"Faltou
governança na crise do BRB", detalham especialistas
"Faltou
governança da diretoria do Banco do Brasília (BRB) e houve conivência dos três
representantes do Governo do Distrito Federal (GDF) no Conselho de
Administração do banco". A avaliação é do economista especialista em
sistema financeiro Newton Marques. O Correio conversou com consultores em
mercado financeiro, que explicaram falhas de governança e compliance que
facilitaram as fraudes e indicaram caminhos para a recuperação da credibilidade
e da solidez do banco.
"Tudo
começou pela falta de compliance", destaca o atual presidente do banco,
Nelson de Souza, em entrevista ao CB.Poder, parceria do Correio Braziliense e
da TV Brasília. "A auditoria chegou a essa conclusão de maneira
contundente, de que tiveram vários alertas (de servidores do banco) que não
foram seguidos, não foi seguida a tramitação do que cabe uma boa
governança", acrescenta.
Professor
de finanças do Ibmec Brasília, Marcos Melo analisa o caminho que levou à
aquisição dos títulos podres do Banco Master, causando um prejuízo bilionário
ao BRB. "O processo decisório dentro do banco, de efetuar a aquisição de
títulos que depois se confirmariam serem inadequados, falhou. Análises
realizadas por equipes internas concluíram por não aprovar a aquisição de tais
títulos e, mesmo assim, a instituição os comprou", comenta.
Melo
explica os pilares que sustentam a governança e o compliance dentro das
instituições financeiras e que estiveram enfraquecidos no BRB. "O mais
importante é a transparência, um pilar que determina que toda informação deve
ser repassada com veracidade, completude, tempestividade e espontaneidade. A
conformidade com normas, leis e regulamentações também é de suma relevância,
além da prestação de contas", elenca. "A governança corporativa tem
por objetivo promover a elevação do valor de mercado da instituição, por meio
da organização do fluxo de informação interna e externa e do tratamento aos
participantes do negócio: funcionários, acionistas, fornecedores, clientes,
investidores e demais parceiros em geral", destaca.
Sobre
caminhos para melhorar a governança, Marcos Melo cita ações já deliberadas na
assembleia dos acionistas que aconteceu nesta semana. "A assembleia
aprovou algumas ações no caminho de aperfeiçoar os processos e remanejar
titulares de postos chaves. Em todo o caso, a implantação de melhorias da
governança corporativa é um processo demorado e que precisa ser acampado pela
alta diretoria de uma forma constante ao longo de anos", frisa. "São
eventos como o que ocorreu junto ao Banco Master que se tornam oportunidades
para que o BRB saia desta situação mais forte do que antes. Assim se espera que
ocorra", salienta.
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Estratégia
"A
governança corporativa vai muito além de um conjunto de normas formais e
depende, sobretudo, da atuação autônoma dos mecanismos de controle dentro das
instituições financeiras. É um sistema estratégico composto por regras,
práticas e regulamentos, que envolve vários setores, cada um com um papel
fundamental", detalha o professor de economia da Universidade de Brasília
(UnB), César Bergo.
Na
avaliação dele, no ambiente do mercado financeiro, a adoção consistente dessas
diretrizes contribui para fortalecer a reputação das instituições diante de
investidores, correntistas e da sociedade. "Uma empresa que segue a
governança corporativa tem um posicionamento mais sólido e ganha
credibilidade", diz.
Bergo
destacou que o compliance atua como um pilar complementar, funcionando como um
"guardião" das normas ao verificar o cumprimento de leis e diretrizes
internas, além de apontar eventuais irregularidades. "Caso não esteja
aderente, o compliance é obrigado a fazer essa sinalização, sobretudo ao
Conselho de Administração", explica, ao enfatizar que essa área precisava
operar com independência para evitar interferências.
O
economista também ressalta a necessidade de manter separadas as funções de
execução e fiscalização dentro das organizações. "Quem executa não
controla. A auditoria e os controles internos precisam estar fora da execução
para evitar omissões, imprudência ou até conivência", ressalta.
