Jackson
De Toni: Patologias sociais e polarização política
A
histeria coletiva configura-se como um fenômeno social recorrente ao longo da
história, manifestando-se em diferentes contextos culturais e políticos sob a
forma de contágio psíquico, mobilização afetiva e produção de comportamentos
coletivos irracionais. Este ensaio propõe uma análise da histeria coletiva
enquanto expressão das patologias sociais contemporâneas, articulando
contribuições da psicologia social, da psicanálise e da ciência política.
A
partir de uma perspectiva histórico-crítica, examinam-se tanto suas raízes
conceituais quanto suas manifestações modernas, especialmente no contexto da
comunicação de massa. Argumenta-se que a histeria coletiva não apenas revela
tensões estruturais da sociedade contemporânea, mas também evidencia formas de
sofrimento psíquico socialmente compartilhadas, que operam na interface entre o
individual e o coletivo.
A
história das sociedades humanas é atravessada por episódios em que o
comportamento coletivo parece escapar aos parâmetros da racionalidade
individual, assumindo formas de excitação, medo ou violência compartilhada.
Tais fenômenos, frequentemente descritos como histeria coletiva, constituem
momentos privilegiados para a análise das patologias sociais, isto é, das
formas pelas quais o sofrimento psíquico se organiza e se expressa no nível
coletivo.
A noção
de “pandemônio comungado” sintetiza essa dinâmica paradoxal: trata-se de uma
comunhão do caos, na qual indivíduos, ao se agregarem em massa, passam a
compartilhar estados emocionais intensificados, frequentemente dissociados de
processos reflexivos. A histeria coletiva, desta maneira, não deve ser
entendida como uma anomalia episódica, mas como uma manifestação estrutural das
condições simbólicas, sociais e afetivas que organizam a vida contemporânea.
Historicamente,
o conceito de histeria remonta à tradição médica da Antiguidade, inicialmente
associado a explicações fisiológicas, como a teoria do “útero errante”, a visão
original e equivocada que dominava a medicina do século XIX. No entanto, com o
surgimento da psicopatologia moderna e, sobretudo, com a psicanálise, a
histeria passa a ser compreendida como uma formação psíquica complexa, na qual
conflitos inconscientes são convertidos em sintomas corporais ou
comportamentais.
Essa
mudança de paradigma desloca a etiologia da histeria do campo orgânico para o
simbólico, permitindo compreendê-la como uma linguagem do inconsciente. O
sintoma histérico deixa de ser visto como um fenômeno sem sentido e passa a ser
interpretado como uma forma de expressão de desejos reprimidos e conflitos
psíquicos não elaborados.
A
transposição desse modelo para o plano coletivo implica reconhecer que os
mecanismos psíquicos individuais podem operar em escala ampliada. A histeria
coletiva emerge, assim, como um fenômeno em que emoções, crenças e
comportamentos se disseminam rapidamente entre indivíduos, produzindo estados
de excitação generalizada.
Nesse
contexto, a massa funciona como um espaço de amplificação psíquica, no qual
conteúdos inconscientes são compartilhados e intensificados. A massa redefine e
captura as subjetividades.
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Contágio psíquico e dinâmica de massas
A
histeria coletiva pode ser compreendida como uma forma de contágio psíquico,
sustentada por mecanismos de identificação, sugestão e imitação. Esses
processos atravessam os indivíduos minando sua autonomia crítica, favorecendo a
adesão a narrativas coletivas que frequentemente operam por simplificação e
polarização.
Do
ponto de vista psicanalítico, a inserção do sujeito na massa implica uma
regressão a formas mais primitivas de funcionamento psíquico, nas quais
predominam afetos intensos e pouco elaborados. A dissolução parcial das
fronteiras do ego permite que conteúdos inconscientes sejam projetados e
compartilhados, criando uma espécie de “campo afetivo comum”.
Essa
dinâmica evidencia que o sujeito não é plenamente autônomo, sendo
constantemente atravessado por influências sociais, culturais, políticas e
religiosas inconscientes. A experiência coletiva, portanto, não apenas reflete
estados psíquicos individuais, mas também os produz e os reorganiza,
configurando novas formas de subjetividade.
Na
contemporaneidade, a histeria coletiva assume novas configurações,
especialmente em função da expansão dos meios de comunicação e das redes
sociais digitais. A circulação acelerada de informações, frequentemente
desprovida de verificação crítica, favorece a emergência de pânicos morais,
teorias conspiratórias e movimentos de mobilização afetiva em larga escala.
Esse
cenário pode ser descrito como uma intensificação do contágio psíquico, mediado
por tecnologias que amplificam a visibilidade e a velocidade das interações
sociais. O espaço digital funciona como um ambiente propício à formação de
bolhas afetivas e “câmaras de eco”, nas quais discursos homogêneos são
reforçados e divergências são excluídas ou demonizadas. Criando uma falsa
sensação de consenso e isolando os indivíduos de visões opostas.
