Bipolaridade:
o desafio de conviver com a oscilação do humor
O
transtorno bipolar ainda é cercado por estigmas, desinformação e simplificações
que não dão conta da complexidade da condição. Muito além da ideia reducionista
de "mudanças de humor", a bipolaridade atravessa relações, rotinas e
identidades. Nesta reportagem, duas mulheres que convivem diretamente com o
transtorno, uma estudante e uma técnica de enfermagem, relatam, sob anonimato,
os desafios de viver e se relacionar em meio às oscilações.
A
estudante Bruna Amaral (nome fictício), 24 anos, relembra que o caminho até o
diagnóstico foi duro e confuso. Segundo ela, perceber que sua mente funcionava
de forma diferente trouxe questionamentos constantes sobre impulsividade,
euforia e fases depressivas, além de comportamentos como a compulsão por
compras. Apesar do susto inicial, o reconhecimento trouxe um novo olhar.
"O diagnóstico foi libertador. Primeiro, você se assusta. É algo que não
tem cura. Mas tem tratamento. A partir dali, eu passei a ler sobre
bipolaridade, a compreender e aceitar", destaca.
Ela
conta que os impactos nas relações foram profundos. Antes do diagnóstico,
via-se como uma pessoa de difícil convivência, marcada por impulsos e
comportamentos difíceis de entender. Com o tempo, percebeu o quanto isso afetou
vínculos importantes. "Antes do tratamento, perdi relacionamentos,
amizades e até mesmo parentes porque as pessoas simplesmente se afastam. Não é
fácil entender o que passa na mente de um bipolar", diz Bruna.
Hoje,
com acompanhamento psicológico e psiquiátrico, ela afirma que o principal
pedido é compreensão. Tem dias que exigem mais paciência, mas isso não define
quem ela é. O transtorno, segundo ela, não a transforma em um
"monstro", como muitas vezes é visto socialmente. "A maior ajuda
que posso receber é o não julgamento, a compreensão e a empatia."
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Entre euforia e apagamentos
Já a
técnica de enfermagem, Maria Antônia (nome fictício), 22, descreve uma
trajetória marcada por lacunas de memória, episódios intensos e um longo
processo até o diagnóstico. Ela relata que perdeu muitas lembranças ao longo do
tempo e que existem períodos inteiros da vida que não consegue acessar.
Segundo
ela, demorou a perceber que havia algo errado, até que episódios mais graves a
levaram a buscar ajuda. As crises foram se intensificando até se tornarem
impossíveis de ignorar, marcando um ponto de virada em sua trajetória.
A jovem
descreve fases de euforia extrema, seguidas por depressões profundas. Em
determinados momentos, não sentia necessidade de dormir, mantinha uma rotina
intensa e se envolvia em diversas atividades. Depois, vinha o oposto:
isolamento, desesperança e dificuldade até para realizar tarefas básicas.
"Eu ficava dias sem levantar da cama", lembra.
O
diagnóstico, segundo a técnica de enfermagem, não trouxe alívio imediato. Pelo
contrário. A sensação inicial foi de peso e de permanência. "Eu senti uma
sentença de condenação eterna. Como se eu fosse ficar presa a remédios e a uma
rotina para sempre." Hoje, seu maior medo é a recaída, especialmente a
entrada em novos episódios de mania. "A pessoa que eu mais desconfio e
tenho medo nesse mundo sou eu", enfatiza.
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O impacto nas relações e o preconceito
As duas
personagens convergem em um ponto central, o impacto direto nas relações. Para
Maria Antônia, as mudanças são visíveis e afetam todos ao redor. "As
ciclagens afetam a nossa família de uma forma brutal. Todo mundo nota a
diferença."
Ela
descreve como a percepção das outras pessoas muda ao longo dos episódios. Em
fases de mania, há reconhecimento, energia e produtividade. Depois, surgem a
vergonha e o medo de desapontar quem está por perto. Na depressão, a sensação é
de vulnerabilidade extrema.
O medo
do julgamento também aparece como um fator constante. Em muitos momentos, Maria
Antônia optou por lidar com o tratamento de forma mais reservada,
evitando
compartilhar com outras pessoas. "Hoje, eu não cobro mais paciência das
pessoas. Eu entendo que viver comigo é como pisar em um campo minado",
conta.
Ambas
destacam que o desconhecimento sobre o transtorno ainda é um dos maiores
obstáculos. Bruna reforça que a bipolaridade costuma ser mal interpretada no
cotidiano. "As pessoas assimilam o transtorno bipolar como uma mudança
repentina de humor, mas não é assim na prática", enfatiza.
Maria
Antônia complementa ao apontar a banalização e a falta de compreensão sobre a
condição. Para ela, ainda existe uma expectativa de controle que não
corresponde à realidade do transtorno. "Todo mundo acha que é só 'se
controlar'. Não é. Não existe solução mágica."
Ela
também critica o uso do termo como forma de ofensa, o que contribui para o
estigma e dificulta a busca por ajuda. "Usam 'bipolar' como ofensa. Isso
só afasta as pessoas do tratamento", opina.
Entre
relatos de perdas, reconstruções e tentativas diárias de estabilidade, a
necessidade de mais entendimento e informação é o principal pedido. A técnica
de enfermagem resume essa necessidade ao explicar que muitos comportamentos não
são intencionais, mas resultado direto do transtorno. "Não é por mal. Não
é rebeldia. É como se a gente estivesse fora de controle."
Ela
também chama atenção para o impacto interno dessas vivências, muitas vezes
invisível para quem está de fora. O sofrimento não se limita às relações, mas
atravessa a própria percepção de si. "Se você se sente incomodado
convivendo comigo às vezes, imagina como eu me sinto."
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Sinais e diagnóstico
Para o
psiquiatra Ciro Jorge, os primeiros sinais costumam ser percebidos por quem
convive com o paciente. "Na maioria das vezes, os familiares e os amigos
observam alterações quando o paciente passa de um quadro mais deprimido para um
quadro de euforia, com excesso de energia e insônia severa."
Ele
explica que o diagnóstico pode demorar justamente porque o transtorno é
confundido com outras condições. "É comum ser tratado como transtorno
depressivo maior por anos, até que se identifica um quadro de hipomania",
observa.
Já o
psiquiatra Higor Caldato destaca que o transtorno vai além de mudanças de
humor. "É uma quebra radical no padrão de energia da pessoa", relata.
"É como se o 'filtro' social sumisse", acrescenta. Segundo ele, isso
impacta diretamente os vínculos. "As relações se desgastam não pela falta
de amor, mas pelo medo de qual será o humor do dia."
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Tratamento e estabilidade possível
Apesar
dos desafios, ambos os especialistas reforçam que o tratamento é eficaz. O uso
de estabilizadores de humor, aliado a hábitos como atividade física e sono
regulado, é fundamental para o controle do quadro.
"O
principal tratamento são os estabilizadores de humor, atividade física e sono
de qualidade", detalha Ciro Jorge. Higor Caldato complementa que a rotina
tem papel central no processo. "Sem rotina e sem sono regulado, o
medicamento sozinho dificilmente segura as crises."
Os dois
também são categóricos ao afirmar que não há cura, mas há controle ao longo da
vida. O foco está na estabilidade e na redução dos sintomas, permitindo
qualidade de vida.
Fonte:
Correio Braziliense

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