Os
planos de Renan Santos para ‘tirar’ votos de Flávio Bolsonaro
"Estou
à direita de Flávio Bolsonaro (PL)." É como o pré-candidato à Presidência
Renan Santos, do partido Missão, define sua posição no espectro político nesta
eleição.
Com
forte atuação nas redes sociais e brevíssimo tempo no horário político, o
estreante de 42 anos lançou-se na disputa tendo o confronto, a provocação e o
ataque como peças centrais do seu discurso.
Por
enquanto, a estratégia para tentar abocanhar eleitores de direita tem sido
colocar Flávio como uma figura de centro em um jogo de bola dividida nesse
campo político, que ainda tem Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) na
disputa até o momento.
"Não
existe terceira via", disse Santos em entrevista à Jovem Pan. "Eu sou
o candidato da direita, o Flávio é um candidato do centro, o Lula é candidato
do centro e os outros dois, o Zema e o Caiado, são o 'centro dois' e o 'centro
três', o cara que fica no banco de reservas do Flávio."
Para
Adriano Oliveira, cientista político da Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE), Renan atrai um eleitor jovem, que rejeita tanto o bolsonarismo quanto o
lulismo.
"Renan
Santos é um candidato antissistema da extrema-direita, consegue atrair uma
juventude que não se interessa por política, não tem memória do lulismo,
enquanto o governo Lula está com baixa avaliação", diz.
Segundo
Oliveira, Santos pode interferir negativamente na candidatura de Flávio,
tirando votos dele. "O grande potencial dele é fazer com que a eleição não
termine no primeiro turno, um cenário que é remoto, mas que devemos
considerar."
É por
isso que o candidato do Missão tem focado tanto no filho do ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL). "Eu vou acabar com a raça do Flávio Bolsonaro. Me aguarde,
seu vagabundo", disse Renan em uma live.
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Da USP ao MBL
Encenar
discursos virulentos é uma das marcas de Renan Santos, que foi um dos
fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL) em 2014, época em que surgiram
vários outros movimentos pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT).
Naquela
época, o "escritor, presidente e guitarrista", como se define, vinha
de uma experiência mal-sucedida na política. Após entrar na faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 2003, tentou, por meio da
juventude do PSDB, disputar o Diretório do Centro Acadêmico (DCE).
"Ele
se via como um vocacionado da política", diz à BBC News Brasil Ellen Elsie
Nascimento, que pesquisou o MBL em sua tese de doutorado pela USP, Ativismo
liberal-conservador no Brasil pós-2013, publicada em 2022.
Mas
Renan viu seu projeto político-estudantil afundar depois que alguns colegas
rejeitaram a disputa. Acabou se dizendo traído e derrotado, conta a
pesquisadora, e deixou a faculdade antes de concluir o curso.
Anos
mais tarde, na eleição de 2014, Renan trabalhou na campanha do empresário Paulo
Batista, candidato a deputado estadual pelo extinto Partido Republicano
Progressista (PRP). Em vídeos nas redes sociais, Batista se vestia de
super-herói e tinha um "raio privatizador" para "exterminar
comunistas".
Um dos
seus rivais naquela eleição era o também candidato a deputado estadual Evandro
Sinotti (PMDB), autor de Não, Sr. Comuna! Guia Para Desmascarar as Falácias
Esquerdistas (editora Sinotti), que tinha na sua equipe de campanha um jovem
franzino de 18 anos chamado Kim Kataguiri.
Apesar
do sucesso nas redes sociais, o efeito não se refletiu nas urnas e nenhum dos
candidatos foi eleito. Mas Kim Kataguiri e Renan Santos se tornaram amigos e
acabaram fundando, no fim daquele ano, o MBL.
O
movimento surgiu "metade arte, metade política", como define Kim
Kataguiri à BBC News Brasil. "Metade se interessava por política e metade
era do meio artístico. Isso explica um pouco o trabalho esteticamente diferente
desde o início. A minha metade, assim como a do Renan, era a da política."
Essa
estética é impressa em conteúdos nas redes sociais cheios de temas polêmicos,
imagens e falas rápidas, que atingem, em sua maioria, o eleitorado mais jovem.
"O
MBL conseguiu fazer uso das redes como uma ferramenta não só de arregimentar
uma base social, mas de priorizar uma base mais jovem", diz a pesquisadora
Ellen Nascimento.
"Tem
todo um investimento psicológico, inclusive de pertencimento. Muitos jovens
encampavam a bandeira do MBL como sendo da própria identidade."
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A nova Missão de Renan
Hoje, o
grupo que surgiu pedindo "fora, Dilma", e depois "fora,
Bolsonaro" e, mais recentemente, "delata, Vorcaro", evocando o
escândalo do Banco Master, fundou um partido, criou uma plataforma de streaming
e ocupa cadeiras em câmaras municipais e no Congresso Nacional.
Apesar
de mais de uma década mais velhos e dos cabelos grisalhos de uns, o MBL segue
representado, em sua maioria, por homens mais brancos e jovens que os padrões
da política.
Por
meio da Missão, partido homologado junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
no fim do ano passado, o MBL pretende lançar neste ano candidatos à Câmara e ao
Senado, além de disputar o governo de ao menos sete Estados e a Presidência,
com Renan Santos.
Para
isso, o partido está em campanha por novos filiados e na formação de novos
quadros. O MBL tem em seu histórico uma certa dificuldade de reter suas
lideranças.
Na
última década, muitos dos fundadores deixaram o movimento, entrando em partidos
ou mesmo deixando a política. Outros romperam de forma mais incisiva. Talvez a
figura mais proeminente neste caso seja Fernando Holiday, uma das lideranças
mais carismáticas do MBL, segundo Ellen Nascimento.