Além
disso, a crise das instituições tradicionais e a fragmentação das referências
simbólicas contribuem para a produção de um sujeito mais vulnerável à
instabilidade emocional e à busca por pertencimento. A histeria coletiva, nesse
contexto, pode ser entendida como uma tentativa de restaurar laços sociais por
meio da partilha de afetos intensos, ainda que esses afetos sejam
(auto)destrutivos.
A
relação entre histeria coletiva e violência revela-se particularmente relevante
na análise das patologias sociais. Ao longo da história, episódios de
mobilização coletiva intensa frequentemente resultaram em práticas
persecutórias, exclusões sociais e ações violentas.
Esses
fenômenos evidenciam como a histeria coletiva pode funcionar como mecanismo de
legitimação da violência, ao construir narrativas que desumanizam determinados
grupos – geralmente minoritários ou contrários ao pensamento hegemônico, e
justificam sua exclusão. A projeção de conteúdos psíquicos indesejáveis sobre o
“outro” permite que o grupo preserve uma imagem idealizada de si mesmo, ao
custo da produção de inimigos externos.
Na
contemporaneidade, esse processo se manifesta em diferentes formas, incluindo
discursos de ódio, cancelamentos e polarizações extremas. A violência simbólica
torna-se, assim, um elemento central das dinâmicas políticas coletivas,
frequentemente precedendo ou acompanhando formas de violência material.
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As dimensões simbólicas e seu impacto político
A
compreensão da histeria coletiva exige considerar a dimensão simbólica que
estrutura a experiência humana. O inconsciente, longe de ser uma instância
puramente individual, possui uma dimensão social-coletiva, sendo constituído e
atravessado por discursos, valores e práticas culturais. É por isso que os
fenômenos coletivos devem ser analisados como formações simbólicas complexas,
nas quais se articulam desejos, medos e fantasias compartilhadas. A linguagem
desempenha papel central nesse processo, ao organizar e dar sentido às
experiências coletivas.
A
construção de narrativas – sejam elas religiosas, políticas ou midiáticas –
contribui para a formação de identidades coletivas e para a mobilização de
afetos. A histeria coletiva pode ser vista, portanto, como uma manifestação
extrema dessa dinâmica, na qual o simbólico se intensifica ao ponto de produzir
efeitos concretos no comportamento social. Uma destas dimensões é a produção
social de um “inimigo absoluto”.
A
figura do “inimigo absoluto” permanece eficaz porque ela opera menos no plano
jurídico-institucional e mais no plano simbólico e afetivo. Mesmo em Estados
laicos, a cultura política não é neutra: ela herda matrizes religiosas, morais
e míticas profundamente enraizadas. Três fatores ajudam a explicar esse
mecanismo. A simplificação da complexidade social: em contextos de crise
(econômica, moral, identitária), o “inimigo absoluto” oferece uma explicação
simples para problemas estruturais complexos.
Ele
personaliza o mal e desloca frustrações difusas para um alvo identificável. A
religião funciona como um repertório simbólico de fácil reconhecimento,
sobretudo para camadas populares; a produção de coesão identitária. Ao definir
um “outro” como ameaça existencial, constrói-se um “nós” moralmente puro,
precisamente aqui surge o fundamento para uma dimensão religiosa da histeria
coletiva. Isso reforça pertencimento, lealdade e disciplina política,
especialmente em grupos que se sentem culturalmente ameaçados.
Há uma
espécie de fusão entre uma identidade moral religiosa e uma identidade
política; e finalmente a suspensão do dissenso democrático: se o outro é visto
como inimigo do bem, da nação ou de Deus, o conflito político deixa de ser
legítimo. O adversário não é alguém com quem se debate, mas alguém a ser
derrotado, silenciado ou eliminado simbolicamente. Há uma confessionalização do
espaço público que interdita sua natureza comum e coletiva.
A
laicidade formal do Estado não impede uma certa “conversão moral” da política e
a politização do fenômeno religioso, sobretudo quando atores religiosos ou
moralistas conseguem traduzir disputas políticas em termos de salvação versus
perdição. A linguagem religiosa é incorporada por meio de um processo de
tradução simbólica: categorias teológicas são deslocadas para o campo político
sem necessariamente citar dogmas explícitos.
O
capital simbólico religioso é convertido em capital político. A demonização da
esquerda, do feminismo, das LGBTQIAPN+, das religiões de matriz africana e da
ciência em geral, tem funcionado como arma política da extrema direita, no
Brasil e no mundo. A religião passa a ser critério normativo para a cidadania.