Ao
analisar o caso do BRB, ele avaliou que as fragilidades nos instrumentos de
supervisão foram determinantes para o agravamento da situação. "Se as
unidades de controle tivessem funcionado, provavelmente isso não teria
acontecido. Houve extrapolação das alçadas decisórias, o que já deveria ter
chamado atenção", afirma.
Para
recuperar a confiança após episódios desse tipo, Bergo defende a adoção de
medidas imediatas e rigorosas. "O primeiro passo é fechar a casinha,
adotar uma gestão rígida, revisar contratos e identificar possíveis
irregularidades. É uma força-tarefa para corrigir falhas e mostrar ao mercado
que a instituição está retomando o controle", enfatiza.
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Evolução histórica
Professor
de economia do Ibmec Brasília, Renan Silva avalia que a discussão sobre a
governança do BRB precisa ser compreendida a partir de uma evolução histórica
marcada por grandes escândalos corporativos. "Breve histórico para
entender a governança hoje, precisamos olhar para os escombros dos grandes
escândalos do início dos anos 2000. Foi o trauma desses episódios que forçou a
criação das leis e ritos que grandes empresas e bancos, como o BRB, devem
seguir atualmente", afirma, ao citar o caso Enron (veja quadro) como marco
inicial. "O escândalo não foi apenas uma fraude, mas uma falha sistêmica
de governança", completa.
Ele
explica que a resposta a esses episódios redefiniu padrões globais de controle
e transparência nas instituições financeiras. "Para restaurar a confiança,
os Estados Unidos criaram a Lei Sarbanes-Oxley, que estabelece rigorosos
controles internos e transparência financeira para empresas de capital aberto.
CEOs e CFOs (presidentes e diretores de finanças, respectivamente) passaram a
responder criminalmente e a assinar declarações garantindo que os relatórios
financeiros são verdadeiros. Não existe mais o 'eu não sabia'", destaca.
Sobre o
caso recente envolvendo o BRB, Renan Silva aponta falhas estruturais
relevantes. "As investigações apontam conflito de interesses e corrupção
no topo, falha na due diligence (processo investigativo minucioso feito antes
de aquisições ou investimentos) na compra de carteiras de crédito e uso de
mecanismos para ocultação patrimonial. Um sistema de compliance robusto deveria
ter detectado esses problemas antes", afirmou. Ele também menciona que a
tentativa de aquisição de parte do Banco Master, barrada pelo Banco Central,
evidenciou fragilidade na capacidade de supervisão interna.
Para
recuperar a credibilidade, o economista defende mudanças profundas. "É
necessário garantir independência das áreas de controle, blindagem contra
influência política, transparência radical com uso de tecnologia e
fortalecimento da cultura ética. Sem uma governança sólida, episódios como esse
tendem a se repetir", alerta.
• Jeferson Miola: Norma do BC proibia
gestão Campos Neto de autorizar Vorcaro a fundar Master
Daniel
Vorcaro teve a vida facilitada pela diretoria do Campos Neto pela primeira vez
em outubro de 2019, quando o Banco Central validou a compra do Banco Máxima sem
que ele conseguisse comprovar que os R$ 40 milhões usados na transação tinham
origem lícita.
A
segunda vez que Vorcaro contou com uma ajudinha fundamental de Campos Neto foi
em julho de 2021, quando o BC autorizou o rebatismo do Máxima como Banco Master
e a ampliação do escopo financeiro do banqueiro-mafioso.
Aquela
mudança foi um salto essencial para Vorcaro transformar o Banco Master num
“banco múltiplo e digital, focado em crédito consignado e estruturado” e,
assim, avançar a estratégia fraudulenta agressiva que culminou no maior
escândalo bancário-financeiro da história do Brasil.
Se
tivesse obedecido a Resolução BCB nº 4.122, de 2 de agosto de 2012, a norma
vigente até 25/11/2021, a diretoria de Campos Neto jamais poderia ter
autorizado a mudança, pois Daniel Vorcaro era investigado na Operação Fundo
Fake, da Polícia Federal.
A Fundo
Fake desbaratou o esquema de gestão fraudulenta em regimes de previdência de
servidores públicos municipais operado pela organização criminosa em diversos
estados da federação.
