Pedro
Uczai: Do poço ao posto - Por que o Brasil precisa retomar o controle da
distribuição de combustíveis
O
impacto da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã não se limitou às
fronteiras do Oriente Médio. A escalada do conflito provocou uma disparada nos
preços do petróleo no mercado internacional e, como num termômetro global,
expôs as fragilidades crônicas da gestão do setor de combustíveis também no
território brasileiro.
Até
agora, os preços nas bombas não subiram na mesma proporção que em outros países
– e isso se deve, exclusivamente, às ações emergenciais do governo do
presidente Lula. Subvenções, redução de impostos e outras medidas seguraram a
alta. Mas o problema de fundo permanece, mais grave que nunca: o Brasil não
pode mais ignorar a soberania sobre seu próprio sistema de combustíveis
Sempre
que o mercado global enfrenta crises, cada vez mais frequentes, a fragilidade
gerada pela privatização de ativos estratégicos e pela desarticulação do
Sistema Petrobras nos últimos anos torna- -se evidente. A população brasileira
pôde perceber isso de forma aguda nos últimos dois meses. Sem instrumentos
públicos eficazes, o setor de combustíveis torna- -se refém da busca incessante
por lucros imediatos. O resultado é uma concentração de poder econômico que
simplesmente ignora os interesses nacionais e a segurança energética da
população.
Nem
sempre foi assim. Entre 2003 e o golpe de 2016, nos governos Lula e Dilma
Rousseff, a Petrobras operava como um verdadeiro instrumento de
desenvolvimento. A empresa atuava, de forma lucrativa, em toda a cadeia
produtiva, do poço ao posto, com forte intervenção estatal e planejamento de
longo prazo. Essa estrutura foi, no entanto, deliberadamente desmantelada pelo
governo Temer e teve seu desmonte aprofundado na desastrosa gestão de Jair
Bolsonaro. Sob o discurso falacioso de “eficiência”, a Petrobras passou a
priorizar interesses de acionistas privados e dividendos em detrimento das
necessidades públicas e da estabilidade de preços.
Para
enfrentar esse legado, a Bancada do PT na Câmara dos Deputados protocolou um
Projeto de Lei (PL 1853) que autoriza a União a criar uma empresa pública no
setor de distribuição de combustíveis. A proposta também permite a recomposição
da presença pública em outros segmentos estratégicos da cadeia nacional de
abastecimento.
Outra
possibilidade é a reestatização da BR Distribuidora, privatizada durante o
governo Bolsonaro por preços irrisórios e que desde então tem praticado valores
abusivos. Um exemplo recente escancara a lógica predatória: a Petrobras deu um
aumento de apenas 3 centavos de real por litro no diesel. A BR, agora
rebatizada como Vibra Energia e em mãos privadas, repassou esse aumento ao
consumidor final com uma majoração absurda de 3.500%. Não se trata de erro
técnico ou exceção. É a regra de um mercado desregulado.
No
cenário atual, entre a refinaria e o consumidor, as empresas privadas ocupam um
espaço excessivo, apropriando- -se de margens cada vez maiores e criando
obstáculos ao interesse público. Com a guerra no Oriente Médio, o que se viu
foram aumentos de preços sem qualquer justificativa técnica. Mesmo após a
isenção de PIS e Cofins sobre o diesel e a criação de subsídios para conter os
preços, o custo ao consumidor subiu quase 20% em apenas 15 dias. Enquanto isso,
as margens de lucro dispararam: 71,6% no diesel S-500, 45% no diesel S-10 e
32,2% na gasolina, com uma média superior a 30%.
Os
números desmontam o mito de que a livre concorrência beneficia o consumidor. A
retirada do Estado não levou à autorregulação mágica, mas à maximização dos
ganhos privados à custa da população e da economia como um todo. Por isso, o
Brasil precisa reforçar sua capacidade pública de atuar em um setor estratégico
para a soberania nacional, a segurança do abastecimento e a proteção da
economia, tanto a popular quanto a empresarial. A privatização da BR
Distribuidora retirou do Estado seu papel crucial no elo que conecta a produção
ao consumidor final. E o resultado não foi concorrência nem preços mais baixos,
mas ampliação das margens de lucro privadas, concentração de mercado e drástica
diminuição da capacidade estatal de regular o setor.
