terça-feira, 28 de abril de 2026

Joaquim de Carvalho: Como “atentados” são usados pela extrema direita para acabar com as democracias

O episódio envolvendo Donald Trump, durante um jantar com jornalistas em Washington, ocorre em um momento de baixa popularidade do ex-presidente e de cenário adverso para o Partido Republicano, que enfrenta risco concreto de perder maioria na Câmara e no Senado nas eleições de novembro. O caso reabre o debate sobre atentados — ou supostos atentados — que marcaram a atuação da extrema direita ao longo da história recente. Não há casos notórios equivalentes que tenham beneficiado a esquerda de forma comparável. Não se trata aqui de endossar teorias conspiratórias, mas de observar que, em diversos contextos, esses episódios foram usados politicamente para empoderar lideranças e justificar medidas que tensionam ou violam garantias democráticas.

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu na Alemanha, em 1933, com o incêndio do Reichstag. O episódio aconteceu poucas semanas após Adolf Hitler assumir o cargo de chanceler, em janeiro daquele ano. Embora o Partido Nazista já estivesse formalmente no poder, foi após o incêndio que se iniciou, de forma decisiva, a consolidação de um regime autoritário.

O evento foi imediatamente atribuído a uma suposta conspiração comunista. Em resposta, o governo aprovou o Decreto do Incêndio do Reichstag, que suspendeu direitos fundamentais, permitiu prisões em massa de opositores e instituiu mecanismos de censura. Foi nesse contexto que o poder nazista se expandiu de maneira efetiva, transformando uma vitória eleitoral em um regime de exceção baseado na repressão sistemática.

Décadas depois, nos Estados Unidos, episódios envolvendo ameaças contra o então candidato Donald Trump também ganharam destaque durante a campanha presidencial de 2016. O início da campanha foi marcado pelo caso de Michael Sandford, um jovem britânico de 19 anos que foi preso após tentar tomar a arma de um policial durante um comício em Las Vegas. Ele havia feito treinamento de tiro poucos dias antes e declarou às autoridades que pretendia matar o candidato.

Assim como ocorreria no Brasil, dois anos depois, no episódio envolvendo Adélio Bispo de Oliveira em Juiz de Fora, o jovem Sandford foi diagnosticado com problemas mentais, incluindo depressão. Sandford também relatou ser autista, o que não é um problema mental. O episódio em Las Vegas teve ampla repercussão internacional e favoreceu eleitoralmente Trump, com a narrativa de que ele era perseguido.

Já na fase final da disputa, outro episódio ganhou visibilidade, embora com contornos distintos. Durante um comício, um homem identificado como Austyn Crites foi retirado do público após gritos de que estaria armado. A segurança interveio rapidamente, Trump foi retirado do palco e o evento chegou a ser interrompido.

Posteriormente, verificou-se que Crites não portava arma e não havia tentativa concreta de atentado. O próprio envolvido afirmou ser apoiador de Trump e protestar contra a mídia. Ainda assim, o episódio contribuiu para manter o tema da ameaça à segurança no centro da cobertura da campanha, que terminaria com a vitória do candidato.

No Brasil, a campanha de Jair Bolsonaro em 2018 foi profundamente impactada pelo atentado em Juiz de Fora, em 6 de setembro. Após o episódio, Bolsonaro apresentou crescimento significativo nas pesquisas de intenção de voto. Dois dias antes, integrantes de sua campanha haviam informado que ele passara a usar colete à prova de balas, diante de supostos riscos de segurança.

No episódio de Juiz de Fora, porém, Bolsonaro usava uma camiseta de campanha com a inscrição “Meu partido é o Brasil”, contrastando com situações anteriores, como em Rio Branco (AC), onde apareceu com jaqueta — apesar do calor — e fez declarações agressivas enquanto segurava um tripé, em cena que foi amplamente divulgada. “Vamos fuzilar a petralhada”, gritou.

No plano internacional, chama atenção o encontro, semanas antes do atentado, entre Steve Bannon e Eduardo Bolsonaro, em Nova York. Eduardo Bolsonaro afirmou publicamente que Bannon teria alertado sobre a possibilidade de um atentado contra seu pai, que, na época, estava em segundo lugar na pesquisa Datafolha, com 19%. Já Lula tinha 39%. Sem o nome de Lula na pesquisa, que estava preso pela Lava Jato, Bolsonaro subia um pouco – 22% -, nada que o fizesse favorito.

