Somos
programadas para a confusão
Brasileiras
são uma raça maldita”, “são prostitutas” e “são programadas para a confusão”. A
frase, dita por Paolo Zampolli, empresário italiano e aliado de Donald Trump,
não pode ser tratada como um mero ataque misógino ou xenofóbico isolado, porque
ela revela, com uma franqueza brutal, o funcionamento de uma estrutura de poder
que entra em colapso sempre que mulheres deixam de obedecer.
Não se
trata de um deslize retórico, tampouco de uma provocação vazia. Trata-se de
linguagem política, e linguagem política nunca é inocente. Quando um homem
inserido em disputas de poder escolhe descrever mulheres brasileiras como
corpos disponíveis, perigosos e caóticos, ele não está apenas ofendendo, mas
tentando enquadrar, reduzir e justificar. A desumanização, historicamente, não
é um excesso; é um método que antecede e legitima a violência.
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Ironia incômoda
Há, no
entanto, uma ironia incômoda nessa fala: na brutalidade da frase, existe uma
involuntária precisão. Somos, sim, programadas para a confusão, mas não a
confusão que ele pretende sugerir. Somos programadas para desorganizar o
sistema que sempre nos quis silenciosas, submissas e previsíveis. Somos
programadas para romper com estruturas que naturalizam a violência e para sair
de relações que historicamente nos foram impostas como destino.
E é
exatamente nesse ato de sair que reside um dos pontos mais críticos da
experiência feminina.
Existe
um momento específico em que a estrutura patriarcal reage com maior
intensidade, e ele não está no início da relação nem no seu auge, mas no seu
fim. A separação constitui, para muitas mulheres, o período de maior risco,
justamente porque é nesse instante que aquilo que muitos homens interpretam
como pertencimento se desfaz, que o controle escapa e que a lógica de posse se
rompe. Diante dessa ruptura, a resposta frequentemente não é a elaboração, mas
a escalada da violência.
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Feminicídio no Brasil
Os
dados sobre feminicídio no Brasil reiteram esse padrão: segundo o Anuário
Brasileiro de Segurança Pública, uma parcela significativa dos assassinatos de
mulheres ocorre no contexto de término ou tentativa de rompimento da relação.
Não se trata de coincidência, mas de previsibilidade estrutural. A mulher que
decide sair está, muitas vezes, no momento de maior vulnerabilidade da sua
vida.
Quando
não ocorre a morte, a violência não desaparece; ela apenas se reorganiza. A
agressão física pode ceder espaço à violência institucional, a ameaça direta
pode se transformar em perseguição judicial, e o controle sobre o corpo pode
ser substituído por mecanismos de dominação financeira, parental e simbólica. O
divórcio, portanto, não representa necessariamente a libertação imediata, mas
muitas vezes a transição para uma nova arena de conflito.
Nesse
contexto, tornam-se recorrentes as ações judiciais abusivas, as acusações
estratégicas e a constante necessidade de a mulher provar sua sanidade, sua
capacidade materna e sua legitimidade. A lógica se inverte de forma perversa,
fazendo com que a vítima seja colocada sob suspeita enquanto o agressor
reivindica direitos e constrói narrativas de legitimidade.
Esse
movimento não é acidental. Ele integra um mecanismo mais amplo de punição à
mulher que ousa romper.
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Deslegitimada, deslocada e enfraquecida
O caso
que motivou a declaração ofensiva se insere exatamente nessa lógica. Trata-se
de uma disputa de guarda em um contexto de separação, na qual a mulher, ao
reivindicar o direito de permanecer com o filho, passa a ser progressivamente
deslegitimada, deslocada e enfraquecida. Quando mulheres resistem, deixam de
ser percebidas como vítimas e passam a ser tratadas como ameaças, e ameaças,
dentro dessa estrutura, precisam ser neutralizadas.
É nesse
ponto que expressões como “raça maldita”, “prostituta” e “confusão” deixam de
ser xingamentos aleatórios e passam a operar como categorias políticas. A
mulher é simultaneamente animalizada, sexualizada e descrita como instável, de
modo a esvaziar sua credibilidade, desacreditar sua dor e reinterpretar sua
resistência como desordem. A linguagem, nesse sentido, não apenas descreve a
realidade, mas constrói o cenário no qual a violência se torna aceitável.
Por
isso, a frase não pode ser tratada como exagero ou descontrole. Ela é, ao
contrário, profundamente coerente com um sistema que reage com agressividade
sempre que mulheres reivindicam autonomia e desafiam a lógica de poder
estabelecida.
Dizer
que somos “programadas para a confusão” é uma tentativa de nos desqualificar.
Mas há uma potência política precisa em assumir essa narrativa e devolvê-la
ressignificada: somos programadas para desestabilizar estruturas que
naturalizam a violência, para interromper ciclos de abuso, para questionar
hierarquias e para recusar aquilo que sempre nos foi imposto como inevitável.
No Brasil, onde o próprio sistema de justiça opera como instrumento de
violência contra a mulher que decide se separar, a disputa de guarda revela com
frequência não o desejo de paternidade, mas a continuidade do controle por
outros meios, o filho transformado em vetor de punição pela ousadia do
rompimento.
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A nossa permanência
O que
efetivamente incomoda não é o nosso comportamento, mas a nossa permanência.
Incomoda o fato de que, mesmo diante de múltiplas formas de violência,
continuamos existindo, falando, denunciando e ocupando espaços que
historicamente nos foramnegados. Se isso gera desconforto, tensão ou
instabilidade, talvez o problema nunca tenha sido a chamada “confusão”, mas o
enfraquecimento de um modelo baseado no controle.
A
confusão que provocamos não é o caos desorganizado que tentam nos atribuir.
Trata-se de um processo de transformação que expõe abusos, desmonta privilégios
e redefine relações de poder. E toda transformação, para aqueles que sempre
ocuparam posições de domínio, tende a ser percebida como ameaça.
Para
nós, no entanto, ela sempre teve outro nome.
Sobrevivência.
E
continuará tendo.
Fonte:
Por Thaís Cremasco, em Fórum

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