Fim
da escala 6×1? Veja o que dizem as empresas que já adotam jornadas reduzidas
A
rotina de trabalho no comércio, especialmente em bares e restaurantes, sempre
esteve associada a jornadas longas e poucos dias de descanso. Esse modelo,
conhecido como escala 6×1, ainda predomina em setores de atendimento contínuo,
mas começa a ser revisto por empresários que testam formatos alternativos.
A
mudança ganha força em meio ao debate no Congresso sobre a redução da jornada e
após o adiamento da proposta de emenda à Constituição que trata do tema.
Passado o recesso do feriado de Tiradentes, a Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ) aprovou por unanimidade nesta quarta-feira, 22, a PEC que propõe
o fim dessa escala no país.
Com a
aprovação, a proposta segue para discussão numa comissão especial, que tem
entre 10 e 40 sessões para aprovar ou rejeitar um parecer com uma regra de
transição antes de a proposta ser finalmente votada no plenário.
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Modelos alternativos
À
frente de uma hamburgueria com duas unidades em São Paulo e uma no litoral
paulista, Fernando Russell, de 50 anos, decidiu alterar a escala da equipe após
anos operando num modelo híbrido, que alternava semanas de 6×1 e 5×2. “Até
2025, todas as unidades trabalhavam numa escala em que domingos abria meio
período e nas segundas não abria. Dessa forma, metade da equipe folgava aos
domingos”, diz. Na prática, os funcionários trabalhavam numa semana 6×1 e na
outra semana 5×2.
Em
junho de 2025, a hamburgueria iniciou um teste em uma das lojas, reduzindo a
carga de trabalho. “Para compensar a contratação, passamos a abrir também às
segundas-feiras. Deu certo e a unidade passou a ter um resultado financeiro
melhor”, afirma.
Segundo
ele, a mudança não reduziu a lucratividade e ainda contribuiu para diminuir
faltas e trocas de equipe. “Eu mesmo sou professor universitário há 21 anos.
Por esse background, sei o quão importante é ter condições de trabalho
saudáveis.”
O
modelo foi expandido para as demais unidades neste mês e segue em avaliação.
Sobre o fim do atual modelo de escala, ele acredita que terá mais pontos
positivos do que negativos. “Acredito que o grande empresário não vai quebrar,
não vai ser prejudicado. Na pior das hipóteses, vai operar com uma margem um
pouco menor”, opina. Nos pequenos empreendimentos, diz Fernando, os efeitos
tendem a ser diferentes de acordo com o setor e o nível de organização. “Talvez
eles sejam mais impactados por não terem uma gestão profissional e, até por
isso, o Governo precisa auxiliar de alguma forma.”
A
experiência se soma a outras iniciativas no setor que buscam equilibrar
funcionamento contínuo com jornadas menos extensas, um movimento que começa a
redesenhar a dinâmica do trabalho nesses setores. “É sempre bom lembrar que as
pessoas de folga costumam gastar mais no comércio. É um dia a mais para ir ao
salão de beleza, para ir a um restaurante, para ir ao comércio fazer compras”,
complementa o empresário.
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Como empresas adotam a escala 4×3 e 5×2 no atendimento
A
adoção de jornadas reduzidas no comércio não segue um único modelo. Enquanto
parte dos negócios migra para o 5×2, outros avançam para formatos como o 4×3,
com três dias de folga por semana. Em comum, está a necessidade de reorganizar
equipes e turnos para manter o funcionamento diário.
Em São
Paulo, a empresária Isabela Raposeiras, dona da cafeteria Coffee Lab e escola
de cafés, decidiu avançar além do 5×2 e implementar a escala 4×3 nas lojas em
julho de 2025.
A
mudança partiu de uma decisão de gestão e de experiência própria. Após anos
trabalhando sob regime 6×1, ela optou por não replicar o modelo na empresa.
“Nunca
fomos 6×1, jamais seria. Todos os meus empregos CLT foram 6×1 e jamais quis
impor esse horror e opressão aos meus funcionários”, diz a empresária.
Hoje,
as unidades funcionam todos os dias, com equipes em escala rotativa e ao menos
duas folgas consecutivas. Áreas internas, como escritório e torrefação, ainda
operam em 5×2, mas com migração em curso para o 4×3.
Segundo
ela, a motivação principal foi reduzir o desgaste de quem atua diretamente com
o público. “Atender o consumidor é uma atividade exigente. A ideia foi garantir
mais tempo de descanso para melhorar a qualidade do trabalho”, afirma. A
empresária diz que, após ajustes nos processos, a operação absorveu a mudança
sem perda de eficiência.