Em
abril de 2020 foi expedido mandado de prisão de Daniel Vorcaro. Para fugir da
denúncia criminal e da prisão, ele ficou foragido até 2021, quando obteve um
habeas corpus em uma decisão da desembargadora Maria do Carmo Cardoso, do
Tribunal Regional Federal da 1ª Região, considerada uma amiga da família
Bolsonaro.
Ascendino
Madureira Garcia, que segundo a PF era intermediário das falcatruas e “operador
tático” de Vorcaro, não teve a mesma sorte. Em 2023 foi denunciado pela PGR por
gestão fraudulenta e organização criminosa em processo ainda não julgado.
De
acordo com a Resolução 4.122, a primeira exigência para qualquer pessoa assumir
e exercer cargos em instituições financeiros é “ter reputação ilibada” – inciso
I do artigo 2º do anexo II daquela norma.
E, para
avaliar se essa pessoa atende à exigência de reputação ilibada, o BC “poderá
levar em conta as seguintes situações e ocorrências: I – processo crime ou
inquérito policial a que esteja respondendo o eleito ou o nomeado, ou qualquer
sociedade de que seja ou tenha sido, à época dos fatos, controlador ou
administrador; II – processo judicial ou administrativo que tenha relação com o
Sistema Financeiro Nacional” [artigo 3º do anexo II].
Por não
ter reputação ilibada e conduta idônea, Daniel Vorcaro não poderia ter sido
mantido na condução do Banco Máxima e tampouco ter sido autorizado a fundar o
Banco Master.
A
Resolução 4.122 do BC impedia a autorização que a gestão de Campos Neto deu a
ele para fundar o Banco Master pois ele era investigado na operação Fundo Fake
da PF por crimes financeiros.
Como
bem resumiu a jornalista Mariana Barbosa/UOL, “se Vorcaro tivesse sido preso em
2020, não haveria escândalo Master”.
• STF manterá presidente do TJ contra
crime continuado no RJ?
É
exemplar o caso do Rio de Janeiro. Em outubro de 2022, houve a reeleição, em
primeiro turno, do governador Cláudio Castro (União-RJ). Ele era vice de Wilson
Witzel, eleito em 2018 e que sofreu “impeachment” em 2020, e assumiu o cargo em
2021, depois de período como interino.
O
governador, que dizia estar com os cofres cheios depois da privatização dos
serviços de água e esgoto da Cedae, usou e abusou do Ceperj (o mini-IBGE do
estado) e da UERJ, a universidade estadual, para nomear milhares de pessoas
para atuarem como cabos eleitorais na campanha. Todos bancados pelo combalido
cofre estadual, já vazio em 2023, motivo alegado para calotear dívida com o
Tesouro Nacional.
Os
candidatos derrotados pelo abuso do poder econômico, à frente o então
ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, recorreram à Justiça Eleitoral
cobrando a perda de mandato. Mas Cláudio Castro mexeu seus pauzinhos nos
escaninhos da Justiça e conseguiu protelar a decisão até o prazo final de saída
do governo (à véspera do julgamento, no STF, de outro recurso de Eduardo Paes)
para que pudesse concorrer ao Senado e garantir imunidade das urnas.
Vale
lembrar que, como estava sem vice-governador desde meados de 2025, quando vetou
a pretensão do vice Thiago Pampolha (MDB-RJ) de sucedê-lo como candidato,
mediante a indicação para sinecura vitalícia bem remunerada no Tribunal de
Contas do Estado, Castro tinha articulado com Rodrigo Bacellar (também do União
Brasil), então presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de
Janeiro, para ser seu sucessor em outubro deste ano.
Acontece
que Bacellar, como presidente da Alerj, havendo vacância do cargo de
vice-governador, era o próximo na sucessão, e já estaria apto a usar a máquina
pública a seu favor, em 2026. Mas era corréu no julgamento do TSE, por também
ser beneficiado no “trem da alegria” do Ceperj. E não era só. Presidente da
Alerj, vazou ação da polícia fluminense em mensagem ao deputado TH Joias,
ligado ao Comando Vermelho, e foi preso pela Polícia Federal. Ato contínuo,
teve o mandato cassado.