Publicamente,
Holiday saiu por divergências sobre o posicionamento do movimento em relação a
Jair Bolsonaro (PL) e a pautas conservadoras defendidas pelo ex-vereador,
contrário ao aborto e às causas LGBT, e que o MBL não encampava.
Desde
que deixou o MBL, Holiday disse que o MBL era "covarde" e
"oportunista". A BBC News Brasil procurou Holiday, que não respondeu.
Além da
dificuldade de reter suas lideranças, formar alianças com outras siglas — que
garantiria mais tempo de propaganda eleitoral gratuita e verba de campanha do
fundo partidário — é um dos obstáculos da Missão.
O
partido de Renan terá um tempo mínimo de propaganda na TV e no rádio. A maior
parte (90%) do tempo é distribuída proporcionalmente ao número de
representantes na Câmara dos Deputados. Os 10% restantes são distribuídos
igualitariamente.
Segundo
Kim Kataguiri, a campanha de Santos não tem financiadores, além deles mesmos, e
nem um marqueteiro. "É a gente mesmo que faz", diz o deputado.
"Na
nossa avaliação, marqueteiro é um monte de mercenário que cobra muito para
entregar um serviço desatualizado. E temos um estilo muito próprio de nos
comunicar."
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'Mutirão anti-Bolsa Família'
Outro
desafio no horizonte de Santos é o fato de ser desconhecido pela população,
especialmente fora de São Paulo. Por isso, ele tem viajado para outras regiões,
onde dá entrevistas à imprensa local, realiza encontros com apoiadores e faz
dezenas de vídeos.
Em um
deles, ele aparece sentado na pedra de uma cachoeira, vestindo apenas um calção
amarelo e um óculos Ray-Ban, explicando que o visual dali, a cachoeira do
Santuário, no Maranhão, é "um tapa na cara de quem acha que o Maranhão não
tem possibilidades de turismo incríveis".
No
entanto, a maior parte do conteúdo publicado em sua conta no Instagram foi
negativa para o Estado. "É melhor ser preso do que ir para uma escola no
Maranhão", disse ele em um vídeo gravado em frente ao presídio de
Pedrinhas, cujo histórico de rebeliões violentas já deixou dezenas de mortos.
A
violência é uma das bandeiras da sua campanha, que, assim como Flávio
Bolsonaro, tem no governo linha-dura de Nayib Bukele, em El Salvador, um modelo
a ser seguido.
Um de
seus uniformes nesta campanha tem sido uma camiseta com os dizeres
"prendeu matou".
"Se
você faz parte de uma facção e você vem com uma metralhadora para receber a
polícia, ou você se entrega ou você vai morrer", explicou Renan Santos,
sobre o seu slogan, em uma entrevista recente.
Ele
defende o que chama de "Direito Penal do inimigo", no qual
faccionados devem ser tratados com menos direitos que um criminoso comum.
Renan
Santos também defende as escolas militares, prisão perpétua, é contrário à Lei
da Misoginia e às cotas raciais.
Propõe
um "mutirão anti-Bolsa Família", que consiste em criar "frentes
de trabalho nas regiões mais humildes", com mutirões de emprego para
substituir o benefício social.
"Homens
e mulheres saudáveis e jovens têm que atuar", diz ele, defendendo que o
custo do Bolsa Família é "retirado do salário de outros brasileiros, que
estão trabalhando e pagando impostos".
O
contraste entre programas sociais, meritocracia e o incentivo ao trabalho
colocam a Missão, segundo a pesquisadora Lilian Sendretti, do Centro Brasileiro
de Análise e Planejamento (Cebrap), muito mais no campo da direita radical do
que de um partido somente liberal.
"A
Missão tenta se colocar como um discurso liberal, mas está tentando se
capilarizar e navegar dentro de um eleitorado que é palatável às bandeiras da
extrema-direita."
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Áudios e vídeos polêmicos
Embora
Renan Santos estivesse na "metade política" do MBL, ele também
transita pela "metade artística" do movimento, como guitarrista da
banda Limão Rosa. O grupo é formado também por Arthur do Val (Mamãe Falei) e
Gustavo Moledo.
Arthur
do Val, também do MBL, teve seu mandato de deputado estadual cassado por
unanimidade pela Assembleia Legislativa de São Paulo em 2022 e ficou inelegível
por oito anos.
O
processo foi aberto depois que vazaram áudios em que o ex-deputado dizia que
mulheres ucranianas "são fáceis porque são pobres". Ele havia ido à
Ucrânia no contexto da guerra.
Essa
não foi a única polêmica envolvendo o MBL com conteúdo misógino. Em 2018,
circulou um vídeo em que Renan Santos dizia a amigos que, se fosse vetada a
entrada deles em um bar, uma colega deles, chamada Bárbara, seria estuprada.
Na
época, em nota assinada em conjunto, Bárbara e Santos disseram que o vídeo foi
retirado de contexto, que a brincadeira foi "infeliz" e que o líder
do MBL pediu desculpas a ela.
Como
empresário, Renan Santos já enfrentou diversos processos, a maioria
trabalhistas.
Em uma
das mais recentes decisões, Santos foi condenado pelo Tribunal de Justiça de
São Paulo a pagar R$ 30 mil de indenização para a escritora e filósofa Djamila
Ribeiro após chamá-la nas redes sociais de "burra", "jeca"
e associá-la ao crime organizado.
Ao
comentar a condenação nas redes sociais, Renan disse que "para muitos, não
estou dizendo que isso está acontecendo, parece que é uma espécie de
perseguição judicial para me deixar inelegível".
Fonte:
BBC News Brasil

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