Joaquim
de Carvalho: Como “atentados” são usados pela extrema direita para acabar com
as democracias
O
episódio envolvendo Donald Trump, durante um jantar com jornalistas em
Washington, ocorre em um momento de baixa popularidade do ex-presidente e de
cenário adverso para o Partido Republicano, que enfrenta risco concreto de
perder maioria na Câmara e no Senado nas eleições de novembro. O caso reabre o
debate sobre atentados — ou supostos atentados — que marcaram a atuação da
extrema direita ao longo da história recente. Não há casos notórios
equivalentes que tenham beneficiado a esquerda de forma comparável. Não se
trata aqui de endossar teorias conspiratórias, mas de observar que, em diversos
contextos, esses episódios foram usados politicamente para empoderar lideranças
e justificar medidas que tensionam ou violam garantias democráticas.
Um dos
casos mais emblemáticos ocorreu na Alemanha, em 1933, com o incêndio do
Reichstag. O episódio aconteceu poucas semanas após Adolf Hitler assumir o
cargo de chanceler, em janeiro daquele ano. Embora o Partido Nazista já
estivesse formalmente no poder, foi após o incêndio que se iniciou, de forma
decisiva, a consolidação de um regime autoritário.
O
evento foi imediatamente atribuído a uma suposta conspiração comunista. Em
resposta, o governo aprovou o Decreto do Incêndio do Reichstag, que suspendeu
direitos fundamentais, permitiu prisões em massa de opositores e instituiu
mecanismos de censura. Foi nesse contexto que o poder nazista se expandiu de
maneira efetiva, transformando uma vitória eleitoral em um regime de exceção
baseado na repressão sistemática.
Décadas
depois, nos Estados Unidos, episódios envolvendo ameaças contra o então
candidato Donald Trump também ganharam destaque durante a campanha presidencial
de 2016. O início da campanha foi marcado pelo caso de Michael Sandford, um
jovem britânico de 19 anos que foi preso após tentar tomar a arma de um
policial durante um comício em Las Vegas. Ele havia feito treinamento de tiro
poucos dias antes e declarou às autoridades que pretendia matar o candidato.
Assim
como ocorreria no Brasil, dois anos depois, no episódio envolvendo Adélio Bispo
de Oliveira em Juiz de Fora, o jovem Sandford foi diagnosticado com problemas
mentais, incluindo depressão. Sandford também relatou ser autista, o que não é
um problema mental. O episódio em Las Vegas teve ampla repercussão
internacional e favoreceu eleitoralmente Trump, com a narrativa de que ele era
perseguido.
Já na
fase final da disputa, outro episódio ganhou visibilidade, embora com contornos
distintos. Durante um comício, um homem identificado como Austyn Crites foi
retirado do público após gritos de que estaria armado. A segurança interveio
rapidamente, Trump foi retirado do palco e o evento chegou a ser interrompido.
Posteriormente,
verificou-se que Crites não portava arma e não havia tentativa concreta de
atentado. O próprio envolvido afirmou ser apoiador de Trump e protestar contra
a mídia. Ainda assim, o episódio contribuiu para manter o tema da ameaça à
segurança no centro da cobertura da campanha, que terminaria com a vitória do
candidato.
No
Brasil, a campanha de Jair Bolsonaro em 2018 foi profundamente impactada pelo
atentado em Juiz de Fora, em 6 de setembro. Após o episódio, Bolsonaro
apresentou crescimento significativo nas pesquisas de intenção de voto. Dois
dias antes, integrantes de sua campanha haviam informado que ele passara a usar
colete à prova de balas, diante de supostos riscos de segurança.
No
episódio de Juiz de Fora, porém, Bolsonaro usava uma camiseta de campanha com a
inscrição “Meu partido é o Brasil”, contrastando com situações anteriores, como
em Rio Branco (AC), onde apareceu com jaqueta — apesar do calor — e fez
declarações agressivas enquanto segurava um tripé, em cena que foi amplamente
divulgada. “Vamos fuzilar a petralhada”, gritou.
No
plano internacional, chama atenção o encontro, semanas antes do atentado, entre
Steve Bannon e Eduardo Bolsonaro, em Nova York. Eduardo Bolsonaro afirmou
publicamente que Bannon teria alertado sobre a possibilidade de um atentado
contra seu pai, que, na época, estava em segundo lugar na pesquisa Datafolha,
com 19%. Já Lula tinha 39%. Sem o nome de Lula na pesquisa, que estava preso
pela Lava Jato, Bolsonaro subia um pouco – 22% -, nada que o fizesse favorito.