Os
efeitos, relata, apareceram na rotina e nos resultados. A equipe passou a
apresentar menos erros e maior estabilidade, enquanto o faturamento cresceu ao
longo do ano. Para ela, o modelo exige revisão de processos e gestão mais
detalhada, mas pode ser adotado em diferentes tipos de negócio.
Em
outra frente, redes maiores também testam mudanças na jornada. O restaurante
Gurumê, com unidades no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, iniciou, em junho
de 2025, a implementação da escala 5×2 em parte das unidades, com base em um
redesenho da operação. A proposta parte de um mapeamento da demanda por turno e
por horário, ajustando o número de funcionários à necessidade real.
“Nosso
objetivo é aumentar a retenção e a performance, criando um equilíbrio entre
vida pessoal e profissional para todas as funções do restaurante. Isso já se
reflete na experiência do cliente”, afirma o sócio-fundador Jerônimo Bocayuva.
A estratégia também responde à dificuldade de contratação e retenção em funções
que exigem treinamento.
A rede
iniciou o projeto em uma unidade piloto e ampliou gradualmente o modelo, sem
aumento do quadro de funcionários. A avaliação é que a mudança pode melhorar a
retenção e a experiência do cliente, embora o formato não seja necessariamente
replicável em operações menores, que têm menos margem para ajustes.”Por isso, é
preciso um alinhamento em torno da necessidade de se evitar qualquer tipo de
imposição ao empreendedor que não venha acompanhado de contrapartidas capazes
de preservar a sustentabilidade das empresas e os empregos que dependem do
segmento”, pontua Jerônimo.
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Produtividade x redução da jornada
A
relação entre menos horas de trabalho e desempenho das empresas não é
automática e depende de como a mudança é implementada. Segundo a economista
Patrícia Tendolini, mestre em Administração e coordenadora dos curso de
Negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade
Católica do Paraná (PUCPR), os efeitos variam conforme o setor, o porte da
empresa e a capacidade de reorganizar processos.
Em
atividades com maior uso de tecnologia, gestão por metas e menor dependência de
presença contínua, a redução da jornada pode vir acompanhada de ganhos de
produtividade. Já em setores intensivos em mão de obra presencial e com
necessidade de cobertura constante, como parte do segmento de consumo e
serviços, o impacto tende a ser mais limitado.
Estudos
recentes apontam que não há relação direta entre redução da jornada e queda da
atividade econômica. Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada,
divulgado em fevereiro de 2026, indica que, com a redução para 40 horas
semanais e manutenção da remuneração, o custo médio do trabalho celetista
subiria 7,84%. Ainda assim, ao considerar o peso da mão de obra no custo
operacional total, o impacto agregado em setores como indústria e comércio
ficaria abaixo de 1%.
Os
economistas afirmam ainda que experiências internacionais, como testes no Reino
Unido, indicam manutenção da produtividade, melhora no bem-estar e redução da
rotatividade. Para Nelson Marconi, economista da FGV EAESP, parte desse efeito
passa pelo comportamento do trabalhador. Segundo ele, isso pode se refletir no
desempenho, especialmente quando combinado a mudanças na organização do
trabalho.
Marconi
ressalta, no entanto, que produtividade não depende apenas de esforço
individual. O ganho tende a vir de investimento em tecnologia, reorganização
das jornadas e melhor distribuição das equipes. Em setores de serviços,
ferramentas digitais e automação podem ajudar a sustentar a redução da carga
horária.
Além
dos efeitos econômicos, especialistas apontam impactos sociais. A redução da
jornada pode melhorar a qualidade de vida, reduzir desigualdades e, no longo
prazo, gerar ganhos indiretos para empresas e para o mercado de trabalho.
“A
avaliação não deve se restringir ao desempenho empresarial no curto prazo. Deve
considerar impactos mais amplos, como melhora na qualidade de vida, maior
disponibilidade de tempo para atividades de cuidado e potenciais efeitos
positivos sobre a saúde da população”, diz Tendolini.
Ainda
assim, a sustentabilidade desses efeitos depende de adaptação gradual e das
características de cada setor, afirmam os especialistas.
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Desafios para implementação
Se por
um lado experiências práticas e estudos indicam possíveis ganhos, a
implementação de jornadas menores envolve uma série de entraves operacionais e
econômicos. Para Tendolini, da PUCPR, o debate vai além da simples redução de
horas trabalhadas.
