Punk
na igreja: a aliança inusitada na Alemanha Oriental
Os
cinco jovens de cabelos penteados e roupas discretas não chamaram atenção dos
passageiros no trem que fazia a travessia de Berlim Ocidental para a Oriental.
Com um visto de 24 horas concedido pelas autoridades do lado socialista,
pareciam bem-comportados no caminho até a Igreja Protestante do Redentor, na
capital da República Democrática da Alemanha (RDA), onde um cartaz pregado na
porta informava: "Evento religioso com acompanhamento musical".
Lá
dentro, os integrantes da banda Die Toten Hosen, de Düsseldorf, na Alemanha
Ocidental, eram aguardados por duas dezenas de outros jovens que estavam na
viseira da Stasi, a polícia secreta do regime comunista da RDA. Mas ali, em
março de 1983, numa igreja luterana, isso não importava.
Trajando
couro, jeans rasgados, correntes e moicanos, eles testemunhavam a primeira
apresentação de uma banda punk da Alemanha Ocidental no lado oriental da
Cortina de Ferro. Os Toten Hosen deixaram o disfarce de rapazes comuns de lado
e empunharam os instrumentos. Assim como os equipamentos de som, guitarras,
baixo e bateria eram fornecidos pelo Planlos, grupo local que dividiu a matinê.
O grupo
de Düsseldorf, ativo até hoje, se tornaria uma das principais bandas de punk
rock da Alemanha e voltaria a atravessar a Cortina de Ferro em outras
oportunidades, recebendo autorização inclusive para um show do lado socialista,
em 1989. Já o Planlos sucumbiria em poucos anos à pressão do Ministério de
Segurança da Alemanha Oriental, que espionava, interrogava e impedia bandas
como eles de se apresentarem nos espaços oficiais da capital da RDA. Mas esse
não era o caso das igrejas.
Toleradas
pelo governo socialista – apesar da máxima de "ópio do povo" pregada
pela linha marxista-leninista seguida pelo Partido –, as igrejas eram os poucos
espaços livres que podiam receber apresentações musicais, desde que dentro do
contexto religioso e às vezes até mesmo depois das missas. Assim, não passavam
pelo crivo dos burocratas do regime. Se tornaram, dessa maneira, locais para
encontros de dissidentes e críticos, já que também não podiam ser invadidas
pelos membros da Stasi ou da Volkspolizei, a polícia ostensiva do regime.
Os
punks, por outro lado, eram considerados pelo governo uma "degeneração
capitalista", um reflexo do "imperialismo cultural do ocidente"
e inimigos ideológicos, ou seja, não tinham autorização para se apresentar em
boates, casas de show, praças ou escolas. Além disso, passavam constantemente
por interrogatórios, apreensões, buscas e investigações pela Stasi. Nada muito
distinto do que acontecia do outro lado da Cortina de Ferro.
A
inusitada aliança entre religião e o movimento punk, inimaginável em outros
países, virou lugar-comum na Alemanha Oriental durante os últimos anos do Muro
de Berlim.
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Na viseira da Stasi
No
início dos anos 1980, o movimento catapultado por Sex Pistols e Ramones já
tomara a Europa após eclodir, na década anterior, nos subúrbios industriais
ingleses e nos Estados Unidos. Desemprego, falta de perspectivas e revolta com
as políticas neoliberais da primeira-ministra Margaret Thatcher incendiavam a
revolta estética e comportamental de uma juventude "sem futuro".
O punk
correu a Europa, entrou na Alemanha pelo lado capitalista. Atravessou o Muro de
Berlim em discos e revistas contrabandeados e pelas rádios que captavam as
proibidas emissoras ocidentais. Em pouco tempo, esse novo estilo de vida somava
algumas dezenas de discípulos no lado socialista da Alemanha dividida.
Ali, no
entanto, o foco teve de ser ajustado. Em vez da falta de futuro no capitalismo
selvagem, a insatisfação assumiu como slogan o "Too Much Future"
(Futuro em excesso, em tradução livre), aludindo à rigidez do país, que
restringia a individualidade a um percurso definido desde o berço — trabalho,
estudo, serviço militar e fidelidade incondicional ao Partido Socialista
Unificado.