Com a
renúncia de Castro, o exercício do governo do Estado do Rio de Janeiro caberia
ao presidente da Alerj, 3º na linha de sucessão. Às pressas, o deputado Douglas
Ruas (PL-RJ), que já articula as forças da direita para ocupar o Palácio
Guanabara em 2027, caso vença o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD-RJ), chegou a ser
eleito presidente da Alerj. Mas o pleito foi anulado pela Justiça eleitoral,
por falta de transparência. Isso frustrou a articulação inicial de Cláudio
Castro de passar o cargo a seu sucessor antes mesmo das urnas decidirem
(primeiro com Bacellar, e depois com Ruas).
Na
vacância de poder, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro,
desembargador Ricardo Couto, 4º na sucessão, tomou posse na última semana de
março. Em menos de um mês, Couto começou uma limpeza nas nomeações eleitoreiras
de Castro e nas já engatilhadas pelo futuro presidente da Alerj. Vencedor em
nova eleição na Alerj esta semana, Douglas Ruas, que quando era secretário de
Cidades inflou os gastos da sua pasta, em dobradinha com Castro em esquema
semelhante ao do Ceperj, em 2022, como novo presidente da Alerj já criou um
arremedo de Orçamento Secreto estadual de mais de R$ 1,5 bilhão. Ainda bem que
Ricardo Couto, ignorando politicagens, faz enxugamento da máquina do ERJ, e
demitiu a diretoria da Cedae que fez aplicações de forma pouco transparente em
papéis do Master, assim como o Rio Previdência, o fundo de pensão dos
funcionários do Estado.
Douglas
Ruas anda aflito. Temendo ruir seu esquema articulado com Cláudio Castro,
pressiona a Justiça Eleitoral de duas formas: para que assuma imediatamente
como governador (a tempo de paralisar a faxina profilática de Ricardo Couto) ou
que determine a eleição indireta para um mandato tampão (em ambos os casos, a
cadeira de governador caberia a ele).
O
ministro-relator do caso no STF, Ricardo Zanin, considerou que, diante do tempo
exíguo para a eleição direta, Ricardo Couto deve ficar no cargo até a decisão
final do STF (que aguarda o pedido de vistas de Flávio Dino). A justiça
eleitoral precisa de 45/60 dias para organizar um pleito (seria em meio à Copa
do Mundo), e as eleições de 2026 serão em 4 de outubro (1º turno) e 25 de
outubro (2º turno). O aconselhável, mais neutro e econômico, seria a manutenção
de Couto como governador até dezembro.
Até
aqui, o STF, com 10 membros, deu quatro votos pela eleição indireta (Fux, Nunes
Marques, André Mendonça e Carmem Lúcia, que presidia o TSE). O ministro Dino,
que votou pelo voto direto, assim como Alexandre Moraes, Zanin e Gilmar Mendes,
pediu vistas, esperando que o acordão do TSE fosse mais claro sobre o caso.
Embora condenasse Castro, que ficou inelegível pelo crime eleitoral (e toda a
trama com Bacellar e Ruas mantivesse o crime continuado), a verdade é que o
acórdão do TSE é pouco conclusivo.
Se os
quatro repetirem o voto, bastam os ministros Fachin e Dias Toffoli votarem pela
eleição direta, para o caminho da eleição indireta ser afastado. E, a
prevalecer o bom senso, já expresso por Zanin, Couto seguiria a limpeza e
atuaria como magistrado na eleição de outubro. As consequências extrapolam a
sucessão do Estado do Rio de Janeiro.
A
decisão do STF vai influir no processo eleitoral do terceiro colégio eleitoral
do país (depois de São Paulo e Minas Gerais). Desde 2018, o RJ é dominado pelo
clã Bolsonaro, com forte ligação às milícias e às igrejas evangélicas, que
atuam como grandes currais eleitorais. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que
escapou do processo das “rachadinhas” em seu antigo gabinete da Alerj, graças
às várias canetadas do pai, agora candidato a presidente indicado pelo mesmo
pai preso, reagiu à decisão de Zanin, dizendo que “eleição não se resolve em
canetada”.
Pau que
dá em Chico, também dá em Francisco.
Fonte:
Correio Braziliense/Viomundo/JB

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