O tema do atentado voltou à cena nos Estados Unidos em 2024, quando Trump foi novamente associado a um episódio envolvendo disparo de arma de fogo. O caso teve enorme repercussão. Especialistas observam que armas como o rifle AR-15 costumam provocar danos severos, mas, no caso de Trump, houve apenas um arranhão.

No Brasil, um episódio histórico frequentemente lembrado é o Atentado do Riocentro, em 1980. Durante a ditadura militar, uma explosão ocorrida em um veículo revelou um plano de setores da extrema direita: realizar um atentado e atribuí-lo à esquerda para justificar o endurecimento do regime, que naquele momento passava por um processo de abertura.

Outro caso de grande impacto foi o Ataques de 11 de setembro de 2001. Após os atentados, os Estados Unidos adotaram medidas como o Patriot Act, ampliando poderes de vigilância do Estado, além da criação de estruturas como o centro de detenção em Guantánamo, alvo de críticas por violações de direitos humanos..

O episódio deste sábado, nos Estados Unidos, já está sendo  utilizado politicamente por Flávio Bolsonaro, que estabeleceu paralelos com o atentado de Juiz de Fora, reintroduzindo o tema no debate público, enquanto Adélio, trancado em cela isolada no presídio de segurança máxima, não pode sequer dar entrevista.

“Coloco nas minhas orações o Presidente Donald Trump, a primeira-dama Melania Trump e todos que estiveram no jantar em Washington. Tentar tirar a vida de quem pensa diferente usando balas ou facas não cabe numa democracia. Que Deus nos proteja desse tipo de violência lá ou aqui no Brasil”, escreveu. Historicamente, é a extrema direita que costuma tirar a vida de quem pensa diferente.

A recorrência desses casos sugere que atentados — reais ou não, e sempre apresentados como ameaças — desempenham papel relevante em contextos políticos que favorecem o projeto da extrema direita. Este artigo não endossa teorias conspiratórias, mas elenca episódios históricos em que tais eventos foram mobilizados politicamente, contribuindo para o fortalecimento de projetos de poder e, em muitos casos, para a restrição de direitos e garantias democráticas.

•        Tiros que vejo no espelho. Por Oliveiros Marques

“Essas pessoas são loucas. São pessoas loucas e precisam ser contidas.” Imagino que essa frase Donald Trump tenha dito ao se olhar no espelho do banheiro do Hotel Hilton, em Washington. Tudo leva a crer que se trata de uma involuntária sessão de autoconhecimento, ocorrida no entreatos do espetáculo na noite do último sábado.

De fato, houve tiros naquela noite. Como bem avisou a porta-voz da Casa Branca horas antes do evento começar. Um homem armado invadiu a área de segurança do jantar com correspondentes da Casa Branca, disparou contra um agente do Serviço Secreto e provocou pânico generalizado.

Apesar da gravidade, o ataque não deixou vítimas fatais. O agente atingido foi protegido pelo colete à prova de balas, e o suspeito - um homem de 31 anos, cidadão norte-americano da Califórnia - foi rapidamente contido.

Ou seja, do ponto de vista letal, tratou-se de um episódio grave, mas contido. Ainda assim, sintomático. Um retrato de um tempo em que a violência política se infiltra no cotidiano - e, não por acaso, encontra eco em discursos que a naturalizam.

Mas o que dizer das ações conduzidas ou respaldadas pelo próprio Trump ao redor do mundo?

Comecemos, por exemplo, pela escalada militar no Oriente Médio. Os ataques dos Estados Unidos ao Irã, amplamente criticados por organismos internacionais por violarem a soberania do país, reacenderam tensões globais e ampliarem o risco de conflito regional.

É um ato de loucos que devem ou não ser contidos?

Os ataques israelenses no Líbano, realizados sob respaldo político dos Estados Unidos, já produziram milhares de vítimas civis e deslocamentos massivos.

É um ato de loucos que devem ou não ser contidos?

A política migratória endurecida, executada por órgãos como o ICE, acumula denúncias de abusos e episódios de violência armada contra civis, inclusive com mortes registradas desde 2025.

É um ato de loucos que deve ou não ser contido?

Os perdões concedidos por Trump a militares acusados ou condenados por crimes de guerra - incluindo casos envolvendo disparos contra civis - representam o quê, senão a institucionalização da barbárie?