Hoje, o
País está refém de três grandes empresas, Vibra, Ipiranga e Raízen, que formam
um oligopólio de fato. A bancada do PT propõe que a União possa avaliar e
instituir uma empresa pública, sociedade de economia mista federal ou
subsidiária de estatal existente, destinada à atuação na distribuição de
combustíveis, biocombustíveis e gás liquefeito de petróleo, bem como na
logística, armazenagem, comercialização e demais atividades correlatas
integrantes do sistema nacional de abastecimento.
É
preciso garantir uma estrutura empresarial pública apta a operar em escala
nacional, com presença prioritária em regiões estratégicas e vulneráveis, de
modo a assegurar regularidade de oferta, capilaridade distributiva, integração
territorial e, acima de tudo, capacidade pública de intervenção econômica em um
setor essencial ao desenvolvimento nacional.
A União
precisa recompor sua presença em segmentos estratégicos, inclusive com a
aquisição negociada de participações societárias em empresas que atuem no
refino, processamento, transporte, armazenagem, distribuição e comercialização.
Defende-se ainda a possibilidade de aquisição, total ou parcial, de refinarias,
bases de distribuição, terminais, instalações de tancagem, centros logísticos,
dutos e demais estruturas operacionais.
A
proposta baseia-se nos instrumentos constitucionais que preveem a exploração
direta de atividade econômica pelo Estado quando necessária aos imperativos da
segurança nacional ou a relevante interesse coletivo. A ausência estatal no
setor produziu um ambiente no qual o interesse nacional perdeu espaço para
dinâmicas puramente mercantis e a volatilidade internacional.
A
reestatização do Sistema Petrobras, em seus diversos elos, volta, portanto, ao
centro do debate nacional.
Não se
trata de um debate técnico menor ou setorial. É fundamental para a soberania
econômica, o planejamento estratégico de longo prazo e a capacidade efetiva do
governo em intervir quando necessário. Significa inserir a questão energética
como o fulcro de um projeto nacional de desenvolvimento, no qual o interesse
público seja, finalmente, o ponto central de todas as ações governamentais. A
guerra no Oriente Médio pode ter acendido o alerta. Mas a resposta caberá a
nós, brasileiros.
• Governo reage ao choque do petróleo com
pacote para conter alta dos combustíveis. Por Paulo Gala
O
governo brasileiro anunciou um conjunto de medidas para mitigar os efeitos do
recente choque nos preços internacionais do petróleo, que já apresenta sinais
de maior persistência. Com o barril do tipo Brent acima de US$ 100 — encerrando
a semana próximo de US$ 104 — e o agravamento das tensões geopolíticas no
Estreito de Ormuz, cresce a percepção de que o cenário atual pode não ser
apenas temporário. Ainda que haja menções a cessar-fogo, as incertezas
permanecem elevadas, mantendo o risco de disrupções no fluxo global de
petróleo.
O
impacto tem sido generalizado. Países como Estados Unidos, Canadá, China,
Austrália e Brasil registram aumentos expressivos nos preços dos combustíveis,
refletindo um choque global de oferta. Diante disso, governos ao redor do mundo
têm recorrido a instrumentos fiscais e regulatórios para conter os efeitos
inflacionários, sobretudo sobre gasolina, diesel e querosene.
No caso
brasileiro, a estratégia adotada busca utilizar receitas extraordinárias
provenientes do próprio setor petrolífero para compensar a alta dos
combustíveis no mercado doméstico. Como grande exportador líquido de petróleo —
entre os sete maiores do mundo — o Brasil se beneficia do aumento dos preços
internacionais por meio de melhora na balança comercial e elevação da
arrecadação tributária. O governo pretende, portanto, direcionar parte dessas
receitas adicionais, inclusive com maior tributação sobre exportações de
petróleo e sobre a Petrobras, para suavizar os preços internos.
A
lógica do pacote é, em princípio, fiscalmente neutra: o aumento de arrecadação
compensaria as desonerações aplicadas ao consumo doméstico. Entre as medidas
propostas, destacam-se a possibilidade de redução ou eliminação temporária de
tributos sobre combustíveis, além de flexibilizações no arcabouço fiscal para
permitir a execução dessas políticas sem necessidade de criação de novos
impostos. A implementação, no entanto, depende de aprovação do Congresso
Nacional.
O custo
das intervenções não é desprezível. Estimativas indicam que cada redução de R$
0,10 no preço da gasolina pode representar um impacto próximo de R$ 1 bilhão.
Atualmente, os tributos sobre o diesel já se encontram zerados, e há discussão
sobre a extensão dessas medidas por um período adicional. Ainda assim, os
preços domésticos seguem significativamente abaixo da paridade internacional,
cerca de 50% a 60% inferiores, o que reforça o papel das políticas públicas na
contenção dos reajustes.
