terça-feira, 28 de abril de 2026

Somos programadas para a confusão

Brasileiras são uma raça maldita”, “são prostitutas” e “são programadas para a confusão”. A frase, dita por Paolo Zampolli, empresário italiano e aliado de Donald Trump, não pode ser tratada como um mero ataque misógino ou xenofóbico isolado, porque ela revela, com uma franqueza brutal, o funcionamento de uma estrutura de poder que entra em colapso sempre que mulheres deixam de obedecer.

Não se trata de um deslize retórico, tampouco de uma provocação vazia. Trata-se de linguagem política, e linguagem política nunca é inocente. Quando um homem inserido em disputas de poder escolhe descrever mulheres brasileiras como corpos disponíveis, perigosos e caóticos, ele não está apenas ofendendo, mas tentando enquadrar, reduzir e justificar. A desumanização, historicamente, não é um excesso; é um método que antecede e legitima a violência.

<><> Ironia incômoda

Há, no entanto, uma ironia incômoda nessa fala: na brutalidade da frase, existe uma involuntária precisão. Somos, sim, programadas para a confusão, mas não a confusão que ele pretende sugerir. Somos programadas para desorganizar o sistema que sempre nos quis silenciosas, submissas e previsíveis. Somos programadas para romper com estruturas que naturalizam a violência e para sair de relações que historicamente nos foram impostas como destino.

E é exatamente nesse ato de sair que reside um dos pontos mais críticos da experiência feminina.

Existe um momento específico em que a estrutura patriarcal reage com maior intensidade, e ele não está no início da relação nem no seu auge, mas no seu fim. A separação constitui, para muitas mulheres, o período de maior risco, justamente porque é nesse instante que aquilo que muitos homens interpretam como pertencimento se desfaz, que o controle escapa e que a lógica de posse se rompe. Diante dessa ruptura, a resposta frequentemente não é a elaboração, mas a escalada da violência.

<><> Feminicídio no Brasil

Os dados sobre feminicídio no Brasil reiteram esse padrão: segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, uma parcela significativa dos assassinatos de mulheres ocorre no contexto de término ou tentativa de rompimento da relação. Não se trata de coincidência, mas de previsibilidade estrutural. A mulher que decide sair está, muitas vezes, no momento de maior vulnerabilidade da sua vida.

Quando não ocorre a morte, a violência não desaparece; ela apenas se reorganiza. A agressão física pode ceder espaço à violência institucional, a ameaça direta pode se transformar em perseguição judicial, e o controle sobre o corpo pode ser substituído por mecanismos de dominação financeira, parental e simbólica. O divórcio, portanto, não representa necessariamente a libertação imediata, mas muitas vezes a transição para uma nova arena de conflito.

Nesse contexto, tornam-se recorrentes as ações judiciais abusivas, as acusações estratégicas e a constante necessidade de a mulher provar sua sanidade, sua capacidade materna e sua legitimidade. A lógica se inverte de forma perversa, fazendo com que a vítima seja colocada sob suspeita enquanto o agressor reivindica direitos e constrói narrativas de legitimidade.

Esse movimento não é acidental. Ele integra um mecanismo mais amplo de punição à mulher que ousa romper.

<><> Deslegitimada, deslocada e enfraquecida

O caso que motivou a declaração ofensiva se insere exatamente nessa lógica. Trata-se de uma disputa de guarda em um contexto de separação, na qual a mulher, ao reivindicar o direito de permanecer com o filho, passa a ser progressivamente deslegitimada, deslocada e enfraquecida. Quando mulheres resistem, deixam de ser percebidas como vítimas e passam a ser tratadas como ameaças, e ameaças, dentro dessa estrutura, precisam ser neutralizadas.

É nesse ponto que expressões como “raça maldita”, “prostituta” e “confusão” deixam de ser xingamentos aleatórios e passam a operar como categorias políticas. A mulher é simultaneamente animalizada, sexualizada e descrita como instável, de modo a esvaziar sua credibilidade, desacreditar sua dor e reinterpretar sua resistência como desordem. A linguagem, nesse sentido, não apenas descreve a realidade, mas constrói o cenário no qual a violência se torna aceitável.

Por isso, a frase não pode ser tratada como exagero ou descontrole. Ela é, ao contrário, profundamente coerente com um sistema que reage com agressividade sempre que mulheres reivindicam autonomia e desafiam a lógica de poder estabelecida.

Dizer que somos “programadas para a confusão” é uma tentativa de nos desqualificar. Mas há uma potência política precisa em assumir essa narrativa e devolvê-la ressignificada: somos programadas para desestabilizar estruturas que naturalizam a violência, para interromper ciclos de abuso, para questionar hierarquias e para recusar aquilo que sempre nos foi imposto como inevitável. No Brasil, onde o próprio sistema de justiça opera como instrumento de violência contra a mulher que decide se separar, a disputa de guarda revela com frequência não o desejo de paternidade, mas a continuidade do controle por outros meios, o filho transformado em vetor de punição pela ousadia do rompimento.

<><> A nossa permanência

O que efetivamente incomoda não é o nosso comportamento, mas a nossa permanência. Incomoda o fato de que, mesmo diante de múltiplas formas de violência, continuamos existindo, falando, denunciando e ocupando espaços que historicamente nos foramnegados. Se isso gera desconforto, tensão ou instabilidade, talvez o problema nunca tenha sido a chamada “confusão”, mas o enfraquecimento de um modelo baseado no controle.

A confusão que provocamos não é o caos desorganizado que tentam nos atribuir. Trata-se de um processo de transformação que expõe abusos, desmonta privilégios e redefine relações de poder. E toda transformação, para aqueles que sempre ocuparam posições de domínio, tende a ser percebida como ameaça.

Para nós, no entanto, ela sempre teve outro nome.

Sobrevivência.

E continuará tendo.

 

Fonte: Por Thaís Cremasco, em Fórum

 

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