O tema
do atentado voltou à cena nos Estados Unidos em 2024, quando Trump foi
novamente associado a um episódio envolvendo disparo de arma de fogo. O caso
teve enorme repercussão. Especialistas observam que armas como o rifle AR-15
costumam provocar danos severos, mas, no caso de Trump, houve apenas um
arranhão.
No
Brasil, um episódio histórico frequentemente lembrado é o Atentado do
Riocentro, em 1980. Durante a ditadura militar, uma explosão ocorrida em um
veículo revelou um plano de setores da extrema direita: realizar um atentado e
atribuí-lo à esquerda para justificar o endurecimento do regime, que naquele
momento passava por um processo de abertura.
Outro
caso de grande impacto foi o Ataques de 11 de setembro de 2001. Após os
atentados, os Estados Unidos adotaram medidas como o Patriot Act, ampliando
poderes de vigilância do Estado, além da criação de estruturas como o centro de
detenção em Guantánamo, alvo de críticas por violações de direitos humanos..
O
episódio deste sábado, nos Estados Unidos, já está sendo utilizado politicamente por Flávio Bolsonaro,
que estabeleceu paralelos com o atentado de Juiz de Fora, reintroduzindo o tema
no debate público, enquanto Adélio, trancado em cela isolada no presídio de
segurança máxima, não pode sequer dar entrevista.
“Coloco
nas minhas orações o Presidente Donald Trump, a primeira-dama Melania Trump e
todos que estiveram no jantar em Washington. Tentar tirar a vida de quem pensa
diferente usando balas ou facas não cabe numa democracia. Que Deus nos proteja
desse tipo de violência lá ou aqui no Brasil”, escreveu. Historicamente, é a
extrema direita que costuma tirar a vida de quem pensa diferente.
A
recorrência desses casos sugere que atentados — reais ou não, e sempre
apresentados como ameaças — desempenham papel relevante em contextos políticos
que favorecem o projeto da extrema direita. Este artigo não endossa teorias
conspiratórias, mas elenca episódios históricos em que tais eventos foram
mobilizados politicamente, contribuindo para o fortalecimento de projetos de
poder e, em muitos casos, para a restrição de direitos e garantias
democráticas.
• Tiros que vejo no espelho. Por Oliveiros
Marques
“Essas
pessoas são loucas. São pessoas loucas e precisam ser contidas.” Imagino que
essa frase Donald Trump tenha dito ao se olhar no espelho do banheiro do Hotel
Hilton, em Washington. Tudo leva a crer que se trata de uma involuntária sessão
de autoconhecimento, ocorrida no entreatos do espetáculo na noite do último
sábado.
De
fato, houve tiros naquela noite. Como bem avisou a porta-voz da Casa Branca
horas antes do evento começar. Um homem armado invadiu a área de segurança do
jantar com correspondentes da Casa Branca, disparou contra um agente do Serviço
Secreto e provocou pânico generalizado.
Apesar
da gravidade, o ataque não deixou vítimas fatais. O agente atingido foi
protegido pelo colete à prova de balas, e o suspeito - um homem de 31 anos,
cidadão norte-americano da Califórnia - foi rapidamente contido.
Ou
seja, do ponto de vista letal, tratou-se de um episódio grave, mas contido.
Ainda assim, sintomático. Um retrato de um tempo em que a violência política se
infiltra no cotidiano - e, não por acaso, encontra eco em discursos que a
naturalizam.
Mas o
que dizer das ações conduzidas ou respaldadas pelo próprio Trump ao redor do
mundo?
Comecemos,
por exemplo, pela escalada militar no Oriente Médio. Os ataques dos Estados
Unidos ao Irã, amplamente criticados por organismos internacionais por violarem
a soberania do país, reacenderam tensões globais e ampliarem o risco de
conflito regional.
É um
ato de loucos que devem ou não ser contidos?
Os
ataques israelenses no Líbano, realizados sob respaldo político dos Estados
Unidos, já produziram milhares de vítimas civis e deslocamentos massivos.
É um
ato de loucos que devem ou não ser contidos?
A
política migratória endurecida, executada por órgãos como o ICE, acumula
denúncias de abusos e episódios de violência armada contra civis, inclusive com
mortes registradas desde 2025.
É um
ato de loucos que deve ou não ser contido?
Os
perdões concedidos por Trump a militares acusados ou condenados por crimes de
guerra - incluindo casos envolvendo disparos contra civis - representam o quê,
senão a institucionalização da barbárie?