Após
quase dois meses desde o início das tensões — quando o petróleo girava em torno
de US$ 60 por barril —, os preços permanecem elevados, sem sinais claros de
reversão no curto prazo. Nesse contexto, o pacote brasileiro se alinha às
iniciativas adotadas globalmente, refletindo um esforço coordenado para
amortecer os efeitos inflacionários de um choque energético que, ao que tudo
indica, tende a se prolongar.
• De Hannover aos biocombustíveis: o
protagonismo brasileiro na transição energética. Por Rodrigo Soares
O
Brasil apresentou na Feira de Hannover uma solução de biocombustível que
permite a redução da emissão de gases de efeito estufa e efetiva um caminho
para a transição energética. A solução chega no momento certo, quando o país
aguarda a entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia, que
ocorre no próximo dia primeiro de maio. Após mais de 25 anos de negociações, o
acordo consolida uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, reunindo um
PIB de US$ 22,4 trilhões e um mercado de cerca de 718 milhões de pessoas. A
escolha pela cooperação, conforme enfatizou o presidente Lula durante a
abertura da Feira de Hannover, envia uma mensagem clara: o caminho para o
desenvolvimento sustentável passa pela integração.
Mais
comércio e mais investimentos significam mais empregos, renda e oportunidades
dos dois lados do Atlântico. Ao ampliar a integração produtiva, as cadeias
produtivas se fortalecem e, consequentemente, ganham os pequenos negócios, que
representam cerca de 95% das empresas brasileiras. Há, ainda, inúmeras
complementaridades entre as duas regiões. O Brasil, por exemplo, pode
desempenhar um papel decisivo ao contribuir para a redução de custos
energéticos e para a descarbonização da indústria europeia, especialmente a
partir de sua matriz energética mais limpa.
Esse
novo momento ganhou visibilidade concreta na Feira de Hannover, onde o Brasil
ocupa posição de destaque como país parceiro. O país se apresenta como
protagonista da economia verde e da transição energética, demonstrando ao mundo
sua capacidade de competir em escala global.
No
Sebrae, entendemos que esse protagonismo só se sustenta com a plena inclusão
das micro e pequenas empresas. São elas que dão capilaridade ao crescimento,
que inovam com agilidade e que conectam desenvolvimento econômico à realidade
dos territórios. Na COP30, já evidenciamos a força desses empreendedores na
economia verde. Agora, em Hannover, foi possível avançar ainda mais, apoiando
190 startups e pequenos negócios que apresentam soluções em indústria 4.0,
inteligência artificial, sustentabilidade e transformação digital.
Essas
empresas traduzem um Brasil que não apenas acompanha as transformações globais,
mas ajuda a liderá-las. Desenvolvem tecnologias para eficiência energética,
automação, digitalização industrial e gestão inteligente, áreas essenciais para
um mundo que busca produtividade aliada à responsabilidade ambiental. São
soluções que dialogam diretamente com os desafios globais e reforçam a imagem
do país como parceiro estratégico.
Nada
disso acontece por acaso. Trata-se de um esforço articulado entre instituições
como o Sebrae e a ApexBrasil, que têm trabalhado para preparar nossas micro e
pequenas empresas para competir internacionalmente. Iniciativas como o Programa
de Qualificação para Exportação (PEIEX) ampliam o acesso a mercados e
transformam potencial em resultados concretos.
Os
números confirmam essa trajetória. Em 2025, o Brasil se consolidou como o
quarto maior destino de investimento estrangeiro direto no mundo, além de
ampliar significativamente sua presença internacional com a abertura de novos
mercados. Esses indicadores refletem um ativo essencial: a confiança.
E é
justamente essa confiança que precisamos transformar em oportunidades para
todos. O acordo entre Mercosul e União Europeia, aliado à presença estratégica
em fóruns globais como a Feira de Hannover, abre uma janela inédita para que as
micro e pequenas empresas brasileiras avancem além das fronteiras. O nosso
papel, no Sebrae, é garantir que estejam preparadas para esse salto,
conectando, qualificando e impulsionando empreendedores.
O
Brasil é parte ativa da construção de uma nova economia — mais verde, mais
inovadora e mais inclusiva. E são os pequenos negócios que, cada vez mais,
assumem o protagonismo dessa transformação.
Fonte:
Brasil 247

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