"Vimos
lá que os punks da Alemanha Oriental se arriscavam bem mais e viviam com muito
mais dificuldade que a gente", contou Campino, vocalista dos Toten Hosen,
em 2022, numa entrevista ao site t-online. O histórico show em Berlim Oriental
também foi retratado no documentário Auswärtsspiel (2022), transmitido na
televisão aberta alemã.
O
visual agressivo dos punks ia contra tudo que o governo da RDA pregava. Os
jovens deveriam vestir o uniforme azul da Freie Deutsche Jugend (FdJ), braço
jovem do Partido Socialista Unificado, e tinham que se manter na linha. A alta
cúpula do Ministério da Segurança, que controlava a Stasi, já tinha atuado
fortemente para reprimir o movimento hippie e ligado ao rock 'n roll dos anos
anteriores, inclusive proibindo Beatles e Rolling Stones no país.
Mas o
movimento se espalhava para além de Berlim Oriental. Em 1983, mesmo ano do show
dos Toten Hosen, a cidade de Halle recebeu o primeiro festival punk da RDA,
realizado na Christuskirche, com ajuda do pastor local, Siegfried
"Siggi" Neher, mais tarde conhecido como "pastor punk" por
ceder a igreja para realização de festivais de música e concertos, apesar da
repressão da Stasi.
A
"agitação" causada pelo anarquismo dos punks levou o chefe da Stasi,
o todo-poderoso Erich Mielke, a ordenar, em 1983, um cerco ao movimento pelas
autoridades. Foi quando a perseguição aos punks pela RDA chegou ao ponto
máximo.
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Faça-você-mesmo
Existindo
fora do sistema de poder do Partido Socialista Unificado, a igreja evangélica
buscava sobreviver adotando uma postura de coexistência crítica, sintetizada na
fórmula "igreja no socialismo, não contra o socialismo". Na prática,
significava abrir espaço para debates sobre paz, direitos humanos, serviço
militar, meio ambiente e liberdade individual, impossíveis em outros lugares da
esfera pública oficial.
Para os
músicos amadores – ou diletantes – era um dos últimos redutos, já que, para se
conseguir autorizações para shows, era preciso ser avaliado por uma comissão de
especialistas indicados pelo Partido, que levavam em conta tanto a qualidade
técnica quanto a adequação das composições às diretrizes filosóficas do governo
socialista. Ou seja, para os jovens do faça-você-mesmo, as chances eram
improváveis ou nulas.
Para
eles, lançar álbuns também era quase impossível, pois o governo controlava as
duas gravadoras oficiais na Alemanha Oriental: a AMIGA, que tinha o monopólio
da música popular; e a ETERNA, de música clássica e sinfônica. Sobrava, então,
o método artesanal. Gravadores de fita cassete já existiam e, não raramente,
eram trazidos do outro lado do Muro por alguém clandestinamente – para onde
voltavam, também clandestinamente, para serem apreciados pelos colegas da
Alemanha Ocidental.
E não
foram poucas as bandas a resistir no Leste até a queda do Muro, em 1989. De
acordo com dados da Stasi, havia cerca de 900 punks na RDA por volta de 1985.
Só na coletânea Too Much Future, de 2020, foram compiladas 48 músicas de 38
bandas do punk rock do Leste alemão, lançadas entre 1980 e 1989.
"Essa
subcultura, marginalizada também no Ocidente, exercia um grande fascínio sobre
os jovens da RDA. Inicialmente, eles ficaram fascinados pelo punk
inconformista, que causava polêmica e lhes dava a oportunidade de se distanciar
do sistema", explicou Ulrike Rothe, curadora da exposição Punk in der
Kirche (Punk na Igreja), exibida no museu Humboldt Forum, em Berlim.
A
partir de 1985, no entanto, o estilo já havia sido assimilado pelo público
jovem. As autoridades afrouxaram o cerco ao punk e o estilo chegou à rádio
estatal pelas mãos do disc-jóquei Lutz Schramm. A própria FdJ também abraçou o
movimento, o que levou a uma rejeição pelos pioneiros da subcultura, que viam
nisso uma tentativa de "integrar" o movimento às linhas do Partido.
Em 1988, até a gravadora AMIGA se curvou, lançando o LP Die anderen Bands, uma
compilação com quatro bandas.
Mas
havia pouco tempo sobrando. Um ano mais tarde, o Muro de Berlim caía – e a
Alemanha Oriental e seus punks ficavam, para sempre, no passado.
Fonte:
DW Brasil

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