É um
ato de loucos que deve ou não ser contido?
E
quando um líder ameaça dizimar uma civilização ou atingir patrimônio cultural
de uma nação inteira, como fez ao mencionar alvos iranianos em 2019, estamos
falando de estratégia ou de delírio?
É um
ato de loucos que deve ou não ser contido?
O
incidente no hotel Hilton – como está sendo tratado pela imprensa - pode até
gerar manchetes momentâneas. Mas ele é pequeno diante da lógica que o antecede
e o alimenta. Não nasce do nada. É fruto de um ambiente que se constrói no
discurso, se legitima no poder e se manifesta na violência.
Penso
que esses loucos - aqueles que ocupam temporariamente os postos mais altos de
decisão - é que precisam ser contidos.
• Suspeito de ataque em evento de Trump
apareceu com roupa do exército de Israel nas redes
Circula
nas redes sociais uma foto de Cole Thomas Allen usando um moletom das Forças de
Defesa de Israel (IDF), um dos detalhes que chamaram atenção após o ataque
durante o jantar de correspondentes da Casa Branca. Apesar da repercussão, as
autoridades ainda não divulgaram um perfil psicológico do suspeito nem
esclareceram seus possíveis motivos, informa a agência Sputnik.
Allen,
de 31 anos, foi detido após um tiroteio com o Serviço Secreto no evento. No
momento da prisão, ele portava uma espingarda, uma pistola e várias facas, e
teria planejado atacar “autoridades do governo”. O presidente Donald Trump e os
investigadores tratam o caso como um ataque de “lobo solitário”.
Sem
antecedentes criminais, Allen foi descrito por um ex-colega de time de vôlei no
ensino médio como alguém “muito estável”, “gentil” e um “quase gênio”. Ao mesmo
tempo, há relatos de que ele expressava visões “anarquistas”. Outro dado que
surpreendeu foi a doação de US$ 25 feita por ele à campanha presidencial de
Kamala Harris em 2024.
Com
formação sólida na área de tecnologia, Allen se graduou em engenharia mecânica
pelo Caltech em 2017 e concluiu mestrado em ciência da computação pela
California State University, Dominguez Hills, em 2025. Durante a graduação,
participou de grupos como a Christian Fellowship e de equipes de robótica,
incluindo Nerf e Blitzkrieg Bots. Em 2014, também integrou o programa de
pesquisa de verão do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, com foco em
astrofísica.
Na vida
profissional, atuava como desenvolvedor independente de jogos e tinha
experiência como professor e tutor em meio período na C2 Education, empresa
privada de serviços educacionais na Califórnia, onde chegou a ser eleito
“Professor do Mês” no fim de 2024. Antes disso, trabalhou na Su-Kam Intelligent
Education Systems, desenvolvendo software educacional interativo, e como
engenheiro mecânico na IJK Controls, fabricante de equipamentos com vínculos
militares. Em 2016, foi estagiário na Fluid Synchrony, empresa voltada a
sistemas implantáveis de liberação de medicamentos com micro e nanotecnologia.
• Novo Adélio? Após tiros no jantar com
Trump, Flávio Bolsolnaro insinua que pode ser alvo no Brasil
O
senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, reagiu neste domingo
(26) ao ataque a tiros durante o jantar de correspondentes da Casa Branca, que
levou à evacuação do presidente Donald Trump e de outras autoridades presentes
no evento.
Ele
afirmou torcer para que haja proteção contra a violência tanto nos Estados
Unidos quanto no Brasil. "Coloco nas minhas orações o Presidente Donald
Trump, a primeira-dama Melania Trump e todos que estiveram no jantar em
Washington. Tentar tira a vida de quem pensa diferente usando balas ou facas
não cabe numa democracia. Que Deus nos proteja desse tipo de violência lá ou
aqui no Brasil", escreveu Flávio Bolsonaro na rede social X.
Na
noite de sábado (25), tiros foram disparados no hotel Washington Hilton durante
o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca.
Todos
os presentes, incluindo Donald Trump e sua esposa, Melania Trump, foram
evacuados. As autoridades detiveram rapidamente o suspeito, enquanto um agente
do Serviço Secreto ficou ferido.
O
suspeito é Cole Tomas Allen, um residente de 31 anos da Califórnia, da cidade
de Torrance, que trabalha como professor. A procuradora dos EUA Jeanine Pirro
afirmou que o suspeito comparecerá ao tribunal na segunda-feira.
Fonte:
Brasil 247

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