Uma fonte de legitimidade que não pode – por princípio e a priori,
ser contestada racionalmente. Alguns sintomas centrais deste fenômeno coletivo:
(i)
Moralização da política: temas como direitos humanos, gênero, laicidade ou
pluralismo passam a ser apresentados como sinais de decadência moral. O debate
político é substituído por juízos morais absolutos; (ii) Retórica da “guerra
espiritual”: lideranças descrevem eleições e políticas públicas como batalhas
entre forças do bem e do mal. O voto torna-se um ato espiritual, não apenas
cívico.
(iii)
Sacralização de lideranças: certos líderes são apresentados como “escolhidos”,
“instrumentos de Deus” ou defensores da fé, enquanto adversários são associados
ao demônio, ao caos ou à corrupção moral. A política passa a ser uma batalha
espiritual (narrativa típica do neopentecostalismo), desumanizando o outro.
Esse
tipo de linguagem é altamente mobilizador porque ativa emoções e pulsões
primárias (medo, culpa, esperança, salvação) e cria uma disposição para o
engajamento político intenso, muitas vezes acrítico. Ao mesmo tempo ela é um
gatilho social que legitima discursos de ódio sob a aparência de “defesa da
fé”. O pânico moral é normalizado.
O
fenômeno da demonização no cenário político contemporâneo exerce efeitos
profundamente corrosivos sobre as estruturas democráticas, subvertendo a lógica
da pluralidade em favor de um binarismo existencial. Esse processo opera,
primordialmente, por meio da deslegitimação do adversário: ao transmutar o
oponente político em uma figura “maligna”, “perversa” ou “anticristã”,
retira-se dele a condição de interlocutor válido. Sob essa ótica, o
reconhecimento da legitimidade mútua – requisito fundamental para o exercício
democrático – é anulado, tornando o debate público uma impossibilidade prática.
Concomitantemente,
observa-se um sensível empobrecimento do discurso público, no qual o rigor dos
argumentos racionais e a análise de evidências são preteridos em favor de
slogans morais, acusações ad hominem e pânicos morais. A
política, portanto, deixa de ser um espaço de deliberação para se converter em
um campo de “cruzadas”, culminando na legitimação da violência, tanto simbólica
quanto material, e em uma progressiva erosão da laicidade do Estado.
Esse
quadro de polarização moral extrema compromete severamente a negociação
institucional. Enquanto a práxis democrática exige o compromisso, a mediação e
a concessão, a lógica da demonização interpreta qualquer tentativa de acordo
como uma traição moral imperdoável. O conflito político deixa de ser regulado
por normas institucionais para ser vivenciado como um confronto existencial,
onde ocorre uma convergência perigosa entre a retórica religiosa beligerante e
o autoritarismo. É a política como o terreno do “vale-tudo”, sem freios morais
ou autocontenção dos competidores.
Nesse
contexto, a sacralização de lideranças e a concepção do exercício governamental
como o cumprimento de um “chamado divino” transformam a retórica da “guerra
santa” em uma estratégia consciente de poder. Tal mecanismo converte
divergências programáticas em antagonismos absolutos, bloqueando o diálogo e
institucionalizando a exclusão do “outro” como premissa de governabilidade
legal esse trecho.
A
arquitetura das plataformas digitais e a transposição da política para o campo
da “ameaça espiritual” operam em simbiose para reconfigurar o espaço público
contemporâneo. No âmbito das tecnologias de comunicação, as redes sociais não
apenas intensificam, mas estruturam sistematicamente a retórica da demonização.
Este
fenômeno é impulsionado por algoritmos que privilegiam o engajamento através da
indignação, premiando conteúdos que evocam medo e ódio sob uma lógica
performática de produção de um “inimigo interno”. É a narrativa que orienta o
discurso do ódio no campo político e todas suas subculturas: redpill,
incel, machosfera, haters, trolls, escola sem partido…
A
desintermediação da autoridade permite que lideranças políticas e religiosas
contornem filtros institucionais e jornalísticos, consolidando discursos
maniqueístas em “bolhas morais” que isolam o indivíduo de perspectivas
contraditórias. Nesses ecossistemas, a estética da guerra cultural –
materializada em memes e narrativas de consumo rápido – reduz a complexidade do
outro a uma caricatura, normalizando a radicalização simbólica e substituindo o
princípio democrático da alternância de poder pela lógica da eliminação do
oponente.
Quando
a divergência política é enquadrada como uma “ameaça espiritual” ou ameaça à
identidade/self/ego o conflito transborda os limites da racionalidade e
ingressa no campo do sagrado, gerando riscos severos à estabilidade
democrática.