Ela
aponta que o primeiro desafio é a definição do modelo. Migrar para 40 horas
semanais em escala 5×2 exige adaptações diferentes de um eventual avanço para
36 horas em 4×3. A diversidade entre setores também pesa: comércio, indústria e
serviços têm estruturas e demandas distintas, o que dificulta a adoção de uma
regra única.
Outro
ponto importante, segundo a economista, é a adaptação das pequenas empresas,
que têm menor margem financeira e mais dificuldade para recompor equipes. A
isso se somam questões como negociação coletiva, segurança jurídica e a
necessidade de compatibilizar diferentes formatos de jornada, como banco de
horas, turnos e horas extras.
Tendolini
também destaca a importância de uma transição gradual e previsível. Para ela,
mudanças desse porte exigem tempo para que empresas invistam em gestão,
tecnologia e reorganização de processos. “Não é apenas sobre trabalhar menos,
mas sobre como reorganizar produção, atendimento e competitividade sem
transferir todo o custo para emprego, preços ou informalidade”, afirma.
Representantes
do setor de bares e restaurantes, por outro lado, veem riscos mais imediatos.
Para Paulo Solmucci, presidente executivo da Associação Brasileira de Bares e
Restaurantes (Abrasel), a redução da jornada pode ampliar custos e agravar a
escassez de mão de obra, especialmente em funções especializadas.
Ele
afirma que o aumento de custos pode afetar preços e consumo, sobretudo em
regiões de renda mais baixa, além de pressionar a organização das equipes.
Segundo
Solmucci, trabalhadores que dependem de comissões, como garçons, também
poderiam ter perda de renda com menos dias trabalhados. “A gorjeta de um dia a
menos de trabalho, especialmente nos finais de semana, será penosa, pois ela
chega a representar 2/3 do ganho total”, diz.
Na
avaliação do setor, mudanças na jornada sem mecanismos de compensação podem
levar a ajustes na operação e na distribuição da mão de obra. O impacto,
segundo ele, tende a variar conforme o perfil do negócio e o público atendido.
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Saúde mental em xeque
Além
dos efeitos econômicos, a discussão sobre a redução da jornada tem colocado em
evidência impactos diretos na saúde dos trabalhadores. Para Marconi, a
diminuição dos dias trabalhados tende a influenciar o comportamento no
trabalho.
Segundo
ele, com mais tempo livre, o trabalhador fica mais disposto e engajado, o que
pode se refletir no desempenho ao longo do tempo. Esse efeito não é imediato,
mas resultado de uma reorganização da jornada dentro das empresas. “É um ganho
que se sustenta porque vem de um rearranjo da forma de trabalhar”, afirma.
Marconi
também aponta que jornadas extensas influenciam a dinâmica do mercado de
trabalho. Modelos como o 6×1, diz, dificultam a atração de trabalhadores para
vagas formais e podem estimular a informalidade. A redução da jornada, nesse
sentido, tende a tornar esses postos mais atrativos.
Do
ponto de vista da saúde, os efeitos são mais diretos. A médica do trabalho
Letícia Mameri, doutoranda em Bioética pela Universidade do Porto (Portugal),
explica que jornadas prolongadas, com pouco tempo de descanso, estão associadas
ao aumento do risco de exaustão física e mental. Segundo ela, trabalhar seis
dias consecutivos com apenas um de descanso eleva o risco de fadiga crônica e
compromete o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
A
especialista afirma ainda que estudos também associam esse tipo de rotina a
maior incidência de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e doenças
cardiovasculares. Em contrapartida, escalas mais flexíveis tendem a reduzir o
estresse, melhorar a qualidade de vida e contribuir para a produtividade ao
longo do tempo. “Escalas mais flexíveis trazem ganhos claros: melhor saúde
física e mental, com redução do estresse. Maior produtividade sustentada, já
que trabalhadores descansados rendem mais”, diz.
• Trabalho escravo responde por 52% dos
conflitos fundiários no Brasil, revela Observatório Socioambiental
Nesta
segunda-feira (27), o Observatório Socioambiental realizou o lançamento
oficial, na sede da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em
Brasília, de uma ferramenta inédita para o monitoramento de violações no campo.
A iniciativa reúne 15 organizações da sociedade civil e sistematiza dados
coletados entre 1980 e 2023.
A
Plataforma Socioambiental integra informações sobre desmatamento, produção de
commodities e direitos humanos. Os números revelam que, de um total de 89.537
conflitos socioambientais registrados entre 2002 e 2023, 46.912 casos
referem-se ao trabalho escravo.
O dado
representa 52,4% de todas as ocorrências documentadas pela Comissão Pastoral da
Terra (CPT) no período. Para os pesquisadores, essa estatística mostra que a
exploração humana faz parte do modelo de expansão agrícola.
