Como
zonas proibidas de Chernobyl e entre as Coreias se tornaram paraíso da vida
selvagem
A
floresta amazônica, a Grande Barreira de Corais e parques nacionais como
Yellowstone e Yosemite vêm à mente quando se pensa em santuários para a vida
selvagem.
É
improvável que você pense imediatamente na zona de exclusão de Chernobyl ou na
zona desmilitarizada (DMZ) entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul.
Mas é
exatamente isso que elas se tornaram. Em áreas onde os humanos não têm
permissão para viver, a vida selvagem está prosperando.
Será
que esse renascimento acidental carrega uma lição de conservação?
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Mais de 70 anos sem humanos
A livre
circulação entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul tornou-se impossível em
1953, após a criação da Zona Desmilitarizada (DMZ), com 248 km de comprimento e
4 km de largura, que atravessa a Península Coreana.
As
atividades na DMZ são muito limitadas e a área está repleta de minas
terrestres.
Mas
isso não desanima os animais e as plantas.
O
Instituto Nacional de Ecologia da Coreia do Sul afirma que 6.168 espécies de
animais selvagens vivem na DMZ, incluindo 38% das espécies ameaçadas de
extinção da península.
A área
sofreu pouquíssima interferência humana por mais de 70 anos e agora abriga
espécies como águias, cabras-monteses e cervos.
A área
também abriga muitas plantas endêmicas da Coreia, ou seja, que não são
encontradas em nenhum outro lugar da Terra.
Seung-ho
Lee, presidente do Fórum da DMZ, uma organização que defende a conservação na
zona, disse que a natureza foi "protegida acidentalmente pelo
armistício".
"A
natureza recuperou o que lhe pertencia. Muitos animais e espécies de aves, em
especial, têm mais acesso à área, enquanto a maior parte da atividade humana
desapareceu", disse ele.
E
muitas das espécies que vivem lá, disse ele, são de importância global,
incluindo os grous que vivem na DMZ, mas "voam por todo o mundo".
A Zona
Desmilitarizada da Coreia não é o único refúgio improvável para a vida
selvagem.
Em 26
de abril de 1986, um reator da Usina Nuclear de Chernobyl, na antiga União
Soviética – no que hoje é a Ucrânia – explodiu, liberando elementos radioativos
de alta periculosidade na atmosfera.
A
contaminação radioativa se espalhou por milhares de quilômetros quadrados e
centenas de milhares de pessoas foram evacuadas.
Uma
zona de exclusão foi estabelecida ao redor do local, que permanece em grande
parte desabitado. A área foi expandida desde então e agora abrange cerca de 4
mil km quadrados.
De
acordo com o Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, ainda é um dos
locais mais contaminados por radioatividade no mundo.
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A 'floresta vermelha'
Imediatamente
após a explosão, os impactos ecológicos subsequentes foram severos, de acordo
com Jim Smith, professor de ciências ambientais da Universidade de Portsmouth,
no Reino Unido.
Árvores
morreram e ficaram com um tom marrom avermelhado em uma área agora chamada de
Floresta Vermelha, e houve danos a mamíferos e à vida aquática, disse ele.
Mas os
elementos radioativos liberados por Chernobyl decaíram rapidamente.
"As
doses de radiação caíram muito rapidamente naqueles dias e semanas após o
acidente, e o que restou na zona foi uma radiação crônica de baixo nível ao
longo de décadas", disse ele.
Esses
níveis são inseguros para a habitação humana a longo prazo, mas para outras
espécies, a história é diferente.
"A
vida selvagem está prosperando em Chernobyl... sem dúvida, acho que a zona de
exclusão é muito mais diversa e abundante ecologicamente do que era antes do
acidente", disse ele.
"Estudamos
os peixes nos lagos, incluindo o lago de resfriamento [nuclear]... Estudamos
insetos aquáticos e descobrimos que os lagos mais contaminados são tão diversos
e abundantes em comunidades aquáticas quanto os lagos quase não contaminados da
área."
Os
mamíferos também parecem estar prosperando na zona de exclusão.
"Analisamos
se conseguíamos observar alguma diferença nas populações de mamíferos entre as
áreas mais contaminadas e as menos contaminadas, e não conseguimos", disse
Smith.
"A
única diferença que observamos foi na população de lobos, que era sete vezes
maior em Chernobyl do que em outras reservas naturais da região."
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'Deixe a natureza ser natureza'
O fato
de a vida selvagem poder prosperar melhor em uma zona radioativa do que fora
dela pode parecer surpreendente, mas há lógica nisso.
"É
uma área enorme, livre para a vida selvagem, sem ruído, sem luzes, sem
pesticidas, sem herbicidas, sem silvicultura, sem agricultura", disse
Germán Orizaola, professor associado de zoologia da Universidade de Oviedo, na
Espanha.
"A
pressão humana é muito, muito pior para a natureza do que o pior acidente
nuclear de todos os tempos."
Smith
concorda.
"O
que aprendi com Chernobyl é que... nossa ocupação de um ecossistema é o
verdadeiro dano", diz ele, acrescentando que outras coisas, como a
poluição, são importantes, mas "secundárias".
"[Chernobyl]
é um exemplo poderoso do que o repovoamento da vida selvagem pode fazer",
disse ele.
Orizaola
acredita que o local mostra que tipo de estratégias de conservação funcionam.
"Frequentemente
temos essas reservas naturais e parques nacionais, mas eles se tornam uma
mistura de atrações turísticas e alguma forma de exploração humana, e não
funcionam para a conservação da natureza", disse ele.
"[Chernobyl]
é um lugar maravilhoso, um lugar realmente incrível... se realmente quiséssemos
preservar a natureza, a melhor receita é reduzir nossa pressão sobre as terras
e deixar a natureza ser natureza."
Fonte:
BBC World Service

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