Esse
processo é intensificado por ecossistemas comunicacionais que operam na
amplificação e na coerência dessas referências, produzindo alinhamentos
identitários relativamente estáveis e reduzindo a exposição a enquadramentos
concorrentes. Assim, valores deixam de ser apenas disposições culturais difusas
e passam a constituir infraestruturas cognitivas organizadas, com efeitos
diretos sobre a formação de preferências políticas.
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Dos valores ao voto
A
conversão dos valores em voto ocorre por meio de uma mediação complexa entre
disposições normativas, experiência social e enquadramento comunicacional.
Valores definem predisposições; a conjuntura — especialmente renda, custo de
vida, segurança e percepção de mobilidade — atua como gatilho; e a comunicação
organiza essa relação ao transformar experiências fragmentadas em narrativas
politicamente inteligíveis.
Nesse
processo, a decisão eleitoral não deriva de uma leitura direta da realidade,
mas de sua tradução simbólica. O eleitor responde menos aos dados em si do que
à forma como são integrados em estruturas de sentido que conectam interesse,
identidade e expectativa.
Em um
ambiente de alta fragmentação informacional e competição entre narrativas, a
disputa eleitoral desloca-se para a capacidade de produzir coerência
interpretativa. O voto passa a expressar, simultaneamente, posição material e
adesão a um regime de significado.
Nessas
condições, a política deixa de operar apenas como escolha entre propostas e se
afirma como escolha entre formas de interpretar o mundo social — e, portanto,
como resultado da capacidade de articular valores, organizar percepções e dar
sentido à realidade social.
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Nota editorial e fontes
As
análises foram elaboradas com base em pesquisas internacionais e nacionais, com
apoio de ferramentas de inteligência artificial e revisão da equipe da RED.
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Fontes: Reuters Institute for the Study of Journalism (Digital News Report),
DataReportal (Digital 2025: Brazil), Comitê Gestor da Internet no Brasil
(CGI.br), Sensor Tower (relatórios de uso de aplicativos), Repórteres Sem
Fronteiras/ Media Ownership Monitor (MOM Brasil), Intervozes— Coletivo Brasil
de Comunicação Social, Projeto Donos da Mídia, NetLab UFRJ, Fundação Getúlio
Vargas (FGV DAPP),SaferNet Brasil, Meta Ads Library (Biblioteca de Anúncios),
Google Ads Transparency Center, Agência Pública, Brasil de Fato, The Intercept
Brasil.
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Colaborou Maria da Graça Pinto Bulhões
Fonte:
Brasil 247

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