Isabel
Figueiredo, do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), e uma das
idealizadoras da plataforma, reforça que o agronegócio avança ao custo de
violações. “Ele deixa um rastro para trás de impactos que são bem evidentes
quando a gente vai analisando os dados da plataforma”, explicou.
A
plataforma demonstra que o debate sobre direitos humanos no campo precisa ser
ampliado para além das relações trabalhistas formais. “Direitos humanos não é
apenas você estar observando se o seu funcionário segue a Consolidação das Leis
do Trabalho [CLT] ou se ele está usando equipamento de proteção individual”,
defendeu a pesquisadora.
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Grilagem verde
Um dos
destaques da análise é a mudança na dinâmica de conflitos após a reforma do
Código Florestal em 2012. A legislação impulsionou a chamada “grilagem verde”,
onde áreas conservadas de comunidades tradicionais são apropriadas para
servirem de reserva legal de grandes propriedades rurais.
Esse
processo atinge diretamente povos como os Geraizeiros e as comunidades de fundo
e fecho de pasto, que possuem ocupação histórica. “Toda vez que tem uma
ampliação, você entra na terra que é usada ou utilizada, o que é uma referência
importante”, detalhou Jean François Timmers, líder de Políticas e Advocacia da
World Wide Fund for Nature (WWF).
O
descompasso entre a legislação e a realidade territorial gera o que o
Observatório chama de conflitos sistêmicos. O modelo de expansão é criticado
por ignorar que “nenhuma terra é vazia”, gerando impactos humanos profundos que
são muitas vezes esquecidos nas discussões sobre desmatamento.
Para
Marina Comandulli, assessora de Direitos Humanos e Desmatamento da Global
Canopy, a invisibilidade dessas populações nos mapas oficiais do governo
federal é um dos principais gargalos para a proteção de seus direitos. “A gente
quer que as comunidades tradicionais possam existir para as pessoas”, pontuou
durante a demonstração das funcionalidades do site.
O
objetivo da plataforma é combater essa lacuna, integrando dados do aplicativo
Tô no Mapa, que permite o automapeamento de territórios ancestrais. A intenção
é dar nome e localização geográfica a grupos que, embora não tenham títulos de
terra, ocupam as mesmas áreas há séculos.
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Transparência e mercado internacional
A
ferramenta utiliza bases de dados consolidadas do Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe) e MapBiomas, além do índice de risco climático do
Adapta Brasil. O cruzamento dessas fontes permite identificar que estados como
Pará, Minas Gerais e Maranhão lideram o ranking nacional de ocorrências
violentas.
O Pará
figura no topo com 15.383 registros, seguido por Minas Gerais (8.479), e
Maranhão (7.219). A expansão da soja e da pecuária nesses estados coincide
quase que milimetricamente com as áreas de maior recorrência de conflitos
fundiários.
A
plataforma também foi desenhada para atender à crescente demanda internacional
por rastreabilidade socioambiental. Nesta terça-feira (28), ocorrerá uma
reunião com embaixadas da União Europeia para apresentar a ferramenta como
subsídio ao regulamento contra o desmatamento importado.
As
organizações esperam que a transparência técnica da plataforma pressione as
empresas compradoras e os grandes grupos econômicos. “Esse sistema por si só
comprova para o mercado que é importante ter essa informação”, afirmou Jean.
O
objetivo não é o boicote generalizado a regiões produtoras, mas sim o aumento
do risco reputacional para forçar soluções. “O que a gente quer é que essas
empresas, essas companhias trabalhem com esses problemas e tentem resolvê-los”,
explicou Marina.
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Disputa pela água e mineração
Outra
frente de alerta são os conflitos por água, que registraram seu pico histórico
no ano de 2019. Minas Gerais lidera essa categoria devido à intensa atividade
de mineração, concentrando cerca de 60% das outorgas minerárias de todo o país.
Na
Bahia, os conflitos hídricos estão ligados ao uso intensivo de irrigação no
oeste do estado, que pressiona bacias hidrográficas críticas. A plataforma
permite visualizar municípios como Correntina e Barreiras, onde a disputa pelo
uso da água gera confrontos diretos e mobilizações populares.
Ao
oferecer dados sólidos e organizados, o Observatório Socioambiental pretende
qualificar a discussão pública no Brasil e no exterior. A expectativa é que
gestores públicos e o sistema de justiça utilizem o mapa para embasar decisões
mais éticas sobre o uso dos recursos naturais.
Fonte:
IstoÉ/Brasil de Fato

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