É um ato de loucos que deve ou não ser contido?

E quando um líder ameaça dizimar uma civilização ou atingir patrimônio cultural de uma nação inteira, como fez ao mencionar alvos iranianos em 2019, estamos falando de estratégia ou de delírio?

É um ato de loucos que deve ou não ser contido?

O incidente no hotel Hilton – como está sendo tratado pela imprensa - pode até gerar manchetes momentâneas. Mas ele é pequeno diante da lógica que o antecede e o alimenta. Não nasce do nada. É fruto de um ambiente que se constrói no discurso, se legitima no poder e se manifesta na violência.

Penso que esses loucos - aqueles que ocupam temporariamente os postos mais altos de decisão - é que precisam ser contidos.

•        Suspeito de ataque em evento de Trump apareceu com roupa do exército de Israel nas redes

Circula nas redes sociais uma foto de Cole Thomas Allen usando um moletom das Forças de Defesa de Israel (IDF), um dos detalhes que chamaram atenção após o ataque durante o jantar de correspondentes da Casa Branca. Apesar da repercussão, as autoridades ainda não divulgaram um perfil psicológico do suspeito nem esclareceram seus possíveis motivos, informa a agência Sputnik.

Allen, de 31 anos, foi detido após um tiroteio com o Serviço Secreto no evento. No momento da prisão, ele portava uma espingarda, uma pistola e várias facas, e teria planejado atacar “autoridades do governo”. O presidente Donald Trump e os investigadores tratam o caso como um ataque de “lobo solitário”.

Sem antecedentes criminais, Allen foi descrito por um ex-colega de time de vôlei no ensino médio como alguém “muito estável”, “gentil” e um “quase gênio”. Ao mesmo tempo, há relatos de que ele expressava visões “anarquistas”. Outro dado que surpreendeu foi a doação de US$ 25 feita por ele à campanha presidencial de Kamala Harris em 2024.

Com formação sólida na área de tecnologia, Allen se graduou em engenharia mecânica pelo Caltech em 2017 e concluiu mestrado em ciência da computação pela California State University, Dominguez Hills, em 2025. Durante a graduação, participou de grupos como a Christian Fellowship e de equipes de robótica, incluindo Nerf e Blitzkrieg Bots. Em 2014, também integrou o programa de pesquisa de verão do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, com foco em astrofísica.

Na vida profissional, atuava como desenvolvedor independente de jogos e tinha experiência como professor e tutor em meio período na C2 Education, empresa privada de serviços educacionais na Califórnia, onde chegou a ser eleito “Professor do Mês” no fim de 2024. Antes disso, trabalhou na Su-Kam Intelligent Education Systems, desenvolvendo software educacional interativo, e como engenheiro mecânico na IJK Controls, fabricante de equipamentos com vínculos militares. Em 2016, foi estagiário na Fluid Synchrony, empresa voltada a sistemas implantáveis de liberação de medicamentos com micro e nanotecnologia.

•        Novo Adélio? Após tiros no jantar com Trump, Flávio Bolsolnaro insinua que pode ser alvo no Brasil

O senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, reagiu neste domingo (26) ao ataque a tiros durante o jantar de correspondentes da Casa Branca, que levou à evacuação do presidente Donald Trump e de outras autoridades presentes no evento.

Ele afirmou torcer para que haja proteção contra a violência tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. "Coloco nas minhas orações o Presidente Donald Trump, a primeira-dama Melania Trump e todos que estiveram no jantar em Washington. Tentar tira a vida de quem pensa diferente usando balas ou facas não cabe numa democracia. Que Deus nos proteja desse tipo de violência lá ou aqui no Brasil", escreveu Flávio Bolsonaro na rede social X.

Na noite de sábado (25), tiros foram disparados no hotel Washington Hilton durante o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca.

Todos os presentes, incluindo Donald Trump e sua esposa, Melania Trump, foram evacuados. As autoridades detiveram rapidamente o suspeito, enquanto um agente do Serviço Secreto ficou ferido.

O suspeito é Cole Tomas Allen, um residente de 31 anos da Califórnia, da cidade de Torrance, que trabalha como professor. A procuradora dos EUA Jeanine Pirro afirmou que o suspeito comparecerá ao tribunal na segunda-feira.

 

Fonte: Brasil 247

 

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