Aqui
duas camadas operam em conjunto: (a) Uma camada institucional:
Erosão
da laicidade: a fundamentação de decisões públicas em dogmas religiosos
compromete a neutralidade do Estado e a universalidade das normas. Justificação
das práticas autoritárias: medidas de exceção passam a ser apresentadas como
imperativos morais necessários para a salvaguarda do “bem” contra um “mal”
absoluto. Deslegitimação sistêmica da prática política: as instituições
democráticas são frequentemente retratadas como entidades corrompidas por
forças malignas, minando a confiança social na burocracia estatal.
(b) Uma
camada social: Intolerância e fragmentação: o estímulo ao ódio religioso como
estratégia de poder fratura o tecido social, criando comunidades que habitam
universos morais incomunicáveis. Normalização da violência material e
simbólica: a desumanização simbólica do adversário atua como um projeto
pedagógico que naturaliza a exclusão e precede a violência física efetiva.
Alguns
exemplos da nossa história recente onde estas dimensões se manifestaram
claramente ajudam a compreender o quanto este adoecimento coletivo é
perturbador e distópico.
O
antipetismo moral-religioso e a construção do inimigo político (2016-2022). A
partir do impeachment de Dilma Rousseff e, sobretudo, nas eleições de 2018 e
2022, o campo político progressista, a esquerda e sobretudo o PT, passaram a
ser sistematicamente representados como forças do “mal”, associadas à
destruição da família, ao comunismo, à “ideologia de gênero” e à perseguição
religiosa.
Essa
narrativa, amplamente difundida por lideranças políticas e religiosas,
transformou a disputa eleitoral em uma batalha espiritual, na qual o voto era
apresentado como um ato de fidelidade moral ou religiosa, e o adversário
político como um inimigo existencial a ser combatido, e não um interlocutor
legítimo.
O
pânico moral e demonização de políticas públicas. O caso do “kit gay”, o
“Programa escola sem homofobia” foi convertido em símbolo de ameaça espiritual
por meio da difusão do termo “kit gay”, mobilizado principalmente a partir de
2011 e intensificado nas eleições de 2018. O material passou a ser descrito
como um instrumento de corrupção moral das crianças e de ataque aos valores
cristãos, apesar de tais acusações não corresponderem ao conteúdo real da
política pública. Esse processo exemplifica como políticas educacionais e de
direitos humanos foram demonizadas, deslocando o debate técnico para uma lógica
moralizante e emocional, baseada no medo e na indignação.
A
demonização das instituições democráticas. O STF como “inimigo de Deus”
(2019–2023). As decisões do Supremo Tribunal Federal relacionadas a direitos
reprodutivos, diversidade sexual, liberdade religiosa e combate à desinformação
passaram a ser enquadradas, por atores políticos e religiosos, como ataques
diretos à fé cristã e ao “povo de Deus”.
Ministros
do STF foram retratados como agentes do mal ou inimigos espirituais, inserindo
o conflito jurídico-institucional em uma narrativa de guerra espiritual. Esse
enquadramento contribuiu para a deslegitimação das instituições democráticas,
estimulando a desobediência simbólica e o enfraquecimento da confiança no
Estado Democrático de Direito.
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Considerações Finais
O
entendimento da histeria coletiva constitui uma via privilegiada para a
compreensão do adoecimento emocional coletivo contemporâneo. Ao revelar a
interdependência entre o individual e o coletivo, esse fenômeno evidencia como
o sofrimento psíquico pode ser compartilhado, amplificado e institucionalizado.
Na era
da comunicação massiva, a intensificação dos processos de contágio psíquico
coloca novos desafios para a compreensão e a intervenção nas dinâmicas sociais.
A análise das patologias sociais e coletivas permite identificar não apenas
seus sintomas e manifestações visíveis, mas também suas condições de
possibilidade.
Dessa
forma, torna-se fundamental desenvolver abordagens interdisciplinares que
articulem psicanálise, psicologia social e ciências humanas, a fim de
compreender e enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. Mais do que um
fenômeno marginal, a histeria coletiva e as patologias do social revelam
aspectos centrais da condição humana, convidando à reflexão sobre os limites da
racionalidade e as forças inconscientes que estruturam a vida social.
O “ódio
religioso” na política não é um subproduto acidental, mas uma estratégia
deliberada de poder que visa reconfigurar o imaginário social. Ao transformar o
adversário em um inimigo moral absoluto, rompe-se o pilar fundamental da
democracia: o reconhecimento da legitimidade da existência do outro no espaço
público.
A
demonização na política contemporânea não é um resíduo arcaico, mas uma
estratégia moderna de poder, potencializada por crises sociais, pelo medo do
desconhecido, por linguagens religiosas moralizantes e pelas dinâmicas das
redes digitais.
Ao
transformar a política em uma luta entre o bem e o mal, ela mobiliza afetos
poderosos – mas o faz ao custo da democracia, do pluralismo e da possibilidade
da convivência civilizada.
Fonte:
A Terra é Redonda

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